Toninho Buda, 25 novembro 2001
O Natal é a época em que as pessoas voltam
para suas terras natais e visitam os amigos de infância,
relembram histórias e falam de suas tristezas, alegrias
e do que andam fazendo pelo mundo. E em que mundo estamos
vivendo! Este primeiro ano do novo milênio foi de
arrepiar! Acredito que nada poderia ser mais marcante e
avassalador do que aquele ataque a Nova Iorque. É
como se, de repente, as forças antagônicas
do mundo, represadas há milênios, despertassem
sua fúria para dizer simplesmente: Civilizados imbecis,
continuamos aqui e nada irá nos calar! Sim, parece
que elas não estão apenas no nosso inconsciente,
mas no âmago da criação do Universo.
Assim, de uma forma que até agora ninguém
conseguiu entender direito, um grupo bem determinado foi
lá e explodiu as torres gêmeas.
Hoje é dia 25 de novembro de 2001. Falta exatamente
um mês para o Natal. Harry Potter e a Pedra Filosofal
está chegando aos cinemas esta semana. Para quem
gosta de magia e de buscar coisas além de sexo e
comidas e bebidas, eu gostaria de relembrar que existe no
Tarot uma carta chamada A Torre, que é provavelmente
a mais nefasta das imagens deste mapa de acesso às
profundas dos mistérios da cognição
subjetiva. Não há quem não trema nas
bases, quando esta carta aparece numa leitura. Mas dando
uma volta pelas outras cartas do Tarot, encontramos a Roda,
que simboliza o giro da existência e a repetitividade
das coisas, o ciclo infinito das cadeias do carma e das
contribuições de cada um para que as coisas
ruins ou boas continuem acontecendo. Violência gera
violência, ações construtivas geram
coisas que nos parecem melhores, mas que são muito
mais difíceis de serem mantidas. Esta contraposição
e estes paradoxos estão aí para desafiar o
nosso entendimento do funcionamento do mundo.
Nós começamos o ano festejando o início
da Era de Aquário e esperávamos que Nostradamus
estivesse completamente errado nas suas nefastas previsões.
Talvez não estivesse... No entanto, reagindo à
violência das forças destruidoras, as antigas
forças de resistência passiva também
mostraram sua cara. E para nossa grande satisfação,
este ano foi o ano do grande revival das propostas da Contracultura.
Principalmente a partir da explosão das torres. Quando
o mundo foi buscar referências para confortar sua
alma aturdida, muitos voltaram a beber nas fontes de água
viva dos anos sessenta. E aqui no Brasil, esta semana, eu
recebi do Marcelo Fróes um trabalho maravilhoso,
que foi o CD “Dê Uma Chance à Paz –
Uma Homenagem a John Lennon”. Ele foi composto exatamente
dentro do espírito do Natal, a partir da reunião
de grandes amigos – e grandes nomes de nossa música
-, para falar dos bons tempos, das coisas boas que já
foram feitas nos movimentos da música pop, em busca
da paz e da compreensão entre os seres humanos. Um
encontro de velhos amigos, promovido pelo próprio
Marcelo. E escolher John Lennon não poderia ter sido
mais apropriado.
O elenco é uma constelação das mais
brilhantes estrelas da nossa música: Nando Reis,
Cássia Eller, Lobão, Gilberto Gil, Milton
Nascimento, Arnaldo Batista, Charles Gavin, Andreas Kisser,
João Barone, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Zé
Ramalho, Paulinho Moska, Herbert Vianna, Toni Platão,
Celso Fonseca e Lulu Santos! Eu fico até imaginando
uma festa, uma grande festa, pacífica, com milhões
de pessoas, onde esta turma pudesse cantar as canções
deste trabalho, numa noite morna de lua cheia...
O mais emocionante é que todos eles mostraram o
lado mais profundamente humano de John Lennon. Sua luta
pelos direitos humanos ficou maravilhosamente bem representada
em Woman Is The Nigger of the World (com Cássia Eller);
seu esforço pela paz mundial aqui está presente
em Give Peace a Chance, na voz do gênio Arnaldo Batista
(por falar em Mutantes, Rita Lee também está
lançando um CD com músicas dos Beatles...)
