Toninho Buda, maio 2004
Assistimos ao musical Raul Fora da Lei no Sábado,
22 de maio de 2004, no Teatro do Sesi, no Rio. Como sempre,
a casa estava lotada e houve disputa de ingressos na fila
da bilheteria. Um fato notável em tempos de grana
curta e levando-se em conta que o espetáculo está
há mais de quatro anos em cartaz! . Inicialmente
o espetáculo era um monólogo, baseado nos
textos do livro “O Baú do Raul” (Ed.
Globo, 1992). Posteriormente foi transformado em musical,
acrescentado o elenco de jovens talentos do Centro de Formação
de Atores Roberto Bomtempo, mais 17 músicas de Raul
Seixas. Entre equipe técnica e elenco, são
72 pessoas envolvidas. A platéia responde muito bem
ao espetáculo e aplaude entusiasticamente durante
muitos momentos. Chama a atenção o fato de
que Roberto Bomtempo, que faz o papel de Raul Seixas, não
se parece com o cantor. A gente logo imagina que ele poderia
se travestir de Raul Seixas – como os muitos covers
brasileiros fazem -, mas ele está lá, a seco,
sem disfarces. E, além disso, parece que a carga
(enorme, por sinal) de dirigir o grupo, atuar, declamar
textos imensos e cantar, ficou um pouco pesada para ele.
Mas nada disso, como se pode constatar, tem grande importância
para o sucesso final. A banda de apoio, M-743, convence
como banda rocker estilo Raulzito e os Panteras, dos anos
60...
Como eu trabalhei em teatro amador, sei o quanto é
difícil lidar com grupos de jovens atores adolescentes.
Ou o Diretor faz uma marcação muito rígida,
tirando-lhes a espontaneidade, ou os deixa mais soltos,
torcendo para que sua energia juvenil transmita naturalidade
aos espectadores. Parece que Bomtempo optou pela segunda
direção. O resultado, às vezes, pode
causar desconforto aos raulseixistas mais conservadores.
Como, por exemplo, na cena coletiva em que todos cantam
Maluco Beleza. Alguns adolescentes simulam loucos em hospício.
Ora, Maluco Beleza é quase um autoretrato de Raul.
E a loucura do Raul não era a de hospício...
O tom meio caricato permeia também o sexo, em músicas
como A Maçã e Quero Mais. Paira também
no espetáculo um tom melancólico e sofrido
de reduto dos Alcoólatras Anônimos, onde o
personagem central está sempre com uma garrafa na
mão, bêbado e delirando. Ora, assim como o
nosso querido Presidente Lula, trabalhar com um copo na
mão pode dar margem para muita coisa, menos para
credibilidade. Algumas cenas são arrojadas, como
a “natureza morta” preparada para a música
Gita, onde os atores montam um quadro estático (parecido
até com a Santa Ceia, de Michelângelo...),
“congelando” uma música que representa
o turbilhão universal, em que Deus imagina o Cosmo
unificado no Tao...
No entanto, há que se reconhecer que este clima
de irônica depressão não é culpa
dos realizadores da peça. Ele, na verdade, permeia
quase todo o livro texto original (O Baú do Raul).
Para nós, Raul Seixas era muito mais do que um bêbado
engraçado. Mas ele próprio – devido
à sua irreverência crônica até
consigo próprio - contribuiu para que essa imagem
fosse a mais permanente! E este musical me mostrou que é
assim que os adolescentes - que ele sempre amou e em quem
depositava suas mais íntimas esperanças -,
o estão vendo hoje. E boa parte do público
também. E eu cheguei a ficar um pouco triste com
isso... Mas obra de arte é para isto mesmo! Obra
de arte é crítica, é releitura, é
transformação, é delírio, é
alegria e aborrecimento, é informação,
é questionamento. Nós só temos que
parabenizar Roberto Bomtempo pelo seu sucesso e esperar
que ele continue realizando este trabalho. Significativamente,
o único momento em que Bomtempo realmente se parece
com Raul é no momento em que se noticia a morte do
Maluco Beleza. Logo em seguida, eles encerram a peça
com a música Geração da Luz, feita
para os mais jovens, em que Raul, profeticamente, diz: “Eu
já ultrapassei a barreira do som, cantei de tudo
às vezes fora do tom, mas a semente que eu ajudei
a plantar já nasceu. Eu vou m’embora apostando
em vocês, meu testamento deixo minha lucidez, vocês
vão ter um mundo bem melhor que o meu!”...
