Toninho Buda, 30 setembro 2001
Pois é, certa vez um repórter teve a ingenuidade
de perguntar a Marcelo Nova o que ele achava da Axé
Music. Ele respondeu simplesmente: “Eu não
sei nada sobre a Axé Music, mas o que eu faço
é Exú Music!”. Irreverente e debochado
com tudo o que se refere a Salvador e à cultura baiana,
Marceleza continua sendo um dos expoentes da velha contracultura
neste país. Quanto à dicotomia axé/exú,
ele não deixa de ter razão, pois o seu caminho
como artista de sucesso nacional começou dentro do
Punk Rock, coisa que no universo conceitual e comportamental
do rock, pode mesmo ser visto como coisa de exú caveira.
Construindo a duras penas (e muita vaselina) a Exú
Music, ele tem deixado uma herança muito especial
para a juventude deste país, tão carente de
quem a ensine a pular o muro da velha escola. Quando eu
o vejo nos programas de TV, sinto uma grande alegria: ele
continua o mesmo Marceleza, inteiraço, aos cinquenta
anos completados em agosto deste ano (2001).
Assim Falou Marceleza
É certo que o criador de Sílvia tem fama
de antipático (o que para ele deve soar como um grande
elogio...). Mais contundente, um outro jornalista chegou
a dizer que o ele era um compositor muito agressivo e além
de tudo limitado, pois a única coisa que conseguiu
fazer de perene foi o refrão do seu grupo Camisa
de Vênus, “bota prá fudê”
(eternizado em todos os festivais e shows de rock dos anos
70, 80 e até hoje, se bobear). Mas isso é
apenas a ponta do iceberg! Pessoas que conheceram a fera
mais de perto, sabem que o líder do Camisinha, nos
bons tempos dos oitenta, quando estava inspirado, era capaz
de, numa viagem da ponte aérea Rio-S.Paulo, provocar,
irritar e perturbar 98% dos passageiros de um vôo
lotado, que durava bem menos do que uma hora. Os 2% de passageiros
que ele não conseguia incomodar, eram aqueles chapados
que tomavam remédio prá dormir, com medo de
avião... Ele conseguiu brigar até com o Jô
Soares, imaginem só! Mesmo nos meios musicais, ele
poupava – e poupa - pouca gente (“Eu sou o baygon
do Rock. Terrível contra os insetos!”). Com
relação aos gays, sua metralhadora giratória
belga, marca Zero Tolerance, é até bem humanitária:
“Não tenho nada contra viado. Tenho contra
a viadagem. Oscar Wilde era um gênio que gostava de
dar a bunda. Só que agora, estão pensando
que todo indivíduo que dá a bunda é
um gênio!”.
Sobre a clonagem humana, assunto desta nova novela das
oito, ele diz: “...gostaria muito (de assistir à
clonagem acontecendo), pois a ciência, seguindo o
caminho das descobertas, com o processo de renovação
das células... retardando ou eliminando o envelhecimento...
garantindo vida plena... Ah... Deus foi colocado em cheque
mate!... Pois não foi ele mesmo quem criou o primeiro
clone? Não foi Jesus gerado no ventre de Maria, sem
penetração, sem esperma, um clone ao avesso,
um clone espiritual? Não se pode comprar uma alma
num consórcio ou num loja de departamentos, mas isso
não irá impedir o clone de sorrir, de refletir,
de sofrer, de vibrar de chorar e - ainda que vazio de alma
- penetrar e fecundar um útero, gerando um novo ser,
perene e hedonista, para quem conquistar todo o mundo será
possível, pois não haverá final nem
alma a ser perdida... Um fato desagradável (nisso
tudo) é que a mediocridade está definitivamente
instaurada na sociedade contemporânea como um vírus,
para o qual ainda não há cura. A mediocridade
hoje é aceita, às vezes, aplaudida, outras
vezes protegida, mas acima de tudo ela tem sido incentivada.
Só ha dois fatos irreversíveis no mundo contemporâneo:
A morte e a mediocridade. Com a clonagem, só restará
a mediocridade”.
As Influências
Sobre as principais influências de sua carreira,
Marcelo Nova cita Eric Burton (conheci e me tornei seu amigo,
temos até algumas parcerias. Sou mesmo um homem de
sorte... E tem mais uma coisa: para mim, Eric é um
dos cinco maiores cantores vivos do rock’n’roll).
