Toninho Buda, 27 outubro 2001
Belém, 28 outubro 2001. Devagarinho, os rios da amazônia
já começam a subir de nível. Alter
do Chão, um lugarejo de lindas praias ribeirinhas
em Santarém, já começa a mergulhar
dentro da confluência do Tapajós com o Amazonas.
Ali os dois gigantes se encontram, mas não se misturam.
Dá para perceber perfeitamente a diferença
entre as cores das águas de cada um deles. A região
do baixo Amazonas é fantástica. Toda vez que
eu vejo, de avião, a região da ilha de Marajó,
não deixo de me intrigar com a semelhança
que ela tem com o sistema circulatório dos vertebrados,
onde as veias são os rios e igarapés. Lá
de cima se tem a certeza de que as águas são
o sangue e a vida da terra. Talvez seja por isto que os
nortistas amam tanto estes rios. E foi um cantor aqui do
norte, chamado Sérgio Leite, que me convidou para
um luau na ilha do Cumbu, do outro lado da baía do
Guajará.
Eu não sabia o que era luau. Depois que tudo aconteceu,
é que fiquei sabendo que a origem dessas festas vem
do Hawaii. Pelo que entendi, aqui no norte do Brasil, o
luau é uma festa íntima, normalmente perto
da natureza e à luz da lua cheia. É importante
que o clima seja o mais tranquilo possível. As pessoas,
normalmente amigos de longa data, comparecem para saborearem
a boa convivência, a cordialidade, a amizade e a alegria
de estarem vivas e num lugar tão maravilhoso quanto
este. Durante a festa, normalmente acontecem brincadeiras
leves, sorteios de brindes e oferendas de músicas
e votos de felicidades. A decoração com flores
e as bebidas e comidas típicas completam e dão
clima ao ambiente.
A festa de Sérgio Leite aconteceu no dia 6 de outubro
de 2001. Pegamos o barco na Praça Princesa Isabel
às 21hs. Cerca de oitenta a cem pessoas se espalharam
pelo barco de madeira, especialmente fretado para a ocasião.
Em 15 minutos de travessia, estávamos no restaurante
“Saldosa” Maloca, na Ilha do Cumbu. O desembarque
se deu num atracadouro, também de madeira, seguido
de um comprido passadiço de tábuas, que serpenteava
sobre um mangue cheio de vitórias-régia. Na
escuridão da noite enfeitada pela lua cheia, era
como se estivéssemos descendo num lugar sagrado.
E aqui, a quantidade de lendas e histórias da amazônia
é tão grande, que é inevitável
que se sinta no ambiente a presença dos espíritos
da floresta.
O ambiente não poderia estar mais agradável.
A temperatura estava perfeitamente equilibrada e, por incrível
que pareça, durante as quatro horas em que lá
ficamos, não conseguimos perceber a presença
de nenhum mosquito. Algumas pessoas me explicaram que, por
aqui, eles são mais comuns na época das chuvas,
quando se multiplicam em grande quantidade. Nós nos
assentamos em mesas colocadas ao relento, fora do restaurante
propriamente dito, no meio das árvores. O chão
era de um gramado natural e o som era de primeira qualidade,
com as caixas espalhadas entre as árvores.
Logo em seguida, o Sérgio começou a tocar.
E como é de praxe, as pessoas começaram a
escrever seus pedidos de músicas em pedaços
de papel, e a entregar a ele ou ao seu parceiro, um famoso
percussionista chamado Sagica, que já tocou até
com Elis Regina. Eu havia conhecido Sérgio Leite
num show que ele fizera em homenagem ao Raul Seixas, mas
não sabia que o talento dele se estendia por muito
mais além. Ele é um showman e um gentleman
(agora fico me perguntando por que é que a gente
tem que usar palavras em inglês para definir as características
de uma pessoa. Mas se nós formos observar bem estas
duas palavras – showman e gentleman -, não
temos, em português, expressões de uso corrente
que lhes sejam fielmente substitutas. Mas, afinal, os americanos
são realmente os reis do showbiss e sua Broadway
é bem mais famosa que o Moulin Rouge...).
