CONTRACULTURA

O APAGÃO DO ROCK

Toninho Buda, 29 julho 2001


Todos os dias, por volta de 07:30hs da manhã, eu passo na Praça da República, em Belém do Pará, indo para o meu trabalho. E lá estão os hippies, ainda dormindo sobre caixas de papelão, amontoados pelos cantos ou deitados debaixo das árvores. É um privilégio morar num lugar em que é verão o ano todo. Por aqui se pode dormir sempre ao relento. O máximo que pode acontecer é chover, mas a chuva não incomoda. A chuva só refresca este calor sempre acima de 30 graus durante o dia. Mas os hippies daqui me deprimem, devido à sujeira em que vivem. Eles não passam de uma pálida e triste imagem do que foram os hippies dos anos 60. Continuam vendendo pulseirinhas, mas a exuberância de outrora foi coberta pelos andrajos de mendigos. A luz da Nova Era se apagou em seus olhos.

Mesmo nos tempos em que o rock’n’roll tomava o planeta, já existia um ditado que dizia que, para acabar com o rock, bastava desligar a tomada. Isso refletia a irritação que aquela zoeira causava na cabeça das pessoas mais sensatas. Agora a coisa está ficando cada vez pior: o apagão, a falta de energia, a baixa vitalidade, o baixo astral e o cansaço, chegaram definitivamente ao rock. E de todas as formas possíveis e imagináveis! Só nos resta torcer para que essa onda passe e o rock volte com toda a força dentro de algum tempo... Mas vejamos alguns sintomas desanimadores: o racionamento de energia e a cruzada moral contra os maus costumes.

Existem Festivais de Rock sendo cancelados por que os patrocinadores se recusam a fornecer verbas para iluminar estádios e locais onde os festivais se realizariam. O argumento é de que seria incoerente gastar dinheiro com iluminação de eventos festivos, se eles estão sendo obrigados a economizar energia dentro de suas próprias empresas, por ordem do Governo. É claro que isto tem acontecido também com as partidas de futebol, com outras festas populares e também iluminação pública inútil (como monumentos e fontes luminosas). Mas não deixa de ser desanimador ter que optar entre cancelar um festival de rock ou póiam -lo durante o dia, à luz do sol! Mesmo assim, não está havendo nem patrocínio para os equipamentos de som, que consomem grande quantidade de quilowatts por hora! Resumindo: estão realmente desligando a tomada do rock...

pó completar, existe a cruzada moral contra os maus costumes! E nesta cruzada, há poucas semanas assistimos ao deplorável espetáculo do póiam liza de jovens durante a festa na Praça da Apoteose, no Rio, depois de medidas desastrosas tomadas pelo Juiz Siro Darlan, que na última hora proibiu a entrada de menores de idade no show do Planet Hemp. Eu gostaria de agradecer aqui à Rede Globo, por ter colocado um site na Internet (O “Megafone”), onde as pessoas poderiam responder livremente a uma pesquisa onde a pergunta era: “você é contra ou a favor da decisão do Juiz Siro Darlan”? Eu agradeço porque pude – como qualquer pessoa – ter acesso à resposta de 412 pessoas, e estudá-las cuidadosamente. O resultado fornece dados muito interessantes!

Dos 412 emails, eu imprimi 100 para minha pesquisa particular, e examinei-os, chegando aos seguintes dados estatísticos: das 100, um total de 63 pessoas foram CONTRA a decisão de Siro Darlan (ou seja, 63%). Do outro lado, 37 pessoas foram A FAVOR da proibição (ou seja, 37%). Independente de serem contra ou a favor, 38 pessoas acharam que o Juiz quer mesmo é aparecer. Por outro lado, apenas 15 pessoas fizeram questão de lembrar que o Juiz somente se preocupa com as crianças de classe média (que podem pagar o ingresso de um show, e aquelas que póiam liz passarelas de desfiles de modas, outra implicância predileta do famigerado homem da capa preta), enquanto milhares de outras crianças, em estado grave de abandono, fome e miséria, estão pelas ruas do Rio de Janeiro, sendo maltratadas, humilhadas e assassinadas. Algumas cartas, no entanto, merecem ser aqui repetidas, para ilustrar nossa pesquisa.

