ATENÇÃO – VEJA AQUI E AGORA O TEXTO INTEGRAL
DO LIVRO “MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO”,
inclusive com os textos introdutórios de Toninho Buda
e a cópia de uma carta que ele escreveu para Paulo
Coelho na época. O texto foi revisado e corrigido.
Na edição de 1986, feita às pressas,
devido a um erro de diagramação, o final havia
ficado totalmente incompreensível.
MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO
Textos de Toninho Buda – 1986
Este livro Toninho Buda escreveu para Paulo Coelho, a pedido
do escritor, em 1986. Toninho escreveu as partes mais importantes
do livro, ou seja, a PRIMEIRA e a QUINTA (veja as seções
de cada parte no índice fornecido abaixo). E Nelson
Liano Júnior escreveu a outra parte, referente a
conjurações, benzeções, etc.
Mas para ilustrar bem o período em que foi escrito,
anexamos a seguir a carta que Toninho Buda escreveu para
Paulo Coelho quando estava terminando o texto e também
um depoimento de Toninho Buda chamado Na Lua Cheia de Janeiro
de 1986.
A CARTA
Juiz de Fora, 2a feira, 27 de janeiro de 1986
Caro Amigo Paulo Coelho
Neste exato momento acabo de redigir a parte principal
do que eu tinha que escrever do MANUAL DO VAMPIRISMO. Sabe
o que eu fiz? Peguei alguns dos ítens que tinha que
desenvolver e montei um enredo. Achei a idéia interessante,
porque ouvi você falar que teria que montar um argumento
de como o documento teria sido encontrado. Aí então
eu fiz uma história com diversos personagens. Foi
uma coisa que curti muito fazer, pois a situação
reúne elementos que me são extremamente queridos.
Pessoas queridas, assunto que adoro (pude pegar e rebuscar
todo o meu arquivo mágico/misterioso) e um tema da
pesada. Tentei fazer uma trama que poderia Ter se desenrolado
do século passado para cá. Sei que você
me disse que queria que fosse na Renascença ou finalzinho
da Idade Média, mas a loucura geral dos personagens
é tão grande que se viaja o tempo todo no
espaço e no tempo.
A experiência para mim foi ótima. Entrei Sexta
feira à noite num isolamento total por 3 dias consecutivos.
De 21:00hs de 6a feira até agora, meio dia de Segunda
feira. Curiosamente, peguei os dias de plenilúnio,
ou seja, máxima lua cheia. Datilografei direto, sem
rascunho (também não havia tempo para ser
diferente). Só parei para comer alguma coisa ligeira
e dormir algumas horas. Parece que o texto já estava
em minha cabeça. Eu não inventei quase nada.
Apenas ficava tentando “me lembrar” de como
as coisas aconteceram. Não estou mistificando. É
que levei a coisa a sério. Talvez um tanto demais.
Você sabe que esse negócio de seriedade é
tão artificial quanto a mentira. É uma questão
de embarcar... Ou será que não? Mas o texto
está aí. Espero que você goste. Fiz
o melhor que pude (esta é uma frase obscena! Fica
parecendo que estou pedindo o reconhecimento do meu esforço...).
O texto do início (Na Lua Cheia de Janeiro) é
apenas um registro que fiz do momento que estava vivendo.
Não é para ser publicado (eu sei que nosso
trato não inclui meu nome na obra maligna. Mas este
texto é TODO REAL, aconteceu mesmo). O padre Nicholas
Jacquier é personagem real. Era inquisidor na França
e não se tem notícia de como ele morreu...
Ou SE morreu... Mas matar, ele matou muitas pessoas...
Como sugestão apenas, eu dividiria a obra em duas
partes: a primeira seria este conto, que é o documento
deixado por Flamínio de Luna. A Segunda parte seria
o MANUAL PRÁTICO, deixado também por Flamínio,
mas que contém o material coletado pelo Dr. Paul
René (mais, evidentemente, todo o material que foi
escrito pelo Nelson Liano e o que eu ainda vou preparar,
que são as partes que envolvem sexo, casas, duelos
de poder entre as casas, etc). E você que se vire
para dizer como isso tudo veio parar nas tuas mãos!!!
Vou tentar falar com você por telefone. Se não
conseguir, ficamos assim: na próxima Quarta feira
estarei no Rio. Estou mergulhado no resto. Hiáááá!
Vampiro!
Toninho Flamínio de Buda Luna
O TEXTO QUE REGISTRA O MOMENTO DE TONINHO BUDA
AO ESCREVER O LIVRO
Na Lua Cheia de Janeiro de 1986
O suor ainda me escorre pelo rosto e tenho a me envolver
o cheiro morno e gostoso que me sobe das axilas. Acabo de
correr durante uma hora pelas estradas de chão, no
meio do mato iluminado pela lua cheia, num céu límpido
e povoado de estrelas. Estou num sítio, perto de
um vilarejo na região de Juiz de Fora, MG.
Quando me preparava para correr, encontrei dois velhinhos
à beira da estrada e um deles me perguntou até
onde eu iria correndo. “Até no asfalto”,
respondi. Então ele comentou “São mais
de 5 quilômetros. Não faço um sacrifício
desses nem que me paguem 10 milhões”. Ao que
o outro contrapôs, mais otimista? “Pois eu daria
10 milhões para agüentar correr esse pedaço
de chão”.
Depois dessa conversa, eu saí correndo e ainda encontrei
o Claír, que sempre grita quando me vê “Hê,
lá vai, hein, grilo! Tô gostando de vê
o aperparo”. “Grilo é a sua mãe!”,
eu ainda penso, antes de mergulhar na solidão do
cenário fantástico e azulado da estrada prateada
pela lua e se perdendo na escuridão. Hoje é
Sexta feira, dia 24 de janeiro de 1986.
Eu vim para cá em busca do clima para falar de vampiros,
a pedido do meu amigo Paulo Coelho. Enquanto penso no assunto,
vou fungando como uma locomotiva o ar já fresquinho
da noite, até que depois de uma curva dou de cara
com o disco brilhante no horizonte e um arrepio me percorre
o corpo todo. Vampiro! E neste exato momento, escuto o arranhar
ainda mais arrepiante das garras de um cachorro nervoso
no chão seco e duro do leito da estrada, ao arrancar
velozmente em direção aos meus calcanhares,
rosnando e latindo.
Como os cães ficam excitados nas noites de lua cheia
de verão! Levo um susto e experimento um clima de
empatia com a fera e começo a ladrar também,
avançando para cima daquela massa negra e nervosa,
que se apavora e corre. Minha satisfação em
latir é muito grande. Me toma. E eu uivo pela estrada
afora. Uivo para a lua. Sozinho, correndo, animal na noite
escura, suando e gemendo. Estou vivo. E esta plena consciência
diante da lua me faz buscar subitamente o lado do poente,
onde tudo é escuridão e alguns relâmpagos
longínquos prenunciam uma tempestade para daqui a
algumas horas.
Então me bate uma certeza: eu também não
quero morrer! Eu também quereria podr continuar correndo
e uivando como um cão, lobo ou cavalo. Mas daqui
a alguns dias, é provável que eu também
diga “daria 10 milhões para agüentar correr”.
Lembra dos dois velhinhos? O segundo velhinho é mais
vampiro. Vampiro é otimista. No entanto, é
preciso encarar mais este espelho. Só que este espelho
é negro. Mas daqui a três noites, neste plenilúnio
de janeiro, tudo estará consumado.
Toninho Buda
(Flamínio de Luna)
Vejamos agora o índice dos textos escritos por Toninho
Buda para o livro Manual Prático do Vampirismo, e
em seguida os próprios textos. Lembramos que a parte
extra (no final do texto), e que se chama Como reconhecer
um vampiro numa relação sexual, foi também
escrita por Toninho, mas não era para ser publicada.
Mesmo assim os editores resolveram publicá-la na
primeira e única edição do livro.
ÍNDICE GERAL DO MANUAL PRÁTICO DO
VAMPIRISMO
PRIMEIRA PARTE – O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU
(O Depoimento de Flamínio de Luna)
I – DAS ORIGENS DO VAMPIRISMO
II – O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU
III – AS PRINCIPAIS DINASTIAS DE VAMPIROS
1. O Ramo Britânico – O Cristianismo Esotérico
na Távola Redonda
2. O Ramo Germânico
2.a - Os Alquimistas Fausto e Göethe
2.b - Vampirismo e Nazismo
3. O Ramo Francês
4. O Ramo Espanhol
5. O Ramo Romeno
6. O Ramo Itálico – Um Pouco de História
QUINTA PARTE – O ESTRANHO CASO DE MATA HULM
(Parte final do Dramático Depoimento de Flamínio
de Luna)
1. Numa cidadezinha da Espanha
2. L’Autrec Laboratoires
3. Um indício desconcertante
4. Boa noite, Dr. Paul René
5. Do Estranho caso de Mata Hulm
6. O demônio está aqui!
7. Similia Similibus Curantur
8. Diante do Espelho Negro
9. Epílogo
PARTE EXTRA:
(NA) TERCEIRA PARTE
Sexo, Sangue e Vampirismo. Ou de como identificar um vampiro
numa relação sexual.
Vamos então aos textos
PRIMEIRA PARTE – O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU
(O Depoimento de Flamínio de Luna)
I. DAS ORIGENS DO VAMPIRISMO
Todas as Mitologias e grandes religiões concordam
que a bipolaridade energética é uma constante
no Universo. Sempre que existir o Bem, existirá também
o Mal. Para os Gregos, no princípio era o Caos, o
Ovo Primordial. Este Ovo dividiu-se em dois seguindo uma
força ordenadora, Eros, formando o Céu e a
Terra. Eros é a virtude atrativa que leva as coisas
a se juntarem, criando a Vida. É uma força
fundamental do mundo. Assegura não somente a continuidade
das espécies, como a coesão interna do Cosmos.
No entanto, a mesma Nuit que gerou a Terra, gerou também
Tánatos - a Morte. Vida e Morte desde então
são duas coisas inseparáveis para todo o sempre.
O sangue é um dos símbolos da Vida. A nossa
Cultura, que é gerida no aspecto religioso pela força
do Cristianismo, tem no Sangue de Cristo a grande fonte
de energia que move a roda de seu destino. Tomemos o relato
de S. Marcos (Cap. 14 Vs. 22 a 25) "Durante a refeição,
Jesus tomou o pão e, depois de o benzer, partiu-o
e deu-lho, dizendo: "Tomai, isto é meu corpo".
Em seguida, tomou o cálice, deu graças e apresentou-lho,
e todos dele beberam. E disse-lhe: "Este é o
meu sangue, o sangue da Aliança que será derramado
por muitos. Em verdade vos digo, já não beberei
do fruto da videira até aquele dia, em que o beberei
de novo no reino de Deus". Judas era um dos que estavam
sentados à mesa. Assim como Pedro, que viria a negá-lo
mais tarde, com medo da morte. Porque? Porque a morte é
o grande segredo de tudo. Tanto é que a essência
da transmutação ensinada por Jesus está
exatamente na Ressurreição. Mas para ressurgir,
é necessário que se morra antes. E na ausência
cósmica do Sermão da Montanha está
a direção a ser seguida por aqueles que querem
tomar a própria cruz e segui-lo.
E os Vampiros? Os vampiros não querem nem uma coisa
nem outra. Eles não querem nem morrer, nem obedecer
a nenhum sermão e muito menos carregar qualquer tipo
de cruz. Preferem continuar fazendo tudo para manter um
estado de morte parcial e ressurreição parcial,
alimentando-se com sangue humano mesmo, evidentemente de
muito pior qualidade...
Diz a tradição que os primeiros vampiros
surgiram entre os suicidas e os criminosos condenados à
morte. Ou seja, pessoas que de uma forma ou de outra tiveram
seu período normal de vida interrompido brusca e
violentamente. Principalmente os suicidas que se arrependeram
do ato quando já não havia mais tempo de voltar
atrás. E tanto os suicidas quanto os criminosos eram
condenados também pelo Cristianismo. Mesmo que recebessem
extrema-unção, depois de mortos não
poderiam passar pela Igreja e não poderiam se enterrados
em "campo santo" (normalmente os cemitérios
ficavam ao lado das igrejas e eram controlados por elas.
Os padres eram enterrados dentro das igrejas). Segundo a
tradição, a revolta contra essa marginalização,
a vontade de voltar a viver e o medo de ir para o inferno
criavam uma força suficientemente capaz de fazer
com que esses seres não se decompusessem, não
morressem totalmente e se levantassem do túmulo,
à noite, por muitos motivos. Um deles é que
os homens são animais de hábitos normalmente
diurnos...
Mesmo assim, mesmo se protegendo na escuridão da
noite e se alimentando do sangue apenas de animais domésticos
e selvagens, qualquer vampiro estava condenado à
extinção se não criasse condições
de sobre(semi)vivência. Daí que a primeira
providência instintiva de qualquer vampiro era arrumar
pessoas que pudessem ajuda-lo a manter-se. Mas mesmo assim,
o levante das populações enfurecidas era um
perigo insuperável, com o passar do tempo. Só
subsistiram ao vampiros de famílias altamente poderosas
e influentes. Começaram a aparecer no final do Séc.