Byrds (é uma das minhas bandas americanas favoritas,
fluente no country, no folk, além dos vocais, que
eles harmonizam como ninguém. Sua influência
está aí até hoje: dos Bodeans à
banda nova, Golden Smog, passando pelos Jayhawks e Wilco,
todos devem algo aos Byrds), Little Richard, Chuck Berry
(Prestando atenção no modo como ele compunha,
como abordava a sexualidade em letras como a de “Sweet
Little Sixteen” e “Maybellene”, é
que décadas mais tarde, aprendi a fazer coisas como
“O Último Por do Sol” e “Deixe
eu por o Meu Carro”. Aquela coisa do duplo sentido,
da malícia, das guitarras e garotas. Acho que consegui
conservar aqueles elementos. Estou com 50 anos, mas sinto
que há uma porção chuckberryana depositada
no fundo do meu coração”), Bob Dylan
(É o maior de todos. O cara que conseguiu ser o primeiro
punk, o primeiro poeta legítimo do rock, o primeiro
mesmo depois destes anos todos, que conseguiu contemplar
a velhice usando como veículo o rock’n’roll.
Um artista de pertinência, de qualidades superlativas,
o Shakespeare do rock), The Troggs, Lightnin’Hopkins,
Marianne Faithfull, Jimi Hendrix e, naturalmente, Raul Seixas.
Marcelo e Raul Seixas
Há 14 anos, em 1987, eu cheguei a assistir a um
ou dois ensaios do Marcelo Nova com Raul Seixas, num pequeno
estúdio de São Paulo, que nem me lembro onde
era... Nessa época, eu trabalhava nas obras de expansão
do Metrô de São Paulo e sempre me encontrava
com o Raul e Sylvio Passos. Nas poucas folgas que eu tinha,
às vezes saía com os dois, para batermos um
papo ou ir a algum lugar. Quando eu conto essas coisas,
as pessoas sempre me perguntam o que eu acho da convivência
do Raul com o Marcelo Nova nesse período, pois existem
pessoas capazes de imaginar que o Marcelo “se aproveitou”
do Raul. Eu sempre gosto de repetir que Marcelo Nova foi
um grande apoio para o Raul Seixas naqueles dias difíceis.
Pois o Raul estava muito mal de saúde, abandonado
pela imprensa, afastado das ex-mulheres e filhas, isolado
pelos produtores (que temiam assumir compromissos com ele)
e rodeado de picaretas de toda natureza. Marcelo chamou-o
para a grande aventura de uma série de shows, que
culminaram com um Disco de Ouro, feito pelos dois em parceria,
chamado Panela do Diabo. Raul veio a falecer logo depois
do disco pronto. Se Raul havia dito que o diabo é
o pai do rock, ninguém melhor do que o criador da
Exú Music para acender junto com ele o caldeirão
do tinhoso, na sua festa de despedida.
A Festa de Aniversário
Agora, em agosto deste ano de 2001, no Teatro do Sesi,
na Av. Paulista, em São Paulo, Marcelo Nova comemorou
seu aniversário de 50 Anos de idade. A festa se chamou
50 ANOS DE ROCK AND ROLL. Estiveram por lá: Jards
Macalé (cantando Gotham City e Farinha do Desprezo),
Os Panteras (primeira banda do Raul Seixas, cantando Rock
and Roll, Século XXI, Carpinteiro do Universo e Pastor
João e a Igreja Invisível, todas do último
LP do Raul), Tony Campelo (O Ponteiro tá Subindo
e Papel de Bandido), Silvinha Araújo (A Garota da
Motocicleta e Só o Fim), Eduardo Araújo (Deixa
Eu Por o Meu Carro e Estranho no Ninho), Walter Franco (com
a sua Canalha), Nazi (Cocaína e O Adventista), As
Velhas Virgens (My Way e Beth Morreu), Bidê ou Balde
(Hoje e Faça a Coisa Certa), Capital Inicial (passatempo),
Dr Sin (Coração Satânico e Meu Primo
Zé), Miguel Cordeiro (Simca Chambord), além
d’As Más Companhias tocando com Marcelo, Walter
Silvinha, Eduardo, Nazi, Toni... Prá finalizar, o
Camisa deVênus cantando e tocando Passamos por Isso
e Sílvia. OK, Marceleza, vai lá: solta os
kamarrupa e BOTA PRÁ FUDÊ !!!