Eu teria ficado muito decepcionado se a maioria das pessoas tivessem sido a favor de uma decisão atrapalhada, precipitada, ingênua e desastrosa, como foi a decisão tomada pelo magistrado. Mas todo o espetáculo tem sintomas sócio-culturais que saltam aos olhos e precisamos estar alertas para eles. Principalmente porque eles refletem o nosso meio-ambiente, ou seja, o nível mental médio da nossa população de classe média. Pois é claro que uma pessoa, para opinar na Internet, tem que ter acesso a um computador, saber pó-lo e ser razoavelmente bem informada e escolarizada. Isso particulariza o nosso universo de amostragem, e não podemos póiam -lo como se fosse uma amostra do “povo brasileiro”. Mas chama a nossa atenção, por ser a opinião da classe que vota, que influencia o restante da população e que compra e divulga os artigos da moda.

É um fato curioso que as cartas que se destacam A FAVOR da proibição, normalmente são de pessoas com posturas radicais, inquisitoriais e cheias de ódio e vingança, idéias essas que, antigamente, eram chamadas de “extrema direita”. Enquanto isso, as cartas que se destacam CONTRA a proibição, com argumentos mais elaborados e tolerantes, são mais fundamentadas, póiam lizadoras e inteligentes. Estes “do contra” seriam os “esquerdistas” de outrora. Vejamos alguns trechos como exemplos:

A FAVOR: Ton de Caxias – “Precisamos dos militares no Governo agora! Paredão de fuzilamento para assassinos e perseguição aos grupos neo-liberalistas, que se póiam na democracia para fazer coisas erradas neste país!” . Carlos Alberto Neves de Figueiredo – “É criminoso quando vemos comunicadores atacando a medida tomada pelo juiz de menores Siro Darlan, proibindo o acesso de menores ao dito “evento”, se é que podemos assim denominar esse encontro de maconheiros. É preciso que se puna ou se proíba qualquer tipo de promoção desse quilate ou o nosso “modus vivende” estará seriamente comprometido. Este “evento” deve ser condenado em todas as instâncias, gênero, número e grau, em nome dos bons costumes”. Charles – “Que os integrantes deste pseudo conjunto se envenenem com bastante erva e morram rápido. Não vão fazer falta”.

DO CONTRA: José de Almeida Porto – “Esse Juiz Darlan é outra Denise Frossard, quer é aparecer. Embora tenhamos a memória curta, lembremo-nos de que foi após a prisão dos grandes bicheiros que os traficantes de drogas transformaram-se nos grandes donos do Rio e agora do País. O bicho jamais se envolveu com drogas. É um caso típico de ecologia: ‘Estinguiram os predadores e as pragas proliferaram’. A mesma coisa vai acontecer com a demagogia barata desse falso moralista”. S. V. Pelúzio Jr. : “Ele (Siro Darlan) faz a coisa certa sempre da maneira errada. Do modo como vem sendo feitas as suas ações, vejo o Poder Judiciário exposto às críticas, às chacotas da imprensa, daqueles que realmente fazem apologia ao uso de drogas, enfim, a situação piora ao invés de melhorar. Aquele espetáculo de violência policial poderia Ter sido evitado. Aquela ação antes do desfile das modelos também. O episódio da modelo fotografada com uma taça, idem. Tudo se o juizado houvesse planejado com a antecedência necessária, de forma cautelosa”.

De qualquer forma, esta é a guerra democrática, a guerra mental, que não pode ser reprimida nunca. Todos têm o direito de dar opiniões. Todos também têm o dever de assistir à contestação de suas idéias, vê-las sendo respondidas e reavaliadas. Infelizmente, atitudes como a deste juiz contribuem para ofuscar a grande luz e a grande energia que o rock’n’roll jogou sobre o Planeta. A extrema direita nunca descansará, enquanto o Rock’n’Roll estiver por aí. Mas o importante é que continuemos lutando por nossa liberdade de expressão. Quanto ao Juiz Doidão, se alguém tem alguma coisa contra ou a favor desse patri-demônio, que fale agora ou se cale para sempre.