XVI e se multiplicavam enormemente numa furiosa atividade
nos séculos XVII e XVIII, principalmente nos países
europeus onde era mais intenso o fervor religioso. Como
já argumentamos anteriormente, esse fervor religioso
inevitavelmente geraria suas grandes histórias e
contradições. A Alemanha foi o país
que mais sofreu com a presença dos vampiros e existem
ali até hoje muitos tratados eruditos buscando a
compreensão de suas atividades e a cura para seus
males. No entanto, apesar da Alemanha ter tido o maior número
de vítimas fatais desses seres malignos, foi na Inglaterra
que surgiram os mais famosos e influentes vampiros, bem
como as linhagens politicamente mais fortes e poderosas.
Curiosamente, para confirmar a existência contínua
da bipolaridade, foi também na Inglaterra que surgiram
os maiores inimigos dos vampiros. Bem como na França
e na Espanha, em menor proporção.
No entanto, temos fortes razões para crer também
que estas linhagens não se extinguiram até
hoje. Pelo contrário, se tornaram altamente sofisticadas
e suas alianças com os poderes existentes os tornaram
praticamente imunes à destruição. Não
podemos esquecer que, além do poder econômico,
as linhagens de vampiros que conseguiram sobreviver têm
ainda a oferecer aos poderes constituídos os grandes
segredos de como manter pessoas - e inclusive populações
inteiras - em estado de semi-letargia e inconsciência.
Os vampiros são especialistas competentíssimos
na arte de criar, educar e manter mortos-vivos.
II. O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU
As informações que forneceremos agora são
da mais profunda significação e importância
para aqueles que se interessam pelo assunto e que queiram
compreender de uma forma muito mais ampla fatos históricos
que deixaram atônita e desamparada toda a humanidade.
Esperamos que estas informações consigam atingir
o grande público, pois muitos foram os que heroicamente
deram suas vidas para tentar publica-las. Elas não
pretendem ser um tratado erudito sobre o assunto, mas sim
fornecer indicadores seguros para aqueles que estejam na
linha de frente desta luta e ao mesmo tempo dar condições
de defesa aos leigos e menos informados. Vamos falar do
GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU, a estruturação
de forças dos vampiros na Europa dos séculos
XVII e XVIII, destinada a criar as bases de seu desenvolvimento
e poderio em direção ao DOMÍNIO DO
PLANETA.
A forma escolhida por eles - o PENTAGRAMA - tem sua razão
de ser. As pessoas familiarizadas com o ocultismo sabem
que o Pentagrama (Estrela de Cinco Pontas) é o símbolo
do Ser Humano, ou seja, o Homem de braços e pernas
abertos. No entanto, quando esse homem é colocado
de cabeça para baixo, nós temos neste pentagrama
invertido a figura do bode, com sua barbicha, as duas orelhas
e os dois chifres. O bode passou a representar o diabo,
a partir de um determinado momento histórico. No
princípio ele era PAN, o deus da música e
da flauta, dos gregos... Mas isso é uma outra história,
da qual um dia gostaríamos de ter oportunidade de
falar. Certo é que o Grande Pentagrama Europeu é
invertido, tem sua ponta inferior (a barbicha) em Londres
e seu eixo vertical é a linha reta que une Londres
a Jerusalém! Os motivos são óbvios,
para qualquer pessoa que consulte o mapa a seguir. Em Jerusalém
nasceu Jesus, a grande Energia que os vampiros odeiam e
lutam por destruir e neutralizar. As outras pontas do pentagrama
são as cidades de Berlim, Madri, Bucareste e Palermo.
Paris e Roma também se encontram na área coberta
pela estrela nefasta. Nestas cidades foram criados núcleos
de força dos vampiros. Estes núcleos atuam
de forma poderosa, utilizando todos os meios possíveis
à disposição. Desde forças políticas
quanto econômicas, mágicas, científicas,
cósmicas, religiosas, etc. Na Itália, a cidade
escolhida foi Palermo, ao invés de Roma, pois em
Roma seria impossível a manutenção
de um núcleo por muito tempo... Madri é capaz
de captar energias da Espanha e Portugal e Londres é
capaz de captar a Escócia, Irlanda e suas ilhas.
O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU continua vibrando energias
para a Terra até hoje. Sua influência oscila
bastante ao longo dos anos. Atualmente estamos em um período
de relativa calmaria. Mas o futuro é imprevisível.
III. AS PRINCIPAIS DINASTIAS DE VAMPIROS
Para a constituição do Grande Pentagrama
Europeu, reuniram forças principalmente as dinastias
de seis ramos principais: Britânico, Germânico,
Francês, Espanhol, Romeno e Itálico. Os mais
fortes, evidentemente, foram o Britânico e o Germânico.
Falaremos um pouco de cada um deles, bem como das principais
forças que apareceram para combatê-los. Evidentemente
que o PENTAGRAMA sofreu com profundas LUTAS INTERNAS. Principalmente
entre Londres e Berlim. A nível político mundial,
o pentagrama pode ser tomado como Londres e Berlim ocupando
as pontas dos dois "chifres" do bode. Nessas condições,
Roma ocupa a "barbicha". Bucareste, na Romênia,
capta energias da Rússia. Mas passemos aos Ramos
de Dinastias.
1. O Ramo Britânico – O Cristianismo Esotérico
na Távola Redonda
O ramo britânico constituiu-se principalmente de
quatro dinastias: Von Born (Transilvânia), Birmingham
(Lancashire), Kingsford (Manchester) e Mc Bell (Londres).
À dinastia Von Born, da Transilvânia, pertenceu
um grande amigo de Mozart, Ignaz Von Born, nascido em Karlsburg
em 1742 e morto em Viena em 1791. Não era um vampiro.
Pelo contrário, trabalhou profundamente contra a
proliferação desses seres. Só mais
tarde veio a saber que seu primo Theodore Von Born o era.
Ele próprio se encarregou de eliminá-lo. O
vampiro mais famoso dessa linhagem foi o Conde Charles von
Born, identificado como tal e morto em 7 de julho de 1815.
O Cristianismo Esotérico na Távola Redonda
A maior e mais antiga força de combate ao vampirismo
na Inglaterra surgiu com o Cristianismo Esotérico
presente nos escudos de armas da Ordem dos Cavaleiros da
Távola Redonda, que cultivava a lenda do SANTO GRAAL,
que conteria o Sangue de Cristo. O maior sonho de grandes
vampiros foi a descoberta e destruição do
Santo Graal. É a lenda (?) mais importante da Inglaterra.
O Rei Artur teria existido na primeira metade do séc.
VI, na região de Windsor.
Outro grande combatente do vampirismo na Inglaterra foi
o astrólogo, alquimista e historiador Elias Ashmole
(1617/1692), figadal inimigo da dinastia dos Mc Bell. Ocupou
vários cargos públicos na corte de Carlos
II. Editou um tratado alquímico chamado The Waiss
to Bliss (1658), onde cita fórmulas de neutralizar
a força dos vampiros.
Não poderíamos deixar de citar também
o Barão de Verulam, (1561/1626) também conhecido
como FRANCIS BACON, considerado antecessor direto de Newton
e Galileu. É possível que tenha sido Rosenkreutz,
o Conde de S. Germain e uma grande controvérsia ainda
existe para provar se ele realmente escreveu ou não
os dramas de Shakespeare. Ao perseguir elementos da dinastia
de vampiros Birmingham foi vítima de uma manobra
política e acusado de peculato (desvio de verbas)
tendo que abandonar o cargo e interromper sua luta. Ocupa
o cargo de Lorde-Chanceler na Suprema Magistratura.
Se Francis Bacon realmente foi o mesmo Conde de Saint Germain,
não nos cabe afirmar. Certo é que o "Príncepe
Rakoczy da Transilvânia" ou Conde de Saint Germain
(1710/1784) foi a mais preeminente figura do ocultismo ocidental.
Está cercado de um halo de lenda e mistério.
É considerado um "homem que nunca morre".
É provavel que seja o ser humano atualmente em atividade
na face do planeta que realmente tenha entendido a essência
da mensagem Crística e a tenha colocado em prática,
dominando a morte de uma forma completamente oposta aos
vampiros. A lenda lhe atribui vários séculos
de idade. Onde quer que apareça, promove curas e
possui faculdades paranormais além de qualquer coisa
conhecida. Como grande ativista da Sociedade Branca consagrou-se
ao progresso e elevação da humanidade.
Mais recentemente, Annie Besant (1847/1933) dedicou grande
parte de sua obra ao esclarecimento de como enfrentar o
vampirismo. Ela é continuadora da obra de Helena
Blavastky e seria uma das reencarnações de
Giordano Bruno. Sua profunda relação com a
Índia trouxe consideráveis esclarecimentos
ao problema dos mortos vivos com os estudos feitos junto
a grandes faquires como Thara Bey. Thara Bey era egípcio
e membro da seita dos coptas cristãos. Estudou medicina
em Constantinopla. A Sociedade Teosófica, foi fundada
por Helena Blavatsk em 17 de novembro de 1875.
Entre os mais influentes vampiros estão o Visconde
Dicson Birmingham, que chegou a pertencer à Maçonaria
Inglesa e foi morto em março de 1793, e o Barão
Aurelius Kingsford - um dos autores da manobra para neutralizar
Francis Bacon. Aurelius Kingsford desapareceu sem deixar
rastros, após ser identificado publicamente como
vampiro.
2. O Ramo Germânico
As duas principais dinastias germânicas são
o Emmerich (Stuttgart) e Haushoffer (Berlim). O maior dos
antigos vampiros alemães chamava-se Johhan Valentinus
Andreae (Wurtemberg 1586, Stuttgart 1654). Pertence à
dinastia dos Emmerich. Foi diácono luterano em Vaihingen
(1614) e superintendente da cidade de Kawl, cargo que teve
que abandonar por causa da Guerra dos Trinta Anos. Introduziu
grande confusão nos debates rosacruzes da época.
Pertencia à Ordem e politicamente era necessário
a seus interesses que ela se desorientasse. Escreveu "Turis
Babel Sive Judiciorum de Fraternitate Rosae-Crucis Chaos",
relativa aos julgamentos sobre a fraternidade. Tudo indica
que a egrégora da Ordem conseguiu elimina-lo para
sempre da face do planeta.
Da linhagem antiga da dinastia Haushoffer, o maior representante
é, sem dúvida o Conde Benedict Carpzov Haushoffer
(Wittenberg 1595, Leipzig 1666). Curiosamente é o
autor do Maleus Maleficarum dos protestantes, chamado "Practica
Nova Imperialis Saxonica Rerum Criminalum (1635). Suas obras
exerceram grande influência nos processos de bruxaria
e firmou milhares de sentenças de morte. Alimentava-se
tranquilamente do sangue de suas vítimas, acobertado
pelo cargo público; pois era Chanceler Privado em
Dresde e membro da faculdade de jurisconsultos de Leipzing.
2.a - Os Alquimistas Fausto e Goethe
Fausto - o personagem que inspirou Goethe a escrever a
obra prima da Cultura Alemã - teve existência
real. Foi um mago do Séc. XVI famoso na lenda e na
literatura. Existem provas suficientes de sua existência
através de citações de J. Trithemius
(1462/1516), K. Mudt (1513) e J. Wierus (1515/1588), que
falam dele desdenhosamente, tratando-o como charlatão.
J. Gast, no entanto, em seus "Sermones Convivales"
(1543), atribuiu-lhe poderes sobrenaturais. Era astrólogo,
alquimista, quiromante e advinho. Sua história foi
contada 30 vezes antes de Goethe, em forma de romance de
cordel. Somente Goethe conseguiu conferir-lhe universalidade
suficiente para torna-la um dos grandes mitos universais
eternos, símbolos da inquietude e ambições
humanas. Já Goethe foi um dos maiores poetas líricos
da humanidade e um dos grandes gênios de todos os
tempos, ao lado de Da Vinci, Galileu e Kepler. Filiou-se
à Maçonaria em Weimar em 1780. Nasceu em 1749.
A vida de ambos - Fausto e Goethe - é uma mistura
de ficção e realidade, onde um pacto de sangue
com o demônio em troca da juventude (motivo central
da obra "Fausto") é o arquétipo
que representa a essência do desejo de qualquer vampiro.
Cabe a Mefistófeles decidir se concede ou não
o privilégio. Este detalhe é importante: um
vampiro não tem nunca um poder como o de Mefistófeles.
Apesar de poder pactuar com ele, como qualquer ser humano...
2.b - Vampirismo e Nazismo
À dinastia Haushoffer pertenceu também o
General e ocultista alemão Karl Haushoffer (1869/1946).
Foi iniciado numa lamaseira Tibetana. Defendia a tese segundo
a qual a raça indo-germânica asseguraria a
permanência e grandeza do mundo. Foi apresentado a
Hitler por R. Hess e teve atuação marcante
na implantação das doutrinas esotéricas
nazistas. Foi o diretor do grupo ocultista Thulé
e instituiu a CRUZ SUÁSTICA como emblema do regime.
Foi discípulo direto de Gurdjieff e o apresentou
a Hitler. Assassinou a própria esposa em circunstâncias
misteriosas em 1946, desaparecendo em seguida...
O sucessor do vampiro Karl Haushoffer no grupo Thulé
foi Hanussen, misterioso ocultista que desempenhou um importante
papel no Terceiro Reich. Teria sido um emigrante judeu que
se instalou de forma meteórica entre a elite berlinense.
Dirigiu sessões públicas de hipnotismo e telepatia.
Ao grupo Thulé, dirigido por ele, pertenciam Hitler,
Himmler, Goering e outras autoridades nazistas. Desapareceu
em 1933, deixando notáveis contribuições
para o regime. Na área política contribuiu
com técnicas de propaganda subliminar e hipnótica.
