Toninho Buda, 3 junho 2001
Viajando pelo norte do Brasil, é possível
entender as semelhanças e diferenças da colonização
das diversas regiões deste país continente.
E a origem e formação também desta
imensa riqueza musical. Enquanto nós viajávamos
no táxi que estava nos levando ao cemitério,
ouvíamos no rádio alguma coisa que identificamos
como sendo merengue, esta música do Caribe e das
Antilhas. Mas não conseguíamos identificar
em que língua o cantor (tentava) cantar. Quem nos
esclareceu foi o motorista, que disse que a música
era “ali de perto”, da Guiana Francesa. Dito
isto, nós pudemos pela primeira vez ouvir o que seria
um “francês latino” ou “francês
caribenho”. O ritmo, bastante parecido com o brega,
era caliente, como calientes o são por aqui os ritmos,
o clima e a beleza das mulheres.
A presença francesa por aqui, também está
presente em povoados no interior do Amapá, lugares
onde só se fala francês (ou francês latino).
Nestas localidades, as casas são construídas
no estilo dos chalés franceses e, talvez devido à
dificuldade de se chegar por lá, eles mantêm
o seu isolamento e tradições. No Amapá
praticamente não existem estradas e só se
viaja de barco ou de avião. No entanto, principalmente
os turistas estrangeiros não têm do que se
queixar: na capital Macapá, por exemplo, existe um
hotel no meio da floresta, chamado Ecotel, de padrão
cinco estrelas. Foi lá que durante o café
da manhã, há algumas semanas, meu amigo Aurélio
ouviu o CD de um cantor chamado Amadeu Cavalcante, segundo
ele, do nível de Osvaldo Montenegro. Por outro lado,
o estilo de suas letras lembram bastante Djavan (estas são
comparações apressadas, e talvez até
injustas, pois podem levar a pensar que Amadeu Cavalcante
estaria “imitando” cantores famosos, o que absolutamente
não é verdade. Ele é original, local,
e completamente isolado no meio da selva. Mas inevitavelmente
nós, que viemos “de fora”, tendemos a
buscar coisas que conhecemos, para podermos avaliar o que
estamos ouvindo). E foram exatamente as letras de Cavalcante
que deram a Aurélio a certeza de que se tratava de
um músico da região amazônica. Seus
temas são sempre as florestas, os animais e os pássaros.
Mas, ouvindo-o fica a certeza de que, se ele estivesse no
sul do país, e principalmente se tivesse a sorte
de ser apresentado num programa de TV, facilmente alcançaria
sucesso nacional.
E não é só o canto do Uirapuru que
influencia as lendas, os costumes e a cultura do norte.
Em Belém, pode-se ver nas Docas, às sextas
feiras, alguma coisa como esta que eu mesmo presenciei e
que me emocionou bastante. O lugar é de extremo bom
gosto, um shopping construído num armazém
de cais de porto fluvial, reformado, onde as pontes rolantes
que transportavam cargas pesadas, hoje transportam conjuntos
musicais. Isto mesmo! Enquanto as pessoas conversam nos
bares abaixo, os conjuntos musicais tocam nas plataformas
que se deslocam a uns 6 metros de altura, transportadas
pelos guindastes das pontes rolantes. E foi lá que
eu vi grupos de índias vestidas a caráter,
passeando entre as mesas abaixo, enquanto uma banda no alto
tocava jurassic Beatles (Help, The Night Before, essas coisas).
As índias vestiam saiotes de penas e não pude
deixar de achá-las parecidas com pombas ou franguinhas...
Pombinhas da amazônia dançando Beatles às
margens da baia de Marajó.... Bem, mas o canto dos
pássaros e animais da amazônia também
mete medo nas pessoas. O nosso táxi está chegando
ao cemitério. Ouçam esta história,
que também é interessante!
Belém do Pará, 31 maio 2001. O sol do meio
dia por aqui é capaz de rachar coco no coqueiro.
Mas mesmo assim, nós caminhávamos entre as
fileiras de túmulos do Cemitério Parque da
Saudade, um dos mais bonitos e organizados de Belém.
Era o enterro do pai de uma colega de trabalho. A grande
maioria das pessoas presentes era de idade avançada.
Elas caminhavam também lentamente, cantando ave-marias.