e Imagine (no maravilhoso dueto de Gilberto Gil e Milton
Nascimento); Seu universo dolorosamente psicanalítico,
com o qual inevitavelmente todos nos identificamos está
em Mother (na brilhante interpretação de Zeca
Baleiro), Beautiful Boy (com Lulu Santos interpretando esta
cantiga de ninar: “feche seus olhos e não tenha
medo, pois os monstros foram embora e seu pai está
aqui”) e God, onde não poderia haver melhor
escolha do que nosso querido Zé Ramalho, para declamar:
“Deus é um conceito, pelo qual nós
medimos nossas dores. Eu não acredito em magia, eu
não acredito em I-Ching, eu não acredito na
Bíblia, eu não acredito no Tarot, eu não
acredito em Hitler, eu não acredito em Jesus, eu
não acredito em Kennedy, eu não acredito em
Buda, eu não acredito em Mantra, eu não acredito
em Gita, eu não acredito em Yoga, eu não acredito
em reis, eu não acredito em Elvis, eu não
acredito em Zimmerman (Bob Dylan), eu não acredito
nos Beatles, eu só acredito em mim mesmo, Yoko e
eu, esta é a realidade, o sonho acabou, o que mais
eu posso dizer?”
Com isso, Lennon, por sua vez, fez questão de jogar
por terra todas as torres da Contracultura. Mas, quem conhece
um pouco mais dos antigos mistérios, sabe que a carta
16 do Tarot tem um lado extremamente positivo: a destruição
dos antigos conceitos significa a porta de abertura para
a renovação, para a busca de novos caminhos,
para o despertar para novas possibilidades. A destruição
das torres significa que o Velho Mundo tem que dar origem
ao Novo Mundo... Existe um detalhe do qual estava me esquecendo:
o filho de Lennon, Sean, esteve nos estúdios durante
as gravações deste CD e os membros da banda
Cibo Matto, que é liderada pela sua namorada Yuka
Honda, tiveram uma participação especial nesta
homenagem a seu pai. Yuka assina a produção
da faixa título, Give Peace a Chance, e seu trabalho
de mixagem foi realizado em Nova Iorque. Vejam só:
quando atiraram em Lennon, tudo parecia perdido. Quando
as torres caíram, tudo parecia perdido e todos temíamos
que ali estivesse começando a Terceira Guerra Mundial.
No entanto, a Roda da Vida continua, as forças voltaram
a se reequilibrar e as rotas estão sendo gradativamente
corrigidas... Esta é a melhor mensagem de Natal que
poderíamos receber neste momento:
All we are saying is give peace a chance !
O PRIMEIRO NATAL DO MILÊNIO
com
UMA HOMENAGEM A JOHN LENNON
Toninho Buda, 25 novembro 2001
O Natal é a época em que as pessoas voltam
para suas terras natais e visitam os amigos de infância,
relembram histórias e falam de suas tristezas, alegrias
e do que andam fazendo pelo mundo. E em que mundo estamos
vivendo! Este primeiro ano do novo milênio foi de
arrepiar! Acredito que nada poderia ser mais marcante e
avassalador do que aquele ataque a Nova Iorque. É
como se, de repente, as forças antagônicas
do mundo, represadas há milênios, despertassem
sua fúria para dizer simplesmente: Civilizados imbecis,
continuamos aqui e nada irá nos calar! Sim, parece
que elas não estão apenas no nosso inconsciente,
mas no âmago da criação do Universo.
Assim, de uma forma que até agora ninguém
conseguiu entender direito, um grupo bem determinado foi
lá e explodiu as torres gêmeas.
Hoje é dia 25 de novembro de 2001. Falta exatamente
um mês para o Natal. Harry Potter e a Pedra Filosofal
está chegando aos cinemas esta semana. Para quem
gosta de magia e de buscar coisas além de sexo e
comidas e bebidas, eu gostaria de relembrar que existe no
Tarot uma carta chamada A Torre, que é provavelmente
a mais nefasta das imagens deste mapa de acesso às
profundas dos mistérios da cognição
subjetiva. Não há quem não trema nas
bases, quando esta carta aparece numa leitura. Mas dando
uma volta pelas outras cartas do Tarot, encontramos a Roda,
que simboliza o giro da existência e a repetitividade
das coisas, o ciclo infinito das cadeias do carma e das
contribuições de cada um para que as coisas
ruins ou boas continuem acontecendo. Violência gera
violência, ações construtivas geram
coisas que nos parecem melhores, mas que são muito
mais difíceis de serem mantidas. Esta contraposição
e estes paradoxos estão aí para desafiar o
nosso entendimento do funcionamento do mundo.
Nós começamos o ano festejando o início
da Era de Aquário e esperávamos que Nostradamus
estivesse completamente errado nas suas nefastas previsões.
Talvez não estivesse... No entanto, reagindo à
violência das forças destruidoras, as antigas
forças de resistência passiva também
mostraram sua cara. E para nossa grande satisfação,
este ano foi o ano do grande revival das propostas da Contracultura.