Na área da alimentação, com a transformação
e conservação de sangue e carne humanas para
enlatados.
3. O Ramo Francês
O notável cientista e biólogo francês
Alexis Carrel (1873/1944) também tratou da conservação
de tecidos humanos, mas de uma forma completamente diferente
dos nazistas. Fez culturas de tecidos VIVOS fora do corpo
humano, criou o primeiro coração artificial
e implantou o fluido Carrel-Dakin para o tratamento de ferimentos.
Sua obra mais importante chama-se "O Homem, Esse Desconhecido".
As duas principais dinastias de vampiros franceses são
De Rais (Nantes) e Du Fleur (Paris). O mais famoso representante
da dinastia De Rais é o militar Barão Gilles
de Rais, eleito para acompanhar Joana D'Arc a Orleans, participou
de várias batalhas ao lado dela. Possuía grande
fortuna, mas recorreu à alquimia para tentar mantê-la
quando começou a empobrecer. Nisso conheceu vários
nigromantes e mergulhou na magia negra. Em 1440 respondeu
a processos por diversos assassinatos e confessou ter matado
mais de cem rapazes em rituais macabros, onde, entre outras
coisas, lhes bebia o sangue. É o mais famoso vampiro
da história da França. Da dinastia Du Fleur
o maior representante é o conde Antoine Du Fleur
(1521/...). Chegou a ocupar o cargo de procurador-geral
na corte de Charles IX. Co-participou do grande massacre
da Noite de S. Bartolomeu. Diz a tradição
que preferia o sangue de recém-nascidos ainda não
batizados, o que conseguia através muitas vezes da
violência. Matou centenas de crianças para
sugar-lhes o sangue. Era apoiado pelo rei Charles IX (1550/1574),
que ocupou o trono da França de 1560 até a
morte. O rei mantinha no Louvre uma escola de nigromancia
e após ter comandado o massacre de S. Bartolomeu
tinha pesadelos acordado, onde via corvos com a plumagem
manchada de sangue perseguindo-o...
O mais antigo personagem a combater na França os
morcegos que voejavam em torno da Catedral de Notre Dame
foi Jacques de Molay, morto em Paris em 1314. Foi o último
grandemestre da Ordem dos Cavaleiros Templários,
na qual ingressou por volta de 1265. Foi vítima de
uma conspiração do Papa Clemente V e o Rei
da França e terminou executado junto com outros cavaleiros
templários. Existe extreita relação
entre a Maçonaria e a Ordem dos Templários.
O combate astral aos vampiros na França tem como
maior expressão o investigador metapsíquico
e escritor Gabriel Delanne (Paris 1857/1926). Conseguiu
eliminar definitivamente do plano astral o espírito
vampiro de Leonora Galigai (morta em Paris em 1617), acusada
de enfeitiçar Maria de Médicis. Fogueira.
4. O Ramo Espanhol
Também duas dinastias se destacam no Ramo Espanhol
do Grande Pentagrama Europeu. A dos Villa Nova (Sevilha)
e dos Iglesias (Madri). O grande vampiro Arnaldus de Villa
Nova (1235/1313) era astrólogo, alquimista, médico
e naturalista. Estudou alquimia, física, filosofia
árabe e medicina em Paris. Foi perseguido pela Inquisição.
Desapareceu misteriosamente quando viajava para Avinhão,
a chamado de seu amigo o Papa Clemente V. Os inquisidores
sabiam que se tratava de um vampiro. Suas viagens eram normalmente
para contatos com outros mortos-vivos.
Amarildo Fuentes Iglesias (1355/1416) e Berthold Iglesias
(1527/1577) foram também expoentes políticos
em suas respectivas épocas, distantes entre si quase
um século, mas dentro da mesma dinastia. Diz a tradição
que o segundo - Berthold - foi um dos grandes incentivadores
das touradas e chegou a sugerir outros espetáculos
mais sangrentos aos governantes espanhõis. Quanto
aos seus espetáculos particulares, eram particularmente
sangrentos...
5. O Ramo Romeno
O núcleo de vampiros do Ramo Romeno do Grande Pentagrama
Europeu conseguiu reunir representantes das dinastias Bruhesesn
(Bucareste), Katterfelto (Prússia), Lobaczewski (Cracóvia,
na Polônia), Nikolaievitch (Moscou) e Emmerich (Kiev,
na Ucrânia). Essa grande diversidade só era
(e é) possível devido ao fato de que existe
para uni-las um inimigo comum. Mas essa mesma diversidade
dentro de toda a estrutura do Grande Pentagrama provoca
nos grandes conflitos políticos um intrincado de
interesses, alianças, pactos e traições
tão grande que muitas vezes uma mesma dinastia tem
uma aliança com outra no mundo dos vivos e uma luta
de extinção no mundo dos mortos-vivos...
6. O Ramo Itálico
O Ramo Itálico, apesar de ser o menos representativo
numericamente falando, é importantíssimo no
plano de forças astrais do arsenal do grande Pentagrama.
Pois sua função mais importante é interferir
nas emissões energéticas do Vaticano para
o resto do mundo. Suas atividades em Palermo são
comandadas pelo Mago e Vidente vampiro Conde Marcello Murillo
de Andreas Cupertino (1204/...), primeiro vampiro da Dinastia
dos Cupertino e provavelmente o mais antigo ainda em atividades
no planeta. Possui profundos conhecimentos políticos
e táticos e chefia ma das maiores redes de informação
criminosa da terra. Tem profunda influência em todas
as famílias sicilianas e continuamente assina novas
alianças e pactos de ajuda mútua.
Um pouco de história
Grandes preconceitos sempre entravaram o progresso da ciência
e o conhecimento humano. Nos domínios da Medicina
e da Cirurgia, por exemplo, a proibição de
dissecar corpos humanos era uma tradição herdada
dos gregos e severamente obedecida. No entanto, esse respeito
aos mortos contrastava enormemente com a facilidade com
que os vivos eram torturados, assassinados e torrados nas
fogueiras. Somente quando Frederico II e seus sucessores
relaxaram as restrições às práticas
médicas, a medicina começou a fazer alguns
progressos. Na época em que Colombo descobriu a América,
alguma dissecação era permitida na Itália,
e o mesmo ano que viu a publicação da Teoria
de Copérnico (1543) viu também a de um grande
marco na história da Medicina, "A Estrutura
do Corpo Humano", de André Vesalius (1514/1564),
da Universidade de Pádua. Através da obra
a estrura do nosso organismo era compreendida através
de uma grande quantidade de ilustrações e
não mais através de citações
hipotéticas e absurdas de Galeno, Hipócrates
ou qualquer outro autor morto há milênios.
A descoberta da circulação sabguínea
por Willian Harvey (1578/1657), que estudou com Jerome Fabricius
(1537/1619), o fundador da embrilogia durante o reinado
de Israel, - lançou as bases da fisiologia moderna,
pois é impossível compreender qualquer processo
fisiológico antes de conhecer o fenômeno da
circulação do sangue. Seus trabalhos foram
complementados depois do aparecimento do microscópio,
quando Marcelo Malpighi (1628/1694) observou a passagem
das células sanguíneas pelos vasos capilares
da superfície do pulmão de uma rã.
E foi impossível a todos explicar a natureza da purificação
do sangue pelo oxigênio aspirado pelos pulmões,
até que o químico francês Antoine Lavoisier
(1743/1794) explicasse a natureza da oxidação,
entre 1777 e 1785.
Entretanto um progresso muito maior e uma superação
de preconceitos fantásticos e insuspeitados ainda
terão que ser superados até que possa vir
a público e se tornar do conhecimento comum e em
forma científica, as singularíssimas situações
orgânicas em que a circulação do sangue
possa ser estacionada por dias, meses e até séculos
a fio, sem que o corpo entre em decomposição.
E que esses mesmos corpos possam prescindir da respiração
por completo durante esse mesmo período de tempo.
Isso não poderá ser feito mais através
da dissecação dos cadáveres que só
fornecem informação sobre a estrutura dos
corpos mas quase que nada de sua função, ou
seja, a fisiologia dos processos invisíveis biológicos
e psíquicos muito além da anatomia, da química
e da microscopia.
Esses conhecimentos existem e são desenvolvidos
há séculos, permanecendo no entanto em poder
secreto de ordens iniciáticas e religiosas que as
exploram de formas absolutamente insuspeitadas, enquanto
o resto da humanidade padece e continua sem solução
até para a simples gripe, bem como do câncer,
da leucemia e outras doenças degererativas. Parece
ser perfeitamente lógico que até os próprios
vampiros só teríam a lucrar num intercâmbio
científico comos seres normais. No entanto, mistérios
muito mais profundos tornam impossíveis essa possibilidade.
Mistérios que datam da criação do ser
humano e talvez até da própria vida do Universo...
Com vampiros não há diálogo. Apenas
a luta de vida ou morte. Que nunca se esqueça disso,
pois eles são extremamente ladinos e capazes de qualquer
coisa para ludibriarem, vencerem e continuarem vivos.
2. "Apesar da imprensa ser do conhecimento dos chineses
no sec. XI, foi efetivamente com johann Gutenberg (1398/1468)
que ela se disseminou explosivamente por volta de 1456.
Por volta de 1490 Veneza só possuía cerca
de cem estabelecimentos gráficos, mas no final do
século cerca de nove milhões de livros já
haviam sido impressos e disseminados por toda a Europa.
Este desenvolvimento fulminante da imprensa condenou à
morte o medievalismo. Cinqüenta anos após a
invenção da imprensa, a causa da reforma recebeu
um novo e poderoso alento e foi precipitada com uma violência
explosiva pela descoberta da América. A 3 de agosto
de 1492 Colombo partia de Palos e abria um novo mundo ao
pensamento humano. O pensamento medieval estava morto. O
mundo penetrava nos tempos modernos, no reinado da Razão."
Há alguns anos eu escreveria o texto acima com um
grau de certeza muito maior do que a que tenho hoje. Na
verdade, após os acontecimentos que constituem a
essência desta narrativa, não creio que o pensamento
madieval tenha jamais morrido. Nem que o mundo tenha passado
alguma vez por um "reinado da razão". O
progresso humano tem sido sempre desarrazoado na mesma proporção.
Pois como já mencionei anteriormente, a qualidade
de vida das pessoas só tende a decrescer e o progresso
passa a ter cada vez menor signficado prático e utilidade.
Eu aprecio cada vez menos as máquinas. Por isso,
à importância que delego a este documento,
fiz questão de prapará-lo manuscritamente.
Os grandes documentos, mesmo os mais recentes, são
manuscritos. É uma tradição que quero
manter. E que este manuscrito original possa ser mantido
intacto mesmo depois que as cópias impressas tenham
sido disseminadas e sua destruição se torne
assim impossível. Sou extremamente grato a Johan
Gutenberg, mas certas coisas só mãos humanas
podem transmitir. Manualmente.
Darei a este documento completo o nome genérico
de MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO. Ele constará
basicamente de cinco partes: esta narrativa que alinhava
num mesmo contexto as pessoas envolvidas e um conjunto de
documentos colhidos em diversas situações
e muitas vezes de autores diversos no espaço e no
tempo, por mim e por meu saudoso amigo e colega Dr. Paul
René, a quem dedico este trabalho.
O ESTRANHO CASO DE MATA HULM
(Parte Final do Dramático Depoimento de Flamínio
de Luna)
1. Numa cidadezinha da Espanha
Este documento é uma declaração de
amor. Jamais pensei que um dia pudesse ter que escrevê-lo,
bem como jamais imaginei que poderia passar pelas experiências
que o antecederam. Ainda não compreendo plenamente
os fatos e suas relações entre si, apesar
do enorme esforço de percepção a que
fui obrigado a me submeter. O que consegui perceber nesse
período crítico é um privilégio
enorme, mas com um sacrifício de mesmas proporções.
Na verdade, há muito tempo que não consigo
separar as duas coisas, o prêmio e o esforço
para consegui-lo. No entanto, os caprichos do destino nem
sempre nos deixam escolher nossas provações.
Talvez porque o Destino saiba que se deixar por nossa conta,
seremos sempre condescendentes demais conosco mesmos. Gostaria
de não reclamar, mas dessa vez acho que ele exagerou
um pouquinho. Ninguém precisa visitar o Horror com
tanta intimidade. Mas agora eu sei o que é o Amor.
Amo profundamente, pessoal e individualmente. Sem teorias,
mitologias e fobias. Eu sou o amor. E amo a humanidade e
os seres vivos. Na clausura da individualidade de meu ser
esta experiência é pessoal e intransferível.
Mas posso transforma-lo em algo maravilhoso para todos.
Ainda há tempo.
Espero, com tudo que a esperança pode no dar, que
este meu relato ultrapasse as outras muitas clausuras e
censuras e atinja a muitos. Antes de tudo, preciso falar
um pouquinho de mim mesmo. As omissões são
absolutamente necessárias, pois o importante é
a pesquisa, a compreensão e a transformação
dos fatos ocorridos e não a identificação
das pessoas envolvidas. Não que sejam todas inocentes,
mas um levante de populações contra essas
pessoas inevitavelmente provocaria desnecessários
aborrecimentos, injustiças e derramamentos de sangue.
Amo o Sol e a Vida, mas não posso esquecer das trevas,
das sombras e da Morte, quando elas guiam turbas enfurecidas.
