Toninho Buda, agosto 2003
Se eu tivesse feito tudo o que dizem que eu fiz, hoje eu
estaria morto! Disse Ozzy Osbourne, refletindo sobre três
décadas de desordem, loucura e auto-destruição
que foram o resumo de sua vida e obra. Desde quando liderava
o Black Sabbath nos anos 60, ele dirigiu sua carreira de
forma a se transformar no arquétipo do heavy metal,
o badboy do metal. Assim, para dizer o mínimo, a
sua influência hoje, em 2003, está onipresente
no mundo todo. Nomes como Mettalica, Nirvana e Marilyn Manson
tem citado Ozzy como uma influência fundamental na
formação do “DNA” dos seus trabalhos.
A princípio, nos anos 60 e 70, a troupe do Black
Sabbath só queria fazer música, viajar o mundo,
viver a vida e, se desse, ganhar algum dinheiro neste processo.
Mas eles acabariam fazendo tudo isto e muito mais...
No final dos anos 70, no entanto, O Chefão do Heavy
Metal - como seus fãs gostam de chamá-lo -,
estava na Califórnia e completando 10 anos de loucura
total, quando o sonho começou a se transformar em
pesadelo. Esgotado física, mental e musicalmente,
Ozzy começou a se assustar com o estado em que havia
chegado. Para recarregar as baterias, ele pensou em voltar
para a terra natal, Birmingham. Mas dois encontros viriam
rejuvenescer sua carreira: Sharon Harden, filha do seu empresário,
por quem ele imediatamente se apaixonou; e Randy Rhoads,
um fenomenal guitarrista, desses que só aparecem
uma ou duas vezes em uma geração. Nos anos
seguintes, ele faria Blizzard of Ozz em 1980 e Diary of
a Madman em 1981. Ele estava começando suas turnês
européia e americana, quando, em 19 de março
de 1982, um trágico acidente acabou com a vida de
Randy Rhoads, na época com apenas 25 anos de idade.
Ozzy ficou tão chocado, que pensou em acabar com
tudo, enquanto Sharon percebia que ele talvez estivesse
apenas querendo utilizar a tragédia para apressar
a sua própria morte. Mas Ozzy Osbourne não
estava acabado.
Para ressurgir das cinzas, ele fez Tributo a Randy Rhoads
e encontrou um novo parceiro, de 19 anos, chamado Zakk Wylde.
Com ele, acabou fazendo o seu mais pesado trabalho, 1998’s
No Rest For the Wicked, para o qual o seu mais memorável
vídeo foi produzido. Nele, Ozzy vestiu uma máscara
do televangelista Jimmy Swaggart, cercado por 75 porquinhos,
num chiqueiro. Assim a loucura continuou, até que,
no início dos anos 90, Ozzy estava novamente numa
encruzilhada. Já era pai de três crianças,
mas continuava lutando com os mesmos demônios que
havia encontrado na década de 70. Embora todos os
seus discos, inclusive os que foram gravados com o Black
Sabbath, continuassem batendo recordes de vendagem nos EUA,
ele estava musicalmente desestimulado, enfraquecido e desorientado...
Mais uma vez, resolveu fazer um severo regime de desintoxicação,
com o qual recobrou a clareza e a criatividade. Assim, em
setembro de 1991, gravou No More Tears (Chega de Lágrimas),
que acabou vendendo mais de seis milhões de cópias
e se tornando seu album mais vendido. A música Mama,
I’m Coming Home (Mamãe, Estou Voltando para
Casa) foi para o topo das paradas de sucessos e ele iniciou
a turné Theatre of Madness (Teatro da Loucura), com
a qual viajou o mundo todo durante 14 meses. De repente,
era preciso novamente dar uma parada, e ele o fez. Durante
os anos de 1993 e 1994, ficou em sua fazenda, na Inglaterra,
com Sharon e seus filhos Aimee, Kelly e Jack. Evidentemente,
isto o retirou mais uma vez do circuito musical e as más
línguas começaram a tricotar...
Em 1995, ele voltou a gravar, fazendo o Ozzmosis Album.
