CONTRACULTURA

EU TE AMO , MEU BRASIL

Toninho Buda, 7 setembro 2001


Belém, Pará, 7 setembro 2001 – A música de maior sucesso em Belém, hoje, é “Rupinol”, de um cantor chamado Marinho. Ainda há poucos momentos, eu estava passando pela Praça da República, em direção ao meu trabalho, ouvindo o som de Rupinol nas barraquinhas, disputando espaço ambiente com as fanfarras das bandas que desfilavam pela Avenida Presidente Vargas, pelo Dia da Pátria. O caleidoscópio de sons, ruídos, cores e a algazarra da multidão em festa, ainda está muito vivo na minha memória. As crianças carregavam bandeirinhas do Brasil e corriam entre os troncos da floresta de pernas, postes, árvores e muletas. No meio dessa fuzarca, não me sai da cabeça a letra do Marinho: ela fala de um remédio utilizado em tratamentos psiquiátricos, que também é utilizado pelos dependentes de drogas; mas também pelas prostitutas de Belém, para doparem o freguês e roubarem tudo o que ele tem. Tenho certeza de que esta música faria sucesso nacional na voz do Tiririca! Não sei bem porquê, mas ela é a cara dele, vejam só: “o rupinol é perigoso... Prá ela tu era um gato, otário... Ela te chama de céu, e carrega o teu anel... ela te chama de pão, e carrega o teu cordão... ela te chama de amôoo, tu vai sentí é muita dôo... o rupinol é rupinol...” . Folclore ou não, marketing ou não, o fato é que dizem que o próprio Marinho foi vítima desse golpe, mas acabou dando a volta por cima, e transformou o infortúnio numa música de sucesso. Hoje, ele é um herói do Brega.

Aliás, são essas histórias das músicas e dos músicos que fazem a delícia desta nossa coluna. Como hoje é o Dia da Pátria, vamos voltar um pouco no tempo e falar de alguns cantores que estão sendo relembrados e tendo seus discos relançados, com uma campanha de marketing baseada em fatos de suas vidas pessoais. É o caso – bastante triste, por sinal – de Dom e Ravel, aquela dupla que compôs “Eu te Amo, Meu Brasil” (que, por sinal, fez mais sucesso na voz de Os Incríveis do que na deles próprios). Eu os vi outro dia na TV, reclamando muito de que o governo daquele período utilizou esta música como propaganda ufanista da Ditadura Militar e os prejudicou tremendamente para o resto de suas vidas: primeiro por que eles foram associados publicamente com o regime militar, discriminados pela classe artística (cujos membros normalmente tinham um engajamento político de esquerda) e por boa parte da população, sem nunca terem procurado relacionamentos políticos ou partidários. Segundo, porque eles nunca receberam nenhum tostão pela utilização de sua obra. E realmente, tanto pela sinceridade do depoimento deles, quanto pelo que se conhece hoje dos fatos, tudo não passou de uma grande injustiça... que hoje pode ser parcialmente “indenizada”, com uma boa revendagem de suas músicas.

Ainda há pouco eu conversava com o Aurélio sobre a importância do passado de nossa música, e falamos sobre a importância de um trabalho como o do Marcelo Fróes, que se transformou num verdadeiro garimpeiro das relíquias da nossa história musical, que o tempo acabou por sepultar. A diferença entre o Marcelo e eu, no entanto, é a questão da idade: apesar da esclerose, eu ainda me lembro de algumas coisas muito antigas, principalmente quando os amigos me ajudam a reacender as lamparinas de querosene. Nesse tempo antigo do Dom e Ravel, por exemplo, nós vivíamos (1972) nas comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil. Sesquicentenário quer dizer 150 anos, se não me engano... Bem, mas já lá se vão 29 anos! Não foram apenas Dom e Ravel que fizeram músicas que podiam ser vistas como ufanistas. O próprio Jorge Ben (que ainda não era Jorge Ben Jor) gravou “País Tropical” e a expressão que definia o país era “Patropi”. E Dom e Ravel fizeram também outra música que foi muito utilizada pelo Governo Militar, chamada “Você também é Responsável”, nas campanhas para popularização do Mobral ( “eu venho de campos, subúrbios e vilas...”).