MÚSICAS
1. O Carimbador Maluco – Raul Seixas
2. A Mosca na Sopa – Raul Seixas
3. Let Me Sing My Rock’n’Roll – Raul Seixas
4. Cowboy Fora da Lei – Raul Seixas / Cláudio
Roberto
5. Metamorfose Ambulante – Raul Seixas
6. Quero Mais – Raul Seixas / Kika Seixas / Cláudio
Roberto
7. Água Viva – Raul Seixas / Paulo Coelho
8. Gita – Raul Seixas / Paulo Coelho
9. A Maçã – Raul Seixas / Paulo Coelho
/ Marcelo Motta
10. Não Quero Mais Andar na Contra-Mão –
Raul Seixas / Lena Coutinho
11. Paranóia II – Raul Seixas / Lena Coutinho
/ Cláudio Roberto
12. Maluco Beleza – Raul Seixas / Cláudio Roberto
13. A Lei (Sociedade Alternativa) – Raul Seixas
14. Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás –
Raul Seixas / Paulo Coelho
15. O Trem das Sete – Raul Seixas
16. Tente Outra Vez – Raul Seixas / Paulo Coelho /
Marcelo Motta
17. Geração da Luz – Raul Seixas / Kika
Seixas
Realização : Movimento Carioca de Teatro.
Apresentação: Roberto Bomtempo – Centro
de Formação de Atores
Estréia – novembro 1999 (Ficou 4 anos cartaz/volta
tributo aos 15 anos morte Raul).
Banda M-743 (direção Musical de Igor Eça).
Texto Básico: livro “O Baú do Raul”,
Editora Globo, 1992 (Seleção de Textos de
Kika Seixas e apresentação de Tárik
de Souza).
Equipe Técnica (24, entre direção,
roteiro, produção, figurinos, cenário,
iluminação, coreografias, etc) e Elenco (48,
incluindo 6 da banda) somam 72 pessoas.
RAUL FORA DA LEI
O Musical de Roberto Bomtempo
Toninho Buda, maio 2004
Assistimos ao musical Raul Fora da Lei no Sábado,
22 de maio de 2004, no Teatro do Sesi, no Rio. Como sempre,
a casa estava lotada e houve disputa de ingressos na fila
da bilheteria. Um fato notável em tempos de grana
curta e levando-se em conta que o espetáculo está
há mais de quatro anos em cartaz! . Inicialmente
o espetáculo era um monólogo, baseado nos
textos do livro “O Baú do Raul” (Ed.
Globo, 1992). Posteriormente foi transformado em musical,
acrescentado o elenco de jovens talentos do Centro de Formação
de Atores Roberto Bomtempo, mais 17 músicas de Raul
Seixas. Entre equipe técnica e elenco, são
72 pessoas envolvidas. A platéia responde muito bem
ao espetáculo e aplaude entusiasticamente durante
muitos momentos. Chama a atenção o fato de
que Roberto Bomtempo, que faz o papel de Raul Seixas, não
se parece com o cantor. A gente logo imagina que ele poderia
se travestir de Raul Seixas – como os muitos covers
brasileiros fazem -, mas ele está lá, a seco,
sem disfarces. E, além disso, parece que a carga
(enorme, por sinal) de dirigir o grupo, atuar, declamar
textos imensos e cantar, ficou um pouco pesada para ele.
Mas nada disso, como se pode constatar, tem grande importância
para o sucesso final. A banda de apoio, M-743, convence
como banda rocker estilo Raulzito e os Panteras, dos anos
60...
Como eu trabalhei em teatro amador, sei o quanto é
difícil lidar com grupos de jovens atores adolescentes.
Ou o Diretor faz uma marcação muito rígida,
tirando-lhes a espontaneidade, ou os deixa mais soltos,
torcendo para que sua energia juvenil transmita naturalidade
aos espectadores. Parece que Bomtempo optou pela segunda
direção. O resultado, às vezes, pode
causar desconforto aos raulseixistas mais conservadores.
Como, por exemplo, na cena coletiva em que todos cantam
Maluco Beleza. Alguns adolescentes simulam loucos em hospício.