Meu recado é sobretudo para o que existe de melhor
em cada um, para regar essa semente que só pode das
bons frutos. Usarei o pseudônimo de Flamínio
de Luna.
Apesar de tudo, acho que ainda posso afirmar que sou um
cidadão comum. Nasci numa cidadezinha da Espanha,
próxima de Barcelona. Desde novinho foi muito fácil
identificar em mim um temperamento fleumático, com
tudo o que isto possa Ter de virtudes e desvantagens. Mas
numa criança, essa característica sempre incomoda
aos adultos. Principalmente na Espanha, onde uma criança
que prefira brincar sozinha, seja mais quieta e sossegada
enão fale tão rápido quanto seus coleginhas,
deve ter vermes em grande quantidade ou então pode
acabar se tornando um adulto um tanto passivo demais. Realmente,
eu preferia mais observar do que participar. Apanhei muito.
Não por invadir territórios dos meus colegas
de brinquedo, mas por não resistir suficiente à
inovação do meu território. Vi minhas
bolas de gude serem levadas sem a menor cerimônia
e meu caminhãozinho amarelo ser pisoteado por um
rinoceronte enfurecido, o João Batista. Para enfrentá-lo,
só mesmo o Geremário, que felizmente era meu
amigo. Este, admirável na sua agilidade longilínea,
contrastada enormemente com Eustáquio, gordo e um
tanto pachorrento. Tínhamos em comum, eu e Eustáquio,
um temperamento calmo. Daí talvez nossa proximidade
um tanto singular, pois eu era seu único amigo. Ele
era um tipo que poder-se-ia chamar esquisito, trazia sempre
o semblante um tanto carregado demais para um menino da
sua idade. Tinha uma tendência a ficar deitado de
bruços horas a fio, com um barbante aceso na mão
direita, queimando uma por uma a fila de formiginhas que
inteligentemente escolhera o canto da parede como passagem
de suas tropas. Eustáquio as atacava sistematicamente
com sua metralhadora de fogo. Milhares de mortos. Com as
maiores, ele fazia diferente. Empalava saúvas com
agulhas bem finas, fazia com que elas se degolassem com
as poderosas presas em forma de tesoura. Com outros grupos
de saúvas aconteciam desastres pavorosos onde muitas
morriam afogadas em um balde com água, outras eram
incineradas em um prédio de caixa de papelão.
Quem conseguisse se aproximar o suficiente de Eustáquio
nesses movimentos de transe, poderia ouvi-lo sussurrando
baixinho os gritos dos suplicados. Dali ele saía
horas depois com uma cara um tanto aliviada e rescendendo
a ácido fórmico. Com o passar do tempo suas
vítimas foram se tornando cada vez maiores, gatos
e pássaros. Até que o vi ajudando o pai a
preparar um peru para a ceia de natal. Eles o embebedaram
bastante e depois o soltaram no quintal. Então Eustáquio
correu atrás dele com um facão afiado na mão
e degolou-o de um só golpe, em movimento. A cabeça
cortada mergulhou na poeira e me concentrei um segundo nela,
sentindo meus próprios olhos a desagradável
sensação da terra atrapalhando o piscar. O
peru bêbado e acéfalo rodopiava e seu pescoço
desgovernado ejaculava um caldo grosso, de um vermelho brilhante.
A família ria.
De minha mãe herdei a calma e o temperamento passivo
e observador. Ela tinha um pouco da imagem de Nossa Senhora
e naqueles tempos elas eram prá mim quase que a mesma
coisa, o mesmo sentimento, a mesma pessoa. Isso compensava
a figura de meu pai, de um temperamento agressivo e autoritário.
Ele se sentia bastante inferiorizado por não Ter
conseguido nenhum diploma escolar e evidenciava isso de
forma bastante desagradável quando suas bebedeiras
o deprimiam suficientemente. Por vezes enveredava numa enfiada
de maldições contra tudo e contra todos. No
entanto outras vezes eu até gostava de ouvi-lo elaborar
mais seu Espanhol para falar dos grandes homens, das grandes
idéias políticas e das peripécias de
um homem chamado Jesus. Nesses momentos seus olhos brilhavam
e ele esquecia completamente sua condição
de trabalhador braçal.
Ele tinha uma predileção especial pelos nomes
ligados às artes médicas e sempre citava um
certo Samuel Hahnemann, que teria nascido em Meissen, na
Saxônia em 1755. Eu gostava de vê-lo pronunciar
"Hahnemann" corrigindo a postura e carregando
na primeira sílaba. Ele sempre começava "O
grande Samuel Hahnemann..." e na seqüência
invariável viriam Hipócrates e Paracelso,
até que ele se cansasse e fosse dormir. Para mim
havia um tanto de magia naquilo tudo e ficava imaginando
como teria sido a vida desses homens. Hoje já sei
um pouco mais de tudo deles e, por influência dos
discursos etílicos do meu pai ou não, tentei
seguir o mesmo caminho e acabei me tornando um farmacêutico
apaixonado pela Filosofia, pela Arte e pela História
do Conhecimento.
O fascínio que a natureza sempre me provocou hoje
tem conteúdos bem mais elaborados intelectualmente.
Mas perderam muito da espontaneidade original. Acho o resultado
final compensador, mas sinto que jamais o cérebro
superará o coração. Por mais que se
conheça com técnicas sofisticadas a intimidade
das plantas e o mecanismo de sua fisiologia, esse conhecimento
jamais provocará em nós uma sensação
mais intensa do que o cheiro fresco de uma moita de capim
depois de uma tempestade. E esta experiência é
tão subjetiva quanto a intuição. Na
verdade a intuição me parece com o faro, em
sua essência. Está acesa, mas parece não
estar. A gente nunca percebe que está respirando.
Só quando aparece um cheiro característico,
então o respirar se torna consciente. Se for cheiro
de fumaça, por exemplo, dependendo da situação,
pode significar fogo dentro de casa e todo nosso ser entra
em estado de alerta. Com a intuição parece
acontecer a mesma coisa. Uns a têm mais apurada, outros
menos. No entanto, um farmacêutico jamais pode negligenciá-la,
sob pena de comprometer sua profissão. Pois a base
de seu trabalho repousa no relacionamento humano. Tanto
o relacionamento terapeuta/paciente quanto o relacionamento
paciente/ambiente que o rodeia.
E para o desenvolvimento da intuição é
necessário tornar-se um poliglota e entender cada
vez mais de todas as linguagens. Desde a de um vaso de Avenca
que pede água a uma cadela com crias que diz "não
se aproxime" com um simples olhar. Da corcunda contraída
que caracteriza o asmático à cor amarelada
do rosto nos que tem problemas intestinais. Infusões
de castanheiro dos Alpes e Apeninos para o primeiro e chá
de sementes de abóbora para o segundo. Os feijões
se parecem com os rins na forma e realmente sua relação
é íntima. As folhas das plantas tem ramificações
como os pulmões e realmente sua relação
é íntima. Isto pode ser aprendido ou percebido
intuitivamente. Mas a intuição é mais
importante. O que não desmerece a escolástica.
Pelo contrário. Ambos são profundamente necessários.
2. L' Autrec Laboratoires
Completei meus estudos superiores em Barcelona com grande
dificuldade, como uma grande parte dos estudantes de minha
época. Não podia depender do apoio de meus
pais pobres, numa família com 7 filhos. No entanto,
felizmente sempre encontrei amigos na mesma situação
e nos incentivamos uns aos outros. Minha formatura foi um
momento de glória para todos e nela tomei vinho junto
com meu pai. O vinho tinha sido até então
um símbolo de nosso distanciamento. 'In vino veritas'.
Depois de formado, fiquei num dilema enorme para escolher
para onde ir trabalhar. O pai de um de meus colegas de escola,
um certo Monsieur L'Autrec havia me convidade para trabalhar
em sua rede de laboratórios recentemente montada
em Toulouse. Eu me sentia dividido entre trabalhar na França
ou em Gibraltar, que sempre me fascinou por ser um dedo
mágico que suavemente toca o Continente Africano,
sendo por isso mesmo um canal fantástico de energias
trocadas entre civilizações milenares. Não
gostaria nunca de voltar para minha cidade. Resolvi me estabelecer
em Toulouse, com o risco de me aborrecer em pouco tempo
com o fato de ser um estrangeiro que mal dominava o francês.
As eternas especiarias de Giblaltar eu acabaria por conseguir
no mercado local, provavelmente com uma atmosfera histórica
menos intensa, mas com o risco do mercado pararelo. O futuro
era para mim uma aventura.
A realidade se mostrou bastante mais rotineira do que os
sonhos. A L' Autrec Laboratoires era uma empresa interessada
em lucros, como qualquer empresa. Apesar da afetividade
que me ligava à família dos proprietários,
a mecanicidade do serviço não me atraía
muito. Mas eu aprendia cada vez mais e foi grande o fascínio
que passaram a exercer sobre mim as inúmeras publicações
e relatórios que sempre chegavam de todos os lugares.
Isso cheirava a progresso e progresso estava muito na moda.
Só mais tarde eu pude ir sentindo que havia qualquer
coisa de profundamente errada naquele comportamento progressista.
Eu entendia e lidava pouco com política, mas intuitivamente
podia perceber que a qualidade de vida das pessoas não
estava sendo melhorada em nada. E que quanto maior o esforço
e verbas aparentemente bem empregadas em pesquisas e trabalhos
científicos, progrediam apenas os índices
de desnutrição e doenças degenerativas.
Passei a não ver, inclusive, muito sentido no meu
próprio trabalho.
O Sr. L' Autrec me confiou a chefia do laboratório
de Hematologia de sua empresa, o que para um recém-formado
podia ser um ótimo cargo. Mas pelo que pude observar
no comportamento dos médicos, esses exames estavam
contribuindo pouquíssimo na cura real das pessoas.
Na verdade, mais tarde fui percebendo que a confiança
nos laboratórios estava superando a confiança
no próprio médico. Os médicos estavam
se tornando incapazes de trabalhar sem os exames de laboratório.
O grau de intuição de muitos que conheci tinha
se reduzido a quase zero, a ponto de quando os exames não
acusavam nada - o que é muito comum - eles ficarem
sem saber o que fazer. Pude presenciar situações
ridículas, onde o médico afirmava para o paciente
que ele não tinha nada porque os exames não
acusaram nada. E o paciente responder que tinha sim porque
estava se sentindo muito mal, vomitando todo dia, incapaz
de ficar de pé, etc. E mesmo assim anda continuei
por alguns anos na L' Autrec Laboratoires, uma firma com
centenas de vidrinhos e aparelhinhos capazes de definir
o destino das pessoas muito mais do que seus próprios
terapeutas ou elas próprias, mas sendo cegamente
obedecida. E se tornando cada vez mais rica e poderosa para
enganar-se à vontade, sem nenhum risco de punição,
cerceamento ou a menor advertência.
No entanto, talvez o sentimento de impotência com
relação a uma situação tão
deprimente onde eu era obrigado a chefiar um trabalho inútil
e muito mal aproveitado em seus resultados me fez buscar
então com muito mais cuidado outras soluções
mais humanas para os problemas e sofrimentos humanos. Pude
então pesquisar e aprender mais com o "grande
Samuel Hahnemann" de que meu pai tanto falava. Paralelamente
pude tomar contato com uma enorme quantidade de humanistas,
pesquisadores e estudantes da Vida no Universo, que a tradição
chama de Alquimistas e Ocultistas. Conheci muitas pessoas
ligadas a essas tradições e confesso que nem
todas eram boas e bem intencionadas. Mas isso acontece em
todos os lugares.
Nesse período meus pais vieram a falecer e eu fiquei
cada vez mais afastado da minha terra natal e das plantas
que tanto caracterizam a região dos Pirineus. Nunca
fui um mago ou alquimista, mas o contato com seus documentos
me foi muito enriquecedor. Através deles pude desenvolver
de forma muito mais profunda minha visão da ciência
em geral, principalmente da matemática. Gradativamente
fui conseguindo uma independência cada vez maior do
primeiro emprego e consegui montar uma farmácia modesta,
onde passei a cultivar um círculo de amigos e clientes
numa forma muito mais rica e humana. Fui então reduzindo
meu período de trabalho na L'Autrec Laboratoires
até poder ficar com a tarde e noite livres para minha
farmácia e pesquisas individuais.
3. Um indício desconcertante
Certa manhã eu estava colocando documentos em ordem
no L' Autrec Lab. Quando a gritaria de uma acalorada discussão
na sala de atendimento ao público tornou meu trabalho
impossível de ser realizado. Fui ver do que se tratava
e encontrei uma jovem completamente descontrolada na abertura
do guichê de atendimento, reclamava veementemente
do tratamento que havia recebido da atendente. Segundo ela,
a atendente jogara o dinheiro do troco sobre o balcão
quando ela lhe estendera a mão, em vez de entregá-lo
delicadamente. O tom de voz da cliente e o grau de tensão
que ela transmitia em todo seu comportamento eram indicativos
seguros de que ela levaria muito tempo para acalmar-se.
Então convidei-a suavemente para entrar e sentar-se
em meu escritório. Ela sentou-se e começou
a chorar, reclamando ainda dos maus tratos recebidos. Ao
sentar-se, no entanto, o exame que ela viera buscar caiu
de suas mãos e eu delicadamente peguei-o no chão.
Fiquei com medo de entregá-lo de volta e ela achar
meu gesto "muito brusco" ou qualquer coisa parecida.