MARCELO NOVA E A EXÚ MUSIC
Toninho Buda, 30 setembro 2001
Pois é, certa vez um repórter teve a ingenuidade
de perguntar a Marcelo Nova o que ele achava da Axé
Music. Ele respondeu simplesmente: “Eu não
sei nada sobre a Axé Music, mas o que eu faço
é Exú Music!”. Irreverente e debochado
com tudo o que se refere a Salvador e à cultura baiana,
Marceleza continua sendo um dos expoentes da velha contracultura
neste país. Quanto à dicotomia axé/exú,
ele não deixa de ter razão, pois o seu caminho
como artista de sucesso nacional começou dentro do
Punk Rock, coisa que no universo conceitual e comportamental
do rock, pode mesmo ser visto como coisa de exú caveira.
Construindo a duras penas (e muita vaselina) a Exú
Music, ele tem deixado uma herança muito especial
para a juventude deste país, tão carente de
quem a ensine a pular o muro da velha escola. Quando eu
o vejo nos programas de TV, sinto uma grande alegria: ele
continua o mesmo Marceleza, inteiraço, aos cinquenta
anos completados em agosto deste ano (2001).
Assim Falou Marceleza
É certo que o criador de Sílvia tem fama
de antipático (o que para ele deve soar como um grande
elogio...). Mais contundente, um outro jornalista chegou
a dizer que o ele era um compositor muito agressivo e além
de tudo limitado, pois a única coisa que conseguiu
fazer de perene foi o refrão do seu grupo Camisa
de Vênus, “bota prá fudê”
(eternizado em todos os festivais e shows de rock dos anos
70, 80 e até hoje, se bobear). Mas isso é
apenas a ponta do iceberg! Pessoas que conheceram a fera
mais de perto, sabem que o líder do Camisinha, nos
bons tempos dos oitenta, quando estava inspirado, era capaz
de, numa viagem da ponte aérea Rio-S.Paulo, provocar,
irritar e perturbar 98% dos passageiros de um vôo
lotado, que durava bem menos do que uma hora. Os 2% de passageiros
que ele não conseguia incomodar, eram aqueles chapados
que tomavam remédio prá dormir, com medo de
avião... Ele conseguiu brigar até com o Jô
Soares, imaginem só! Mesmo nos meios musicais, ele
poupava – e poupa - pouca gente (“Eu sou o baygon
do Rock. Terrível contra os insetos!”). Com
relação aos gays, sua metralhadora giratória
belga, marca Zero Tolerance, é até bem humanitária:
“Não tenho nada contra viado. Tenho contra
a viadagem. Oscar Wilde era um gênio que gostava de
dar a bunda. Só que agora, estão pensando
que todo indivíduo que dá a bunda é
um gênio!”.
Sobre a clonagem humana, assunto desta nova novela das
oito, ele diz: “...gostaria muito (de assistir à
clonagem acontecendo), pois a ciência, seguindo o
caminho das descobertas, com o processo de renovação
das células... retardando ou eliminando o envelhecimento...
garantindo vida plena... Ah... Deus foi colocado em cheque
mate!... Pois não foi ele mesmo quem criou o primeiro
clone? Não foi Jesus gerado no ventre de Maria, sem
penetração, sem esperma, um clone ao avesso,
um clone espiritual? Não se pode comprar uma alma
num consórcio ou num loja de departamentos, mas isso
não irá impedir o clone de sorrir, de refletir,
de sofrer, de vibrar de chorar e - ainda que vazio de alma
- penetrar e fecundar um útero, gerando um novo ser,
perene e hedonista, para quem conquistar todo o mundo será
possível, pois não haverá final nem
alma a ser perdida... Um fato desagradável (nisso
tudo) é que a mediocridade está definitivamente
instaurada na sociedade contemporânea como um vírus,
para o qual ainda não há cura. A mediocridade
hoje é aceita, às vezes, aplaudida, outras
vezes protegida, mas acima de tudo ela tem sido incentivada.
Só ha dois fatos irreversíveis no mundo contemporâneo:
A morte e a mediocridade. Com a clonagem, só restará
a mediocridade”.
As Influências
Sobre as principais influências de sua carreira,
Marcelo Nova cita Eric Burton (conheci e me tornei seu amigo,
temos até algumas parcerias. Sou mesmo um homem de
sorte... E tem mais uma coisa: para mim, Eric é um
dos cinco maiores cantores vivos do rock’n’roll).