Mas o que arrebentou com a dupla foi a criatividade muito solta (e a maior prova de que eles não estavam realmente a serviço dos militares): eles fizeram outra canção que – no clima de repressão e paranóia reinante – qualquer um poderia associar aos militares no Governo: ANIMAIS IRRACIONAIS (“animais...animais... nós os homens somos mesmo animais irracionais... levantamos, guerreamos, deitamos e rezamos, a vida é um sonho e nada mais... animais, animais, animais irracionais...”). Eu confesso que fico feliz de ver nas entrelinhas desta canção os arquetípicos inimigos da liberdade humana, segundo os anarquistas: o Estado, as Forças Armadas e a Igreja. Mas o resultado da interpretação desta letra como esculhambação não poderia ser diferente: ferro na boneca! Com isso, eles cativaram inimigos da esquerda e da direita e ficaram sem ter prá onde correr! E tudo indica que eles não conseguiram sobreviver psiquicamente ao peso da barra, e da solidão... Hoje, o tributo a Dom e Ravel é mais do que justo: é uma honraria necessária à memória de nossos heróis culturais.

Pois afinal, por mais que soem os tambores e marchem os soldados, cabeças de papel, nós sempre teremos aquelas vozes histéricas, solitárias, dos trovadores populares que berram acima do murmurinho da multidão e do som das cornetas, vendo maravilhas no ar, debochando da idiotice de tantos, alertando sobre as ameaças e os perigos ambientais da raça humana, como Marinho, Jorge Ben e Dom e Ravel: Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza... Mas que beleza... o rupinol é perigoso, otário, eles podem levar tudo que tu tem... Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde, amarelo, branco, azul e anil! Sim, nós podemos ter momentos felizes de amor ao chão da terra de onde viemos. E à qual voltaremos. A vida é um sonho, e nada mais.

EU TE AMO , MEU BRASIL

Toninho Buda, 7 setembro 2001


Belém, Pará, 7 setembro 2001 – A música de maior sucesso em Belém, hoje, é “Rupinol”, de um cantor chamado Marinho. Ainda há poucos momentos, eu estava passando pela Praça da República, em direção ao meu trabalho, ouvindo o som de Rupinol nas barraquinhas, disputando espaço ambiente com as fanfarras das bandas que desfilavam pela Avenida Presidente Vargas, pelo Dia da Pátria. O caleidoscópio de sons, ruídos, cores e a algazarra da multidão em festa, ainda está muito vivo na minha memória. As crianças carregavam bandeirinhas do Brasil e corriam entre os troncos da floresta de pernas, postes, árvores e muletas. No meio dessa fuzarca, não me sai da cabeça a letra do Marinho: ela fala de um remédio utilizado em tratamentos psiquiátricos, que também é utilizado pelos dependentes de drogas; mas também pelas prostitutas de Belém, para doparem o freguês e roubarem tudo o que ele tem. Tenho certeza de que esta música faria sucesso nacional na voz do Tiririca! Não sei bem porquê, mas ela é a cara dele, vejam só: “o rupinol é perigoso... Prá ela tu era um gato, otário... Ela te chama de céu, e carrega o teu anel... ela te chama de pão, e carrega o teu cordão... ela te chama de amôoo, tu vai sentí é muita dôo... o rupinol é rupinol...” . Folclore ou não, marketing ou não, o fato é que dizem que o próprio Marinho foi vítima desse golpe, mas acabou dando a volta por cima, e transformou o infortúnio numa música de sucesso. Hoje, ele é um herói do Brega.