Para distrair a atenção do mal estar causado
pela temperatura, eu tentava prestar atenção
nos detalhes ao redor. Como havia visto na entrada do cemitério
uma placa dizendo que eles têm qualificação
ISO-9000, fiquei procurando fatos que confirmassem este
gabarito. Realmente, lá é tudo muito organizado.
Não se vê sujeira, velas, papéis e nem
flores mortas. As poucas velas são colocadas dentro
de lampiões metálicos, em recipientes próprios,
que as impedem de serem apagadas pelo vento e sujarem as
lápides dos túmulos. Discretamente espalhadas,
existem placas, onde se lê “É proibido
colocar flores naturais”. No entanto, o cemitério
é todo florido! Todos os túmulos têm
flores lindíssimas... mas elas são de plástico!
Não pude deixar de me lembrar da música de
Ney Matrogrosso: “eu quero o amor da flor de plástico...
eu dei-lhe a flor da minha vida, ela não quis”...
Aqui, as flores, como os novos habitantes que chegam diariamente,
também não têm vida...
Quando o féretro chegou ao local do sepultamento,
a pequena multidão se aglomerou em volta, para as
orações de despedida. A ISO-9000 continuava
presente: coveiros uniformizados aguardavam, como sentinelas,
ao lado da cova cuidadosamente escavada na terra arenosa,
com as pás perfiladas no lugar dos fuzís.
Um toldo de estrutura metálica protegia o esquife
e os amigos e familiares mais próximos. Os mais idosos
se sentaram em bancos providenciais de madeira, estrategicamente
colocados a pouca distância. O padre dirigiu as orações
de encomendamento e logo em seguida afastou-se, passando
por nós, que estávamos a uma distância
de uns 10 metros da cova, dizendo num tom que – de
indefinido – me soou como irônico “está
tudo consumado” (“tá dominado, tá
tudo dominado”...).
Os coveiros iniciaram o trabalho de descida do caixão
e o que aconteceu em seguida eu não esquecerei jamais.
Devido ao silêncio e à gravidade do momento,
era possível ouvir perfeitamente os soluços
das pessoas mais próximas do falecido. Ouvia-se também
o ringir das estruturas apropriadas para o abaixamento do
ataúde. Em sinal de respeito, todos estavam calados
e meditando. De repente, um grasnar arrepiante de uma ave
soou ao longe. O fato teria me passado despercebido, se
imediatamente várias pessoas idosas não tivessem
se agitado, olhando ao redor, com os olhos arregalados de
pavor! O fato foi tão marcante, que eu perguntei
a um amigo, que estava próximo “o que está
acontecendo?”. E ele me disse, sussurando, em tom
de censura: “FIQUE CALADO! É O CANTO DO RASGA-MORTALHA!”
Eu fiquei chocado com aquilo, e aquele nome funesto me atiçou
ainda mais a curiosidade: “Mas que diabo é
isso?” perguntei várias vezes, enquanto meu
amigo só balançava negativamente a cabeça...
Depois do enterro, o meu amigo me explicou que, aqui no
norte, quando alguém ouve o canto do rasga-mortalha,
tem a CERTEZA de que alguém VAI MORRER! E o pior
é que normalmente isto REALMENTE acontece (segundo
a crença popular). E se você FICAR FALANDO
depois de ouvir o canto da mardita, você pode ATRAIR
a foice da magrela prá cima de você !!! Então,
vocês imaginem só aquelas senhoras e senhores
de idade avançada, naquele momento em que o caixão
estava sendo baixado, ouvirem o canto do rasga-mortalha!
Depois das explicações, eu entendi também
porque aquelas bocas enrugadas ficaram ainda MAIS enrugadas
e, apesar do calor, todo mundo saiu rapidinho do ambiente!
As velhinhas e os velhinhos não abriram mais o bico,
enquanto não saíram do campo santo! Enquanto
isso, o palhaço aqui ainda ficou fazendo perguntas
e atraindo a foiçuda nervosa! Realmente, parece que
eu corri – ou será que ESTOU CORRENDO? –
um grande risco ! Esta é exatamente a pergunta que
eu estou tentando responder: como eu fui o único
idiota a ficar falando depois do canto daquela desgraçada,
POR QUANTO TEMPO A MAGRELA VAI ME PROCURAR ?!?! Se alguém
souber a resposta, pelo amor de Deus me responda, porque
eu não estou nem dormindo direito! E tem mais: estou
tomando o maior cuidado em atravessar a rua, não
tomo nem golpe de ar e evito ao máximo pensar em
mulher depois das refeições! Quem canta, seus
males espanta. Desde que não ouça o canto
do rasga-mortalha...