Sharon então tentou recolocá-lo nos festivais,
mas os empresários literalmente riram na sua cara,
dizendo que Ozzy já era e que ele já não
fazia parte da nova brigada do rock. Literalmente enfurecida,
Sharon resolveu fazer o seu próprio heavy metal festival,
onde Ozzy Osbourne seria a figura principal. Assim, em 1996
surgiu o primeiro Ozzfest, com a presença, inclusive,
do nosso Sepultura. Até hoje, este festival continua
com a concepção original, ou seja, a de ser
dividido em dois grupos principais: um formado pelas novas
bandas de expressão no cenário heavy metal,
e outro formado pelos dinossauros do estilo. O sucesso foi
instantâneo. Assim como no nosso querido Circo Voador,
do Rio de Janeiro, onde todos os grupos de rock do país
tinham que fazer seu batizado antes de serem (re)conhecidos
a nível (inter)nacional, todas as grandes bandas
do Heavy Metal dos últimos anos passaram pelo barulhento
circo de Ozzy Osbourne: Tool, System of a Down, Limp bizkit,
Queens of the Stone Age, Pantera, Slipknot, Marilyn Manson,
e assim por diante. Ozzy e Sharon criaram um império
que os fãs passaram a amar cada vez mais. Mais de
3,5 milhões deles participaram de suas festas nesses
oito anos. Nenhum outro festival itinerante conseguiu chegar
perto de uma marca tão expressiva. É impressionante
como a vida dá voltas e como alguém pode sair
do fundo do poço e dar a volta por cima... e por
tantas vezes!
Na concepção deste ano, 2003, o Ozzfest está
estruturado com 22 bandas, sendo 6 do grupo principal e
16 do grupo secundário. O Grupo Principal é
formado pelo próprio Ozzy, mais Korn, Marilyn Manson,
Disturbed, Chevelle e Datsuns. O Grupo Secundário
é formado pelos Cradle of Filth, Voivod, Chimaira,
Depswa, Endo, Grade 8, Hotwire, Killswitch Engage, Memento,
Motograter, Nothingface, The Revolution Smile, Shadow Fall,
Sworn Enemy, Twisted Method, e finalmente Unloco. O nome
das bandas também traduz o espírito do trabalho
e é uma viagem à parte. Marilyn Manson todo
mundo sabe que é uma junção de Marilyn
Monroe (a beleza hollywoodiana) e Charles Manson (o assassino
de Sharon Tate, outra beleza hollywoodiana...), Disturbed
(Perturbado), Cradle of Filth (Berço Imundo), Killswitch
Engage (Trabalhando na Caça às Bruxas), Motograter
(Espalhador de Ofensas), Nothingface (Cara de Nada), Shadow
Fall (Cair das Sombras) e Sworn Enemy (Inimigo Jurado).
Nos dias 14 e 15 de agosto eles tocaram no Tweeter Center
(Boston), em seguida em New York (Bank Arts Center), dia
22 em Washington DC (Nissan Pavilion), dia 26 em Atlanta
(Hi-Fi Buys Amphitheatre) e dia 28 no West Palm Beach Coral
Sky Amphitheatre. Maiores informações sobre
a programação de setembro de 2003 no site
www.ozzfest.com .
Em 2001, Ozzy lançou 2001’s Down to Earth.
Na primavera de 2002, embora nunca tenha sido uma celebridade
simpática, o showbiss americano acabou reconhecendo-o,
junto com sua tribo, como Lista A em Hollywood, e ele recebeu
a sua estrela na famosa Calçada da Fama. Em maio,
almoçou com o Presidente Bush em Washington D.C.
e, mais incrível ainda, cantou no Jubileu da Rainha
da Inglaterra no mês seguinte, ao lado do seus ídolos
Paul McCartney e Rod Stewart, além de Brian May e
outros Sirs da Inglaterra. Agora, o antigo comedor de morcegos
está sendo visto como a mais adorável, famosa
e familiar figura da TV americana, desde a tragédia
de 11 de setembro. Ninguém poderia imaginar que isto
poderia acontecer! Mas aí está: Ozzy Osbourne,
o Arquiteto do Metal, o Homem Mau, o Príncipe das
Trevas, autor inclusive da ópera rock Mr. Crowley
(em homenagem a Aleister Crowley, que foi considerado, em
sua época, o pior homem do mundo!), mas que continua
vendo a si próprio apenas como um cantor e um artista,
gravou seu nome no Muro da História. Com 70 milhões
de discos vendidos ao redor do mundo e 33 anos de carreira,
afinal de contas, todo mundo hoje tem um pouquinho de Ozzy
Osborne dentro de si.