Nascido e criado em Belém, hoje com 38 anos de idade
e com habilitação em música pela Universidade
do Estado do Pará, Sérgio já foi professor
do SESC, participou do Coral da UEPA e tem vários
prêmios conquistados em festivais de música.
Tocando na noite, já realizou diversos especiais
dedicados a cantores nacionais, como este em que eu o conheci,
em homenagem a Raul Seixas. Às vezes, quando é
lua cheia, ele convoca os amigos e faz um luau...
Curiosamente, nesta noite de 6 de outubro, ouvimos mais
músicas do cancioneiro nacional do que propriamente
aqui do norte. Mas “Belém Pará Brasil”,
do extinto grupo Mosaico de Ravena, valeu por todas! Em
“Menino do Rio”, Sérgio fez uma paródia,
cantando “Menino do Rio Guamá”, em que
ficou claro que, por mais belo que seja o Rio do Sul, ele
prefere muito mais o rio do Norte. Pudemos relembrar pérolas
como Deus lhe Pague (Chico Buarque), Chão de Giz
(Zé Ramalho), Espanhola (Flávio Venturini),
La Barca, Sessão das Dez (Raul Seixas), Drão
(Gilberto Gil) e muita coisa de João Bosco, Elis
Regina e outros gênios da nossa música popular.
O romantismo da noite chegou a me maltratar, pois eu gostaria
muito de estar ali com uma linda escritora que conhecera
semanas antes (essa esperança se transformaria num
verdadeiro pesadelo semanas depois, às vésperas
do Círio de Nazaré, no segundo domingo de
outubro. Mas essa história eu quero esquecer...).
Agora, neste momento em que estou escrevendo, sentado na
cama de um quarto do Hotel Unidos, em Belém, o relógio
marca meia noite e meia; e, exatamente como na noite do
luau, me vem água na boca quando me lembro dos cubos
de pescada que comi naqueles momentos inesquecíveis,
temperados com vinagrete. E vou confessar uma coisa: sempre
detestei vinagrete! O motivo é simples: para mim,
essa coisa sempre foi tempero de churrasco. E como eu não
como carne vermelha, sempre que sou convidado para churrascos
e não posso fugir, sou obrigado a comer o tradicional
acompanhamento dos assados: arroz com farofa e vinagrete!
Meu amigo, vou te contar uma coisa: engolir essa paçoca
ácida, somente para agradar aos outros, não
é brincadeira! E o pior é que essa gororoba,
em poucos minutos, dá fome e uma azia do cão!
Com isso, eu tomei um ódio mortal do tal vinagrete!
Mas ali, na beira do rio, naquele ambiente e ouvindo aquele
som à luz da lua cheia, eu coloquei o primeiro cubo
de peixe na boca e achei delicioso. Quando olhei para uma
amiga, ela estava molhando um pedaço do peixe num
pote de vinagrete e comendo com a melhor boca do mundo.
Então, mesmo odiando vinagrete, eu resolvi experimentar.
E foi fantástico! A combinação do vinagrete
com pescada frita é uma das melhores coisas que já
comi na vida! Naquele momento, um milagre retransformou
o vinagrete em vinho! Assim, redimido e abençoado
pelos gênios da floresta, às duas da madrugada,
eu peguei o barco de volta, junto com vários outros
convivas. Atravessamos outra vez a foz do rio Guamá,
esta imensa Baía do Guajará, onde desembocam
também o Arari, o Cururu, o Paracauary e uma infinidade
de igarapés menores. Ali, naquele banco de madeira,
com uma sonolência gostosa e uma leve nostalgia pela
saudade de casa, saindo do “Saldosa” Maloca
e embalado pelo balanço do barco, com a lua cheia
refletida na água e a brisa da amazônia me
resfriando levemente o peito através da camisa aberta,
eu era um passageiro ribeirinho simplesmente feliz.
