LIVROS

MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO

ATENÇÃO – VEJA AQUI E AGORA O TEXTO INTEGRAL DO LIVRO “MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO”, inclusive com os textos introdutórios de Toninho Buda e a cópia de uma carta que ele escreveu para Paulo Coelho na época. O texto foi revisado e corrigido. Na edição de 1986, feita às pressas, devido a um erro de diagramação, o final havia ficado totalmente incompreensível.


MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO
Textos de Toninho Buda – 1986

Este livro Toninho Buda escreveu para Paulo Coelho, a pedido do escritor, em 1986. Toninho escreveu as partes mais importantes do livro, ou seja, a PRIMEIRA e a QUINTA (veja as seções de cada parte no índice fornecido abaixo). E Nelson Liano Júnior escreveu a outra parte, referente a conjurações, benzeções, etc. Mas para ilustrar bem o período em que foi escrito, anexamos a seguir a carta que Toninho Buda escreveu para Paulo Coelho quando estava terminando o texto e também um depoimento de Toninho Buda chamado Na Lua Cheia de Janeiro de 1986.

A CARTA
Juiz de Fora, 2a feira, 27 de janeiro de 1986
Caro Amigo Paulo Coelho

Neste exato momento acabo de redigir a parte principal do que eu tinha que escrever do MANUAL DO VAMPIRISMO. Sabe o que eu fiz? Peguei alguns dos ítens que tinha que desenvolver e montei um enredo. Achei a idéia interessante, porque ouvi você falar que teria que montar um argumento de como o documento teria sido encontrado. Aí então eu fiz uma história com diversos personagens. Foi uma coisa que curti muito fazer, pois a situação reúne elementos que me são extremamente queridos. Pessoas queridas, assunto que adoro (pude pegar e rebuscar todo o meu arquivo mágico/misterioso) e um tema da pesada. Tentei fazer uma trama que poderia Ter se desenrolado do século passado para cá. Sei que você me disse que queria que fosse na Renascença ou finalzinho da Idade Média, mas a loucura geral dos personagens é tão grande que se viaja o tempo todo no espaço e no tempo.

A experiência para mim foi ótima. Entrei Sexta feira à noite num isolamento total por 3 dias consecutivos. De 21:00hs de 6a feira até agora, meio dia de Segunda feira. Curiosamente, peguei os dias de plenilúnio, ou seja, máxima lua cheia. Datilografei direto, sem rascunho (também não havia tempo para ser diferente). Só parei para comer alguma coisa ligeira e dormir algumas horas. Parece que o texto já estava em minha cabeça. Eu não inventei quase nada. Apenas ficava tentando “me lembrar” de como as coisas aconteceram. Não estou mistificando. É que levei a coisa a sério. Talvez um tanto demais. Você sabe que esse negócio de seriedade é tão artificial quanto a mentira. É uma questão de embarcar... Ou será que não? Mas o texto está aí. Espero que você goste. Fiz o melhor que pude (esta é uma frase obscena! Fica parecendo que estou pedindo o reconhecimento do meu esforço...).

O texto do início (Na Lua Cheia de Janeiro) é apenas um registro que fiz do momento que estava vivendo. Não é para ser publicado (eu sei que nosso trato não inclui meu nome na obra maligna. Mas este texto é TODO REAL, aconteceu mesmo). O padre Nicholas Jacquier é personagem real. Era inquisidor na França e não se tem notícia de como ele morreu... Ou SE morreu... Mas matar, ele matou muitas pessoas...

Como sugestão apenas, eu dividiria a obra em duas partes: a primeira seria este conto, que é o documento deixado por Flamínio de Luna. A Segunda parte seria o MANUAL PRÁTICO, deixado também por Flamínio, mas que contém o material coletado pelo Dr. Paul René (mais, evidentemente, todo o material que foi escrito pelo Nelson Liano e o que eu ainda vou preparar, que são as partes que envolvem sexo, casas, duelos de poder entre as casas, etc). E você que se vire para dizer como isso tudo veio parar nas tuas mãos!!!

Vou tentar falar com você por telefone. Se não conseguir, ficamos assim: na próxima Quarta feira estarei no Rio. Estou mergulhado no resto. Hiáááá! Vampiro!

Toninho Flamínio de Buda Luna

O TEXTO QUE REGISTRA O MOMENTO DE TONINHO BUDA AO ESCREVER O LIVRO

Na Lua Cheia de Janeiro de 1986

O suor ainda me escorre pelo rosto e tenho a me envolver o cheiro morno e gostoso que me sobe das axilas. Acabo de correr durante uma hora pelas estradas de chão, no meio do mato iluminado pela lua cheia, num céu límpido e povoado de estrelas. Estou num sítio, perto de um vilarejo na região de Juiz de Fora, MG.

Quando me preparava para correr, encontrei dois velhinhos à beira da estrada e um deles me perguntou até onde eu iria correndo. “Até no asfalto”, respondi. Então ele comentou “São mais de 5 quilômetros. Não faço um sacrifício desses nem que me paguem 10 milhões”. Ao que o outro contrapôs, mais otimista? “Pois eu daria 10 milhões para agüentar correr esse pedaço de chão”.

Depois dessa conversa, eu saí correndo e ainda encontrei o Claír, que sempre grita quando me vê “Hê, lá vai, hein, grilo! Tô gostando de vê o aperparo”. “Grilo é a sua mãe!”, eu ainda penso, antes de mergulhar na solidão do cenário fantástico e azulado da estrada prateada pela lua e se perdendo na escuridão. Hoje é Sexta feira, dia 24 de janeiro de 1986.

Eu vim para cá em busca do clima para falar de vampiros, a pedido do meu amigo Paulo Coelho. Enquanto penso no assunto, vou fungando como uma locomotiva o ar já fresquinho da noite, até que depois de uma curva dou de cara com o disco brilhante no horizonte e um arrepio me percorre o corpo todo. Vampiro! E neste exato momento, escuto o arranhar ainda mais arrepiante das garras de um cachorro nervoso no chão seco e duro do leito da estrada, ao arrancar velozmente em direção aos meus calcanhares, rosnando e latindo.

Como os cães ficam excitados nas noites de lua cheia de verão! Levo um susto e experimento um clima de empatia com a fera e começo a ladrar também, avançando para cima daquela massa negra e nervosa, que se apavora e corre. Minha satisfação em latir é muito grande. Me toma. E eu uivo pela estrada afora. Uivo para a lua. Sozinho, correndo, animal na noite escura, suando e gemendo. Estou vivo. E esta plena consciência diante da lua me faz buscar subitamente o lado do poente, onde tudo é escuridão e alguns relâmpagos longínquos prenunciam uma tempestade para daqui a algumas horas.

Então me bate uma certeza: eu também não quero morrer! Eu também quereria podr continuar correndo e uivando como um cão, lobo ou cavalo. Mas daqui a alguns dias, é provável que eu também diga “daria 10 milhões para agüentar correr”. Lembra dos dois velhinhos? O segundo velhinho é mais vampiro. Vampiro é otimista. No entanto, é preciso encarar mais este espelho. Só que este espelho é negro. Mas daqui a três noites, neste plenilúnio de janeiro, tudo estará consumado.


Toninho Buda
(Flamínio de Luna)


Vejamos agora o índice dos textos escritos por Toninho Buda para o livro Manual Prático do Vampirismo, e em seguida os próprios textos. Lembramos que a parte extra (no final do texto), e que se chama Como reconhecer um vampiro numa relação sexual, foi também escrita por Toninho, mas não era para ser publicada. Mesmo assim os editores resolveram publicá-la na primeira e única edição do livro.



ÍNDICE GERAL DO MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO

PRIMEIRA PARTE – O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU
(O Depoimento de Flamínio de Luna)

I – DAS ORIGENS DO VAMPIRISMO
II – O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU
III – AS PRINCIPAIS DINASTIAS DE VAMPIROS
1. O Ramo Britânico – O Cristianismo Esotérico na Távola Redonda
2. O Ramo Germânico
2.a - Os Alquimistas Fausto e Göethe
2.b - Vampirismo e Nazismo
3. O Ramo Francês
4. O Ramo Espanhol
5. O Ramo Romeno
6. O Ramo Itálico – Um Pouco de História

QUINTA PARTE – O ESTRANHO CASO DE MATA HULM
(Parte final do Dramático Depoimento de Flamínio de Luna)

1. Numa cidadezinha da Espanha
2. L’Autrec Laboratoires
3. Um indício desconcertante
4. Boa noite, Dr. Paul René
5. Do Estranho caso de Mata Hulm
6. O demônio está aqui!
7. Similia Similibus Curantur
8. Diante do Espelho Negro
9. Epílogo

PARTE EXTRA:
(NA) TERCEIRA PARTE
Sexo, Sangue e Vampirismo. Ou de como identificar um vampiro numa relação sexual.

Vamos então aos textos

PRIMEIRA PARTE – O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU
(O Depoimento de Flamínio de Luna)


I. DAS ORIGENS DO VAMPIRISMO

Todas as Mitologias e grandes religiões concordam que a bipolaridade energética é uma constante no Universo. Sempre que existir o Bem, existirá também o Mal. Para os Gregos, no princípio era o Caos, o Ovo Primordial. Este Ovo dividiu-se em dois seguindo uma força ordenadora, Eros, formando o Céu e a Terra. Eros é a virtude atrativa que leva as coisas a se juntarem, criando a Vida. É uma força fundamental do mundo. Assegura não somente a continuidade das espécies, como a coesão interna do Cosmos. No entanto, a mesma Nuit que gerou a Terra, gerou também Tánatos - a Morte. Vida e Morte desde então são duas coisas inseparáveis para todo o sempre.

O sangue é um dos símbolos da Vida. A nossa Cultura, que é gerida no aspecto religioso pela força do Cristianismo, tem no Sangue de Cristo a grande fonte de energia que move a roda de seu destino. Tomemos o relato de S. Marcos (Cap. 14 Vs. 22 a 25) "Durante a refeição, Jesus tomou o pão e, depois de o benzer, partiu-o e deu-lho, dizendo: "Tomai, isto é meu corpo". Em seguida, tomou o cálice, deu graças e apresentou-lho, e todos dele beberam. E disse-lhe: "Este é o meu sangue, o sangue da Aliança que será derramado por muitos. Em verdade vos digo, já não beberei do fruto da videira até aquele dia, em que o beberei de novo no reino de Deus". Judas era um dos que estavam sentados à mesa. Assim como Pedro, que viria a negá-lo mais tarde, com medo da morte. Porque? Porque a morte é o grande segredo de tudo. Tanto é que a essência da transmutação ensinada por Jesus está exatamente na Ressurreição. Mas para ressurgir, é necessário que se morra antes. E na ausência cósmica do Sermão da Montanha está a direção a ser seguida por aqueles que querem tomar a própria cruz e segui-lo.

E os Vampiros? Os vampiros não querem nem uma coisa nem outra. Eles não querem nem morrer, nem obedecer a nenhum sermão e muito menos carregar qualquer tipo de cruz. Preferem continuar fazendo tudo para manter um estado de morte parcial e ressurreição parcial, alimentando-se com sangue humano mesmo, evidentemente de muito pior qualidade...

Diz a tradição que os primeiros vampiros surgiram entre os suicidas e os criminosos condenados à morte. Ou seja, pessoas que de uma forma ou de outra tiveram seu período normal de vida interrompido brusca e violentamente. Principalmente os suicidas que se arrependeram do ato quando já não havia mais tempo de voltar atrás. E tanto os suicidas quanto os criminosos eram condenados também pelo Cristianismo. Mesmo que recebessem extrema-unção, depois de mortos não poderiam passar pela Igreja e não poderiam se enterrados em "campo santo" (normalmente os cemitérios ficavam ao lado das igrejas e eram controlados por elas. Os padres eram enterrados dentro das igrejas). Segundo a tradição, a revolta contra essa marginalização, a vontade de voltar a viver e o medo de ir para o inferno criavam uma força suficientemente capaz de fazer com que esses seres não se decompusessem, não morressem totalmente e se levantassem do túmulo, à noite, por muitos motivos. Um deles é que os homens são animais de hábitos normalmente diurnos...

Mesmo assim, mesmo se protegendo na escuridão da noite e se alimentando do sangue apenas de animais domésticos e selvagens, qualquer vampiro estava condenado à extinção se não criasse condições de sobre(semi)vivência. Daí que a primeira providência instintiva de qualquer vampiro era arrumar pessoas que pudessem ajuda-lo a manter-se. Mas mesmo assim, o levante das populações enfurecidas era um perigo insuperável, com o passar do tempo. Só subsistiram ao vampiros de famílias altamente poderosas e influentes. Começaram a aparecer no final do Séc. XVI e se multiplicavam enormemente numa furiosa atividade nos séculos XVII e XVIII, principalmente nos países europeus onde era mais intenso o fervor religioso. Como já argumentamos anteriormente, esse fervor religioso inevitavelmente geraria suas grandes histórias e contradições. A Alemanha foi o país que mais sofreu com a presença dos vampiros e existem ali até hoje muitos tratados eruditos buscando a compreensão de suas atividades e a cura para seus males. No entanto, apesar da Alemanha ter tido o maior número de vítimas fatais desses seres malignos, foi na Inglaterra que surgiram os mais famosos e influentes vampiros, bem como as linhagens politicamente mais fortes e poderosas. Curiosamente, para confirmar a existência contínua da bipolaridade, foi também na Inglaterra que surgiram os maiores inimigos dos vampiros. Bem como na França e na Espanha, em menor proporção.

