JORNAL DO ROCK

BLINK-182 - O Falso Punk entre os 10 Mais


Toninho Buda, março 2005

Misturando um punk melódico com letras de uma brutal honestidade e ao mesmo tempo sensibilidade, a banda Blink-182 tem a fama de transformar em fãs quase todos aqueles que a ouvem. Ela está se tornando cada vez mais popular também entre os adolescentes brasileiros. Em 1995, eles lançaram seu primeiro grande álbum, Cheshire Cat. Dois anos depois, em 1997, viria Dude Ranch, que finalmente ganhou uma larga distribuição e sucesso comercial. Nesta época, eles substituíram o baterista Scott (que voltou para o colégio) por Travis Barker, oriundo da banda Aquabats. A troca foi pacífica, pois os dois bateristas eram amigos de infância. Os elementos da banda, que no início da carreira tinham entre 14 e 17 anos, agora estavam entre 20 e 23 anos de idade. Hoje estão na casa dos 30 anos.

A Blink-182 é uma trindade, formada por Mark Hoppus (baixo, vocais), Tom Delonge (guitarra, vocais) e Travis Barker (bateria). Mark nasceu em 15 março 1972, na Califórnia, e ganhou seu primeiro contrabaixo aos 14 anos, um presente de seu pai por ele ter pintado a casa. É o que tem a menor quantidade de tatuagens e piercings na banda. Tom nasceu em 13 dezembro 1975, em San Diego. Sempre acreditou na existência de seres extraterrestres, e seu interesse por computadores surgiu exclusivamente para procurar sites e informações sobre aliens. Travis nasceu em 14 novembro 1975 e tocava bateria desde criança. Extremamente habilidoso no instrumento, ele fez parte de várias bandas antes de entrar na Blink. Tem tatuagens e piercings por todo o corpo.

A origem da banda remonta a 1991/1992, quando então o baterista era Scott Raynor. Ela se chamava somente Blink, mas eles foram ameaçados de processo por uma outra banda com o mesmo nome, que já existia há mais tempo. Aí passaram para Blink-182. Quanto ao número 182, apesar da infinidade de rumores e lendas, ninguém sabe ao certo por que a banda o escolheu. E eles fazem questão de manter o suspense. Alguns dizem que é o número de dias em que eles estavam juntos até então, e outros dizem que é o número de trepadas que eles tinham dado até a data da escolha...

Sendo uma banda da Califórnia, o guitarrista Tom Delonge fala um pouco sobre as críticas que muitas vezes a banda recebe, por não ter a carga de ódio que possuem outras vertentes do punk rock: “Os Sex Pistols abriram as portas e a onda de bandas punk cobriu o mundo inteiro. A costa leste dos Estados Unidos mantém a tradição inglesa, porque Nova Iorque é uma cidade também escura, fria e sombria como a Inglaterra. Mas nós somos da Califórnia e a costa oeste é muito diferente. Nós não temos tanto ódio. As nossas bandas vêem as coisas de uma outra forma. Nós somos mais populares e procuramos aprender a tocar melhor os nossos instrumentos. O Bad Religion, por exemplo, inovou nos vocais e a nossa classe média suburbana não quer ser tão vagabunda quanto propõem as bandas mais antigas”.

Mas eles não são tão ingênuos quanto se pode pensar. Por volta de 1998, decidiram parar de viajar para trabalhar no seu novo álbum, Enema of the State. Desta vez eles tiveram muito mais repercussão que Dude Ranch. Falando sobre o título do disco, o baixista Mark Hoppus explica: “Para manter boa saúde, seu corpo precisa eliminar os produtos fecais. Seus intestinos, junto com todos os outros órgãos, são construídos de forma a colaborar nessa tarefa. O processo de digestão leva de 12 a 24 horas, se a pessoa for saudável. Mas muitas vezes alguns resíduos tóxicos ficam agarrados no colon”. E o baterista Travis Barker conclui: “É muito raro encontrar um colon sadio em nossa sociedade. Para cólons doentios, a solução mais indicada é a “colon-hidroterapia”, mais conhecida como enema. É isso que queremos dizer para a criançada. Cuidem de seus intestinos e seus intestinos cuidarão de vocês”. Lançado em 1999, Enema of the State vendeu mais de 7 milhões de cópias ao redor do mundo!

Em 2002 eles já estavam no auge do sucesso, quando lançaram Take off Your Pants and Jacket (Tire As Calças e o Blusão). No início, quando vagueavam por San Diego, eles gravaram inicialmente pela Vandals´ Kunf Fu Label. Depois passaram para a Cargo Records e finalmente caíram na MCA (agora Universal Records). Eles são “acusados” de serem muito limpos e certinhos, de serem “classe média e – absurdo! - não terem vergonha de admitir isso” (com exceção do baterista Travis, que inclusive nem dá entrevistas). Eles realmente não dão a menor importância à chamada “bagagem política” do punk rock, e acham que música e política devem andar separadas. Mas adoram piadas sujas e suas canções são consideradas ridículas. Adoram os Descendents, que consideram a banda que influenciou não apenas eles, mas toda a cena punk californiana.

Alguns se perguntam, afinal, o quão longe eles estariam da bizarra obsessão lírica dos Ramones, por exemplo?... Apesar do ódio dos punks “puristas” contra eles, o nascimento do Século XXI trouxe a inclusão da Blink-182 entre as 10 melhores bandas dos Estados Unidos (U.S. Top 10), conquistando multidões e seguindo os passos de megabandas como Green Day e Offspring. E naturalmente faturando milhões de dólares! Faturar milhões no sistema capitalista é mais um motivo para considerá-los “falsos punks”. Mas, ser “falso punk” não seria também uma das mais brilhantes maneiras de subverter a subversão e ser, assim, o top dos tops do “verdadeiro punk”???...


 

® Todos os direitos estão resevados para Antônio Walter Sena Júnior