Toninho Buda, outubro 2005
No dia 8 de dezembro do ano 2000, o Presidente Fidel Castro
inaugurou em Havana, no parque do bairro de Vedado, uma estátua
em tamanho natural representando John Lennon, feita pelo artista
cubano José Villa Soberón. Naquela data se comemoravam
os 20 anos da morte do cantor-ativista. Logo em seguida, aconteceu
um concerto na Tribuna Anti-imperialista José Marti,
com mais de 20 solistas e conjuntos musicais cubanos, cantando
suas músicas. Faltavam poucos dias para o reveillon
do novo milênio, que, para muitos, representava o início
da esperada Era de Aquário, decantada por todos os
místicos e utopistas ao longo dos últimos 150
anos. No discurso de inauguração da estátua
de Lennon, Ricardo Alarcon Quesada, Presidente da Assembléia
Nacional Cubana, disse, entre outras coisas, o seguinte:
Sobre este homem vocês podem acreditar
em qualquer coisa, menos que ele esteja morto. Este lugar
se transforma, a partir de hoje, numa permanente homenagem
a uma geração que quis mudar o mundo. Os anos
60 foram muito mais do que apenas um período de um
século que se finda. Acima de tudo, foi um período
de atitude que ultrapassou todas as barreiras. Neste tempo,
caíram por terra as grandes colônias imperialistas...
E finalmente liberada, apareceu Cuba, verdadeiramente descoberta
em 1959, como um exemplo de confiança na liberdade,
vida e verdade. Para isto, lutamos com pedras, punhos e armas,
mas também com discursos, poemas e canções.
John Lennon descreveu os anos 60 como “a revolução
da juventude, uma revolução completa no modo
de pensar o mundo. Os Beatles fizeram parte desta revolução.
Nós estávamos na barca que veio descobrir mais
uma vez o Novo Mundo”. Em um concerto para a Corte Inglesa,
em 1963, Lennon pediu aos mais ricos que, ao invés
de aplaudirem, apenas chacoalhassem suas jóias. E também
devolveu sua Ordem do Império Britânico em protesto
à Guerra do Vietnam e às intervenções
britânicas nas Colônias da África. Ele
se recusou a cantar para um público exclusivamente
branco na Flórida, em 1966. E se recusou a cantar na
África do Sul dividida pelo apartheid. Ajudou os jovens
desertores das forças armadas americanas. Ele repudiou
o sistema burguês, seus códigos e mecanismos
de merchandising, que transformam até o ser humano
em mercadoria. E criou uma corporação (a New
Utopian) para combatê-los e defender a liberdade artística.
Essas idéias, sem dúvida, têm uma certa
inspiração comunista!
Curiosamente, está esquecida em algum
depósito do Rio de Janeiro outra estátua de
John Lennon, que seria colocada no Arpoador... Mais quais
seriam os nossos grandes utopistas? Não podemos nos
esquecer, por exemplo, de Raul Seixas, provavelmente o visionário
mais citado e reverenciado da nossa cultura. Raul Seixas criou,
junto com Paulo Coelho, em 1973, a Sociedade Alternativa,
espelhada na New Utopian de John Lennon No Brasil existe pelo
menos uma estátua conhecida de Raul Seixas, na cidade
de Dias D’Ávila, na Bahia (lugar onde ele compôs
a antológica Gita) e um monumento a ele, numa pousada
chamada Grã-Canyon Guartelá, na cidade de Castro,
no Paraná. Muitas de suas canções, como
Tente Outra Vez e as polêmicas A Maçã
e Aluga-se, que fazem parte do trabalho da Sociedade Alternativa,
continuam sendo utilizadas até em anúncios de
carro e novelas de televisão. Dez dias após
sua morte, que ocorreu em 21 agosto de 1989, foi inaugurado
o Viaduto Raul Seixas, em Salvador, com 231 metros de comprimento.
Um mês depois, foi inaugurado o Parque Ecológico
Raul Seixas, com 35 mil metros quadrados, no bairro de Itaquera,
em São Paulo. Um ano depois, em setembro de 1990, a
Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo inaugurou
a Oficina Cultural Raul Seixas, no Bairro Tatuapé.
O curioso é que, nesta ocasião, a Secretaria
de Cultura era dirigida pelo escritor Fernando Morais, que
é o autor de Olga (livro que deu origem ao filme),
A Ilha (sobre a Revolução Cubana) e outros grandes
sucessos.
Fernando Morais fez a homenagem a Raul naquela
época e hoje está escrevendo a biografia de
Paulo Coelho. Ele me entrevistou no mês passado, durante
muitas horas, sobre a vida e a obra de Raul Seixas (isto se
deveu ao fato da minha convivência com Raul e Paulo
Coelho nos anos 80). Nossa grande esperança é
a de que ele faça o primeiro grande documento relacionado
com o movimento da Sociedade Alternativa no Brasil. Porque
nós ainda não temos um relato de peso sobre
o assunto. A Sociedade Alternativa foi muito mais importante
do que a Tropicália, por exemplo. No entanto, a militância
atual de Caetano, apoiado por antigos colegas da Tropicália
como Jorge Mautner, Tom Zé e o próprio Ministro
Gilberto Gil, somados ao silêncio de personagens como
Paulo Coelho, conseguiram alterar essa realidade. Hoje tem-se
a impressão de que Gil e Caetano foram quase que os
maiores agentes do movimento cultural de resistência
ao regime militar, a ponto de eclipsar até um Chico
Buarque de Hollanda... Assim, a “maneira de pensar o
mundo” e a “atitude perante a vida” propostas
pela Sociedade Alternativa de Raul Seixas e Paulo Coelho permanece
na obscuridade.
Insisto no fato de que este aspecto literário
é fundamental para a preservação e consolidação
das grandes utopias que moveram e movem a nossa cultura. A
literatura é um complemento fundamental dos movimentos
musicais. O que escreveram Caetano e Raul, o que está
escrevendo Fernando Morais e mesmo este trabalho do Jornal
do Rock, nada mais é do que o arcabouço intelectual
da posteridade. E há um profundo interesse do público
nestes assuntos, porque suas propostas permanecem atuais.
Felizmente, as produções continuam. Por exemplo,
está sendo lançado por estes dias o livro O
Baú do Raul Revirado, que é uma reedição
do primeiro livro O Baú do Raul, enriquecido com uma
grande quantidade de textos inéditos do próprio
Raul Seixas, fotos inéditas e também um CD com
músicas inéditas. Tudo isso é memória.
E memória é História. E sem História,
nós não somos nada.
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