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Toninho Buda, agosto 2004
No início de 1990, um maestro empertigado me disse
que o rock é “samba de branco”, uma “batucada
como outra qualquer”, e que seu sucesso se deve a isso...
Provavelmente, esse maestro pertence ao grupo das pessoas
que acham que o rock está fazendo 50 anos, baseado
na história artística de Elvis Presley. Pois
foi no dia 5 de julho de 1954 que Elvis gravou sua primeira
música (That´s All Right Mama, de Arthur Big
Boy Crudup. Na verdade, a equipe do estúdio estava
preparada para gravar três outras músicas, que
eram I Love You Because, Harbor Lights, e Blue Moon of Kentucky.
De repente, Elvis, para se aquecer, começou a cantar
That´s All Right e todos concordaram que deveriam começar
por ela. O futuro mostrou que eles estavam certos...). Então,
para a grande mídia de hoje em dia, o rock é
branco e nasceu com o branco Elvis Presley. Mas será
verdade, isso???
Raul Seixas adorava Elvis Presley e também gravou
os principais sucessos de Crudup. Na gravação
(ao vivo) de So Glad You´re Mine (que saiu no LP Raul
Seixas, de 1983), ele disse que o Rock´n´Roll
nasceu em 1941, com um camarada chamado Arthur Big Boy Crudup,
que fez a cabeça de uma criança chamada Elvis
Presley... e a coisa era mais ou menos assim... e começa
a cantar a música. Então, para Raul Seixas,
o rock é negro e tem 63 anos de idade! Alguns autores
acham que ele é ainda muito mais antigo... E qualquer
pesquisador sério da História da Música
deverá concordar com isso! Façamos uma breve
viagem no tempo, lá pelos lados de Mississipi, no início
do século passado.
Arthur Crudup nasceu em Forest, Mississipi, no dia 24 de
agosto de 1905. Com 15 anos de idade, começou a cantar
em grupos de gospel e coros de igrejas. Começou a tocar
blues em festas em Clarksdale, em 1939. E assim foi até
quando se mudou para Chicago, em busca de uma vida melhor.
Na cidade grande, acabou tendo que tocar nas esquinas para
sobreviver. Finalmente, foi descoberto pelo produtor Lester
Melrose, em 1941. Neste mesmo ano, em setembro, tornou-se
um artista contratado da RCA. No entanto, seu relacionamento
com Melrose se deteriorou, quando ele começou a desconfiar
da sua honestidade... No entanto, artisticamente, Crudup já
estava sendo considerado um grande inovador em sua área.
Até o final da década de 40 e início
da 50, realizou turnês com Sonny Boy Williamson (Rice
Miller) e Elmore James. Mas não se limitava a um único
estilo musical. Seus hits incluem R & B, Electric Delta
Blue, e Delta Blue. Ele tocava guitarra, harmônica e
também era vocalista. Compôs várias letras
para artistas famosos como B.B. King, Big Mama Thornton, Bobby
“Blue” Bland e, claro, Elvis Presley. Em meados
dos anos 50, ele tinha tudo, mas estava muito aborrecido por
causa de falsos amigos e o quanto de dinheiro já haviam
lhe surrupiado... Gradualmente, foi se afastando do cenário
do blues e começou a trabalhar como operário,
onde ganhava menos mas vivia mais sossegado! Mas, com o passar
do tempo, fez seu retorno ao cenário musical com um
álbum para Bobby Robins, e realizou turnês pela
Inglaterra em 1969 e pela Austrália em 1972. Tocou
também em festivais de blues, como o Newport Jazz Festival.
Durante sua vida, participou somente de um filme chamado Out
of the Black, Into the Blue, mas um filme documentário
sobre sua vida foi feito em 1973. Continuou cantando blues
até sua morte, em Nassawadox, dia 28 de março
de 1974. Arthur Big Boy Crudup sempre será lembrado
com um grande bluesman e letrista que nasceu e cresceu no
Mississipi. Mas, para Raul Seixas, ele é o Pai do Rock.
Querem saber de uma coisa? Para encerrar esse papo de cores,
quero dizer o seguinte: as cores básicas que vêm
no cartucho da impressora colorida são azul, amarelo
e vermelho. Tomando uma visão oriental (amarela) dessas
coisas, para mim o rock´n´roll é a transmutação
do blues (azul, tristeza, depressão) em sexo, alegria
e vitalidade (vermelho, claro!). Doa a quem doer, os egípcios
– uma das maiores civilizações que o mundo
jã conheceu - eram negros, politeístas, e os
tambores da África continuam ecoando pelo mundo nas
mais diversas formas de manifestação. O ROCK
É NEGRO!
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