SÉRGIO LEITE
no
LUAU À BEIRA DO GUAMÁ
Toninho Buda, 27 outubro 2001
Belém, 28 outubro 2001. Devagarinho, os rios da amazônia
já começam a subir de nível. Alter
do Chão, um lugarejo de lindas praias ribeirinhas
em Santarém, já começa a mergulhar
dentro da confluência do Tapajós com o Amazonas.
Ali os dois gigantes se encontram, mas não se misturam.
Dá para perceber perfeitamente a diferença
entre as cores das águas de cada um deles. A região
do baixo Amazonas é fantástica. Toda vez que
eu vejo, de avião, a região da ilha de Marajó,
não deixo de me intrigar com a semelhança
que ela tem com o sistema circulatório dos vertebrados,
onde as veias são os rios e igarapés. Lá
de cima se tem a certeza de que as águas são
o sangue e a vida da terra. Talvez seja por isto que os
nortistas amam tanto estes rios. E foi um cantor aqui do
norte, chamado Sérgio Leite, que me convidou para
um luau na ilha do Cumbu, do outro lado da baía do
Guajará.
Eu não sabia o que era luau. Depois que tudo aconteceu,
é que fiquei sabendo que a origem dessas festas vem
do Hawaii. Pelo que entendi, aqui no norte do Brasil, o
luau é uma festa íntima, normalmente perto
da natureza e à luz da lua cheia. É importante
que o clima seja o mais tranquilo possível. As pessoas,
normalmente amigos de longa data, comparecem para saborearem
a boa convivência, a cordialidade, a amizade e a alegria
de estarem vivas e num lugar tão maravilhoso quanto
este. Durante a festa, normalmente acontecem brincadeiras
leves, sorteios de brindes e oferendas de músicas
e votos de felicidades. A decoração com flores
e as bebidas e comidas típicas completam e dão
clima ao ambiente.
A festa de Sérgio Leite aconteceu no dia 6 de outubro
de 2001. Pegamos o barco na Praça Princesa Isabel
às 21hs. Cerca de oitenta a cem pessoas se espalharam
pelo barco de madeira, especialmente fretado para a ocasião.
Em 15 minutos de travessia, estávamos no restaurante
“Saldosa” Maloca, na Ilha do Cumbu. O desembarque
se deu num atracadouro, também de madeira, seguido
de um comprido passadiço de tábuas, que serpenteava
sobre um mangue cheio de vitórias-régia. Na
escuridão da noite enfeitada pela lua cheia, era
como se estivéssemos descendo num lugar sagrado.
E aqui, a quantidade de lendas e histórias da amazônia
é tão grande, que é inevitável
que se sinta no ambiente a presença dos espíritos
da floresta.
O ambiente não poderia estar mais agradável.
A temperatura estava perfeitamente equilibrada e, por incrível
que pareça, durante as quatro horas em que lá
ficamos, não conseguimos perceber a presença
de nenhum mosquito. Algumas pessoas me explicaram que, por
aqui, eles são mais comuns na época das chuvas,
quando se multiplicam em grande quantidade. Nós nos
assentamos em mesas colocadas ao relento, fora do restaurante
propriamente dito, no meio das árvores. O chão
era de um gramado natural e o som era de primeira qualidade,
com as caixas espalhadas entre as árvores.
Logo em seguida, o Sérgio começou a tocar.
E como é de praxe, as pessoas começaram a
escrever seus pedidos de músicas em pedaços
de papel, e a entregar a ele ou ao seu parceiro, um famoso
percussionista chamado Sagica, que já tocou até
com Elis Regina. Eu havia conhecido Sérgio Leite
num show que ele fizera em homenagem ao Raul Seixas, mas
não sabia que o talento dele se estendia por muito
mais além. Ele é um showman e um gentleman
(agora fico me perguntando por que é que a gente
tem que usar palavras em inglês para definir as características
de uma pessoa. Mas se nós formos observar bem estas
duas palavras – showman e gentleman -, não
temos, em português, expressões de uso corrente
que lhes sejam fielmente substitutas. Mas, afinal, os americanos
são realmente os reis do showbiss e sua Broadway
é bem mais famosa que o Moulin Rouge...).