O CANTO DO RASGA-MORTALHA
Toninho Buda, 3 junho 2001
Viajando pelo norte do Brasil, é possível
entender as semelhanças e diferenças da colonização
das diversas regiões deste país continente.
E a origem e formação também desta
imensa riqueza musical. Enquanto nós viajávamos
no táxi que estava nos levando ao cemitério,
ouvíamos no rádio alguma coisa que identificamos
como sendo merengue, esta música do Caribe e das
Antilhas. Mas não conseguíamos identificar
em que língua o cantor (tentava) cantar. Quem nos
esclareceu foi o motorista, que disse que a música
era “ali de perto”, da Guiana Francesa. Dito
isto, nós pudemos pela primeira vez ouvir o que seria
um “francês latino” ou “francês
caribenho”. O ritmo, bastante parecido com o brega,
era caliente, como calientes o são por aqui os ritmos,
o clima e a beleza das mulheres.
A presença francesa por aqui, também está
presente em povoados no interior do Amapá, lugares
onde só se fala francês (ou francês latino).
Nestas localidades, as casas são construídas
no estilo dos chalés franceses e, talvez devido à
dificuldade de se chegar por lá, eles mantêm
o seu isolamento e tradições. No Amapá
praticamente não existem estradas e só se
viaja de barco ou de avião. No entanto, principalmente
os turistas estrangeiros não têm do que se
queixar: na capital Macapá, por exemplo, existe um
hotel no meio da floresta, chamado Ecotel, de padrão
cinco estrelas. Foi lá que durante o café
da manhã, há algumas semanas, meu amigo Aurélio
ouviu o CD de um cantor chamado Amadeu Cavalcante, segundo
ele, do nível de Osvaldo Montenegro. Por outro lado,
o estilo de suas letras lembram bastante Djavan (estas são
comparações apressadas, e talvez até
injustas, pois podem levar a pensar que Amadeu Cavalcante
estaria “imitando” cantores famosos, o que absolutamente
não é verdade. Ele é original, local,
e completamente isolado no meio da selva. Mas inevitavelmente
nós, que viemos “de fora”, tendemos a
buscar coisas que conhecemos, para podermos avaliar o que
estamos ouvindo). E foram exatamente as letras de Cavalcante
que deram a Aurélio a certeza de que se tratava de
um músico da região amazônica. Seus
temas são sempre as florestas, os animais e os pássaros.
Mas, ouvindo-o fica a certeza de que, se ele estivesse no
sul do país, e principalmente se tivesse a sorte
de ser apresentado num programa de TV, facilmente alcançaria
sucesso nacional.
E não é só o canto do Uirapuru que
influencia as lendas, os costumes e a cultura do norte.
Em Belém, pode-se ver nas Docas, às sextas
feiras, alguma coisa como esta que eu mesmo presenciei e
que me emocionou bastante. O lugar é de extremo bom
gosto, um shopping construído num armazém
de cais de porto fluvial, reformado, onde as pontes rolantes
que transportavam cargas pesadas, hoje transportam conjuntos
musicais. Isto mesmo! Enquanto as pessoas conversam nos
bares abaixo, os conjuntos musicais tocam nas plataformas
que se deslocam a uns 6 metros de altura, transportadas
pelos guindastes das pontes rolantes. E foi lá que
eu vi grupos de índias vestidas a caráter,
passeando entre as mesas abaixo, enquanto uma banda no alto
tocava jurassic Beatles (Help, The Night Before, essas coisas).
As índias vestiam saiotes de penas e não pude
deixar de achá-las parecidas com pombas ou franguinhas...
Pombinhas da amazônia dançando Beatles às
margens da baia de Marajó.... Bem, mas o canto dos
pássaros e animais da amazônia também
mete medo nas pessoas. O nosso táxi está chegando
ao cemitério. Ouçam esta história,
que também é interessante!