Resolvi então sentar na minha mesa e esperar e esperar
que a crise melhorasse. Fiquei olhando pateticamente para
a folha de papel, tentando me distrair mentalmente para
passar o tempo. Fui percorrendo com os olhos a relação
de dados, tentando imaginar de quem seria o material colhido
para aquele exame. Era um exame de sangue e trazia os seguintes
resultados:
EXAMES HEMATOLÓGICOS NO SANGUE
Nome: Nicholas Jacquier
Indicação do Dr:. Paul René
Hemácias ................................ 3.300.000
.............. p/mmc
Hemoglobina .......................................13 ...............g/dl
Hematócrito ........................................
36 ...............%
volume corpuscular médio .................. 91 ...............uc.
Hemoglobina corp. média ................... 31 ...............yy
Hemossedimentação ............................
34 ...............%
Westergren ........................................... w
...............mm
Reticulócitos .........................................
w ..............mm
Plaquetas (cont. d reta) ......................... w ...............p/mmc
Global de leucócitos ...................... 23.976..............
p/mmc
DIFERENCIAL DE LEUCÓCITOS .... % ...............p/mmc
neutrófilos
Promielócitos ........................................
32 ...............2048
Mielócitos ..............................................13
.................832
Metamielócitos ......................................
21 ..............1344
Bastonetes .............................................
00................... 00
Segmentados ..........................................12
...............1920
Eosinófilos ..............................................01
..................64
Basófilos ................................................
00 ...................00
Linfócitos ...............................................
19 ...............4288
Monócitos ...............................................
02 .................128
A primeira coisa que me chamou a atenção
foi o elevado número global de leucócitos,
23.976. Mas a outra coisa, com relação a esse
mesmo número é que ele nunca precisa ser dado
com tanta precisão, já que é um número
estimativo. Qualquer laboratorista teria colocado o número
redondo, ou seja, 24.000. Tomei o fato como uma excentricidade
do funcionário e um pouco mais abaixo na folha somei
os números dos três primeiros neurófilos
(promielócitos, mielócitos e metamielócitos):
32 + 13 + 21 = 66. Fiquei um pouco curioso, pois estes três
neurófilos só aparecem no organismo em casos
de problemas sérios no sangue, como anemia e principalmente
leucemia. Não é só isso. Nos casos
de leucemia eles aparecem e há evidentemente um aumento
no número global de leucócitos (o mesmo que
me chamou primeiro a atenção) e uma baixa
do número de hematócritos (3.ª linha
de dados do exame). Tomei da caneta em cima da mesa e por
curiosidade dividi o número global de leucócitos
pelo número de hematócritos. 23.976 ÷
36 = 666.
A brincadeira me deu um desagradável arrepio na
espinha, e eu não soube identificar claramente o
porquê. Afinal, são apenas números de
um exame de sangue que constata inegavelmente um estado
de leucemia, como qualquer outro. E afinal, esses malditos
exames na verdade não contribuem em nada para a melhoria
efetiva das pessoas. Mas continuei com uma sensação
de que alguma coisa me incomodava. 666, o número
da besta... 666, leucemia profunda... 66 neutrófilos...
66 leucócitos jovens...
Quando olhei novamente para a jovem, ela havia recuperado
o controle, parado de chorar e me olhava firme e fixamente.
Só então pude sentir aquele olhar e novamente
uma sensação de desconforto tomou conta de
mim. Suas olheiras escuras e profundas formavam uma moldura
perfeita para o vácuo das pupilas negras. A tensão
do momento permitiu-me um susto enorme quando ela levantou-se
de um salto, tomou a folha de minha mãos e desapareceu
correndo pela porta.
4. Boa noite, Doutor Paul René!!!
Hoje as pessoas são tratadas como peças,
catalogadas, fichadas, numeradas e arquivadas. Isso tem
um sentido prático, mas pode ser altamente prejudicial
quando reduz o ser humano a um simples número numa
máquina industrial qualquer. No entanto, no nosso
fichário de médicos cadastrados e em convênio
com o laboratório foi fácil encontrar o endereço
do Dr. Paul René. E no outro fichário, a cópia
do exame hematológico de Nicholas Jacquier. Um pouco
de fantasia, mistério e aventura fazem um bem enorme
e resolvi procurar pelo nobre colega e saber um pouco mais
sobre seu paciente. E talvez um dia, quem sabe, rirmos um
pouco da forma como nos conhecemos. Tive que esperar alguns
dias, antes de aparecer a oportunidade para vê-lo.
Era uma noite agradável de primavera e resolvi ir
caminhando até o endereço dele. Um casarão
sóbrio, de pintura amarelo clara um tanto envelhecida,
o que contribuía para o ar de nobreza da concepção
arquitetônica. No entanto, a grande quantidade de
luzes acesas denunciava uma movimentação anormal
no interior da residência. Bati na porta e o som inconfundível
do carvalho fez vibrar os ossos de minha mão e a
vibração se espalhou pelo braço. Em
pouco tempo a porta abriu-se e fui convidado a entrar por
um criado preciso e eficiente, que encaminhou-me à
sala de visitas. Ela estava repleta de pessoas, com um traço
inconfundível e característico, que até
hoje não consegui precisar bem qual seja. Mas foi
fácil saber que estava num ambiente de médicos.
Alguns conversavam em voz baixa, o ambiente tenso e uma
atmosfera de expectativa pairava em tudo. Poucos me cumprimentaram
e me senti pouco à vontade, sem entender o que estava
ocorrendo. Então chamei o criado que me recebera
e disse que precisava falar com o Dr. Paul René.
Ele me respondeu que o Dr. Paul René havia piorado
e não podia receber visitas.
Num relâmpago minha intuição me disse
que era absolutamente necessário fazer contato com
o médico doente e respondi num impulso "Mas
eu vim trazer os resultados dos exames dele". O criado
acrescentou que ele estava se consultando com seu colega
de confiança, Antoine Didier. Então pude acrescentar
inapelavelmente "Claro, os exames foram pedidos pelo
Dr. Didier". Em seguida deslizamos pelos corredores
em direção aos aposentos do enfermo. O criado
não entrou. O ambiente bem cuidado tinha um ar de
tranqüilidade. O paciente ouvia atentamente as últimas
recomendações do colega, que tudo indicava
estar se retirando. Do outro lado da cama, uma senhora bastante
idosa mas com uma postura muito firme e presente, assistia
a tudo com uma atitude solene. Já Paul René
parecia se esforçar por continuar mantendo os olhos
abertos. Tudo nele indicava um estado grave e risco de vida.
No entanto, apesar dos seus aparentes 70 anos, era visível
uma constituição física invejável.
O que talvez estivesse definindo sua resistência e
condições atuais. Após a saída
do assistente ele recostou-se e olhou-me com um ar interrogativo.
Aproximei-me vagarosamente e sorrindo, sentei-me na cadeira
recém desocupada. A Senhora do outro lado inclinou-se
suavemente para a frente, redobrando a atenção.
Senti que eu teria que justificar muito bem minha presença,
pois todos que estavam na sala de visitas haviam respeitado
a necessidade de repouso do paciente.
Optei pela franqueza e narrei delicadamente o motivo que
me tinha levado até ali. Quando terminei, ele fez
um sinal para Senhora, pedindo que se assentasse novamente.
Eu nem havia notado que ela se levantara, muito tensa. E
com uma energia surpreendente para seu estado, ele me falou
calmamente: "Nobre colega. Tenho experiência
de vida suficiente para conhecer muito das pessoas em pouco
tempo de convivência. E sinto que posso confiar no
Senhor. A gravidade do meu estado não me permite
aguardar por mais tempo a tomada de decisões que
se fazem urgentíssimas. Vejo a sua vinda aqui como
profundamente providencial. Tenho motivos para acreditar
que suas conclusões matemáticas acerca das
relações entre os dados do exame de sangue
referido não são frutos do acaso. Pelo contrário,
elas podem estar absolutamente corretas. Vou relatar os
dados mais importantes e o restante o Senhor tomará
conhecimento através de documentos que confiarei
à sua guarda. Até hoje não o tinha
feito pois não consegui encontrar uma pessoa em condições
de compreender os fatos em toda a sua plenitude e tentar
resolvê-los de uma forma satisfatória."
Enquanto falava, uma nova energia parecia animá-lo.
Tomei de um bloco de notas gentilmente cedido pela Senhora
Ana René, que de simples espectadora, passou a coadjuvante
dos acontecimentos. E ele prosseguiu: "Para ser claro
e direto, tudo indica que a pessoa que retém nas
veias o sangue de cuja amostra foi concluído o exame
que o Senhor examinou é um ser abominável,
uma singularidade incompreensível, um aborto da natureza.
Sua constituição inteira contém todas
as contradições de uma obra prima de imperfeição.
Esta imperfeição é traduzida também
no número 6. O 6 é o número imperfeito
por excelência. As relações perfeitas
na natureza são expressas no número 7, creio
que o Senhor deve saber disso muito bem. As 7 notas musicais,
as 7 cores do arco-íris, o ciclo de 28 dias da Lua,
sendo 28 um múltiplo de 7, que deu origem aos 7 dias
da semana. Este número está também
na íntima formaçào estrutural do ser
humano. A altura da cabeça multiplicada por 7 dá
a altura do indivíduo bem proporcionado. 1/7 é
ainda a relação entre os componentes sódio/potássio
do sangue humano. No entanto, nessa criatura a essência
do número 7 foi substituída pelo número
6. Suas relações sangüíneas realmente
tem como base os números 6, 36 (que é o quadrado
de 6) e 666. Se o Senhor somar os números de 1 a
36, obterá a soma 666.
A intimidade dessa criatura com o carbono também
é muito grande, pois o carbono é o elemento
de número atômico 6 na tabela periódica,
sendo o elemento das matérias fósseis e carbonizadas.
Sua relação astral é com a Lua, que
tem enorme influência sobre o sangue de qualquer ser
vivo. E o sangue é a essência viva que liga
o espírito, a mente e o cérebro à parte
física, o corpo com seus ossos e músculos.
O elemento da Lua é a prata, de número atômico
47 e incompatível com o carbono, sendo mortal à
criatura. Se o Senhor ainda se lembra, o elemento de número
atômico 66 é o disprósio, da série
dos lantanídeos, também chamados de "Terras
Raras". Perdoe-me se estou sendo desordenado na exposição
de dados e informações, muitas das quais provavelmente
o Senhor já esteja cansado de ouvir. Mas no momento
é a melhor solução que me ocorre. Pois,
Sr. Flamínio, tudo indica que estamos diante de um
VAMPIRO".
5. Do Estranho Caso de Mata Ulm
O Dr. Paul René então pediu um copo d'água,
tomou um pouquinho e chamou a criada para recomendar-lhe
que naquela noite não receberia mais ninguém.
Em seguida descansou durante uns dez minutos e recomeçou
a narrativa. "É necessário que eu conte
a história desde o começo. Espero que você
tenha paciência e atenção suficientes
para captá-la no todo. Meu registro comprova minha
nacionalidade francesa, mas eu nasci em Frankfurt, há
72 anos atrás. Nossa família foi obrigada
a retirar-se às pressas da Alemanha quando eu tinha
15 anos, por problemas políticos da época.
O fato mais marcante para mim, no entanto, não era
o perigo da perseguição política da
qual meu pai fugia, mas sim o fato de que eu estava então
vivendo minha primeira e violenta paixão adolescente
na figura de minha prima Mata Ulm. Ter que abandoná-la
foi para mim um duplo sofrimento solitário, pois
os padrões morais e familiares da época jamais
permitiriam um amor entre primos. Além de abandoná-la,
eu teria que manter segredo eterno sobre nossa relação.
Digo nossa relação, mas não tenho certeza
se era ou não correspondido por ela em minha paixão.
Eu a achava belíssima, com seus longos cabelos negros
emoldurando aquele rosto suave e de traços finos.
Mas ela mantinha sempre um ar ausente, onde nunca era possível
identificar maiores emoções. Foi com esse
ar ausente que a surpreendi na nossa primeira relação
de cumpliciosa intimidade. Ela havia atingido naquele dia
sua plena maturidade sexual. Eu entrava sorrateiramente
no celeiro do sítio de seus pais, para tentar surpreender
um ou outro pombo nos ninhos que eles construíam
nas beiradas do telhado. Mata Ulm estava sentada num monte
de feno, nua da cintura para baixo e com a cabeça
entre as pernas recolhidas, olhando fixamente para a própria
vagina. Eu me aproximei suavemente. Com o dedo indicador
na mão direita ela acariciava delicadamente o clitóris.
Isso automaticamente provocava contrações
na vagina, que apertava os lábios cuspindo porções
de uma gelatina vermelho escura. Eu perguntei o que era
aquilo ela respondeu que era a mãe Natureza gritando
de vontade de gerar filhos. Daí por diante, em todo
ciclo completado pela Lua, a natureza diria através
do sangue se estava satisfeita ou não. Se estivesse,
silenciaria por nove luas - ou três estações
- e gritaria novamente através da boca de um novo
ser, envolto em sangue e feito do seu sangue. Carinhosamente
então ela tomou meu pênis ereto e latejante
entre as mãos e acariciou-o até que ele lhe
doasse o meu sangue, que ela colheu e cuidadosamente misturou
com o seu. Depois me beijou suavemente e voltou a contemplar
abstrata sua gruta de mistério onde daí por
diante os seres humanos iriam entrar e sair.