No entanto, temos fortes razões para crer também que estas linhagens não se extinguiram até hoje. Pelo contrário, se tornaram altamente sofisticadas e suas alianças com os poderes existentes os tornaram praticamente imunes à destruição. Não podemos esquecer que, além do poder econômico, as linhagens de vampiros que conseguiram sobreviver têm ainda a oferecer aos poderes constituídos os grandes segredos de como manter pessoas - e inclusive populações inteiras - em estado de semi-letargia e inconsciência. Os vampiros são especialistas competentíssimos na arte de criar, educar e manter mortos-vivos.


II. O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU

As informações que forneceremos agora são da mais profunda significação e importância para aqueles que se interessam pelo assunto e que queiram compreender de uma forma muito mais ampla fatos históricos que deixaram atônita e desamparada toda a humanidade. Esperamos que estas informações consigam atingir o grande público, pois muitos foram os que heroicamente deram suas vidas para tentar publica-las. Elas não pretendem ser um tratado erudito sobre o assunto, mas sim fornecer indicadores seguros para aqueles que estejam na linha de frente desta luta e ao mesmo tempo dar condições de defesa aos leigos e menos informados. Vamos falar do GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU, a estruturação de forças dos vampiros na Europa dos séculos XVII e XVIII, destinada a criar as bases de seu desenvolvimento e poderio em direção ao DOMÍNIO DO PLANETA.

A forma escolhida por eles - o PENTAGRAMA - tem sua razão de ser. As pessoas familiarizadas com o ocultismo sabem que o Pentagrama (Estrela de Cinco Pontas) é o símbolo do Ser Humano, ou seja, o Homem de braços e pernas abertos. No entanto, quando esse homem é colocado de cabeça para baixo, nós temos neste pentagrama invertido a figura do bode, com sua barbicha, as duas orelhas e os dois chifres. O bode passou a representar o diabo, a partir de um determinado momento histórico. No princípio ele era PAN, o deus da música e da flauta, dos gregos... Mas isso é uma outra história, da qual um dia gostaríamos de ter oportunidade de falar. Certo é que o Grande Pentagrama Europeu é invertido, tem sua ponta inferior (a barbicha) em Londres e seu eixo vertical é a linha reta que une Londres a Jerusalém! Os motivos são óbvios, para qualquer pessoa que consulte o mapa a seguir. Em Jerusalém nasceu Jesus, a grande Energia que os vampiros odeiam e lutam por destruir e neutralizar. As outras pontas do pentagrama são as cidades de Berlim, Madri, Bucareste e Palermo. Paris e Roma também se encontram na área coberta pela estrela nefasta. Nestas cidades foram criados núcleos de força dos vampiros. Estes núcleos atuam de forma poderosa, utilizando todos os meios possíveis à disposição. Desde forças políticas quanto econômicas, mágicas, científicas, cósmicas, religiosas, etc. Na Itália, a cidade escolhida foi Palermo, ao invés de Roma, pois em Roma seria impossível a manutenção de um núcleo por muito tempo... Madri é capaz de captar energias da Espanha e Portugal e Londres é capaz de captar a Escócia, Irlanda e suas ilhas.

O GRANDE PENTAGRAMA EUROPEU continua vibrando energias para a Terra até hoje. Sua influência oscila bastante ao longo dos anos. Atualmente estamos em um período de relativa calmaria. Mas o futuro é imprevisível.

III. AS PRINCIPAIS DINASTIAS DE VAMPIROS

Para a constituição do Grande Pentagrama Europeu, reuniram forças principalmente as dinastias de seis ramos principais: Britânico, Germânico, Francês, Espanhol, Romeno e Itálico. Os mais fortes, evidentemente, foram o Britânico e o Germânico. Falaremos um pouco de cada um deles, bem como das principais forças que apareceram para combatê-los. Evidentemente que o PENTAGRAMA sofreu com profundas LUTAS INTERNAS. Principalmente entre Londres e Berlim. A nível político mundial, o pentagrama pode ser tomado como Londres e Berlim ocupando as pontas dos dois "chifres" do bode. Nessas condições, Roma ocupa a "barbicha". Bucareste, na Romênia, capta energias da Rússia. Mas passemos aos Ramos de Dinastias.

1. O Ramo Britânico – O Cristianismo Esotérico na Távola Redonda

O ramo britânico constituiu-se principalmente de quatro dinastias: Von Born (Transilvânia), Birmingham (Lancashire), Kingsford (Manchester) e Mc Bell (Londres). À dinastia Von Born, da Transilvânia, pertenceu um grande amigo de Mozart, Ignaz Von Born, nascido em Karlsburg em 1742 e morto em Viena em 1791. Não era um vampiro. Pelo contrário, trabalhou profundamente contra a proliferação desses seres. Só mais tarde veio a saber que seu primo Theodore Von Born o era. Ele próprio se encarregou de eliminá-lo. O vampiro mais famoso dessa linhagem foi o Conde Charles von Born, identificado como tal e morto em 7 de julho de 1815.

O Cristianismo Esotérico na Távola Redonda

A maior e mais antiga força de combate ao vampirismo na Inglaterra surgiu com o Cristianismo Esotérico presente nos escudos de armas da Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda, que cultivava a lenda do SANTO GRAAL, que conteria o Sangue de Cristo. O maior sonho de grandes vampiros foi a descoberta e destruição do Santo Graal. É a lenda (?) mais importante da Inglaterra. O Rei Artur teria existido na primeira metade do séc. VI, na região de Windsor.

Outro grande combatente do vampirismo na Inglaterra foi o astrólogo, alquimista e historiador Elias Ashmole (1617/1692), figadal inimigo da dinastia dos Mc Bell. Ocupou vários cargos públicos na corte de Carlos II. Editou um tratado alquímico chamado The Waiss to Bliss (1658), onde cita fórmulas de neutralizar a força dos vampiros.

Não poderíamos deixar de citar também o Barão de Verulam, (1561/1626) também conhecido como FRANCIS BACON, considerado antecessor direto de Newton e Galileu. É possível que tenha sido Rosenkreutz, o Conde de S. Germain e uma grande controvérsia ainda existe para provar se ele realmente escreveu ou não os dramas de Shakespeare. Ao perseguir elementos da dinastia de vampiros Birmingham foi vítima de uma manobra política e acusado de peculato (desvio de verbas) tendo que abandonar o cargo e interromper sua luta. Ocupa o cargo de Lorde-Chanceler na Suprema Magistratura.

Se Francis Bacon realmente foi o mesmo Conde de Saint Germain, não nos cabe afirmar. Certo é que o "Príncepe Rakoczy da Transilvânia" ou Conde de Saint Germain (1710/1784) foi a mais preeminente figura do ocultismo ocidental. Está cercado de um halo de lenda e mistério. É considerado um "homem que nunca morre". É provavel que seja o ser humano atualmente em atividade na face do planeta que realmente tenha entendido a essência da mensagem Crística e a tenha colocado em prática, dominando a morte de uma forma completamente oposta aos vampiros. A lenda lhe atribui vários séculos de idade. Onde quer que apareça, promove curas e possui faculdades paranormais além de qualquer coisa conhecida. Como grande ativista da Sociedade Branca consagrou-se ao progresso e elevação da humanidade.

Mais recentemente, Annie Besant (1847/1933) dedicou grande parte de sua obra ao esclarecimento de como enfrentar o vampirismo. Ela é continuadora da obra de Helena Blavastky e seria uma das reencarnações de Giordano Bruno. Sua profunda relação com a Índia trouxe consideráveis esclarecimentos ao problema dos mortos vivos com os estudos feitos junto a grandes faquires como Thara Bey. Thara Bey era egípcio e membro da seita dos coptas cristãos. Estudou medicina em Constantinopla. A Sociedade Teosófica, foi fundada por Helena Blavatsk em 17 de novembro de 1875.

Entre os mais influentes vampiros estão o Visconde Dicson Birmingham, que chegou a pertencer à Maçonaria Inglesa e foi morto em março de 1793, e o Barão Aurelius Kingsford - um dos autores da manobra para neutralizar Francis Bacon. Aurelius Kingsford desapareceu sem deixar rastros, após ser identificado publicamente como vampiro.

2. O Ramo Germânico

As duas principais dinastias germânicas são o Emmerich (Stuttgart) e Haushoffer (Berlim). O maior dos antigos vampiros alemães chamava-se Johhan Valentinus Andreae (Wurtemberg 1586, Stuttgart 1654). Pertence à dinastia dos Emmerich. Foi diácono luterano em Vaihingen (1614) e superintendente da cidade de Kawl, cargo que teve que abandonar por causa da Guerra dos Trinta Anos. Introduziu grande confusão nos debates rosacruzes da época. Pertencia à Ordem e politicamente era necessário a seus interesses que ela se desorientasse. Escreveu "Turis Babel Sive Judiciorum de Fraternitate Rosae-Crucis Chaos", relativa aos julgamentos sobre a fraternidade. Tudo indica que a egrégora da Ordem conseguiu elimina-lo para sempre da face do planeta.

Da linhagem antiga da dinastia Haushoffer, o maior representante é, sem dúvida o Conde Benedict Carpzov Haushoffer (Wittenberg 1595, Leipzig 1666). Curiosamente é o autor do Maleus Maleficarum dos protestantes, chamado "Practica Nova Imperialis Saxonica Rerum Criminalum (1635). Suas obras exerceram grande influência nos processos de bruxaria e firmou milhares de sentenças de morte. Alimentava-se tranquilamente do sangue de suas vítimas, acobertado pelo cargo público; pois era Chanceler Privado em Dresde e membro da faculdade de jurisconsultos de Leipzing.

2.a - Os Alquimistas Fausto e Goethe

Fausto - o personagem que inspirou Goethe a escrever a obra prima da Cultura Alemã - teve existência real. Foi um mago do Séc. XVI famoso na lenda e na literatura. Existem provas suficientes de sua existência através de citações de J. Trithemius (1462/1516), K. Mudt (1513) e J. Wierus (1515/1588), que falam dele desdenhosamente, tratando-o como charlatão. J. Gast, no entanto, em seus "Sermones Convivales" (1543), atribuiu-lhe poderes sobrenaturais. Era astrólogo, alquimista, quiromante e advinho. Sua história foi contada 30 vezes antes de Goethe, em forma de romance de cordel. Somente Goethe conseguiu conferir-lhe universalidade suficiente para torna-la um dos grandes mitos universais eternos, símbolos da inquietude e ambições humanas. Já Goethe foi um dos maiores poetas líricos da humanidade e um dos grandes gênios de todos os tempos, ao lado de Da Vinci, Galileu e Kepler. Filiou-se à Maçonaria em Weimar em 1780. Nasceu em 1749. A vida de ambos - Fausto e Goethe - é uma mistura de ficção e realidade, onde um pacto de sangue com o demônio em troca da juventude (motivo central da obra "Fausto") é o arquétipo que representa a essência do desejo de qualquer vampiro. Cabe a Mefistófeles decidir se concede ou não o privilégio. Este detalhe é importante: um vampiro não tem nunca um poder como o de Mefistófeles. Apesar de poder pactuar com ele, como qualquer ser humano...

2.b - Vampirismo e Nazismo

À dinastia Haushoffer pertenceu também o General e ocultista alemão Karl Haushoffer (1869/1946). Foi iniciado numa lamaseira Tibetana. Defendia a tese segundo a qual a raça indo-germânica asseguraria a permanência e grandeza do mundo. Foi apresentado a Hitler por R. Hess e teve atuação marcante na implantação das doutrinas esotéricas nazistas. Foi o diretor do grupo ocultista Thulé e instituiu a CRUZ SUÁSTICA como emblema do regime. Foi discípulo direto de Gurdjieff e o apresentou a Hitler. Assassinou a própria esposa em circunstâncias misteriosas em 1946, desaparecendo em seguida...

O sucessor do vampiro Karl Haushoffer no grupo Thulé foi Hanussen, misterioso ocultista que desempenhou um importante papel no Terceiro Reich. Teria sido um emigrante judeu que se instalou de forma meteórica entre a elite berlinense. Dirigiu sessões públicas de hipnotismo e telepatia. Ao grupo Thulé, dirigido por ele, pertenciam Hitler, Himmler, Goering e outras autoridades nazistas. Desapareceu em 1933, deixando notáveis contribuições para o regime. Na área política contribuiu com técnicas de propaganda subliminar e hipnótica. Na área da alimentação, com a transformação e conservação de sangue e carne humanas para enlatados.