Aliás, são essas histórias das músicas e dos músicos que fazem a delícia desta nossa coluna. Como hoje é o Dia da Pátria, vamos voltar um pouco no tempo e falar de alguns cantores que estão sendo relembrados e tendo seus discos relançados, com uma campanha de marketing baseada em fatos de suas vidas pessoais. É o caso – bastante triste, por sinal – de Dom e Ravel, aquela dupla que compôs “Eu te Amo, Meu Brasil” (que, por sinal, fez mais sucesso na voz de Os Incríveis do que na deles próprios). Eu os vi outro dia na TV, reclamando muito de que o governo daquele período utilizou esta música como propaganda ufanista da Ditadura Militar e os prejudicou tremendamente para o resto de suas vidas: primeiro por que eles foram associados publicamente com o regime militar, discriminados pela classe artística (cujos membros normalmente tinham um engajamento político de esquerda) e por boa parte da população, sem nunca terem procurado relacionamentos políticos ou partidários. Segundo, porque eles nunca receberam nenhum tostão pela utilização de sua obra. E realmente, tanto pela sinceridade do depoimento deles, quanto pelo que se conhece hoje dos fatos, tudo não passou de uma grande injustiça... que hoje pode ser parcialmente “indenizada”, com uma boa revendagem de suas músicas.

Ainda há pouco eu conversava com o Aurélio sobre a importância do passado de nossa música, e falamos sobre a importância de um trabalho como o do Marcelo Fróes, que se transformou num verdadeiro garimpeiro das relíquias da nossa história musical, que o tempo acabou por sepultar. A diferença entre o Marcelo e eu, no entanto, é a questão da idade: apesar da esclerose, eu ainda me lembro de algumas coisas muito antigas, principalmente quando os amigos me ajudam a reacender as lamparinas de querosene. Nesse tempo antigo do Dom e Ravel, por exemplo, nós vivíamos (1972) nas comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil. Sesquicentenário quer dizer 150 anos, se não me engano... Bem, mas já lá se vão 29 anos! Não foram apenas Dom e Ravel que fizeram músicas que podiam ser vistas como ufanistas. O próprio Jorge Ben (que ainda não era Jorge Ben Jor) gravou “País Tropical” e a expressão que definia o país era “Patropi”. E Dom e Ravel fizeram também outra música que foi muito utilizada pelo Governo Militar, chamada “Você também é Responsável”, nas campanhas para popularização do Mobral ( “eu venho de campos, subúrbios e vilas...”).

Mas o que arrebentou com a dupla foi a criatividade muito solta (e a maior prova de que eles não estavam realmente a serviço dos militares): eles fizeram outra canção que – no clima de repressão e paranóia reinante – qualquer um poderia associar aos militares no Governo: ANIMAIS IRRACIONAIS (“animais...animais... nós os homens somos mesmo animais irracionais... levantamos, guerreamos, deitamos e rezamos, a vida é um sonho e nada mais... animais, animais, animais irracionais...”). Eu confesso que fico feliz de ver nas entrelinhas desta canção os arquetípicos inimigos da liberdade humana, segundo os anarquistas: o Estado, as Forças Armadas e a Igreja. Mas o resultado da interpretação desta letra como esculhambação não poderia ser diferente: ferro na boneca! Com isso, eles cativaram inimigos da esquerda e da direita e ficaram sem ter prá onde correr! E tudo indica que eles não conseguiram sobreviver psiquicamente ao peso da barra, e da solidão... Hoje, o tributo a Dom e Ravel é mais do que justo: é uma honraria necessária à memória de nossos heróis culturais.

Pois afinal, por mais que soem os tambores e marchem os soldados, cabeças de papel, nós sempre teremos aquelas vozes histéricas, solitárias, dos trovadores populares que berram acima do murmurinho da multidão e do som das cornetas, vendo maravilhas no ar, debochando da idiotice de tantos, alertando sobre as ameaças e os perigos ambientais da raça humana, como Marinho, Jorge Ben e Dom e Ravel: Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza... Mas que beleza... o rupinol é perigoso, otário, eles podem levar tudo que tu tem... Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde, amarelo, branco, azul e anil! Sim, nós podemos ter momentos felizes de amor ao chão da terra de onde viemos. E à qual voltaremos. A vida é um sonho, e nada mais.


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