Principalmente a partir da explosão das torres. Quando
o mundo foi buscar referências para confortar sua
alma aturdida, muitos voltaram a beber nas fontes de água
viva dos anos sessenta. E aqui no Brasil, esta semana, eu
recebi do Marcelo Fróes um trabalho maravilhoso,
que foi o CD “Dê Uma Chance à Paz –
Uma Homenagem a John Lennon”. Ele foi composto exatamente
dentro do espírito do Natal, a partir da reunião
de grandes amigos – e grandes nomes de nossa música
-, para falar dos bons tempos, das coisas boas que já
foram feitas nos movimentos da música pop, em busca
da paz e da compreensão entre os seres humanos. Um
encontro de velhos amigos, promovido pelo próprio
Marcelo. E escolher John Lennon não poderia ter sido
mais apropriado.
O elenco é uma constelação das mais
brilhantes estrelas da nossa música: Nando Reis,
Cássia Eller, Lobão, Gilberto Gil, Milton
Nascimento, Arnaldo Batista, Charles Gavin, Andreas Kisser,
João Barone, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Zé
Ramalho, Paulinho Moska, Herbert Vianna, Toni Platão,
Celso Fonseca e Lulu Santos! Eu fico até imaginando
uma festa, uma grande festa, pacífica, com milhões
de pessoas, onde esta turma pudesse cantar as canções
deste trabalho, numa noite morna de lua cheia...
O mais emocionante é que todos eles mostraram o
lado mais profundamente humano de John Lennon. Sua luta
pelos direitos humanos ficou maravilhosamente bem representada
em Woman Is The Nigger of the World (com Cássia Eller);
seu esforço pela paz mundial aqui está presente
em Give Peace a Chance, na voz do gênio Arnaldo Batista
(por falar em Mutantes, Rita Lee também está
lançando um CD com músicas dos Beatles...)
e Imagine (no maravilhoso dueto de Gilberto Gil e Milton
Nascimento); Seu universo dolorosamente psicanalítico,
com o qual inevitavelmente todos nos identificamos está
em Mother (na brilhante interpretação de Zeca
Baleiro), Beautiful Boy (com Lulu Santos interpretando esta
cantiga de ninar: “feche seus olhos e não tenha
medo, pois os monstros foram embora e seu pai está
aqui”) e God, onde não poderia haver melhor
escolha do que nosso querido Zé Ramalho, para declamar:
“Deus é um conceito, pelo qual nós
medimos nossas dores. Eu não acredito em magia, eu
não acredito em I-Ching, eu não acredito na
Bíblia, eu não acredito no Tarot, eu não
acredito em Hitler, eu não acredito em Jesus, eu
não acredito em Kennedy, eu não acredito em
Buda, eu não acredito em Mantra, eu não acredito
em Gita, eu não acredito em Yoga, eu não acredito
em reis, eu não acredito em Elvis, eu não
acredito em Zimmerman (Bob Dylan), eu não acredito
nos Beatles, eu só acredito em mim mesmo, Yoko e
eu, esta é a realidade, o sonho acabou, o que mais
eu posso dizer?”
Com isso, Lennon, por sua vez, fez questão de jogar
por terra todas as torres da Contracultura. Mas, quem conhece
um pouco mais dos antigos mistérios, sabe que a carta
16 do Tarot tem um lado extremamente positivo: a destruição
dos antigos conceitos significa a porta de abertura para
a renovação, para a busca de novos caminhos,
para o despertar para novas possibilidades. A destruição
das torres significa que o Velho Mundo tem que dar origem
ao Novo Mundo... Existe um detalhe do qual estava me esquecendo:
o filho de Lennon, Sean, esteve nos estúdios durante
as gravações deste CD e os membros da banda
Cibo Matto, que é liderada pela sua namorada Yuka
Honda, tiveram uma participação especial nesta
homenagem a seu pai. Yuka assina a produção
da faixa título, Give Peace a Chance, e seu trabalho
de mixagem foi realizado em Nova Iorque. Vejam só:
quando atiraram em Lennon, tudo parecia perdido. Quando
as torres caíram, tudo parecia perdido e todos temíamos
que ali estivesse começando a Terceira Guerra Mundial.
No entanto, a Roda da Vida continua, as forças voltaram
a se reequilibrar e as rotas estão sendo gradativamente
corrigidas... Esta é a melhor mensagem de Natal que
poderíamos receber neste momento:
All we are saying is give peace a chance !