Faço este relato como preâmbulo do comportamento
profundamente mágico e místico que marcaram
a vida de minha prima. Este ato de consolação
perpetrado por ela pode ser reencontrado na carta número
14 do Livro de Toth, chamada "A Temperança"
e situada entre a Morte e o Diabo. No entanto, ela não
parece ter tido sorte ou discernimento suficiente para se
safar dos perigos que esses caminhos oferecem. Passamos
cerca de 20 anos sem nos encontrarmos, apesar de nos correspondermos
durante os cinco últimos desses vinte anos. O motivo
de nosso encontro foi exatamente uma carta desesperada dela,
pedindo que eu fosse urgentemente à Alemanha para
ajudá-la a escapar da morte. Dizia então que
não poderia contar maiores detalhes. Já residia
em Munique e dizia estar sendo perseguida pelo Diabo. Sei
que o que lhe digo pode estar parecendo uma montagem maluca,
mas é a pura realidade. Fui então para a Alemanha
e nosso encontro foi um tanto patético, em sua própria
residência. Ela ainda morava com os próprios
pais, havia perdido o marido com uma doença não
identificada e curiosamente até então não
tinha conseguido gerar filhos... Sua loucura se acentuara
enormemente a partir do encontro que havia tido com um frade
dominicano que se interessara profundamente por ela a partir
das confissões íntimas que ele lhe induzira
a fazer dentro de um confessionário da Catedral de
Munique. Ela dizia que o poder tanto pessoal quanto político
desse frade é enorme. Entre outras coisas ele é
capaz de hipnotizar e controlar pessoas com grande facilidade
e colocá-las a seu serviço. A relação
entre ambos se tornara tão absurda, que o frade havia
lhe mostrado uma obra intitulada "Tractatus de Calcatione
de Monum y Flagellum Haerecticorum Fascinorum", datada
de 1458 e escrita por ELE MESMO!
Ele tanto insistira queacabou por covencê-la de que
ela teria sido Madeleine Bavent, irmã da Terceira
Ordem Franciscana, membro do Convento de São Luís
e Isabel em Louviers. Madeleine foi a figura principal de
um famoso processo de bruxaria medieval repleto de cenas
de mais dantesca heresia e blasfêmia. Foi queimada
na fogueira junto com outras pessoas envolvidas no processo,
mas o Inquisidor que dirigira os interrogatórios
deixou documentos onde declarava que Madelaine não
tinha sido suficientemente torturada. Por isso deveria ser
perseguida em encarnações futuras, para poder
saldar completamente sua dívida. Para "ganhar
o reino dos céus", teria que ser novamente "purificada
pelo fogo". Ora, o famoso processo de Louviers acontecera
por volta de 1647, há cerca de 300 anos! E o "Tractatus"
do frade teria nada menos que uns 500 anos! No entanto,
seu poder hipnótico tinha-a conduzido a viver numa
para-realidade onde eram raros os momentos de lucidez. Num
desses momentos ela pôde escrever a carta que eu recebera.
O estado de minha prima era deplorável e eu já
não conseguia identificar nela absolutamente nada
daquela beleza que eu vira resplandecente nos meus quinze
anos. Pelo contrário, seu olhar desvairado num semblante
azulado de pele e ossos, com os lábios roxos e sempre
trêmulos, era insuportável de se contemplar
por muito tempo.
Enquanto ela falava, eu sentia um cansaço enorme
me pesando as pálpebras e um sentimento amargo me
apertando o peito. Uma grande vontade de voltar para a França
e apagar aquilo da memória de uma vez por todas.
No entanto ela prosseguiu na narrativa e o que veio em seguida
até hoje me gela até os ossos pela simples
lembrança. O tal frade convenceu-a de que só
havia uma possibilidade dela saldar definitivamente sua
enorme dívida com relação à
Santa Madre Igreja e continuar viva. Isso poderia ser feito
com o oferecimento de um 'cordeiro' humano em sacrifício
ritual. E esse cordeiro teria que ser seu próprio
marido, o grande culpado histórico por tudo. Depois
de alguns meses de argumentos e insistência, ele convenceu-a
a colocar em sua comida um veneno suave que minaria sua
resistência gradativamente até que ele entraria
em coma e seria enterrado como morto.
Assim fizeram os dois amantes, se é que se poderia
chamar de amor a relação entre o frade e minha
prima. Ela dizia que eles só se encontravam à
noite e que ele sempre estava gelado e cheirando a mofo.
Quando perguntei do que ela gostava nele, a resposta foi
"não sei". Depois do enterro do marido,
à noite eles se encontraram e o desenterraram. O
cemitério ficava ao lado da Catedral de Munique,
o que facilitava enormemente a tarefa dos dois. Levaram
o corpo para os subterrâneos da Catedral, onde pela
primeira vez ela pôde contemplar os instrumentos de
tortura da Inquisição Medieval. O frade então
acendeu todas as velas e amarrou-a numa cadeira pesada de
madeira, para que ela pudesse assistir ao espetáculo.
Em seguida pendurou o corpo do marido pelos pés e
colocou diante de seu nariz um vidrinho destampado e contendo
um líquido esverdeado. O homem pendurado acordou
repentinamente e começou a gritar. O frade então
entrou em coro com ele e começou a correr e gargalhar
em torno do corpo, colocando-o para rodar no ar com safanões.
Em determinada altura, o frade pendurou-se no homem, cravou
seus dentes na garganta e juntos balançavam urrando
terrivelmente. Seus berros ecoavam pelas abóbadas
de pedra da masmorra e só eram interrompidos quando
o frade se engasgava com os borbotões de sangue que
jorravam da ferida. Em uma das vezes que conseguiu abrir
os olhos, Mata Ulm pode observar que o sacerdote tinha colado
o seu corpo ao corpo do seu marido na mesma posição
dependurada e isto lhe lembrou a posição dos
morcegos nas cavernas.
Depois de algum tempo o frade soltou-se satisfeito e, babando,
pegou um vaso onde coletou cuidadosamente os últimos
litros de sangue da 'ovelha' pendurada e agonizante. Esperou
ainda algum tempo para que todo o sangue escoasse e desceu
o corpo que em seguida foi esquartejado e colocado a defumar
em uma enorme lareira, em espetos compridos de ferro. Ela
assistiu a tudo em estado catatônico, até ouvi-lo
dizer mansamente "por muito tempo não precisaremos
nos preocupar com carne, querida." Ela desmaiou e,
quando acordou, teve a sensaçãode que séculos
haviam se passado, mas estava se sentindo estranhamente
bem. O toque suave de sua mãe com o café da
manhã a havia despertado. O luto amargo da genitora
lhe deu a certeza de que o marido realmente morrera. Mas
e o resto? Seria um pesadelo ou teria acontecido realmente?
Eu cheguei lá cerca de dois meses depois desses
fatos, cujos indícios posteriores me confirmaram
serem absolutamente reais. Depois do nosso primeiro encontro,
Mata Ulm desapareceu para sempre. Fiz todos os esforços
possíveis e imagináveis para localizá-la,
mas foi tudo em vão. Tentei verificar se realmente
existiam subterrâneos medievais na Catedral de Munique,
mas sempre encontrei a barreira dos sorrisos compassíveis
dos religiosos responsáveis por aquele monumento
cristão. Minha insistência, no entanto, acabou
me levando a adquirir uma permissão para consultar
arquivos da Biblioteca Nacional de Munique, particularmente
sobre a vida e obra de um contemporâneo do nosso famigerado
padre dominicano: o abade Trithème, nascido em 2
de fevereiro de 1462, em Tritthenheim. Ele fundou a Confraria
Celta e em 2 de fevereiro de 1482 entrou para a ordem dos
Beneditinos, no mosteiro de Saint-Martin-de-Spanheim. Conseguiu
reunir nesse mosteiro a biblioteca mais rica da Alemanha,
composta essencialmente de manuscritos. Deixou como resultado
de suas pesquisas uma obra em 8 volumes, de incrível
poder, chamada de STEGANOGRAPHIE.
No entanto, o manuscrito completo foi destruído
pelo fogo, sob as ordens do conde palatino Philippe II.
Nenhum exemplar completo ficou para a posteridade. Mais
de cem anos depois, um dos jesuítas mais ferozes
da Inquisição, Del Rio, ainda perseguia partes
do que restou do Steganographie. Mas em 1610, em Frankfurt,
Mathias Becker publicou novamente esses fragmentos. E em
seus comentários (não publicados) fez pesadas
críticas ao emprego indevido e distorcido do legado
de Trithème, que poderia incluir hipnotismo, levitação,
comunicação à distância e possivelmente
a imortalidade... Cita então como um dos mais perigosos
utilizadores desses poderes o demonólogo e inquisidor
francês, frade dominicano e um dos primeiros autores
de livros sobre demonologia NICHOLAS JACQUIER, nascido em
1402. Não existe nenhuma referência sobre sua
morte. Tudo indica que esteja vivo até hoje".
6. O demônio está aqui!
Eu estava tão absorto na narrativa do Dr. Paul René,
que levei algum tempo para relacionar o nome do frade dominicano
que cuidadosamente ele reservara para o final, com o nome
escrito na ficha padronizada de exames de sangue do L'Autrec
Laboratoires. Então uma pergunta precipitada brotou
em meus lábios: "Se é realmente a mesma
pessoa, como o senhor conseguiu localizá-lo?"
O Dr. Paul René descansou novamente durante alguns
minutos e retomou a narrativa, não sem antes inspirar
profundamente. "Pois bem, durante o tempo de minhas
pesquisas na Biblioteca Nacional de Munique eu fiquei hospedado
na casa de seus pais e tentava por todas as maneiras ajudá-los
a superar o desespero que o desaparecimento da filha lhes
causava, sempre animando-os com novas esperanças.
Até que um dia estava lendo alguns livros que tomara
emprestados da biblioteca, à noite, em meu quarto,
quando ouvi leves batidas na janela. Perguntei quem era
e uma voz aflita respondeu "um amigo de Mata Ulm".
Abri cuidadosamente e ele pediu para entrar. Sua aparência
me inspirou confiança e ajudei-o a pular a janela.
Ele sentou-se e depois de algum tempo começou a falar
num tom preocupado e ansioso. "Meu nome é Wilhelm
Lebenswald. Sou artista plástico e trabalho nos serviços
de restauração dos afrescos da Catedral de
Munique. Fui amigo de Karl Eschenmayer, o marido de Mata
Ulm. Ambos éramos colegas de profissão e chegamos
a fazer muitos trabalhos juntos. E juntos nos apaixonamos
por Mata.
Com o tempo, no entanto, a relação entre
eles começou a degenerar e aspectos bastante terríveis
começaram a tornar sombria toda nossa convivência.
Karl, que era muito sensível, sempre se queixava
das excentricidades e comportamentos imprevisíveis
de Mata. Paralelamente evidenciava-se também um agravamento
do estado de saúde dela. Os ataques epilépticos
tornavam-se cada vez mais freqüentes e nessas ocasiões
ela novamente forjava tentativas de suicídio nas
quais sempre finalizava com uma gargalhada. Meu amigo, no
entanto, era muito mais afetado pelo aspecto terrível
que ela assumia nos estertores epilépticos, quando
então se debatia e roncava como uma porca agonizante.
Isso feria profundamente o sentimento estético dele...
Até que ela veio a conhecer o misterioso padre Nicolas
Jacquier e passou a tomar com ele aulas noturnas de francês
na Catedral. Depois desse contato, as coisas pioraram bastante..."
Nesse momento eu o interrompi e resumi o que eu mesmo já
sabia dos fatos, enquanto ele ia confirmando com a cabeça
ou se horrorizando com o que não sabia. Pedi então
que me contasse mais sobre Nicholas Jacquier. E ele recomeçou:
"Eu não cheguei a conhecê-lo pessoalmente.
Sabia quase tudo o que Mata poderia me contar pois ela era
muito minha amiga e às vezes me tomava como confidente.
Depois que Karl morreu e Mata Ulm desapareceu, eu resolvi
procurar pessoalmente o padre Nicholas. No entanto, devido
aos seus hábitos extremamente singulares e furtivos,
eu sabia que só poderia encontrá-lo em um
dos confessionários, durante as confissões
noturnas da Catedral. Esses confessionários são
construídos de forma que o sacerdote pode entrar
e sair deles por corredores ocultos, sem ser visto ou identificado.
E no próprio diálogo confessional, o padre
sempre escuta oculto nas sombras. Como eu trabalho na Catedral,
tenho um certo acesso ao movimento interno dos que cuidam
dela. Com cuidadosas observações pude concluir
que o confessionário utilizado por Nicholas era exclusivo
dele e eu sabia qual era, pois Mata Ulm havia me dito uma
vez, ao narrar como eles se conheceram.
Esperei então um dia em que estivessem pessoas se
confessando e entrei na fila do referido confessionário,
disposto a arriscar tudo para identificar o misterioso personagem.
Ao ajoelhar no genuflexório, sua voz gutural perguntou
por meu nome. Corajosa mas ingenuamente eu disse "Wilhelm
Lebenswald". Imediatamente senti como se meus joelhos
se colassem na madeira em que estavam apoiados e uma sonolência
profunda passou a me turbar a consciência e a visão.
Ouvi então a voz dele ironicamente martelar uma risada
abafada, antes de dizer "Sua paixão Mata Ulm
já subiu ao céu. Eu a purifiquei de todos
os pecados, depois de acariciá-la profundamente com
o Beijo da Santificação. Só resta dela
uma caixinha com cinzas que guardo como recordação.