3. O Ramo Francês

O notável cientista e biólogo francês Alexis Carrel (1873/1944) também tratou da conservação de tecidos humanos, mas de uma forma completamente diferente dos nazistas. Fez culturas de tecidos VIVOS fora do corpo humano, criou o primeiro coração artificial e implantou o fluido Carrel-Dakin para o tratamento de ferimentos. Sua obra mais importante chama-se "O Homem, Esse Desconhecido".

As duas principais dinastias de vampiros franceses são De Rais (Nantes) e Du Fleur (Paris). O mais famoso representante da dinastia De Rais é o militar Barão Gilles de Rais, eleito para acompanhar Joana D'Arc a Orleans, participou de várias batalhas ao lado dela. Possuía grande fortuna, mas recorreu à alquimia para tentar mantê-la quando começou a empobrecer. Nisso conheceu vários nigromantes e mergulhou na magia negra. Em 1440 respondeu a processos por diversos assassinatos e confessou ter matado mais de cem rapazes em rituais macabros, onde, entre outras coisas, lhes bebia o sangue. É o mais famoso vampiro da história da França. Da dinastia Du Fleur o maior representante é o conde Antoine Du Fleur (1521/...). Chegou a ocupar o cargo de procurador-geral na corte de Charles IX. Co-participou do grande massacre da Noite de S. Bartolomeu. Diz a tradição que preferia o sangue de recém-nascidos ainda não batizados, o que conseguia através muitas vezes da violência. Matou centenas de crianças para sugar-lhes o sangue. Era apoiado pelo rei Charles IX (1550/1574), que ocupou o trono da França de 1560 até a morte. O rei mantinha no Louvre uma escola de nigromancia e após ter comandado o massacre de S. Bartolomeu tinha pesadelos acordado, onde via corvos com a plumagem manchada de sangue perseguindo-o...

O mais antigo personagem a combater na França os morcegos que voejavam em torno da Catedral de Notre Dame foi Jacques de Molay, morto em Paris em 1314. Foi o último grandemestre da Ordem dos Cavaleiros Templários, na qual ingressou por volta de 1265. Foi vítima de uma conspiração do Papa Clemente V e o Rei da França e terminou executado junto com outros cavaleiros templários. Existe extreita relação entre a Maçonaria e a Ordem dos Templários.

O combate astral aos vampiros na França tem como maior expressão o investigador metapsíquico e escritor Gabriel Delanne (Paris 1857/1926). Conseguiu eliminar definitivamente do plano astral o espírito vampiro de Leonora Galigai (morta em Paris em 1617), acusada de enfeitiçar Maria de Médicis. Fogueira.

4. O Ramo Espanhol

Também duas dinastias se destacam no Ramo Espanhol do Grande Pentagrama Europeu. A dos Villa Nova (Sevilha) e dos Iglesias (Madri). O grande vampiro Arnaldus de Villa Nova (1235/1313) era astrólogo, alquimista, médico e naturalista. Estudou alquimia, física, filosofia árabe e medicina em Paris. Foi perseguido pela Inquisição. Desapareceu misteriosamente quando viajava para Avinhão, a chamado de seu amigo o Papa Clemente V. Os inquisidores sabiam que se tratava de um vampiro. Suas viagens eram normalmente para contatos com outros mortos-vivos.

Amarildo Fuentes Iglesias (1355/1416) e Berthold Iglesias (1527/1577) foram também expoentes políticos em suas respectivas épocas, distantes entre si quase um século, mas dentro da mesma dinastia. Diz a tradição que o segundo - Berthold - foi um dos grandes incentivadores das touradas e chegou a sugerir outros espetáculos mais sangrentos aos governantes espanhõis. Quanto aos seus espetáculos particulares, eram particularmente sangrentos...

5. O Ramo Romeno

O núcleo de vampiros do Ramo Romeno do Grande Pentagrama Europeu conseguiu reunir representantes das dinastias Bruhesesn (Bucareste), Katterfelto (Prússia), Lobaczewski (Cracóvia, na Polônia), Nikolaievitch (Moscou) e Emmerich (Kiev, na Ucrânia). Essa grande diversidade só era (e é) possível devido ao fato de que existe para uni-las um inimigo comum. Mas essa mesma diversidade dentro de toda a estrutura do Grande Pentagrama provoca nos grandes conflitos políticos um intrincado de interesses, alianças, pactos e traições tão grande que muitas vezes uma mesma dinastia tem uma aliança com outra no mundo dos vivos e uma luta de extinção no mundo dos mortos-vivos...

6. O Ramo Itálico

O Ramo Itálico, apesar de ser o menos representativo numericamente falando, é importantíssimo no plano de forças astrais do arsenal do grande Pentagrama. Pois sua função mais importante é interferir nas emissões energéticas do Vaticano para o resto do mundo. Suas atividades em Palermo são comandadas pelo Mago e Vidente vampiro Conde Marcello Murillo de Andreas Cupertino (1204/...), primeiro vampiro da Dinastia dos Cupertino e provavelmente o mais antigo ainda em atividades no planeta. Possui profundos conhecimentos políticos e táticos e chefia ma das maiores redes de informação criminosa da terra. Tem profunda influência em todas as famílias sicilianas e continuamente assina novas alianças e pactos de ajuda mútua.

Um pouco de história

Grandes preconceitos sempre entravaram o progresso da ciência e o conhecimento humano. Nos domínios da Medicina e da Cirurgia, por exemplo, a proibição de dissecar corpos humanos era uma tradição herdada dos gregos e severamente obedecida. No entanto, esse respeito aos mortos contrastava enormemente com a facilidade com que os vivos eram torturados, assassinados e torrados nas fogueiras. Somente quando Frederico II e seus sucessores relaxaram as restrições às práticas médicas, a medicina começou a fazer alguns progressos. Na época em que Colombo descobriu a América, alguma dissecação era permitida na Itália, e o mesmo ano que viu a publicação da Teoria de Copérnico (1543) viu também a de um grande marco na história da Medicina, "A Estrutura do Corpo Humano", de André Vesalius (1514/1564), da Universidade de Pádua. Através da obra a estrura do nosso organismo era compreendida através de uma grande quantidade de ilustrações e não mais através de citações hipotéticas e absurdas de Galeno, Hipócrates ou qualquer outro autor morto há milênios.

A descoberta da circulação sabguínea por Willian Harvey (1578/1657), que estudou com Jerome Fabricius (1537/1619), o fundador da embrilogia durante o reinado de Israel, - lançou as bases da fisiologia moderna, pois é impossível compreender qualquer processo fisiológico antes de conhecer o fenômeno da circulação do sangue. Seus trabalhos foram complementados depois do aparecimento do microscópio, quando Marcelo Malpighi (1628/1694) observou a passagem das células sanguíneas pelos vasos capilares da superfície do pulmão de uma rã. E foi impossível a todos explicar a natureza da purificação do sangue pelo oxigênio aspirado pelos pulmões, até que o químico francês Antoine Lavoisier (1743/1794) explicasse a natureza da oxidação, entre 1777 e 1785.

Entretanto um progresso muito maior e uma superação de preconceitos fantásticos e insuspeitados ainda terão que ser superados até que possa vir a público e se tornar do conhecimento comum e em forma científica, as singularíssimas situações orgânicas em que a circulação do sangue possa ser estacionada por dias, meses e até séculos a fio, sem que o corpo entre em decomposição. E que esses mesmos corpos possam prescindir da respiração por completo durante esse mesmo período de tempo. Isso não poderá ser feito mais através da dissecação dos cadáveres que só fornecem informação sobre a estrutura dos corpos mas quase que nada de sua função, ou seja, a fisiologia dos processos invisíveis biológicos e psíquicos muito além da anatomia, da química e da microscopia.

Esses conhecimentos existem e são desenvolvidos há séculos, permanecendo no entanto em poder secreto de ordens iniciáticas e religiosas que as exploram de formas absolutamente insuspeitadas, enquanto o resto da humanidade padece e continua sem solução até para a simples gripe, bem como do câncer, da leucemia e outras doenças degererativas. Parece ser perfeitamente lógico que até os próprios vampiros só teríam a lucrar num intercâmbio científico comos seres normais. No entanto, mistérios muito mais profundos tornam impossíveis essa possibilidade. Mistérios que datam da criação do ser humano e talvez até da própria vida do Universo... Com vampiros não há diálogo. Apenas a luta de vida ou morte. Que nunca se esqueça disso, pois eles são extremamente ladinos e capazes de qualquer coisa para ludibriarem, vencerem e continuarem vivos.

2. "Apesar da imprensa ser do conhecimento dos chineses no sec. XI, foi efetivamente com johann Gutenberg (1398/1468) que ela se disseminou explosivamente por volta de 1456. Por volta de 1490 Veneza só possuía cerca de cem estabelecimentos gráficos, mas no final do século cerca de nove milhões de livros já haviam sido impressos e disseminados por toda a Europa. Este desenvolvimento fulminante da imprensa condenou à morte o medievalismo. Cinqüenta anos após a invenção da imprensa, a causa da reforma recebeu um novo e poderoso alento e foi precipitada com uma violência explosiva pela descoberta da América. A 3 de agosto de 1492 Colombo partia de Palos e abria um novo mundo ao pensamento humano. O pensamento medieval estava morto. O mundo penetrava nos tempos modernos, no reinado da Razão."

Há alguns anos eu escreveria o texto acima com um grau de certeza muito maior do que a que tenho hoje. Na verdade, após os acontecimentos que constituem a essência desta narrativa, não creio que o pensamento madieval tenha jamais morrido. Nem que o mundo tenha passado alguma vez por um "reinado da razão". O progresso humano tem sido sempre desarrazoado na mesma proporção. Pois como já mencionei anteriormente, a qualidade de vida das pessoas só tende a decrescer e o progresso passa a ter cada vez menor signficado prático e utilidade. Eu aprecio cada vez menos as máquinas. Por isso, à importância que delego a este documento, fiz questão de prapará-lo manuscritamente. Os grandes documentos, mesmo os mais recentes, são manuscritos. É uma tradição que quero manter. E que este manuscrito original possa ser mantido intacto mesmo depois que as cópias impressas tenham sido disseminadas e sua destruição se torne assim impossível. Sou extremamente grato a Johan Gutenberg, mas certas coisas só mãos humanas podem transmitir. Manualmente.

Darei a este documento completo o nome genérico de MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO. Ele constará basicamente de cinco partes: esta narrativa que alinhava num mesmo contexto as pessoas envolvidas e um conjunto de documentos colhidos em diversas situações e muitas vezes de autores diversos no espaço e no tempo, por mim e por meu saudoso amigo e colega Dr. Paul René, a quem dedico este trabalho.


O ESTRANHO CASO DE MATA HULM
(Parte Final do Dramático Depoimento de Flamínio de Luna)


1. Numa cidadezinha da Espanha

Este documento é uma declaração de amor. Jamais pensei que um dia pudesse ter que escrevê-lo, bem como jamais imaginei que poderia passar pelas experiências que o antecederam. Ainda não compreendo plenamente os fatos e suas relações entre si, apesar do enorme esforço de percepção a que fui obrigado a me submeter. O que consegui perceber nesse período crítico é um privilégio enorme, mas com um sacrifício de mesmas proporções. Na verdade, há muito tempo que não consigo separar as duas coisas, o prêmio e o esforço para consegui-lo. No entanto, os caprichos do destino nem sempre nos deixam escolher nossas provações. Talvez porque o Destino saiba que se deixar por nossa conta, seremos sempre condescendentes demais conosco mesmos. Gostaria de não reclamar, mas dessa vez acho que ele exagerou um pouquinho. Ninguém precisa visitar o Horror com tanta intimidade. Mas agora eu sei o que é o Amor. Amo profundamente, pessoal e individualmente. Sem teorias, mitologias e fobias. Eu sou o amor. E amo a humanidade e os seres vivos. Na clausura da individualidade de meu ser esta experiência é pessoal e intransferível. Mas posso transforma-lo em algo maravilhoso para todos. Ainda há tempo.

Espero, com tudo que a esperança pode no dar, que este meu relato ultrapasse as outras muitas clausuras e censuras e atinja a muitos. Antes de tudo, preciso falar um pouquinho de mim mesmo. As omissões são absolutamente necessárias, pois o importante é a pesquisa, a compreensão e a transformação dos fatos ocorridos e não a identificação das pessoas envolvidas. Não que sejam todas inocentes, mas um levante de populações contra essas pessoas inevitavelmente provocaria desnecessários aborrecimentos, injustiças e derramamentos de sangue. Amo o Sol e a Vida, mas não posso esquecer das trevas, das sombras e da Morte, quando elas guiam turbas enfurecidas. Meu recado é sobretudo para o que existe de melhor em cada um, para regar essa semente que só pode das bons frutos. Usarei o pseudônimo de Flamínio de Luna.