Nascido e criado em Belém, hoje com 38 anos de idade
e com habilitação em música pela Universidade
do Estado do Pará, Sérgio já foi professor
do SESC, participou do Coral da UEPA e tem vários
prêmios conquistados em festivais de música.
Tocando na noite, já realizou diversos especiais
dedicados a cantores nacionais, como este em que eu o conheci,
em homenagem a Raul Seixas. Às vezes, quando é
lua cheia, ele convoca os amigos e faz um luau...
Curiosamente, nesta noite de 6 de outubro, ouvimos mais
músicas do cancioneiro nacional do que propriamente
aqui do norte. Mas “Belém Pará Brasil”,
do extinto grupo Mosaico de Ravena, valeu por todas! Em
“Menino do Rio”, Sérgio fez uma paródia,
cantando “Menino do Rio Guamá”, em que
ficou claro que, por mais belo que seja o Rio do Sul, ele
prefere muito mais o rio do Norte. Pudemos relembrar pérolas
como Deus lhe Pague (Chico Buarque), Chão de Giz
(Zé Ramalho), Espanhola (Flávio Venturini),
La Barca, Sessão das Dez (Raul Seixas), Drão
(Gilberto Gil) e muita coisa de João Bosco, Elis
Regina e outros gênios da nossa música popular.
O romantismo da noite chegou a me maltratar, pois eu gostaria
muito de estar ali com uma linda escritora que conhecera
semanas antes (essa esperança se transformaria num
verdadeiro pesadelo semanas depois, às vésperas
do Círio de Nazaré, no segundo domingo de
outubro. Mas essa história eu quero esquecer...).
Agora, neste momento em que estou escrevendo, sentado na
cama de um quarto do Hotel Unidos, em Belém, o relógio
marca meia noite e meia; e, exatamente como na noite do
luau, me vem água na boca quando me lembro dos cubos
de pescada que comi naqueles momentos inesquecíveis,
temperados com vinagrete. E vou confessar uma coisa: sempre
detestei vinagrete! O motivo é simples: para mim,
essa coisa sempre foi tempero de churrasco. E como eu não
como carne vermelha, sempre que sou convidado para churrascos
e não posso fugir, sou obrigado a comer o tradicional
acompanhamento dos assados: arroz com farofa e vinagrete!
Meu amigo, vou te contar uma coisa: engolir essa paçoca
ácida, somente para agradar aos outros, não
é brincadeira! E o pior é que essa gororoba,
em poucos minutos, dá fome e uma azia do cão!
Com isso, eu tomei um ódio mortal do tal vinagrete!
Mas ali, na beira do rio, naquele ambiente e ouvindo aquele
som à luz da lua cheia, eu coloquei o primeiro cubo
de peixe na boca e achei delicioso. Quando olhei para uma
amiga, ela estava molhando um pedaço do peixe num
pote de vinagrete e comendo com a melhor boca do mundo.
Então, mesmo odiando vinagrete, eu resolvi experimentar.
E foi fantástico! A combinação do vinagrete
com pescada frita é uma das melhores coisas que já
comi na vida! Naquele momento, um milagre retransformou
o vinagrete em vinho! Assim, redimido e abençoado
pelos gênios da floresta, às duas da madrugada,
eu peguei o barco de volta, junto com vários outros
convivas. Atravessamos outra vez a foz do rio Guamá,
esta imensa Baía do Guajará, onde desembocam
também o Arari, o Cururu, o Paracauary e uma infinidade
de igarapés menores. Ali, naquele banco de madeira,
com uma sonolência gostosa e uma leve nostalgia pela
saudade de casa, saindo do “Saldosa” Maloca
e embalado pelo balanço do barco, com a lua cheia
refletida na água e a brisa da amazônia me
resfriando levemente o peito através da camisa aberta,
eu era um passageiro ribeirinho simplesmente feliz.