JORNAL DO ROCK

t.A.T.u. - Lesbianismo, Sucesso & Pedofilia no Pop


Toninho Buda, junho 2003


TATU não é apenas abreviatura de tatuagem, ou aquele bicho que faz buraco. O grupo Tatu – que é russo e se escreve de forma esquisita, t.A.T.u - é formado pelas garotas Lena Katina, nascida em 4 de outubro de 1984 (Libra), e Julia Volkova, 20 fevereiro de 1985 (Peixes). Elas formaram um dueto em 1999, mas começaram a ser produzidas como o grupo t.A.T.u. em 2000, pelo roteirista e diretor Ivan Shapovalov. O sucesso viria rápido, pouco mais de um ano depois, em setembro de 2000, quando elas tinham 14 anos de idade, e quando a música I’ve Lost my Mind (Eu Perdi Minha Cabeça) chegou às rádios da Rússia, galgando rapidamente os primeiros lugares das paradas de sucesso. Curiosamente, esta canção viria a ter dois outros nomes: All The Things She Said (Todas as Coisas que Ela Disse) e I Am Going Mad (Eu Estou Ficando Deprimida). No mês de outubro, o vídeo-clip da mesma canção foi exibido na MTV russa e também rapidamente alcançou o 1o lugar.

Pouco tempo antes, Julia estava numa escola estadual de músicas variadas russa e as duas cantavam juntas num grupo infantil chamado Neposedy. Julia acabaria sendo expulsa do grupo, após ser acusada de comportamento obsceno e corrupção de suas colegas de grupo. Depois disso, elas participaram de um concurso no Mosfilm Studio, para novos cantores, e foram selecionadas independentemente uma da outra, entre mais de 500 concorrentes. Posteriormente, para a locação do vídeo de I’ve Lost My Mind, por orientação de Ivan Shapovalov, Julia teve que cortar os cabelos e tingí-los de preto. Lena, por sua vez, teve que perder quase 10 quilos (banha não é sexy...). Seu primeiro CD foi um mini-album contendo I’ve Lost My Mind, com tiragem de 50.000 cópias legais e estimadas 200.000 cópias piratas

Em 21 de maio de 2001, os tatus assinaram contrato com a Universal Music Russia, que lançou seu primeiro grande album, chamado 200 In The Wrong Line ( A 200 Km por Hora na Contra-Mão). Nos dois primeiros meses foram vendidas 500 mil cópias legais e estimadas 2 milhões de cópias piratas! Em setembro de 2001, o vídeo I’ve Lost My Mind foi considerado o melhor vídeo do ano na Rússia e A 200 Por Hora foi reconhecido em janeiro de 2002 como o album mais vendido naquele país em 2001. Também em janeiro do ano passado, eles começam a expandir seu trabalho para o mundo, a partir da Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. Em abril, a mega companhia Interscop Records (o selo mais forte da Universal Music Company, responsável também pelo lançamento do Eminen, No Doubt, Sting, Enrique Iglesias e outros) lança They’re Not Gonna Get Us nos Estados Unidos e I’ve Lost My Mind na Alemanha. Seguiu-se uma sequência de recordes de vendagens, que continua até hoje a se expandir pelo mundo.

Aliada à atitude, qual seria o segredo de sua proposta e de seu explosivo sucesso? Talvez apenas a antiga semente da mais devastadora e enlouquecedora paixão, independente da razão, da idade, ou qualquer outro tipo de convenção social, moral ou estrutural. Uma paixão que dá certezas, segurança e força para enfrentar qualquer coisa. Em All The Things She Said (a canção com três nomes), elas dizem: “Eu estou completamente mexida, sentindo-me acuada e pressionada. Eles dizem que é pecado, mas eu a quero demais. Eu quero voar para onde o sol e a chuva fustiguem minha face, lavem toda a vergonha do que eles insistem em fixar o olhar. Não se preocupem comigo, porque o que eu sinto por ela, e o que ela sente por mim, eu não pretendo disfarçar. Eu posso tentar esquecer, mas isto está me deixando louca, isto está me alucinando”.