Apesar de tudo, acho que ainda posso afirmar que sou um cidadão comum. Nasci numa cidadezinha da Espanha, próxima de Barcelona. Desde novinho foi muito fácil identificar em mim um temperamento fleumático, com tudo o que isto possa Ter de virtudes e desvantagens. Mas numa criança, essa característica sempre incomoda aos adultos. Principalmente na Espanha, onde uma criança que prefira brincar sozinha, seja mais quieta e sossegada enão fale tão rápido quanto seus coleginhas, deve ter vermes em grande quantidade ou então pode acabar se tornando um adulto um tanto passivo demais. Realmente, eu preferia mais observar do que participar. Apanhei muito. Não por invadir territórios dos meus colegas de brinquedo, mas por não resistir suficiente à inovação do meu território. Vi minhas bolas de gude serem levadas sem a menor cerimônia e meu caminhãozinho amarelo ser pisoteado por um rinoceronte enfurecido, o João Batista. Para enfrentá-lo, só mesmo o Geremário, que felizmente era meu amigo. Este, admirável na sua agilidade longilínea, contrastada enormemente com Eustáquio, gordo e um tanto pachorrento. Tínhamos em comum, eu e Eustáquio, um temperamento calmo. Daí talvez nossa proximidade um tanto singular, pois eu era seu único amigo. Ele era um tipo que poder-se-ia chamar esquisito, trazia sempre o semblante um tanto carregado demais para um menino da sua idade. Tinha uma tendência a ficar deitado de bruços horas a fio, com um barbante aceso na mão direita, queimando uma por uma a fila de formiginhas que inteligentemente escolhera o canto da parede como passagem de suas tropas. Eustáquio as atacava sistematicamente com sua metralhadora de fogo. Milhares de mortos. Com as maiores, ele fazia diferente. Empalava saúvas com agulhas bem finas, fazia com que elas se degolassem com as poderosas presas em forma de tesoura. Com outros grupos de saúvas aconteciam desastres pavorosos onde muitas morriam afogadas em um balde com água, outras eram incineradas em um prédio de caixa de papelão.

Quem conseguisse se aproximar o suficiente de Eustáquio nesses movimentos de transe, poderia ouvi-lo sussurrando baixinho os gritos dos suplicados. Dali ele saía horas depois com uma cara um tanto aliviada e rescendendo a ácido fórmico. Com o passar do tempo suas vítimas foram se tornando cada vez maiores, gatos e pássaros. Até que o vi ajudando o pai a preparar um peru para a ceia de natal. Eles o embebedaram bastante e depois o soltaram no quintal. Então Eustáquio correu atrás dele com um facão afiado na mão e degolou-o de um só golpe, em movimento. A cabeça cortada mergulhou na poeira e me concentrei um segundo nela, sentindo meus próprios olhos a desagradável sensação da terra atrapalhando o piscar. O peru bêbado e acéfalo rodopiava e seu pescoço desgovernado ejaculava um caldo grosso, de um vermelho brilhante. A família ria.

De minha mãe herdei a calma e o temperamento passivo e observador. Ela tinha um pouco da imagem de Nossa Senhora e naqueles tempos elas eram prá mim quase que a mesma coisa, o mesmo sentimento, a mesma pessoa. Isso compensava a figura de meu pai, de um temperamento agressivo e autoritário. Ele se sentia bastante inferiorizado por não Ter conseguido nenhum diploma escolar e evidenciava isso de forma bastante desagradável quando suas bebedeiras o deprimiam suficientemente. Por vezes enveredava numa enfiada de maldições contra tudo e contra todos. No entanto outras vezes eu até gostava de ouvi-lo elaborar mais seu Espanhol para falar dos grandes homens, das grandes idéias políticas e das peripécias de um homem chamado Jesus. Nesses momentos seus olhos brilhavam e ele esquecia completamente sua condição de trabalhador braçal.

Ele tinha uma predileção especial pelos nomes ligados às artes médicas e sempre citava um certo Samuel Hahnemann, que teria nascido em Meissen, na Saxônia em 1755. Eu gostava de vê-lo pronunciar "Hahnemann" corrigindo a postura e carregando na primeira sílaba. Ele sempre começava "O grande Samuel Hahnemann..." e na seqüência invariável viriam Hipócrates e Paracelso, até que ele se cansasse e fosse dormir. Para mim havia um tanto de magia naquilo tudo e ficava imaginando como teria sido a vida desses homens. Hoje já sei um pouco mais de tudo deles e, por influência dos discursos etílicos do meu pai ou não, tentei seguir o mesmo caminho e acabei me tornando um farmacêutico apaixonado pela Filosofia, pela Arte e pela História do Conhecimento.

O fascínio que a natureza sempre me provocou hoje tem conteúdos bem mais elaborados intelectualmente. Mas perderam muito da espontaneidade original. Acho o resultado final compensador, mas sinto que jamais o cérebro superará o coração. Por mais que se conheça com técnicas sofisticadas a intimidade das plantas e o mecanismo de sua fisiologia, esse conhecimento jamais provocará em nós uma sensação mais intensa do que o cheiro fresco de uma moita de capim depois de uma tempestade. E esta experiência é tão subjetiva quanto a intuição. Na verdade a intuição me parece com o faro, em sua essência. Está acesa, mas parece não estar. A gente nunca percebe que está respirando. Só quando aparece um cheiro característico, então o respirar se torna consciente. Se for cheiro de fumaça, por exemplo, dependendo da situação, pode significar fogo dentro de casa e todo nosso ser entra em estado de alerta. Com a intuição parece acontecer a mesma coisa. Uns a têm mais apurada, outros menos. No entanto, um farmacêutico jamais pode negligenciá-la, sob pena de comprometer sua profissão. Pois a base de seu trabalho repousa no relacionamento humano. Tanto o relacionamento terapeuta/paciente quanto o relacionamento paciente/ambiente que o rodeia.

E para o desenvolvimento da intuição é necessário tornar-se um poliglota e entender cada vez mais de todas as linguagens. Desde a de um vaso de Avenca que pede água a uma cadela com crias que diz "não se aproxime" com um simples olhar. Da corcunda contraída que caracteriza o asmático à cor amarelada do rosto nos que tem problemas intestinais. Infusões de castanheiro dos Alpes e Apeninos para o primeiro e chá de sementes de abóbora para o segundo. Os feijões se parecem com os rins na forma e realmente sua relação é íntima. As folhas das plantas tem ramificações como os pulmões e realmente sua relação é íntima. Isto pode ser aprendido ou percebido intuitivamente. Mas a intuição é mais importante. O que não desmerece a escolástica. Pelo contrário. Ambos são profundamente necessários.

2. L' Autrec Laboratoires

Completei meus estudos superiores em Barcelona com grande dificuldade, como uma grande parte dos estudantes de minha época. Não podia depender do apoio de meus pais pobres, numa família com 7 filhos. No entanto, felizmente sempre encontrei amigos na mesma situação e nos incentivamos uns aos outros. Minha formatura foi um momento de glória para todos e nela tomei vinho junto com meu pai. O vinho tinha sido até então um símbolo de nosso distanciamento. 'In vino veritas'. Depois de formado, fiquei num dilema enorme para escolher para onde ir trabalhar. O pai de um de meus colegas de escola, um certo Monsieur L'Autrec havia me convidade para trabalhar em sua rede de laboratórios recentemente montada em Toulouse. Eu me sentia dividido entre trabalhar na França ou em Gibraltar, que sempre me fascinou por ser um dedo mágico que suavemente toca o Continente Africano, sendo por isso mesmo um canal fantástico de energias trocadas entre civilizações milenares. Não gostaria nunca de voltar para minha cidade. Resolvi me estabelecer em Toulouse, com o risco de me aborrecer em pouco tempo com o fato de ser um estrangeiro que mal dominava o francês. As eternas especiarias de Giblaltar eu acabaria por conseguir no mercado local, provavelmente com uma atmosfera histórica menos intensa, mas com o risco do mercado pararelo. O futuro era para mim uma aventura.

A realidade se mostrou bastante mais rotineira do que os sonhos. A L' Autrec Laboratoires era uma empresa interessada em lucros, como qualquer empresa. Apesar da afetividade que me ligava à família dos proprietários, a mecanicidade do serviço não me atraía muito. Mas eu aprendia cada vez mais e foi grande o fascínio que passaram a exercer sobre mim as inúmeras publicações e relatórios que sempre chegavam de todos os lugares. Isso cheirava a progresso e progresso estava muito na moda. Só mais tarde eu pude ir sentindo que havia qualquer coisa de profundamente errada naquele comportamento progressista. Eu entendia e lidava pouco com política, mas intuitivamente podia perceber que a qualidade de vida das pessoas não estava sendo melhorada em nada. E que quanto maior o esforço e verbas aparentemente bem empregadas em pesquisas e trabalhos científicos, progrediam apenas os índices de desnutrição e doenças degenerativas. Passei a não ver, inclusive, muito sentido no meu próprio trabalho.

O Sr. L' Autrec me confiou a chefia do laboratório de Hematologia de sua empresa, o que para um recém-formado podia ser um ótimo cargo. Mas pelo que pude observar no comportamento dos médicos, esses exames estavam contribuindo pouquíssimo na cura real das pessoas. Na verdade, mais tarde fui percebendo que a confiança nos laboratórios estava superando a confiança no próprio médico. Os médicos estavam se tornando incapazes de trabalhar sem os exames de laboratório. O grau de intuição de muitos que conheci tinha se reduzido a quase zero, a ponto de quando os exames não acusavam nada - o que é muito comum - eles ficarem sem saber o que fazer. Pude presenciar situações ridículas, onde o médico afirmava para o paciente que ele não tinha nada porque os exames não acusaram nada. E o paciente responder que tinha sim porque estava se sentindo muito mal, vomitando todo dia, incapaz de ficar de pé, etc. E mesmo assim anda continuei por alguns anos na L' Autrec Laboratoires, uma firma com centenas de vidrinhos e aparelhinhos capazes de definir o destino das pessoas muito mais do que seus próprios terapeutas ou elas próprias, mas sendo cegamente obedecida. E se tornando cada vez mais rica e poderosa para enganar-se à vontade, sem nenhum risco de punição, cerceamento ou a menor advertência.

No entanto, talvez o sentimento de impotência com relação a uma situação tão deprimente onde eu era obrigado a chefiar um trabalho inútil e muito mal aproveitado em seus resultados me fez buscar então com muito mais cuidado outras soluções mais humanas para os problemas e sofrimentos humanos. Pude então pesquisar e aprender mais com o "grande Samuel Hahnemann" de que meu pai tanto falava. Paralelamente pude tomar contato com uma enorme quantidade de humanistas, pesquisadores e estudantes da Vida no Universo, que a tradição chama de Alquimistas e Ocultistas. Conheci muitas pessoas ligadas a essas tradições e confesso que nem todas eram boas e bem intencionadas. Mas isso acontece em todos os lugares.

Nesse período meus pais vieram a falecer e eu fiquei cada vez mais afastado da minha terra natal e das plantas que tanto caracterizam a região dos Pirineus. Nunca fui um mago ou alquimista, mas o contato com seus documentos me foi muito enriquecedor. Através deles pude desenvolver de forma muito mais profunda minha visão da ciência em geral, principalmente da matemática. Gradativamente fui conseguindo uma independência cada vez maior do primeiro emprego e consegui montar uma farmácia modesta, onde passei a cultivar um círculo de amigos e clientes numa forma muito mais rica e humana. Fui então reduzindo meu período de trabalho na L'Autrec Laboratoires até poder ficar com a tarde e noite livres para minha farmácia e pesquisas individuais.