Byrds (é uma das minhas bandas americanas favoritas,
fluente no country, no folk, além dos vocais, que
eles harmonizam como ninguém. Sua influência
está aí até hoje: dos Bodeans à
banda nova, Golden Smog, passando pelos Jayhawks e Wilco,
todos devem algo aos Byrds), Little Richard, Chuck Berry
(Prestando atenção no modo como ele compunha,
como abordava a sexualidade em letras como a de “Sweet
Little Sixteen” e “Maybellene”, é
que décadas mais tarde, aprendi a fazer coisas como
“O Último Por do Sol” e “Deixe
eu por o Meu Carro”. Aquela coisa do duplo sentido,
da malícia, das guitarras e garotas. Acho que consegui
conservar aqueles elementos. Estou com 50 anos, mas sinto
que há uma porção chuckberryana depositada
no fundo do meu coração”), Bob Dylan
(É o maior de todos. O cara que conseguiu ser o primeiro
punk, o primeiro poeta legítimo do rock, o primeiro
mesmo depois destes anos todos, que conseguiu contemplar
a velhice usando como veículo o rock’n’roll.
Um artista de pertinência, de qualidades superlativas,
o Shakespeare do rock), The Troggs, Lightnin’Hopkins,
Marianne Faithfull, Jimi Hendrix e, naturalmente, Raul Seixas.
Marcelo e Raul Seixas
Há 14 anos, em 1987, eu cheguei a assistir a um
ou dois ensaios do Marcelo Nova com Raul Seixas, num pequeno
estúdio de São Paulo, que nem me lembro onde
era... Nessa época, eu trabalhava nas obras de expansão
do Metrô de São Paulo e sempre me encontrava
com o Raul e Sylvio Passos. Nas poucas folgas que eu tinha,
às vezes saía com os dois, para batermos um
papo ou ir a algum lugar. Quando eu conto essas coisas,
as pessoas sempre me perguntam o que eu acho da convivência
do Raul com o Marcelo Nova nesse período, pois existem
pessoas capazes de imaginar que o Marcelo “se aproveitou”
do Raul. Eu sempre gosto de repetir que Marcelo Nova foi
um grande apoio para o Raul Seixas naqueles dias difíceis.
Pois o Raul estava muito mal de saúde, abandonado
pela imprensa, afastado das ex-mulheres e filhas, isolado
pelos produtores (que temiam assumir compromissos com ele)
e rodeado de picaretas de toda natureza. Marcelo chamou-o
para a grande aventura de uma série de shows, que
culminaram com um Disco de Ouro, feito pelos dois em parceria,
chamado Panela do Diabo. Raul veio a falecer logo depois
do disco pronto. Se Raul havia dito que o diabo é
o pai do rock, ninguém melhor do que o criador da
Exú Music para acender junto com ele o caldeirão
do tinhoso, na sua festa de despedida.
A Festa de Aniversário
Agora, em agosto deste ano de 2001, no Teatro do Sesi,
na Av. Paulista, em São Paulo, Marcelo Nova comemorou
seu aniversário de 50 Anos de idade. A festa se chamou
50 ANOS DE ROCK AND ROLL. Estiveram por lá: Jards
Macalé (cantando Gotham City e Farinha do Desprezo),
Os Panteras (primeira banda do Raul Seixas, cantando Rock
and Roll, Século XXI, Carpinteiro do Universo e Pastor
João e a Igreja Invisível, todas do último
LP do Raul), Tony Campelo (O Ponteiro tá Subindo
e Papel de Bandido), Silvinha Araújo (A Garota da
Motocicleta e Só o Fim), Eduardo Araújo (Deixa
Eu Por o Meu Carro e Estranho no Ninho), Walter Franco (com
a sua Canalha), Nazi (Cocaína e O Adventista), As
Velhas Virgens (My Way e Beth Morreu), Bidê ou Balde
(Hoje e Faça a Coisa Certa), Capital Inicial (passatempo),
Dr Sin (Coração Satânico e Meu Primo
Zé), Miguel Cordeiro (Simca Chambord), além
d’As Más Companhias tocando com Marcelo, Walter
Silvinha, Eduardo, Nazi, Toni... Prá finalizar, o
Camisa deVênus cantando e tocando Passamos por Isso
e Sílvia. OK, Marceleza, vai lá: solta os
kamarrupa e BOTA PRÁ FUDÊ !!!