O APAGÃO DO ROCK

Toninho Buda, 29 julho 2001


Todos os dias, por volta de 07:30hs da manhã, eu passo na Praça da República, em Belém do Pará, indo para o meu trabalho. E lá estão os hippies, ainda dormindo sobre caixas de papelão, amontoados pelos cantos ou deitados debaixo das árvores. É um privilégio morar num lugar em que é verão o ano todo. Por aqui se pode dormir sempre ao relento. O máximo que pode acontecer é chover, mas a chuva não incomoda. A chuva só refresca este calor sempre acima de 30 graus durante o dia. Mas os hippies daqui me deprimem, devido à sujeira em que vivem. Eles não passam de uma pálida e triste imagem do que foram os hippies dos anos 60. Continuam vendendo pulseirinhas, mas a exuberância de outrora foi coberta pelos andrajos de mendigos. A luz da Nova Era se apagou em seus olhos.

Mesmo nos tempos em que o rock’n’roll tomava o planeta, já existia um ditado que dizia que, para acabar com o rock, bastava desligar a tomada. Isso refletia a irritação que aquela zoeira causava na cabeça das pessoas mais sensatas. Agora a coisa está ficando cada vez pior: o apagão, a falta de energia, a baixa vitalidade, o baixo astral e o cansaço, chegaram definitivamente ao rock. E de todas as formas possíveis e imagináveis! Só nos resta torcer para que essa onda passe e o rock volte com toda a força dentro de algum tempo... Mas vejamos alguns sintomas desanimadores: o racionamento de energia e a cruzada moral contra os maus costumes.

Existem Festivais de Rock sendo cancelados por que os patrocinadores se recusam a fornecer verbas para iluminar estádios e locais onde os festivais se realizariam. O argumento é de que seria incoerente gastar dinheiro com iluminação de eventos festivos, se eles estão sendo obrigados a economizar energia dentro de suas próprias empresas, por ordem do Governo. É claro que isto tem acontecido também com as partidas de futebol, com outras festas populares e também iluminação pública inútil (como monumentos e fontes luminosas). Mas não deixa de ser desanimador ter que optar entre cancelar um festival de rock ou póiam -lo durante o dia, à luz do sol! Mesmo assim, não está havendo nem patrocínio para os equipamentos de som, que consomem grande quantidade de quilowatts por hora! Resumindo: estão realmente desligando a tomada do rock...

pó completar, existe a cruzada moral contra os maus costumes! E nesta cruzada, há poucas semanas assistimos ao deplorável espetáculo do póiam liza de jovens durante a festa na Praça da Apoteose, no Rio, depois de medidas desastrosas tomadas pelo Juiz Siro Darlan, que na última hora proibiu a entrada de menores de idade no show do Planet Hemp. Eu gostaria de agradecer aqui à Rede Globo, por ter colocado um site na Internet (O “Megafone”), onde as pessoas poderiam responder livremente a uma pesquisa onde a pergunta era: “você é contra ou a favor da decisão do Juiz Siro Darlan”? Eu agradeço porque pude – como qualquer pessoa – ter acesso à resposta de 412 pessoas, e estudá-las cuidadosamente. O resultado fornece dados muito interessantes!

Dos 412 emails, eu imprimi 100 para minha pesquisa particular, e examinei-os, chegando aos seguintes dados estatísticos: das 100, um total de 63 pessoas foram CONTRA a decisão de Siro Darlan (ou seja, 63%). Do outro lado, 37 pessoas foram A FAVOR da proibição (ou seja, 37%). Independente de serem contra ou a favor, 38 pessoas acharam que o Juiz quer mesmo é aparecer. Por outro lado, apenas 15 pessoas fizeram questão de lembrar que o Juiz somente se preocupa com as crianças de classe média (que podem pagar o ingresso de um show, e aquelas que póiam liz passarelas de desfiles de modas, outra implicância predileta do famigerado homem da capa preta), enquanto milhares de outras crianças, em estado grave de abandono, fome e miséria, estão pelas ruas do Rio de Janeiro, sendo maltratadas, humilhadas e assassinadas. Algumas cartas, no entanto, merecem ser aqui repetidas, para ilustrar nossa pesquisa.