3. Um indício desconcertante

Certa manhã eu estava colocando documentos em ordem no L' Autrec Lab. Quando a gritaria de uma acalorada discussão na sala de atendimento ao público tornou meu trabalho impossível de ser realizado. Fui ver do que se tratava e encontrei uma jovem completamente descontrolada na abertura do guichê de atendimento, reclamava veementemente do tratamento que havia recebido da atendente. Segundo ela, a atendente jogara o dinheiro do troco sobre o balcão quando ela lhe estendera a mão, em vez de entregá-lo delicadamente. O tom de voz da cliente e o grau de tensão que ela transmitia em todo seu comportamento eram indicativos seguros de que ela levaria muito tempo para acalmar-se. Então convidei-a suavemente para entrar e sentar-se em meu escritório. Ela sentou-se e começou a chorar, reclamando ainda dos maus tratos recebidos. Ao sentar-se, no entanto, o exame que ela viera buscar caiu de suas mãos e eu delicadamente peguei-o no chão. Fiquei com medo de entregá-lo de volta e ela achar meu gesto "muito brusco" ou qualquer coisa parecida. Resolvi então sentar na minha mesa e esperar e esperar que a crise melhorasse. Fiquei olhando pateticamente para a folha de papel, tentando me distrair mentalmente para passar o tempo. Fui percorrendo com os olhos a relação de dados, tentando imaginar de quem seria o material colhido para aquele exame. Era um exame de sangue e trazia os seguintes resultados:

EXAMES HEMATOLÓGICOS NO SANGUE

Nome: Nicholas Jacquier
Indicação do Dr:. Paul René

Hemácias ................................ 3.300.000 .............. p/mmc
Hemoglobina .......................................13 ...............g/dl
Hematócrito ........................................ 36 ...............%
volume corpuscular médio .................. 91 ...............uc.
Hemoglobina corp. média ................... 31 ...............yy
Hemossedimentação ............................ 34 ...............%
Westergren ........................................... w ...............mm
Reticulócitos ......................................... w ..............mm
Plaquetas (cont. d reta) ......................... w ...............p/mmc
Global de leucócitos ...................... 23.976.............. p/mmc

DIFERENCIAL DE LEUCÓCITOS .... % ...............p/mmc
neutrófilos
Promielócitos ........................................ 32 ...............2048
Mielócitos ..............................................13 .................832
Metamielócitos ...................................... 21 ..............1344
Bastonetes ............................................. 00................... 00
Segmentados ..........................................12 ...............1920

Eosinófilos ..............................................01 ..................64
Basófilos ................................................ 00 ...................00
Linfócitos ............................................... 19 ...............4288
Monócitos ............................................... 02 .................128

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o elevado número global de leucócitos, 23.976. Mas a outra coisa, com relação a esse mesmo número é que ele nunca precisa ser dado com tanta precisão, já que é um número estimativo. Qualquer laboratorista teria colocado o número redondo, ou seja, 24.000. Tomei o fato como uma excentricidade do funcionário e um pouco mais abaixo na folha somei os números dos três primeiros neurófilos (promielócitos, mielócitos e metamielócitos): 32 + 13 + 21 = 66. Fiquei um pouco curioso, pois estes três neurófilos só aparecem no organismo em casos de problemas sérios no sangue, como anemia e principalmente leucemia. Não é só isso. Nos casos de leucemia eles aparecem e há evidentemente um aumento no número global de leucócitos (o mesmo que me chamou primeiro a atenção) e uma baixa do número de hematócritos (3.ª linha de dados do exame). Tomei da caneta em cima da mesa e por curiosidade dividi o número global de leucócitos pelo número de hematócritos. 23.976 ÷ 36 = 666.

A brincadeira me deu um desagradável arrepio na espinha, e eu não soube identificar claramente o porquê. Afinal, são apenas números de um exame de sangue que constata inegavelmente um estado de leucemia, como qualquer outro. E afinal, esses malditos exames na verdade não contribuem em nada para a melhoria efetiva das pessoas. Mas continuei com uma sensação de que alguma coisa me incomodava. 666, o número da besta... 666, leucemia profunda... 66 neutrófilos... 66 leucócitos jovens...

Quando olhei novamente para a jovem, ela havia recuperado o controle, parado de chorar e me olhava firme e fixamente. Só então pude sentir aquele olhar e novamente uma sensação de desconforto tomou conta de mim. Suas olheiras escuras e profundas formavam uma moldura perfeita para o vácuo das pupilas negras. A tensão do momento permitiu-me um susto enorme quando ela levantou-se de um salto, tomou a folha de minha mãos e desapareceu correndo pela porta.

4. Boa noite, Doutor Paul René!!!

Hoje as pessoas são tratadas como peças, catalogadas, fichadas, numeradas e arquivadas. Isso tem um sentido prático, mas pode ser altamente prejudicial quando reduz o ser humano a um simples número numa máquina industrial qualquer. No entanto, no nosso fichário de médicos cadastrados e em convênio com o laboratório foi fácil encontrar o endereço do Dr. Paul René. E no outro fichário, a cópia do exame hematológico de Nicholas Jacquier. Um pouco de fantasia, mistério e aventura fazem um bem enorme e resolvi procurar pelo nobre colega e saber um pouco mais sobre seu paciente. E talvez um dia, quem sabe, rirmos um pouco da forma como nos conhecemos. Tive que esperar alguns dias, antes de aparecer a oportunidade para vê-lo.

Era uma noite agradável de primavera e resolvi ir caminhando até o endereço dele. Um casarão sóbrio, de pintura amarelo clara um tanto envelhecida, o que contribuía para o ar de nobreza da concepção arquitetônica. No entanto, a grande quantidade de luzes acesas denunciava uma movimentação anormal no interior da residência. Bati na porta e o som inconfundível do carvalho fez vibrar os ossos de minha mão e a vibração se espalhou pelo braço. Em pouco tempo a porta abriu-se e fui convidado a entrar por um criado preciso e eficiente, que encaminhou-me à sala de visitas. Ela estava repleta de pessoas, com um traço inconfundível e característico, que até hoje não consegui precisar bem qual seja. Mas foi fácil saber que estava num ambiente de médicos. Alguns conversavam em voz baixa, o ambiente tenso e uma atmosfera de expectativa pairava em tudo. Poucos me cumprimentaram e me senti pouco à vontade, sem entender o que estava ocorrendo. Então chamei o criado que me recebera e disse que precisava falar com o Dr. Paul René. Ele me respondeu que o Dr. Paul René havia piorado e não podia receber visitas.

Num relâmpago minha intuição me disse que era absolutamente necessário fazer contato com o médico doente e respondi num impulso "Mas eu vim trazer os resultados dos exames dele". O criado acrescentou que ele estava se consultando com seu colega de confiança, Antoine Didier. Então pude acrescentar inapelavelmente "Claro, os exames foram pedidos pelo Dr. Didier". Em seguida deslizamos pelos corredores em direção aos aposentos do enfermo. O criado não entrou. O ambiente bem cuidado tinha um ar de tranqüilidade. O paciente ouvia atentamente as últimas recomendações do colega, que tudo indicava estar se retirando. Do outro lado da cama, uma senhora bastante idosa mas com uma postura muito firme e presente, assistia a tudo com uma atitude solene. Já Paul René parecia se esforçar por continuar mantendo os olhos abertos. Tudo nele indicava um estado grave e risco de vida. No entanto, apesar dos seus aparentes 70 anos, era visível uma constituição física invejável. O que talvez estivesse definindo sua resistência e condições atuais. Após a saída do assistente ele recostou-se e olhou-me com um ar interrogativo. Aproximei-me vagarosamente e sorrindo, sentei-me na cadeira recém desocupada. A Senhora do outro lado inclinou-se suavemente para a frente, redobrando a atenção. Senti que eu teria que justificar muito bem minha presença, pois todos que estavam na sala de visitas haviam respeitado a necessidade de repouso do paciente.

Optei pela franqueza e narrei delicadamente o motivo que me tinha levado até ali. Quando terminei, ele fez um sinal para Senhora, pedindo que se assentasse novamente. Eu nem havia notado que ela se levantara, muito tensa. E com uma energia surpreendente para seu estado, ele me falou calmamente: "Nobre colega. Tenho experiência de vida suficiente para conhecer muito das pessoas em pouco tempo de convivência. E sinto que posso confiar no Senhor. A gravidade do meu estado não me permite aguardar por mais tempo a tomada de decisões que se fazem urgentíssimas. Vejo a sua vinda aqui como profundamente providencial. Tenho motivos para acreditar que suas conclusões matemáticas acerca das relações entre os dados do exame de sangue referido não são frutos do acaso. Pelo contrário, elas podem estar absolutamente corretas. Vou relatar os dados mais importantes e o restante o Senhor tomará conhecimento através de documentos que confiarei à sua guarda. Até hoje não o tinha feito pois não consegui encontrar uma pessoa em condições de compreender os fatos em toda a sua plenitude e tentar resolvê-los de uma forma satisfatória." Enquanto falava, uma nova energia parecia animá-lo.

Tomei de um bloco de notas gentilmente cedido pela Senhora Ana René, que de simples espectadora, passou a coadjuvante dos acontecimentos. E ele prosseguiu: "Para ser claro e direto, tudo indica que a pessoa que retém nas veias o sangue de cuja amostra foi concluído o exame que o Senhor examinou é um ser abominável, uma singularidade incompreensível, um aborto da natureza. Sua constituição inteira contém todas as contradições de uma obra prima de imperfeição. Esta imperfeição é traduzida também no número 6. O 6 é o número imperfeito por excelência. As relações perfeitas na natureza são expressas no número 7, creio que o Senhor deve saber disso muito bem. As 7 notas musicais, as 7 cores do arco-íris, o ciclo de 28 dias da Lua, sendo 28 um múltiplo de 7, que deu origem aos 7 dias da semana. Este número está também na íntima formaçào estrutural do ser humano. A altura da cabeça multiplicada por 7 dá a altura do indivíduo bem proporcionado. 1/7 é ainda a relação entre os componentes sódio/potássio do sangue humano. No entanto, nessa criatura a essência do número 7 foi substituída pelo número 6. Suas relações sangüíneas realmente tem como base os números 6, 36 (que é o quadrado de 6) e 666. Se o Senhor somar os números de 1 a 36, obterá a soma 666.

A intimidade dessa criatura com o carbono também é muito grande, pois o carbono é o elemento de número atômico 6 na tabela periódica, sendo o elemento das matérias fósseis e carbonizadas. Sua relação astral é com a Lua, que tem enorme influência sobre o sangue de qualquer ser vivo. E o sangue é a essência viva que liga o espírito, a mente e o cérebro à parte física, o corpo com seus ossos e músculos. O elemento da Lua é a prata, de número atômico 47 e incompatível com o carbono, sendo mortal à criatura. Se o Senhor ainda se lembra, o elemento de número atômico 66 é o disprósio, da série dos lantanídeos, também chamados de "Terras Raras". Perdoe-me se estou sendo desordenado na exposição de dados e informações, muitas das quais provavelmente o Senhor já esteja cansado de ouvir. Mas no momento é a melhor solução que me ocorre. Pois, Sr. Flamínio, tudo indica que estamos diante de um VAMPIRO".

5. Do Estranho Caso de Mata Ulm

O Dr. Paul René então pediu um copo d'água, tomou um pouquinho e chamou a criada para recomendar-lhe que naquela noite não receberia mais ninguém. Em seguida descansou durante uns dez minutos e recomeçou a narrativa. "É necessário que eu conte a história desde o começo. Espero que você tenha paciência e atenção suficientes para captá-la no todo. Meu registro comprova minha nacionalidade francesa, mas eu nasci em Frankfurt, há 72 anos atrás. Nossa família foi obrigada a retirar-se às pressas da Alemanha quando eu tinha 15 anos, por problemas políticos da época. O fato mais marcante para mim, no entanto, não era o perigo da perseguição política da qual meu pai fugia, mas sim o fato de que eu estava então vivendo minha primeira e violenta paixão adolescente na figura de minha prima Mata Ulm. Ter que abandoná-la foi para mim um duplo sofrimento solitário, pois os padrões morais e familiares da época jamais permitiriam um amor entre primos. Além de abandoná-la, eu teria que manter segredo eterno sobre nossa relação. Digo nossa relação, mas não tenho certeza se era ou não correspondido por ela em minha paixão. Eu a achava belíssima, com seus longos cabelos negros emoldurando aquele rosto suave e de traços finos. Mas ela mantinha sempre um ar ausente, onde nunca era possível identificar maiores emoções. Foi com esse ar ausente que a surpreendi na nossa primeira relação de cumpliciosa intimidade. Ela havia atingido naquele dia sua plena maturidade sexual. Eu entrava sorrateiramente no celeiro do sítio de seus pais, para tentar surpreender um ou outro pombo nos ninhos que eles construíam nas beiradas do telhado. Mata Ulm estava sentada num monte de feno, nua da cintura para baixo e com a cabeça entre as pernas recolhidas, olhando fixamente para a própria vagina. Eu me aproximei suavemente. Com o dedo indicador na mão direita ela acariciava delicadamente o clitóris. Isso automaticamente provocava contrações na vagina, que apertava os lábios cuspindo porções de uma gelatina vermelho escura. Eu perguntei o que era aquilo ela respondeu que era a mãe Natureza gritando de vontade de gerar filhos. Daí por diante, em todo ciclo completado pela Lua, a natureza diria através do sangue se estava satisfeita ou não. Se estivesse, silenciaria por nove luas - ou três estações - e gritaria novamente através da boca de um novo ser, envolto em sangue e feito do seu sangue. Carinhosamente então ela tomou meu pênis ereto e latejante entre as mãos e acariciou-o até que ele lhe doasse o meu sangue, que ela colheu e cuidadosamente misturou com o seu. Depois me beijou suavemente e voltou a contemplar abstrata sua gruta de mistério onde daí por diante os seres humanos iriam entrar e sair.