E em They’re Not Gonna Get Us (Eles Não Vão nos Pegar), dizem: “nós vamos seguindo, tornando tudo simples. A noite vai chegar, e com nosso anjo guardião nós seguiremos em frente. As travessias estão vazias e nossos espíritos altivos. Eles não vão nos pegar. Meu amor por você é para sempre. Somente você e eu, tudo o mais é nada. Nada irá ruir. Eles não podem entender, eles não podem nos entender”. A capa do CD não poderia ser mais explícita. Apesar de ser um desenho da linha comics, nela elas se beijam na boca, apaixonadamente.

Assim, o escândalo também viria rápido, na esteira do sucesso. A BBC de Londres propôs o banimento do vídeo da música All The Things She Said. Em contraposição, o trio participou do programa Freedom Of A Word (Liberdade de Expressão), no canal russo TV Channel NTV, fazendo comentários sobre a reação do público ao seu trabalho. Evidentemente, toda a polêmica aumentou tremendamente a sua popularidade. A mais pesada acusação contra eles era a divulgação e incentivo de pedofilia, bem como o lesbianismo entre adolescentes. Espertamente, o próprio Ivan Shapovalov propôs ao Canal 4 Britânico a abertura de uma “discussão aberta” sobre o aumento da pedofilia na Rússia.

E foi muito além, dizendo “Como psiquiatra, eu tenho sérias suspeitas de que o apresentador do Canal 4 Britânico Richard Madeley tem tendências pedófilas. Uma discussão pública sobre o assunto poderia clarear as coisas. E inclusive, quem sabe, até curar Richard Madeley e boa parte da população masculina da Rússia”. Evidentemente, Madeley respondeu, prometendo processá-los (a ele e à produtora), pois ele estava entendendo que todo o trabalho do grupo deveria ser enquadrado como crime sexual, pois se voltava claramente para incentivar os homens a procurarem entretenimento com menores de idade. Na Bulgária, o seu trabalho foi comparado com Madonna. Na gravação do clip da música Simple Motion (Movimento Solitário), cujo tema é a masturbação, houve rumores de que havia alí a sugestão de sexo com animais... Elas foram banidas da Itália pelo Papa João Paulo II. Mas fizeram shows em Israel, promovendo o amor contra a guerra e incluindo em seus shows o antigo refrão amai-vos uns aos outros; tornaram-se desta forma, o grupo musical mais popular por lá.

Mas hoje, apesar do sucesso, as t.A.T.u. , ainda que teenagers (adolescentes, com idade entre thirteen e nineteen, em inglês, ou seja, 13 e 19 anos), já fizeram 18 e estão ficando velhinhas. É de se imaginar o alvoroço que já deve estar pipocando em todas as academias e programas de televisão do mundo, em busca de adolescentes precoces, para substituí-las. E assim, esta “nova” polêmica, com um certo atraso, vem chegando também por aqui, no Brasil. Agora podemos compreender melhor a presença de casais de lésbicas adolescentes nas novelas brasileiras. É tempo de questionamento, tolerância e abertura. Falar nisso, a capa da Veja desta semana (21/06/ 2003) fala sobre a ascensão do movimento gay. É um dos assuntos mais badalados do momento, e está colocando todo mundo no clima!... Minha namorada, por exemplo, tem um casal de filhos adolescentes, chamados Sara e Simon. Há alguns dias, estávamos conversando sobre o assunto. Ela acha lindo e emocionante o amor entre as duas garotas lésbicas da novela das oito, da Rede Globo. Ela me disse que se sente tocada pela sinceridade e pelo grande amor que une as duas personagens. Mas quando eu perguntei, “Olha, e se a Sara aparecer com uma namoradinha, aqui na sua casa?”, ela disse: “Hê, Cara! Sai fora, bicho!”

 


 

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