Eu teria ficado muito decepcionado se a maioria das pessoas tivessem sido a favor de uma decisão atrapalhada, precipitada, ingênua e desastrosa, como foi a decisão tomada pelo magistrado. Mas todo o espetáculo tem sintomas sócio-culturais que saltam aos olhos e precisamos estar alertas para eles. Principalmente porque eles refletem o nosso meio-ambiente, ou seja, o nível mental médio da nossa população de classe média. Pois é claro que uma pessoa, para opinar na Internet, tem que ter acesso a um computador, saber pó-lo e ser razoavelmente bem informada e escolarizada. Isso particulariza o nosso universo de amostragem, e não podemos póiam -lo como se fosse uma amostra do “povo brasileiro”. Mas chama a nossa atenção, por ser a opinião da classe que vota, que influencia o restante da população e que compra e divulga os artigos da moda.

É um fato curioso que as cartas que se destacam A FAVOR da proibição, normalmente são de pessoas com posturas radicais, inquisitoriais e cheias de ódio e vingança, idéias essas que, antigamente, eram chamadas de “extrema direita”. Enquanto isso, as cartas que se destacam CONTRA a proibição, com argumentos mais elaborados e tolerantes, são mais fundamentadas, póiam lizadoras e inteligentes. Estes “do contra” seriam os “esquerdistas” de outrora. Vejamos alguns trechos como exemplos:

A FAVOR: Ton de Caxias – “Precisamos dos militares no Governo agora! Paredão de fuzilamento para assassinos e perseguição aos grupos neo-liberalistas, que se póiam na democracia para fazer coisas erradas neste país!” . Carlos Alberto Neves de Figueiredo – “É criminoso quando vemos comunicadores atacando a medida tomada pelo juiz de menores Siro Darlan, proibindo o acesso de menores ao dito “evento”, se é que podemos assim denominar esse encontro de maconheiros. É preciso que se puna ou se proíba qualquer tipo de promoção desse quilate ou o nosso “modus vivende” estará seriamente comprometido. Este “evento” deve ser condenado em todas as instâncias, gênero, número e grau, em nome dos bons costumes”. Charles – “Que os integrantes deste pseudo conjunto se envenenem com bastante erva e morram rápido. Não vão fazer falta”.

DO CONTRA: José de Almeida Porto – “Esse Juiz Darlan é outra Denise Frossard, quer é aparecer. Embora tenhamos a memória curta, lembremo-nos de que foi após a prisão dos grandes bicheiros que os traficantes de drogas transformaram-se nos grandes donos do Rio e agora do País. O bicho jamais se envolveu com drogas. É um caso típico de ecologia: ‘Estinguiram os predadores e as pragas proliferaram’. A mesma coisa vai acontecer com a demagogia barata desse falso moralista”. S. V. Pelúzio Jr. : “Ele (Siro Darlan) faz a coisa certa sempre da maneira errada. Do modo como vem sendo feitas as suas ações, vejo o Poder Judiciário exposto às críticas, às chacotas da imprensa, daqueles que realmente fazem apologia ao uso de drogas, enfim, a situação piora ao invés de melhorar. Aquele espetáculo de violência policial poderia Ter sido evitado. Aquela ação antes do desfile das modelos também. O episódio da modelo fotografada com uma taça, idem. Tudo se o juizado houvesse planejado com a antecedência necessária, de forma cautelosa”.

De qualquer forma, esta é a guerra democrática, a guerra mental, que não pode ser reprimida nunca. Todos têm o direito de dar opiniões. Todos também têm o dever de assistir à contestação de suas idéias, vê-las sendo respondidas e reavaliadas. Infelizmente, atitudes como a deste juiz contribuem para ofuscar a grande luz e a grande energia que o rock’n’roll jogou sobre o Planeta. A extrema direita nunca descansará, enquanto o Rock’n’Roll estiver por aí. Mas o importante é que continuemos lutando por nossa liberdade de expressão. Quanto ao Juiz Doidão, se alguém tem alguma coisa contra ou a favor desse patri-demônio, que fale agora ou se cale para sempre.



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