Ora, Maluco Beleza é quase um autoretrato de Raul.
E a loucura do Raul não era a de hospício...
O tom meio caricato permeia também o sexo, em músicas
como A Maçã e Quero Mais. Paira também
no espetáculo um tom melancólico e sofrido
de reduto dos Alcoólatras Anônimos, onde o
personagem central está sempre com uma garrafa na
mão, bêbado e delirando. Ora, assim como o
nosso querido Presidente Lula, trabalhar com um copo na
mão pode dar margem para muita coisa, menos para
credibilidade. Algumas cenas são arrojadas, como
a “natureza morta” preparada para a música
Gita, onde os atores montam um quadro estático (parecido
até com a Santa Ceia, de Michelângelo...),
“congelando” uma música que representa
o turbilhão universal, em que Deus imagina o Cosmo
unificado no Tao...
No entanto, há que se reconhecer que este clima
de irônica depressão não é culpa
dos realizadores da peça. Ele, na verdade, permeia
quase todo o livro texto original (O Baú do Raul).
Para nós, Raul Seixas era muito mais do que um bêbado
engraçado. Mas ele próprio – devido
à sua irreverência crônica até
consigo próprio - contribuiu para que essa imagem
fosse a mais permanente! E este musical me mostrou que é
assim que os adolescentes - que ele sempre amou e em quem
depositava suas mais íntimas esperanças -,
o estão vendo hoje. E boa parte do público
também. E eu cheguei a ficar um pouco triste com
isso... Mas obra de arte é para isto mesmo! Obra
de arte é crítica, é releitura, é
transformação, é delírio, é
alegria e aborrecimento, é informação,
é questionamento. Nós só temos que
parabenizar Roberto Bomtempo pelo seu sucesso e esperar
que ele continue realizando este trabalho. Significativamente,
o único momento em que Bomtempo realmente se parece
com Raul é no momento em que se noticia a morte do
Maluco Beleza. Logo em seguida, eles encerram a peça
com a música Geração da Luz, feita
para os mais jovens, em que Raul, profeticamente, diz: “Eu
já ultrapassei a barreira do som, cantei de tudo
às vezes fora do tom, mas a semente que eu ajudei
a plantar já nasceu. Eu vou m’embora apostando
em vocês, meu testamento deixo minha lucidez, vocês
vão ter um mundo bem melhor que o meu!”...
MÚSICAS
1. O Carimbador Maluco – Raul Seixas
2. A Mosca na Sopa – Raul Seixas
3. Let Me Sing My Rock’n’Roll – Raul Seixas
4. Cowboy Fora da Lei – Raul Seixas / Cláudio
Roberto
5. Metamorfose Ambulante – Raul Seixas
6. Quero Mais – Raul Seixas / Kika Seixas / Cláudio
Roberto
7. Água Viva – Raul Seixas / Paulo Coelho
8. Gita – Raul Seixas / Paulo Coelho
9. A Maçã – Raul Seixas / Paulo Coelho
/ Marcelo Motta
10. Não Quero Mais Andar na Contra-Mão –
Raul Seixas / Lena Coutinho
11. Paranóia II – Raul Seixas / Lena Coutinho
/ Cláudio Roberto
12. Maluco Beleza – Raul Seixas / Cláudio Roberto
13. A Lei (Sociedade Alternativa) – Raul Seixas
14. Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás –
Raul Seixas / Paulo Coelho
15. O Trem das Sete – Raul Seixas
16. Tente Outra Vez – Raul Seixas / Paulo Coelho /
Marcelo Motta
17. Geração da Luz – Raul Seixas / Kika
Seixas
Realização : Movimento Carioca de Teatro.
Apresentação: Roberto Bomtempo – Centro
de Formação de Atores
Estréia – novembro 1999 (Ficou 4 anos cartaz/volta
tributo aos 15 anos morte Raul).
Banda M-743 (direção Musical de Igor Eça).
Texto Básico: livro “O Baú do Raul”,
Editora Globo, 1992 (Seleção de Textos de
Kika Seixas e apresentação de Tárik
de Souza).
Equipe Técnica (24, entre direção,
roteiro, produção, figurinos, cenário,
iluminação, coreografias, etc) e Elenco (48,
incluindo 6 da banda) somam 72 pessoas.