Faço este relato como preâmbulo do comportamento profundamente mágico e místico que marcaram a vida de minha prima. Este ato de consolação perpetrado por ela pode ser reencontrado na carta número 14 do Livro de Toth, chamada "A Temperança" e situada entre a Morte e o Diabo. No entanto, ela não parece ter tido sorte ou discernimento suficiente para se safar dos perigos que esses caminhos oferecem. Passamos cerca de 20 anos sem nos encontrarmos, apesar de nos correspondermos durante os cinco últimos desses vinte anos. O motivo de nosso encontro foi exatamente uma carta desesperada dela, pedindo que eu fosse urgentemente à Alemanha para ajudá-la a escapar da morte. Dizia então que não poderia contar maiores detalhes. Já residia em Munique e dizia estar sendo perseguida pelo Diabo. Sei que o que lhe digo pode estar parecendo uma montagem maluca, mas é a pura realidade. Fui então para a Alemanha e nosso encontro foi um tanto patético, em sua própria residência. Ela ainda morava com os próprios pais, havia perdido o marido com uma doença não identificada e curiosamente até então não tinha conseguido gerar filhos... Sua loucura se acentuara enormemente a partir do encontro que havia tido com um frade dominicano que se interessara profundamente por ela a partir das confissões íntimas que ele lhe induzira a fazer dentro de um confessionário da Catedral de Munique. Ela dizia que o poder tanto pessoal quanto político desse frade é enorme. Entre outras coisas ele é capaz de hipnotizar e controlar pessoas com grande facilidade e colocá-las a seu serviço. A relação entre ambos se tornara tão absurda, que o frade havia lhe mostrado uma obra intitulada "Tractatus de Calcatione de Monum y Flagellum Haerecticorum Fascinorum", datada de 1458 e escrita por ELE MESMO!

Ele tanto insistira queacabou por covencê-la de que ela teria sido Madeleine Bavent, irmã da Terceira Ordem Franciscana, membro do Convento de São Luís e Isabel em Louviers. Madeleine foi a figura principal de um famoso processo de bruxaria medieval repleto de cenas de mais dantesca heresia e blasfêmia. Foi queimada na fogueira junto com outras pessoas envolvidas no processo, mas o Inquisidor que dirigira os interrogatórios deixou documentos onde declarava que Madelaine não tinha sido suficientemente torturada. Por isso deveria ser perseguida em encarnações futuras, para poder saldar completamente sua dívida. Para "ganhar o reino dos céus", teria que ser novamente "purificada pelo fogo". Ora, o famoso processo de Louviers acontecera por volta de 1647, há cerca de 300 anos! E o "Tractatus" do frade teria nada menos que uns 500 anos! No entanto, seu poder hipnótico tinha-a conduzido a viver numa para-realidade onde eram raros os momentos de lucidez. Num desses momentos ela pôde escrever a carta que eu recebera. O estado de minha prima era deplorável e eu já não conseguia identificar nela absolutamente nada daquela beleza que eu vira resplandecente nos meus quinze anos. Pelo contrário, seu olhar desvairado num semblante azulado de pele e ossos, com os lábios roxos e sempre trêmulos, era insuportável de se contemplar por muito tempo.

Enquanto ela falava, eu sentia um cansaço enorme me pesando as pálpebras e um sentimento amargo me apertando o peito. Uma grande vontade de voltar para a França e apagar aquilo da memória de uma vez por todas. No entanto ela prosseguiu na narrativa e o que veio em seguida até hoje me gela até os ossos pela simples lembrança. O tal frade convenceu-a de que só havia uma possibilidade dela saldar definitivamente sua enorme dívida com relação à Santa Madre Igreja e continuar viva. Isso poderia ser feito com o oferecimento de um 'cordeiro' humano em sacrifício ritual. E esse cordeiro teria que ser seu próprio marido, o grande culpado histórico por tudo. Depois de alguns meses de argumentos e insistência, ele convenceu-a a colocar em sua comida um veneno suave que minaria sua resistência gradativamente até que ele entraria em coma e seria enterrado como morto.

Assim fizeram os dois amantes, se é que se poderia chamar de amor a relação entre o frade e minha prima. Ela dizia que eles só se encontravam à noite e que ele sempre estava gelado e cheirando a mofo. Quando perguntei do que ela gostava nele, a resposta foi "não sei". Depois do enterro do marido, à noite eles se encontraram e o desenterraram. O cemitério ficava ao lado da Catedral de Munique, o que facilitava enormemente a tarefa dos dois. Levaram o corpo para os subterrâneos da Catedral, onde pela primeira vez ela pôde contemplar os instrumentos de tortura da Inquisição Medieval. O frade então acendeu todas as velas e amarrou-a numa cadeira pesada de madeira, para que ela pudesse assistir ao espetáculo. Em seguida pendurou o corpo do marido pelos pés e colocou diante de seu nariz um vidrinho destampado e contendo um líquido esverdeado. O homem pendurado acordou repentinamente e começou a gritar. O frade então entrou em coro com ele e começou a correr e gargalhar em torno do corpo, colocando-o para rodar no ar com safanões. Em determinada altura, o frade pendurou-se no homem, cravou seus dentes na garganta e juntos balançavam urrando terrivelmente. Seus berros ecoavam pelas abóbadas de pedra da masmorra e só eram interrompidos quando o frade se engasgava com os borbotões de sangue que jorravam da ferida. Em uma das vezes que conseguiu abrir os olhos, Mata Ulm pode observar que o sacerdote tinha colado o seu corpo ao corpo do seu marido na mesma posição dependurada e isto lhe lembrou a posição dos morcegos nas cavernas.

Depois de algum tempo o frade soltou-se satisfeito e, babando, pegou um vaso onde coletou cuidadosamente os últimos litros de sangue da 'ovelha' pendurada e agonizante. Esperou ainda algum tempo para que todo o sangue escoasse e desceu o corpo que em seguida foi esquartejado e colocado a defumar em uma enorme lareira, em espetos compridos de ferro. Ela assistiu a tudo em estado catatônico, até ouvi-lo dizer mansamente "por muito tempo não precisaremos nos preocupar com carne, querida." Ela desmaiou e, quando acordou, teve a sensaçãode que séculos haviam se passado, mas estava se sentindo estranhamente bem. O toque suave de sua mãe com o café da manhã a havia despertado. O luto amargo da genitora lhe deu a certeza de que o marido realmente morrera. Mas e o resto? Seria um pesadelo ou teria acontecido realmente?

Eu cheguei lá cerca de dois meses depois desses fatos, cujos indícios posteriores me confirmaram serem absolutamente reais. Depois do nosso primeiro encontro, Mata Ulm desapareceu para sempre. Fiz todos os esforços possíveis e imagináveis para localizá-la, mas foi tudo em vão. Tentei verificar se realmente existiam subterrâneos medievais na Catedral de Munique, mas sempre encontrei a barreira dos sorrisos compassíveis dos religiosos responsáveis por aquele monumento cristão. Minha insistência, no entanto, acabou me levando a adquirir uma permissão para consultar arquivos da Biblioteca Nacional de Munique, particularmente sobre a vida e obra de um contemporâneo do nosso famigerado padre dominicano: o abade Trithème, nascido em 2 de fevereiro de 1462, em Tritthenheim. Ele fundou a Confraria Celta e em 2 de fevereiro de 1482 entrou para a ordem dos Beneditinos, no mosteiro de Saint-Martin-de-Spanheim. Conseguiu reunir nesse mosteiro a biblioteca mais rica da Alemanha, composta essencialmente de manuscritos. Deixou como resultado de suas pesquisas uma obra em 8 volumes, de incrível poder, chamada de STEGANOGRAPHIE.

No entanto, o manuscrito completo foi destruído pelo fogo, sob as ordens do conde palatino Philippe II. Nenhum exemplar completo ficou para a posteridade. Mais de cem anos depois, um dos jesuítas mais ferozes da Inquisição, Del Rio, ainda perseguia partes do que restou do Steganographie. Mas em 1610, em Frankfurt, Mathias Becker publicou novamente esses fragmentos. E em seus comentários (não publicados) fez pesadas críticas ao emprego indevido e distorcido do legado de Trithème, que poderia incluir hipnotismo, levitação, comunicação à distância e possivelmente a imortalidade... Cita então como um dos mais perigosos utilizadores desses poderes o demonólogo e inquisidor francês, frade dominicano e um dos primeiros autores de livros sobre demonologia NICHOLAS JACQUIER, nascido em 1402. Não existe nenhuma referência sobre sua morte. Tudo indica que esteja vivo até hoje".

6. O demônio está aqui!

Eu estava tão absorto na narrativa do Dr. Paul René, que levei algum tempo para relacionar o nome do frade dominicano que cuidadosamente ele reservara para o final, com o nome escrito na ficha padronizada de exames de sangue do L'Autrec Laboratoires. Então uma pergunta precipitada brotou em meus lábios: "Se é realmente a mesma pessoa, como o senhor conseguiu localizá-lo?"

O Dr. Paul René descansou novamente durante alguns minutos e retomou a narrativa, não sem antes inspirar profundamente. "Pois bem, durante o tempo de minhas pesquisas na Biblioteca Nacional de Munique eu fiquei hospedado na casa de seus pais e tentava por todas as maneiras ajudá-los a superar o desespero que o desaparecimento da filha lhes causava, sempre animando-os com novas esperanças. Até que um dia estava lendo alguns livros que tomara emprestados da biblioteca, à noite, em meu quarto, quando ouvi leves batidas na janela. Perguntei quem era e uma voz aflita respondeu "um amigo de Mata Ulm". Abri cuidadosamente e ele pediu para entrar. Sua aparência me inspirou confiança e ajudei-o a pular a janela. Ele sentou-se e depois de algum tempo começou a falar num tom preocupado e ansioso. "Meu nome é Wilhelm Lebenswald. Sou artista plástico e trabalho nos serviços de restauração dos afrescos da Catedral de Munique. Fui amigo de Karl Eschenmayer, o marido de Mata Ulm. Ambos éramos colegas de profissão e chegamos a fazer muitos trabalhos juntos. E juntos nos apaixonamos por Mata.

Com o tempo, no entanto, a relação entre eles começou a degenerar e aspectos bastante terríveis começaram a tornar sombria toda nossa convivência. Karl, que era muito sensível, sempre se queixava das excentricidades e comportamentos imprevisíveis de Mata. Paralelamente evidenciava-se também um agravamento do estado de saúde dela. Os ataques epilépticos tornavam-se cada vez mais freqüentes e nessas ocasiões ela novamente forjava tentativas de suicídio nas quais sempre finalizava com uma gargalhada. Meu amigo, no entanto, era muito mais afetado pelo aspecto terrível que ela assumia nos estertores epilépticos, quando então se debatia e roncava como uma porca agonizante. Isso feria profundamente o sentimento estético dele... Até que ela veio a conhecer o misterioso padre Nicolas Jacquier e passou a tomar com ele aulas noturnas de francês na Catedral. Depois desse contato, as coisas pioraram bastante..."

Nesse momento eu o interrompi e resumi o que eu mesmo já sabia dos fatos, enquanto ele ia confirmando com a cabeça ou se horrorizando com o que não sabia. Pedi então que me contasse mais sobre Nicholas Jacquier. E ele recomeçou:

"Eu não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Sabia quase tudo o que Mata poderia me contar pois ela era muito minha amiga e às vezes me tomava como confidente. Depois que Karl morreu e Mata Ulm desapareceu, eu resolvi procurar pessoalmente o padre Nicholas. No entanto, devido aos seus hábitos extremamente singulares e furtivos, eu sabia que só poderia encontrá-lo em um dos confessionários, durante as confissões noturnas da Catedral. Esses confessionários são construídos de forma que o sacerdote pode entrar e sair deles por corredores ocultos, sem ser visto ou identificado. E no próprio diálogo confessional, o padre sempre escuta oculto nas sombras. Como eu trabalho na Catedral, tenho um certo acesso ao movimento interno dos que cuidam dela. Com cuidadosas observações pude concluir que o confessionário utilizado por Nicholas era exclusivo dele e eu sabia qual era, pois Mata Ulm havia me dito uma vez, ao narrar como eles se conheceram.

Esperei então um dia em que estivessem pessoas se confessando e entrei na fila do referido confessionário, disposto a arriscar tudo para identificar o misterioso personagem. Ao ajoelhar no genuflexório, sua voz gutural perguntou por meu nome. Corajosa mas ingenuamente eu disse "Wilhelm Lebenswald". Imediatamente senti como se meus joelhos se colassem na madeira em que estavam apoiados e uma sonolência profunda passou a me turbar a consciência e a visão. Ouvi então a voz dele ironicamente martelar uma risada abafada, antes de dizer "Sua paixão Mata Ulm já subiu ao céu. Eu a purifiquei de todos os pecados, depois de acariciá-la profundamente com o Beijo da Santificação. Só resta dela uma caixinha com cinzas que guardo como recordação. Quanto a você; meu caro artista, já é um dos meus servos e passa desde agora a merecer todo o meu amor..." Neste exato momento ouvi o grito de uma mãe chamando pelo filho. O garoto, de pouco mais de um ano de idade, entrou correndo pela passagem do confessionário e trombou em minhas costas. Isso me livrou consideravelmente do transe hipnótico e tive a lucidez de levantar e sair correndo. Vim diretamente para cá.