Quanto a você; meu caro artista, já é
um dos meus servos e passa desde agora a merecer todo o
meu amor..." Neste exato momento ouvi o grito de uma
mãe chamando pelo filho. O garoto, de pouco mais
de um ano de idade, entrou correndo pela passagem do confessionário
e trombou em minhas costas. Isso me livrou consideravelmente
do transe hipnótico e tive a lucidez de levantar
e sair correndo. Vim diretamente para cá.
Caro Dr. Paul René, tenho que ser sucinto pois o
tempo urge. Sou um homem condenado à morte e creio
que o Senhor também! Existe uma rede enorme espalhada
pelo mundo todo e que sustenta com todo tipo de cobertura
essas e outras atividades terríveis e criminosas.
A informação mais importante que posso lhe
fornecer é que o padre Nicholas Jacquier é
francês, natural da região de Toulouse, onde
periodicamente tem que ir para realizar rituais onde mistura
a cinza dos corpos das pessoas que assassina com a terra
dos cemitérios da cidade. Essas operações
demoram vários dias e consegui saber muito pouco
delas. No entanto, curiosamente, o Senhor reside em Toulouse
e bem poderia tentar neutralizar de uma vez por todas esse
monstro." Então eu lhe disse que na manhã
seguinte me retiraria de volta para cá, por motivos
de segurança.
Esclareci-lhe ainda que o "Beijo da Santificação"
citado no confessionário pelo padre Nicholas era
uma criação de Heinrick Kramer, um dos elaboradores
do Malleus Maleficarum, por volta de 1484, e do papa Inocêncio
VIII. Kramer se baseara em antiquíssimos rituais
egípcios e o Beijo da Santificação
consiste em arrancar todos os dentes da pessoa a ser canonizada
(Esses dentes posteriormente farão parte de um colar-amuleto
bastante utilizado um outros rituais). Em seguida, o sacerdote
oficiante suga diretamente o sangue que escorre da boca
esfacelada, até se fartar. Então adapta uma
gaiola que envolve a cabeça da vítima como
um capacete, contendo uma ratazana extremamente faminta,
que completará o banquete ritualístico. Em
seguida, o corpo ainda com vida deverá ser cremado
até às cinzas. Que Deus receba Mata Ulm!
Dito isto, desejei-lhe boa sorte e pedi-lhe que se retirasse
para que eu começasse a fazer minhas malas. Nunca
mais o vi nem tive notícias dele. Quanto aos pais
de Mata Ulm (sua mãe era minha tia legítima),
vieram a falecer algum tempo depois, num incêndio
acidental em sua própria residência..."
7. Similia Similibus Curantur
Nesse momento o Dr. Paul René deu um gemido abafado
e apertou o próprio peito, contorcendo-se de dor.
"Coração", pensei imediatamente
e rapidamente tomei sua mão esquerda e apertei profundamente
o ponto focal de energia situado entre o dedo polegar e
indicador. Com a outra mão localizei imediatamente
um dos pontos do fígado entre suas costelas e orientei-o
na respiração e relaxamento. Aos poucos ele
foi relaxando e a crise passou. Mas não aceitou minha
sugestão de interrompermos a narrativa. Então
pedi à Senhora Ana René diversos copos de
cristal, um bastonete também de cristal que Dr. Paul
deveria ter entre seus equipamentos e água. Tomei
então uma gota de saliva dele e dinamizei-a cuidadosamente,
conforme os processos das escolas tradicionais para casos
de emergência. Em seguida, apliquei uma gota em cada
olho do paciente. Dentro de algum tempo, ele já estava
em condições de continuar a narrativa mais
confortavelmente.
"Tendo voltado para cá, retomei meus trabalhos
rotineiros como médico, mas sempre pesquisando e
procurando indícios que me dessem a certeza de uma
pista para localizar o dominicano. Consegui, no entanto,
informações preciosas que fui cuidadosamente
arquivando e entreguei para o Senhor. Principalmente com
relação à "Casas dos Vampiros",
seus clubes mais importantes e seu fantástico e oculto
duelo de poder. São longas dinastias, com ramificações
espalhadas por todos os cantos da Terra... Na verdade, creio
que esse frade dominicano pertença a uma rede secundária
e hoje sem grande importância como potência
política. A Igreja já não tem tanta
influência no Ocidente, como anteriormente. Meu caso
com ele, no entanto, é bastante pessoal também,
pois ele assassinou pessoas de minha família. Eu
quero lhe passar todas essas informações e
rogar a seu sentido humanístico que as divulgue ou
faça delas alguma coisa de útil para a humanidade.
Mas não peço que o Senhor vá arriscar
sua vida disputando forças com essa fera poderosa,
covarde e tão potentemente amparada e protegida.
Pois bem, estamos chegando à resposta de sua pergunta
inicial, de como foi que consegui localizá-lo. Foi
obra do acaso, se é que existe esse tal acaso...
Eu vinha conversando com um colega pela Avenida Ludwig Worrell,
quando a cerca de 15 metros à nossa frente uma jovem
de corpo esguio saiu correndo da porta de um açougue.
Simultaneamente ouvimos um grito de "Pega, ladrão".
Para infelicidade dela, havia um guarda a pouca distância,
que dominou-a com grande facilidade. Aproximamo-nos então
e o inusitado do ocorrido me deu a certeza de que finalmente
eu havia encontrado uma pista segura. A jovem tentara roubar
cálculos biliares de boi, do açougueiro. Esses
cálculos são obtidos nos matadouros ou em
açougues e servem para infusões e tratamentos
de diversas doenças, além de amuletos. São
parecidos com pedra-pomes, cinza escuro e muito leves, do
tamanho de ovos de passarinhos. O açougueiro havia
dito para a garota que os dele não eram para vender,
depois de colocá-los sobre o balcão. Ela então
os apanhou e tentou fugir.
Depois de algum entendimento com o guarda, dei-lhe a entender
que a garota parecia doente mental e que eu cuidaria dela.
O argumento que ela usou com relação aos cálculos
era de que eram para o tratamento de um tio que estava de
cama, muito doente há vários meses. Eu então
lhe propus que só a libertaria do guarda se ela me
levasse até o tio, para que eu pudesse ver o estado
dele e quem sabe, ajudá-lo como médico. Ela
não teve alternativa e nos levou até a casa
do doente. Por motivo de segurança pedi ao meu amigo
que esperasse do lado de fora e entrei com a garota. O casarão
não era dos piores, mas a desordem no interior era
bastante grande. Todas as janelas estavam fechadas e com
cortinas negras e um insuportável cheiro de mofo
e roupas sujas pairava no ambiente. No quarto do tio, ela
entrou vagarosamente com uma pequena vela e me deu passagem
para entrar também. O quadro me congelou a boca do
estômago.
No centro do quarto, em um catre dos mais estranhos que
já vi, estava o corpo de um homem de idade impossível
de ser avaliada, pois qualquer dos referenciais que normalmente
utilizamos para deduzir a idade, nele eram como os de um
ser de outro planeta, que tanto pode ter 50 quanto 200 anos...
É a única forma que encontro para expressar
o que vi. Tentei comportar-me normalmente. Ele dormia profundamente.
Quando a vista ficou mais acostumada à escuridão,
pude constatar que ele trajava o hábito dos monges
dominicanos. Tomei cuidadosamente seu pulso. Não
pulsava. Então perguntei à jovem se ele estava
vivo. Ela disse que sim, mas que ele havia desmaiado mais
uma vez, pois estava extremamente enfraquecido. Então
eu disse a ela que eu necessitaria urgentemente de um exame
de sangue do paciente, e imediatamente abri minha maleta
e coletei material suficiente. Tomei o bloco de pedidos
e perguntei a ela o nome do tio. "Nicholas Jacquier",
ela respondeu.
No entanto, me espírito científico só
teria certeza absoluta de que realmente se tratava do famigerado
padre vampiro após o resultado do exame hematológico.
Então pedi à garota que levasse o exame em
seu laboratório, que entrega no mesmo dia e com o
qual tenho convênio. Em seguida ela deveria trazer
imediatamente em meu consultório o resultado. O resto
você sabe, pois ela arrumou outra confusão
ao pegar o exame. O que, na verdade, foi um incidente providencial
que te trouxe até aqui. Fiquei no consultório,
esperando que ela voltasse. Só que ela é uma
das escravas do padre, seu nome é Sibila e não
sabe tomar decisões sem consultá-lo. Como
eu não lhe dei tempo de falar com ele (que só
acorda à noite), ela desesperou-se e tentou me eliminar."
Dito isto, o Dr. Paul René levantou a camisa e mostrou-me
a barriga enfaixada e ensangüentada. Fora esfaqueado
violentamente e não sabia se teria condições
de resistir aos ferimentos. Poucos colegas seus sabiam da
realidade dos fatos. E nenhum sabia da existência
de um vampiro por trás de toda a trama. Ele perdera
a grande oportunidade de acabar com a fera. Havia inclusive
já preparado o material para empreender o trabalho
quando Sibila voltasse com o exame. A tarefa é enormemente
facilitada durante o dia, enquanto eles dormem e perdem
as forças. À noite, no entanto, a coisa se
complica bastante. Principalmente em noites de lua cheia.
Em seguida o Dr. Paul pediu à esposa que buscasse
o material que havia me prometido e ainda conversamos longamente
sobre o conteúdo dos mesmos. Deu-me inclusive o endereço
onde havia encontrado a besta humanóide, mas ambos
sabíamos que sería inútil procurar
novamente no mesmo local. Mesmo assim, eu iria lá
para, quem sabe, encontrar algum indício.
Fiquei distraído folheando os documentos, e em determinada
altura resolvi fazer outra pergunta ao Dr. Paul. Quando
ele não respondeu ao meu chamado, sua expressão
suavemente sorridente e tranqüila me deu a certeza
de que estava morto. Do outro lado da cama, sua esposa fez
um estranho sinal com uma das mãos apontando para
o céu e a outra para a terra e deitou-se junto dele.
Nesse momento, saí para tomar providências.
O relógio marcava dez horas da manhã.
8. Diante do espelho negro
O enterro do Dr. Paul René foi muito concorrido.
Era uma pessoa extremamente benquista. Durante as cerimônias
fúnebres tive a oportunidade de fazer contato com
diversos de seus amigos mais íntimos. Antoine Didier
me reconheceu e veio me cumprimentar. Ao perceber que estávamos
distanciados dos outros, sussurrou-me "você não
está só". Instintivamente olhei para
a viúva, Senhora Ana René e percebi que ela
nos observava atentamente de sob o véu negro que
lhe cobria o rosto. Pude então sentir claramente
a presença de uma rede de apoio que me foi muito
reconfortante. Mas na verdade, eu teria que inevitavelmente
correr riscos bastante sérios sozinho. O mais imediato
seria visitar a casa onde o vampiro tinha sido visto pela
última vez. Apesar da urgência, não
gostaria de enfrentar tal empreitada desarmado. Recorri
então ao que me foi possível reunir de informações,
exorcismos, objetos mágicos e um facão afiado
e rumei para a casa na tarde do dia seguinte ao enterro.
Antes disso, no entanto, entreguei uma carta para a Senhora
Ana René com todas as informações precisas
de como recuperar todo o material que eu e seu marido havíamos
coletado e que agora estava em lugar seguro, em caso de
meu desaparecimento ou morte.
Cheguei à casa por volta das quinze horas. Como
eu esperava, ninguém veio atender quando bati na
porta. Rodei a maçaneta e ela abriu-se. Entrei cuidadosamente.
Não encontrei nada do ambiente lúgubre descrito
por meu amigo. A casa estava vazia e limpa. Cheguei a relaxar
e suspirar desanimado. Meu primeiro grande erro. Um peso
enorme desabou sobre meus ombros, vindo não sei de
onde, enquanto uma gargalhada histérica ressoava
pelo ambiente. Levei alguns segundos até perceber
que era Sibila, a jovem assistente do vampiro me atacando
de surpresa. Caímos ambos ao chão e ela rolou
até o canto da sala. Levantou-se, ainda gargalhando
histericamente. Estava completamente nua e com uma força
e elasticidade fantástica! Encarei-a nos olhos, tentando
compreender o que faria a criatura em seguida. Meu segundo
grande erro.
Imediatamente fiquei fascinado por aquele olhar. Suas pupilas
negras possuíam um magnetismo irresistível,
seus olhos eram os olhos mais lindos que jamais eu tinha
visto. Ela se aproximou ondulando seu corpo macio e sorrindo
docemente. À distância de dois palmos de mim,
pude sentir o cheiro delicioso que seu corpo exalava, uma
composição extremamente excitante onde o calor
da vagina sequiosa se sobrepõe e é capaz de
eliminar qualquer traço de razão no objeto
direto de sua sede. Então ela estendeu a mão,
abriu minha camisa, retirou delicadamente o crucifixo que
eu trazia no pescoço e substituiu-o por um outro
colar que eu via desfocado como sendo de contas brancas,
pois não conseguia desviar os olhos de seu rosto.
Ela sorria. Quando as contas geladas tocaram minha pele,
senti um pouquinho de desconforto e voltei rapidamente o
olhar para o peito. Era um colar de dentes. Dentes humanos!