Caro Dr. Paul René, tenho que ser sucinto pois o tempo urge. Sou um homem condenado à morte e creio que o Senhor também! Existe uma rede enorme espalhada pelo mundo todo e que sustenta com todo tipo de cobertura essas e outras atividades terríveis e criminosas. A informação mais importante que posso lhe fornecer é que o padre Nicholas Jacquier é francês, natural da região de Toulouse, onde periodicamente tem que ir para realizar rituais onde mistura a cinza dos corpos das pessoas que assassina com a terra dos cemitérios da cidade. Essas operações demoram vários dias e consegui saber muito pouco delas. No entanto, curiosamente, o Senhor reside em Toulouse e bem poderia tentar neutralizar de uma vez por todas esse monstro." Então eu lhe disse que na manhã seguinte me retiraria de volta para cá, por motivos de segurança.

Esclareci-lhe ainda que o "Beijo da Santificação" citado no confessionário pelo padre Nicholas era uma criação de Heinrick Kramer, um dos elaboradores do Malleus Maleficarum, por volta de 1484, e do papa Inocêncio VIII. Kramer se baseara em antiquíssimos rituais egípcios e o Beijo da Santificação consiste em arrancar todos os dentes da pessoa a ser canonizada (Esses dentes posteriormente farão parte de um colar-amuleto bastante utilizado um outros rituais). Em seguida, o sacerdote oficiante suga diretamente o sangue que escorre da boca esfacelada, até se fartar. Então adapta uma gaiola que envolve a cabeça da vítima como um capacete, contendo uma ratazana extremamente faminta, que completará o banquete ritualístico. Em seguida, o corpo ainda com vida deverá ser cremado até às cinzas. Que Deus receba Mata Ulm!

Dito isto, desejei-lhe boa sorte e pedi-lhe que se retirasse para que eu começasse a fazer minhas malas. Nunca mais o vi nem tive notícias dele. Quanto aos pais de Mata Ulm (sua mãe era minha tia legítima), vieram a falecer algum tempo depois, num incêndio acidental em sua própria residência..."

7. Similia Similibus Curantur

Nesse momento o Dr. Paul René deu um gemido abafado e apertou o próprio peito, contorcendo-se de dor. "Coração", pensei imediatamente e rapidamente tomei sua mão esquerda e apertei profundamente o ponto focal de energia situado entre o dedo polegar e indicador. Com a outra mão localizei imediatamente um dos pontos do fígado entre suas costelas e orientei-o na respiração e relaxamento. Aos poucos ele foi relaxando e a crise passou. Mas não aceitou minha sugestão de interrompermos a narrativa. Então pedi à Senhora Ana René diversos copos de cristal, um bastonete também de cristal que Dr. Paul deveria ter entre seus equipamentos e água. Tomei então uma gota de saliva dele e dinamizei-a cuidadosamente, conforme os processos das escolas tradicionais para casos de emergência. Em seguida, apliquei uma gota em cada olho do paciente. Dentro de algum tempo, ele já estava em condições de continuar a narrativa mais confortavelmente.

"Tendo voltado para cá, retomei meus trabalhos rotineiros como médico, mas sempre pesquisando e procurando indícios que me dessem a certeza de uma pista para localizar o dominicano. Consegui, no entanto, informações preciosas que fui cuidadosamente arquivando e entreguei para o Senhor. Principalmente com relação à "Casas dos Vampiros", seus clubes mais importantes e seu fantástico e oculto duelo de poder. São longas dinastias, com ramificações espalhadas por todos os cantos da Terra... Na verdade, creio que esse frade dominicano pertença a uma rede secundária e hoje sem grande importância como potência política. A Igreja já não tem tanta influência no Ocidente, como anteriormente. Meu caso com ele, no entanto, é bastante pessoal também, pois ele assassinou pessoas de minha família. Eu quero lhe passar todas essas informações e rogar a seu sentido humanístico que as divulgue ou faça delas alguma coisa de útil para a humanidade. Mas não peço que o Senhor vá arriscar sua vida disputando forças com essa fera poderosa, covarde e tão potentemente amparada e protegida.

Pois bem, estamos chegando à resposta de sua pergunta inicial, de como foi que consegui localizá-lo. Foi obra do acaso, se é que existe esse tal acaso... Eu vinha conversando com um colega pela Avenida Ludwig Worrell, quando a cerca de 15 metros à nossa frente uma jovem de corpo esguio saiu correndo da porta de um açougue. Simultaneamente ouvimos um grito de "Pega, ladrão". Para infelicidade dela, havia um guarda a pouca distância, que dominou-a com grande facilidade. Aproximamo-nos então e o inusitado do ocorrido me deu a certeza de que finalmente eu havia encontrado uma pista segura. A jovem tentara roubar cálculos biliares de boi, do açougueiro. Esses cálculos são obtidos nos matadouros ou em açougues e servem para infusões e tratamentos de diversas doenças, além de amuletos. São parecidos com pedra-pomes, cinza escuro e muito leves, do tamanho de ovos de passarinhos. O açougueiro havia dito para a garota que os dele não eram para vender, depois de colocá-los sobre o balcão. Ela então os apanhou e tentou fugir.

Depois de algum entendimento com o guarda, dei-lhe a entender que a garota parecia doente mental e que eu cuidaria dela. O argumento que ela usou com relação aos cálculos era de que eram para o tratamento de um tio que estava de cama, muito doente há vários meses. Eu então lhe propus que só a libertaria do guarda se ela me levasse até o tio, para que eu pudesse ver o estado dele e quem sabe, ajudá-lo como médico. Ela não teve alternativa e nos levou até a casa do doente. Por motivo de segurança pedi ao meu amigo que esperasse do lado de fora e entrei com a garota. O casarão não era dos piores, mas a desordem no interior era bastante grande. Todas as janelas estavam fechadas e com cortinas negras e um insuportável cheiro de mofo e roupas sujas pairava no ambiente. No quarto do tio, ela entrou vagarosamente com uma pequena vela e me deu passagem para entrar também. O quadro me congelou a boca do estômago.

No centro do quarto, em um catre dos mais estranhos que já vi, estava o corpo de um homem de idade impossível de ser avaliada, pois qualquer dos referenciais que normalmente utilizamos para deduzir a idade, nele eram como os de um ser de outro planeta, que tanto pode ter 50 quanto 200 anos... É a única forma que encontro para expressar o que vi. Tentei comportar-me normalmente. Ele dormia profundamente. Quando a vista ficou mais acostumada à escuridão, pude constatar que ele trajava o hábito dos monges dominicanos. Tomei cuidadosamente seu pulso. Não pulsava. Então perguntei à jovem se ele estava vivo. Ela disse que sim, mas que ele havia desmaiado mais uma vez, pois estava extremamente enfraquecido. Então eu disse a ela que eu necessitaria urgentemente de um exame de sangue do paciente, e imediatamente abri minha maleta e coletei material suficiente. Tomei o bloco de pedidos e perguntei a ela o nome do tio. "Nicholas Jacquier", ela respondeu.

No entanto, me espírito científico só teria certeza absoluta de que realmente se tratava do famigerado padre vampiro após o resultado do exame hematológico. Então pedi à garota que levasse o exame em seu laboratório, que entrega no mesmo dia e com o qual tenho convênio. Em seguida ela deveria trazer imediatamente em meu consultório o resultado. O resto você sabe, pois ela arrumou outra confusão ao pegar o exame. O que, na verdade, foi um incidente providencial que te trouxe até aqui. Fiquei no consultório, esperando que ela voltasse. Só que ela é uma das escravas do padre, seu nome é Sibila e não sabe tomar decisões sem consultá-lo. Como eu não lhe dei tempo de falar com ele (que só acorda à noite), ela desesperou-se e tentou me eliminar."

Dito isto, o Dr. Paul René levantou a camisa e mostrou-me a barriga enfaixada e ensangüentada. Fora esfaqueado violentamente e não sabia se teria condições de resistir aos ferimentos. Poucos colegas seus sabiam da realidade dos fatos. E nenhum sabia da existência de um vampiro por trás de toda a trama. Ele perdera a grande oportunidade de acabar com a fera. Havia inclusive já preparado o material para empreender o trabalho quando Sibila voltasse com o exame. A tarefa é enormemente facilitada durante o dia, enquanto eles dormem e perdem as forças. À noite, no entanto, a coisa se complica bastante. Principalmente em noites de lua cheia. Em seguida o Dr. Paul pediu à esposa que buscasse o material que havia me prometido e ainda conversamos longamente sobre o conteúdo dos mesmos. Deu-me inclusive o endereço onde havia encontrado a besta humanóide, mas ambos sabíamos que sería inútil procurar novamente no mesmo local. Mesmo assim, eu iria lá para, quem sabe, encontrar algum indício.

Fiquei distraído folheando os documentos, e em determinada altura resolvi fazer outra pergunta ao Dr. Paul. Quando ele não respondeu ao meu chamado, sua expressão suavemente sorridente e tranqüila me deu a certeza de que estava morto. Do outro lado da cama, sua esposa fez um estranho sinal com uma das mãos apontando para o céu e a outra para a terra e deitou-se junto dele. Nesse momento, saí para tomar providências. O relógio marcava dez horas da manhã.

8. Diante do espelho negro

O enterro do Dr. Paul René foi muito concorrido. Era uma pessoa extremamente benquista. Durante as cerimônias fúnebres tive a oportunidade de fazer contato com diversos de seus amigos mais íntimos. Antoine Didier me reconheceu e veio me cumprimentar. Ao perceber que estávamos distanciados dos outros, sussurrou-me "você não está só". Instintivamente olhei para a viúva, Senhora Ana René e percebi que ela nos observava atentamente de sob o véu negro que lhe cobria o rosto. Pude então sentir claramente a presença de uma rede de apoio que me foi muito reconfortante. Mas na verdade, eu teria que inevitavelmente correr riscos bastante sérios sozinho. O mais imediato seria visitar a casa onde o vampiro tinha sido visto pela última vez. Apesar da urgência, não gostaria de enfrentar tal empreitada desarmado. Recorri então ao que me foi possível reunir de informações, exorcismos, objetos mágicos e um facão afiado e rumei para a casa na tarde do dia seguinte ao enterro. Antes disso, no entanto, entreguei uma carta para a Senhora Ana René com todas as informações precisas de como recuperar todo o material que eu e seu marido havíamos coletado e que agora estava em lugar seguro, em caso de meu desaparecimento ou morte.

Cheguei à casa por volta das quinze horas. Como eu esperava, ninguém veio atender quando bati na porta. Rodei a maçaneta e ela abriu-se. Entrei cuidadosamente. Não encontrei nada do ambiente lúgubre descrito por meu amigo. A casa estava vazia e limpa. Cheguei a relaxar e suspirar desanimado. Meu primeiro grande erro. Um peso enorme desabou sobre meus ombros, vindo não sei de onde, enquanto uma gargalhada histérica ressoava pelo ambiente. Levei alguns segundos até perceber que era Sibila, a jovem assistente do vampiro me atacando de surpresa. Caímos ambos ao chão e ela rolou até o canto da sala. Levantou-se, ainda gargalhando histericamente. Estava completamente nua e com uma força e elasticidade fantástica! Encarei-a nos olhos, tentando compreender o que faria a criatura em seguida. Meu segundo grande erro.

Imediatamente fiquei fascinado por aquele olhar. Suas pupilas negras possuíam um magnetismo irresistível, seus olhos eram os olhos mais lindos que jamais eu tinha visto. Ela se aproximou ondulando seu corpo macio e sorrindo docemente. À distância de dois palmos de mim, pude sentir o cheiro delicioso que seu corpo exalava, uma composição extremamente excitante onde o calor da vagina sequiosa se sobrepõe e é capaz de eliminar qualquer traço de razão no objeto direto de sua sede. Então ela estendeu a mão, abriu minha camisa, retirou delicadamente o crucifixo que eu trazia no pescoço e substituiu-o por um outro colar que eu via desfocado como sendo de contas brancas, pois não conseguia desviar os olhos de seu rosto. Ela sorria. Quando as contas geladas tocaram minha pele, senti um pouquinho de desconforto e voltei rapidamente o olhar para o peito. Era um colar de dentes. Dentes humanos!