O choque me fez plenamente consciente por um instante e
tentei rapidamente arrancar o colar do pescoço, mas
ele não saiu. Arranquei então rapidamente
do facão da cintura e parti para cima da criatura
à minha frente. Ela havia se afastado dois passos,
uma distância ideal para mim. Vibrei violentamente
o facão em direção ao seu pescoço
e consegui acertar em cheio! A cabeça separada do
corpo rodopiou no ar e caiu rolando pelo chão, indo
parar num dos ângulos da sala. Numa fração
de segundo focalizei-a e a imagem se confundiu com a da
cabeça de peru que o Eustáquio gostava de
degolar, e eu ouvi novamente as gargalhadas de sua família
com a ejaculação sangrenta da ave bêbada.
Meu terceiro erro.
Nesta fração de segundo o corpo da mulher
correu em direção à cabeça e
suas mãos pegaram-na, levantando-a à altura
do peito e caminhando em direção a mim. Foi
então que ouvi a música. Uma música
que mexia com todo o meu ser e vibrava cada célula
de meu corpo, tornando-o cada vez mais leve. Sentia-me flutuar
ao som de acordes que jamais havia ouvido semelhantes. O
cheiro intenso da mulher parecia ter tomado a sala toda
e a única coisa que realmente passou a me importar
foi a possibilidade de me unir a ela de todas as formas
possíveis. Vi o facão ensangüentado caindo
suave e ondulantemente como uma pluma, para ser em seguida
levado pelo vento de nossos movimentos para um canto da
sala. Dançávamos separados. Ela ondulava os
quadris e fazia movimentos com aquela cabeça entre
as mãos diante do meu rosto enquanto eu rasgava minhas
próprias roupas, na pressa de acompanhá-la.
A cabeça sorria e a língua vermelha e ágil
fazia movimentos como os de uma serpente me provocando.
Finalmente ela colocou a cabeça no lugar, deitou-se
com as pernas abertas e me chamou. Meu desejo e a necessidade
dela eram mil vezes mais intensos que meus desejos de adolescente.
Neste momento pude perceber que sexualmente tinha sido um
sonâmbulo até então. Meu sexo sempre
tinha sido um lugar que quando excitado me chamava a atenção.
Agora meu sexo era minha consciência e meu coração
latejante dentro dele. Minhas pernas, meus braços
e minha boca eram apenas tentáculos como os de um
polvo que buscam avidamente o alimento para o centro faminto
e desesperado. "Vem, não tema que nada no Universo
te negará por isso!"... Saltei sobre ela e vi
meu corpo solto boiando suavemente no espaço e descendo
também vagarosamente em direção àquele
ventre que, arqueado, oscilava profundamente com a respiração
disparada pela força máxima do ato de criação
da vida. Um vórtice violentíssimo de energia
partindo da região genital tomou-me todo e comecei
a ejacular antes de qualquer contato físico com ela.
Quando nossos corpos se encontraram, vi um relâmpago
vermelho iluminar toda a sala e o rosto dela transformar-se
no rosto do Dr. Paul René. Beijei-o gulosamente,
bebendo do sangue que escorria de sua boca. Então
compreendi a fonte de energia que tinha alimentado nas últimas
horas aquele ser que naquele momento eu amava e no qual
me desintegrava. Estava num orgasmo contínuo. No
fundo da música ouvia o riso dela, enquanto seu rosto
assumiu diversas formas. Masculinas, femininas, jovens e
velhas. Depois vieram alguns animais e eu os lambia carinhosamente.
As folhas e flores eu cheirei e comi. Algumas pedras engoli.
Então ela me afastou suavemente e me girou no espaço.
Minha ejaculação contínua, bombeada
pelo coração alucinado já não
tinha tempo para as transmutações fisiológicas
e expelia diretamente um sangue vivo e brilhante. As gotas
elásticas ficavam ondulando no espaço como
se estivessem dentro d'água. Ela brincou por alguns
instantes de pescá-las com a boca, antes de tomar
meu pênis entre os lábios e sugar diretamente
na fonte. Gradativamente comecei a me esgotar e uma sonolência
suave me arrastava aos poucos para a inconsciência
total. Havia em mim um sentimento de plenitude. Quem está
pleno não precisa mais lutar. Quem está pleno
não quer mais lutar.
Suavemente então fui deixando meu corpo deslizar
em direção à superfície do espelho
negro. Quando toquei-o com os dedos, o colar no meu pescoço
rapidamente apertou o laço e os dentes compuseram
uma enorme boca em torno da minha garganta. A violência
da mordida me fez reunir as últimas forças
para tentar sair. Já era impossível. A última
coisa que ouvi ao longe foi o grito angustiado de Antoine
Didier, o terapeuta do Dr. Paul. Alguns segundos depois,
mais longínquo ainda, o berro esganiçado e
terrível da minha fantástica amante. Me perdi
na inconsciência, do outro lado do espelho negro.
9. Epílogo
Acordei alguns dias depois, no quarto de hóspedes
da viúva Ana René. Eu havia sido salvo no
último instante pelo Dr. Antoine Didier, que rapidamente
conseguiu cravar sua estaca de madeira afiadíssima
no peito de Sibila, matando-a . Ele mesmo cuidou de mim
durante esses dias críticos, em que fiquei entre
a vida e a morte. Somente agora tenho condição
de avaliar o quanto imbecil eu posso ser e efetivamente
o sou. Na verdade eu não tinha condição
nenhuma de penetrar nos subterrâneos que temerária
e inconseqüentemente enfrentei. Bastante evidente ficou
que nem mesmo os fantasmas de meu próprio inconsciente
eu tenho suficientemente sob controle. No entanto, ter passado
por isto tudo foi realmente a experiência mais significativa
e determinante de minha vida. Na verdade, agora eu conheço
o meu destino e estou muito orgulhoso dele.
Quando eu soube da rede maligna que se espalha sobre a
face da Terra e que perpetua mostruosidades como a existência
de seres como os vampiros, fiquei bastante chocado e deprimido.
Imaginava que as populações então estariam
à mercê dos caprichos dessas feras. Mas agora
eu tenho certeza de que existe um outro movimento contrário
a essa rede, disposto a enfrentá-la até a
consumação dos séculos. Este documento,
do qual eu fui mais que tudo um organizador e redator estará
pronto em breve. Rogo a Deus e todas as forças do
Bem que o protejam para que não se perca ou seja
destruído pelos Homens de Negro. Pois isso quase
aconteceu!!!
Se eu não tivesse me interessado pelo assunto, o
Dr. Paul René teria sido mais uma vítima anônima
deles e seu trabalho teria sido em vão. Tudo farei
para passar adiante esta tocha e espero que ela ilumine
muitos caminhos. É preciso que haja acesso às
informações, para que novas consciências
se despertem. O vampirismo é um fenômeno universal
inerente à própria natureza. Pela experiência
que tive, creio que ele seja principalmente a essência
da Desordem do Universo. Ou de uma nova Ordem... O trabalho
de combatê-lo, no entanto, nos dará sobretudo
o direito de conhecê-lo cada vez melhor. O futuro
dirá o quanto erramos ou acertamos. Assim poderemos
escolher nossos caminhos.
Um último lembrete: o monge NICHOLAS JACQUIER continua
vivo o suficiente para sugar o seu sangue. Os que viram
o seu rosto e poderiam identificá-lo estão
todos mortos.
Quanto a mim, por uma questão de extemporaneidade,
tenho que me preparar a partir de agora para o Suicídio
Ritual preconizado por Cornelius Agrippa. Acabo de pegar
os resultados de meu exame de sangue e dividir o número
global de leucócitos pelo número do percentual
de hematócritos.
EXAMES HEMATOLÓGICOS NO SANGUE
Nome: Flamínio de Luna
Indicação do Dr.: Antonius Tricordis
Hemácias ................................ 4.300.000
...........p/mmc
Hemoglobina ..................................13,00 ...........g/dl
Hematócrito ....................................
33 ............%
Volume corpuscular médio .............. 91 ............
uc.
Hemoglobina corp. média .................. 31 .............yy
Hemossedimentação 30 min ..... w ............
mm
Westergren 60 min ..... w ........... mm
Reticulócitos ........................................
w ........... % ou mm
Plaquetas (contagem direta) ................ w ............p/mmc
Global de leucócitos ................... 21.978 .............p/mmc
DIFERENCIAL DE LEUCÓCITOS .... % ............p/mmc
Neutrófilos
Promielócitos ........................................
28 ............ 1984
Mielócitos .............................................
15 ...............778
Metamielócitos ......................................
19 .............1344
Bastonetes ..............................................
00 ................00
Segmentados ......................................... 27
.............1872
Eosinófilos .............................................
02 ................55
Basófilos ................................................
00 ................00
Linfócitos ................................................28
............ 3877
Monócritos ..............................................02
................ 97
21.978 / 33 = 666
Fim
TEXTO EXTRA
Sexo, Sangue e Vampirismo.
Como identificar um Vampiro numa relação sexual
Por Toninho Buda, 27 janeiro 1986.
Qualquer relação sexual é altamente
sangüínea, ou seja, tem íntima relação
com a presença e função do sangue no
organismo. Nos sres humanos normais, os dois centros principais
relacionados com a função sexual são
os órgãos sexuais e o coração
(por sua relação com o sentimento e com o
sangue). Já nos vampiros, a relação
sexual é muito mais centrada no estômago e
no cérebro. Um vampiro nunca perde a cabeça
numa relação sexual e seu objetivo é
sempre encher o estômago de sangue. Os órgãos
sexuais do vampiro numa relação sexual são
secundários. E ele pode até se esquecer deles.
Por isso, um dos sintomas de que o parceiro sexual é
um vampiro é a ausência de movimento na pélvis.
No entanto, a arte de representar e enganar é a
base de sobrevivência dos vampiros e, por isso, eles
podem fingir estar vivendo todos os detalhes de uma relação
sexual com um grande grau de fidelidade ao real. Nesses
casos, é preciso um grande grau de sensibilidade
para perceber onde está a diferença dele para
uma pessoa normal. Além do mais, a conclusão
nunca deve ser tirada a partir somente de um dado, mas de
pelo menos oito a dez itens dos que iremos fornecer. E só
forneceremos alguns, pois não pretendemos apresentar
um tratado sobre o assunto. No entanto, mesmo assim, uma
pessoa que não é um vampiro pode apresentar
dez sintomas de que o seja. É muitíssimo raro.
Mas nesses casos a pessoa é um vampiro e não
sabe, ou então tem tudo para ser e só falta
acontecer...
Podemos partir do princípio de que, numa relação
sexual, a mulher é mais receptora e o homem é
mais doador. No entanto, um vampiro é quase sempre
passivo na relação, quer sempre ficar deitado,
quer sempre ficar por baixo. Normalmente se mostram extremamente
carinhosos e sedutores, nunca agressivos e masculinos no
sentido mais brutal do macho. São extremamente vaidosos,
gostam de atenção e de se sentirem mais capazes
do que os seres mais vivos. No entanto, nas preliminares
da relação sexual propriamente dita, podem
preferir ficar falando de crimes e mortes violentas onde
tenha havido abundante presença de sangue, do que
falar de assuntos românticos. Um detalhe comum a todos
os vampiros: ficam o tempo todo querendo saber que horas
são... Por isso, mesmo que fiquem completamente nus,
jamais tiram o relógio do pulso. Se o relógio
é de bolso, ficam com ele na mão (esquerda).
Normalmente insistem em tomar banho quente antes da relação
sexual, para aquecer o corpo, que normalmente é gelado,
e para tirar o cheiro de mofo insuportável que normalmente
trazem dos lugares onde repousam.
Vejamos agora algumas características dos vampiros
de sexo originalmente masculino. Como já dissemos
anteriormente, um vampiro não se emociona numa relação
sexual. Nos homens normais, se o pênis endurece, o
coração amolece. A ocasião é
então propícia para que a parceira peça
as coisas mais impossíveis. Mas vampiro não
amolece o coração. Se ele disser não
antes, dirá não durante. O pênis e o
escroto dos vampiros são frios, mesmo que o pênis
esteja ereto. Se ele se deita de barriga para cima e fica
em repouso, os testículos não se movimentam,
como acontece com os homens normais. E a pele da glande
do pênis dos vampiros não fica brilhante quando
ele está em ereção. O pênis dos
vampiros, além de frio é extremamente absorvente
de energia, capaz de resfriar qualquer organismo no qual
penetre. Numa relação anal, por exemplo, a
pessoa que recebe um pênis de vampiro sentirá
rapidamente um frio na barriga, não necessariamente
de emoção...
Quanto aos vampiros de sexo originalmente feminino, temos
a ressaltar também algumas características
bastante significativas. Têm vagina fria, de cor arroxeada,
seca e flácida, com tendência a esfolar o pênis
que a penetre, e não se fechar quando o mesmo é
retirado. Normalmente também não aceitam relação
anal, devido à pouquíssima flexibilidade dos
músculos da região anal (que passa, às
vezes, anos e anos sem ser utilizado) e ao alto grau de
putrefação interna, pois só se alimentam
com sangue e não comem verduras e legumes que são
desintoxicantes dos intestinos. Os vampiros femininos também
têm uma tendência irresistível de morder
o pênis durante o sexo oral e podem até amputa-lo
de uma dentada.
Para evitar cair nas garras de um vampiro, basicamente
também não escolha parceiros sexuais entre
desconhecidos (principalmente à noite), estrangeiros
(principalmente europeus), pessoas de hábitos noturnos,
pessoas afeitas a morcegos ou mesmo carrapatos e pernilongos,
pessoas excessivamente bondosas e principalmente pessoas
interessadas em lhes orientar e esclarecer sobre o assunto
"VAMPIRISMO"...