O choque me fez plenamente consciente por um instante e tentei rapidamente arrancar o colar do pescoço, mas ele não saiu. Arranquei então rapidamente do facão da cintura e parti para cima da criatura à minha frente. Ela havia se afastado dois passos, uma distância ideal para mim. Vibrei violentamente o facão em direção ao seu pescoço e consegui acertar em cheio! A cabeça separada do corpo rodopiou no ar e caiu rolando pelo chão, indo parar num dos ângulos da sala. Numa fração de segundo focalizei-a e a imagem se confundiu com a da cabeça de peru que o Eustáquio gostava de degolar, e eu ouvi novamente as gargalhadas de sua família com a ejaculação sangrenta da ave bêbada. Meu terceiro erro.

Nesta fração de segundo o corpo da mulher correu em direção à cabeça e suas mãos pegaram-na, levantando-a à altura do peito e caminhando em direção a mim. Foi então que ouvi a música. Uma música que mexia com todo o meu ser e vibrava cada célula de meu corpo, tornando-o cada vez mais leve. Sentia-me flutuar ao som de acordes que jamais havia ouvido semelhantes. O cheiro intenso da mulher parecia ter tomado a sala toda e a única coisa que realmente passou a me importar foi a possibilidade de me unir a ela de todas as formas possíveis. Vi o facão ensangüentado caindo suave e ondulantemente como uma pluma, para ser em seguida levado pelo vento de nossos movimentos para um canto da sala. Dançávamos separados. Ela ondulava os quadris e fazia movimentos com aquela cabeça entre as mãos diante do meu rosto enquanto eu rasgava minhas próprias roupas, na pressa de acompanhá-la. A cabeça sorria e a língua vermelha e ágil fazia movimentos como os de uma serpente me provocando.

Finalmente ela colocou a cabeça no lugar, deitou-se com as pernas abertas e me chamou. Meu desejo e a necessidade dela eram mil vezes mais intensos que meus desejos de adolescente. Neste momento pude perceber que sexualmente tinha sido um sonâmbulo até então. Meu sexo sempre tinha sido um lugar que quando excitado me chamava a atenção. Agora meu sexo era minha consciência e meu coração latejante dentro dele. Minhas pernas, meus braços e minha boca eram apenas tentáculos como os de um polvo que buscam avidamente o alimento para o centro faminto e desesperado. "Vem, não tema que nada no Universo te negará por isso!"... Saltei sobre ela e vi meu corpo solto boiando suavemente no espaço e descendo também vagarosamente em direção àquele ventre que, arqueado, oscilava profundamente com a respiração disparada pela força máxima do ato de criação da vida. Um vórtice violentíssimo de energia partindo da região genital tomou-me todo e comecei a ejacular antes de qualquer contato físico com ela.

Quando nossos corpos se encontraram, vi um relâmpago vermelho iluminar toda a sala e o rosto dela transformar-se no rosto do Dr. Paul René. Beijei-o gulosamente, bebendo do sangue que escorria de sua boca. Então compreendi a fonte de energia que tinha alimentado nas últimas horas aquele ser que naquele momento eu amava e no qual me desintegrava. Estava num orgasmo contínuo. No fundo da música ouvia o riso dela, enquanto seu rosto assumiu diversas formas. Masculinas, femininas, jovens e velhas. Depois vieram alguns animais e eu os lambia carinhosamente. As folhas e flores eu cheirei e comi. Algumas pedras engoli. Então ela me afastou suavemente e me girou no espaço. Minha ejaculação contínua, bombeada pelo coração alucinado já não tinha tempo para as transmutações fisiológicas e expelia diretamente um sangue vivo e brilhante. As gotas elásticas ficavam ondulando no espaço como se estivessem dentro d'água. Ela brincou por alguns instantes de pescá-las com a boca, antes de tomar meu pênis entre os lábios e sugar diretamente na fonte. Gradativamente comecei a me esgotar e uma sonolência suave me arrastava aos poucos para a inconsciência total. Havia em mim um sentimento de plenitude. Quem está pleno não precisa mais lutar. Quem está pleno não quer mais lutar.

Suavemente então fui deixando meu corpo deslizar em direção à superfície do espelho negro. Quando toquei-o com os dedos, o colar no meu pescoço rapidamente apertou o laço e os dentes compuseram uma enorme boca em torno da minha garganta. A violência da mordida me fez reunir as últimas forças para tentar sair. Já era impossível. A última coisa que ouvi ao longe foi o grito angustiado de Antoine Didier, o terapeuta do Dr. Paul. Alguns segundos depois, mais longínquo ainda, o berro esganiçado e terrível da minha fantástica amante. Me perdi na inconsciência, do outro lado do espelho negro.

9. Epílogo

Acordei alguns dias depois, no quarto de hóspedes da viúva Ana René. Eu havia sido salvo no último instante pelo Dr. Antoine Didier, que rapidamente conseguiu cravar sua estaca de madeira afiadíssima no peito de Sibila, matando-a . Ele mesmo cuidou de mim durante esses dias críticos, em que fiquei entre a vida e a morte. Somente agora tenho condição de avaliar o quanto imbecil eu posso ser e efetivamente o sou. Na verdade eu não tinha condição nenhuma de penetrar nos subterrâneos que temerária e inconseqüentemente enfrentei. Bastante evidente ficou que nem mesmo os fantasmas de meu próprio inconsciente eu tenho suficientemente sob controle. No entanto, ter passado por isto tudo foi realmente a experiência mais significativa e determinante de minha vida. Na verdade, agora eu conheço o meu destino e estou muito orgulhoso dele.

Quando eu soube da rede maligna que se espalha sobre a face da Terra e que perpetua mostruosidades como a existência de seres como os vampiros, fiquei bastante chocado e deprimido. Imaginava que as populações então estariam à mercê dos caprichos dessas feras. Mas agora eu tenho certeza de que existe um outro movimento contrário a essa rede, disposto a enfrentá-la até a consumação dos séculos. Este documento, do qual eu fui mais que tudo um organizador e redator estará pronto em breve. Rogo a Deus e todas as forças do Bem que o protejam para que não se perca ou seja destruído pelos Homens de Negro. Pois isso quase aconteceu!!!

Se eu não tivesse me interessado pelo assunto, o Dr. Paul René teria sido mais uma vítima anônima deles e seu trabalho teria sido em vão. Tudo farei para passar adiante esta tocha e espero que ela ilumine muitos caminhos. É preciso que haja acesso às informações, para que novas consciências se despertem. O vampirismo é um fenômeno universal inerente à própria natureza. Pela experiência que tive, creio que ele seja principalmente a essência da Desordem do Universo. Ou de uma nova Ordem... O trabalho de combatê-lo, no entanto, nos dará sobretudo o direito de conhecê-lo cada vez melhor. O futuro dirá o quanto erramos ou acertamos. Assim poderemos escolher nossos caminhos.

Um último lembrete: o monge NICHOLAS JACQUIER continua vivo o suficiente para sugar o seu sangue. Os que viram o seu rosto e poderiam identificá-lo estão todos mortos.

Quanto a mim, por uma questão de extemporaneidade, tenho que me preparar a partir de agora para o Suicídio Ritual preconizado por Cornelius Agrippa. Acabo de pegar os resultados de meu exame de sangue e dividir o número global de leucócitos pelo número do percentual de hematócritos.


EXAMES HEMATOLÓGICOS NO SANGUE

Nome: Flamínio de Luna
Indicação do Dr.: Antonius Tricordis

Hemácias ................................ 4.300.000 ...........p/mmc
Hemoglobina ..................................13,00 ...........g/dl
Hematócrito .................................... 33 ............%
Volume corpuscular médio .............. 91 ............ uc.
Hemoglobina corp. média .................. 31 .............yy
Hemossedimentação 30 min ..... w ............ mm
Westergren 60 min ..... w ........... mm
Reticulócitos ........................................ w ........... % ou mm
Plaquetas (contagem direta) ................ w ............p/mmc
Global de leucócitos ................... 21.978 .............p/mmc

DIFERENCIAL DE LEUCÓCITOS .... % ............p/mmc
Neutrófilos
Promielócitos ........................................ 28 ............ 1984
Mielócitos ............................................. 15 ...............778
Metamielócitos ...................................... 19 .............1344
Bastonetes .............................................. 00 ................00
Segmentados ......................................... 27 .............1872

Eosinófilos ............................................. 02 ................55
Basófilos ................................................ 00 ................00
Linfócitos ................................................28 ............ 3877
Monócritos ..............................................02 ................ 97


21.978 / 33 = 666

Fim

TEXTO EXTRA

Sexo, Sangue e Vampirismo.
Como identificar um Vampiro numa relação sexual
Por Toninho Buda, 27 janeiro 1986.

Qualquer relação sexual é altamente sangüínea, ou seja, tem íntima relação com a presença e função do sangue no organismo. Nos sres humanos normais, os dois centros principais relacionados com a função sexual são os órgãos sexuais e o coração (por sua relação com o sentimento e com o sangue). Já nos vampiros, a relação sexual é muito mais centrada no estômago e no cérebro. Um vampiro nunca perde a cabeça numa relação sexual e seu objetivo é sempre encher o estômago de sangue. Os órgãos sexuais do vampiro numa relação sexual são secundários. E ele pode até se esquecer deles. Por isso, um dos sintomas de que o parceiro sexual é um vampiro é a ausência de movimento na pélvis.

No entanto, a arte de representar e enganar é a base de sobrevivência dos vampiros e, por isso, eles podem fingir estar vivendo todos os detalhes de uma relação sexual com um grande grau de fidelidade ao real. Nesses casos, é preciso um grande grau de sensibilidade para perceber onde está a diferença dele para uma pessoa normal. Além do mais, a conclusão nunca deve ser tirada a partir somente de um dado, mas de pelo menos oito a dez itens dos que iremos fornecer. E só forneceremos alguns, pois não pretendemos apresentar um tratado sobre o assunto. No entanto, mesmo assim, uma pessoa que não é um vampiro pode apresentar dez sintomas de que o seja. É muitíssimo raro. Mas nesses casos a pessoa é um vampiro e não sabe, ou então tem tudo para ser e só falta acontecer...

Podemos partir do princípio de que, numa relação sexual, a mulher é mais receptora e o homem é mais doador. No entanto, um vampiro é quase sempre passivo na relação, quer sempre ficar deitado, quer sempre ficar por baixo. Normalmente se mostram extremamente carinhosos e sedutores, nunca agressivos e masculinos no sentido mais brutal do macho. São extremamente vaidosos, gostam de atenção e de se sentirem mais capazes do que os seres mais vivos. No entanto, nas preliminares da relação sexual propriamente dita, podem preferir ficar falando de crimes e mortes violentas onde tenha havido abundante presença de sangue, do que falar de assuntos românticos. Um detalhe comum a todos os vampiros: ficam o tempo todo querendo saber que horas são... Por isso, mesmo que fiquem completamente nus, jamais tiram o relógio do pulso. Se o relógio é de bolso, ficam com ele na mão (esquerda). Normalmente insistem em tomar banho quente antes da relação sexual, para aquecer o corpo, que normalmente é gelado, e para tirar o cheiro de mofo insuportável que normalmente trazem dos lugares onde repousam.

Vejamos agora algumas características dos vampiros de sexo originalmente masculino. Como já dissemos anteriormente, um vampiro não se emociona numa relação sexual. Nos homens normais, se o pênis endurece, o coração amolece. A ocasião é então propícia para que a parceira peça as coisas mais impossíveis. Mas vampiro não amolece o coração. Se ele disser não antes, dirá não durante. O pênis e o escroto dos vampiros são frios, mesmo que o pênis esteja ereto. Se ele se deita de barriga para cima e fica em repouso, os testículos não se movimentam, como acontece com os homens normais. E a pele da glande do pênis dos vampiros não fica brilhante quando ele está em ereção. O pênis dos vampiros, além de frio é extremamente absorvente de energia, capaz de resfriar qualquer organismo no qual penetre. Numa relação anal, por exemplo, a pessoa que recebe um pênis de vampiro sentirá rapidamente um frio na barriga, não necessariamente de emoção...

Quanto aos vampiros de sexo originalmente feminino, temos a ressaltar também algumas características bastante significativas. Têm vagina fria, de cor arroxeada, seca e flácida, com tendência a esfolar o pênis que a penetre, e não se fechar quando o mesmo é retirado. Normalmente também não aceitam relação anal, devido à pouquíssima flexibilidade dos músculos da região anal (que passa, às vezes, anos e anos sem ser utilizado) e ao alto grau de putrefação interna, pois só se alimentam com sangue e não comem verduras e legumes que são desintoxicantes dos intestinos. Os vampiros femininos também têm uma tendência irresistível de morder o pênis durante o sexo oral e podem até amputa-lo de uma dentada.

Para evitar cair nas garras de um vampiro, basicamente também não escolha parceiros sexuais entre desconhecidos (principalmente à noite), estrangeiros (principalmente europeus), pessoas de hábitos noturnos, pessoas afeitas a morcegos ou mesmo carrapatos e pernilongos, pessoas excessivamente bondosas e principalmente pessoas interessadas em lhes orientar e esclarecer sobre o assunto "VAMPIRISMO"...



 

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