Belém do Pará, 31 maio 2001. O sol do meio
dia por aqui é capaz de rachar coco no coqueiro.
Mas mesmo assim, nós caminhávamos entre as
fileiras de túmulos do Cemitério Parque da
Saudade, um dos mais bonitos e organizados de Belém.
Era o enterro do pai de uma colega de trabalho. A grande
maioria das pessoas presentes era de idade avançada.
Elas caminhavam também lentamente, cantando ave-marias.
Para distrair a atenção do mal estar causado
pela temperatura, eu tentava prestar atenção
nos detalhes ao redor. Como havia visto na entrada do cemitério
uma placa dizendo que eles têm qualificação
ISO-9000, fiquei procurando fatos que confirmassem este
gabarito. Realmente, lá é tudo muito organizado.
Não se vê sujeira, velas, papéis e nem
flores mortas. As poucas velas são colocadas dentro
de lampiões metálicos, em recipientes próprios,
que as impedem de serem apagadas pelo vento e sujarem as
lápides dos túmulos. Discretamente espalhadas,
existem placas, onde se lê “É proibido
colocar flores naturais”. No entanto, o cemitério
é todo florido! Todos os túmulos têm
flores lindíssimas... mas elas são de plástico!
Não pude deixar de me lembrar da música de
Ney Matrogrosso: “eu quero o amor da flor de plástico...
eu dei-lhe a flor da minha vida, ela não quis”...
Aqui, as flores, como os novos habitantes que chegam diariamente,
também não têm vida...
Quando o féretro chegou ao local do sepultamento,
a pequena multidão se aglomerou em volta, para as
orações de despedida. A ISO-9000 continuava
presente: coveiros uniformizados aguardavam, como sentinelas,
ao lado da cova cuidadosamente escavada na terra arenosa,
com as pás perfiladas no lugar dos fuzís.
Um toldo de estrutura metálica protegia o esquife
e os amigos e familiares mais próximos. Os mais idosos
se sentaram em bancos providenciais de madeira, estrategicamente
colocados a pouca distância. O padre dirigiu as orações
de encomendamento e logo em seguida afastou-se, passando
por nós, que estávamos a uma distância
de uns 10 metros da cova, dizendo num tom que – de
indefinido – me soou como irônico “está
tudo consumado” (“tá dominado, tá
tudo dominado”...).
Os coveiros iniciaram o trabalho de descida do caixão
e o que aconteceu em seguida eu não esquecerei jamais.
Devido ao silêncio e à gravidade do momento,
era possível ouvir perfeitamente os soluços
das pessoas mais próximas do falecido. Ouvia-se também
o ringir das estruturas apropriadas para o abaixamento do
ataúde. Em sinal de respeito, todos estavam calados
e meditando. De repente, um grasnar arrepiante de uma ave
soou ao longe. O fato teria me passado despercebido, se
imediatamente várias pessoas idosas não tivessem
se agitado, olhando ao redor, com os olhos arregalados de
pavor! O fato foi tão marcante, que eu perguntei
a um amigo, que estava próximo “o que está
acontecendo?”. E ele me disse, sussurando, em tom
de censura: “FIQUE CALADO! É O CANTO DO RASGA-MORTALHA!”
Eu fiquei chocado com aquilo, e aquele nome funesto me atiçou
ainda mais a curiosidade: “Mas que diabo é
isso?” perguntei várias vezes, enquanto meu
amigo só balançava negativamente a cabeça...
Depois do enterro, o meu amigo me explicou que, aqui no
norte, quando alguém ouve o canto do rasga-mortalha,
tem a CERTEZA de que alguém VAI MORRER! E o pior
é que normalmente isto REALMENTE acontece (segundo
a crença popular). E se você FICAR FALANDO
depois de ouvir o canto da mardita, você pode ATRAIR
a foice da magrela prá cima de você !!! Então,
vocês imaginem só aquelas senhoras e senhores
de idade avançada, naquele momento em que o caixão
estava sendo baixado, ouvirem o canto do rasga-mortalha!
Depois das explicações, eu entendi também
porque aquelas bocas enrugadas ficaram ainda MAIS enrugadas
e, apesar do calor, todo mundo saiu rapidinho do ambiente!
As velhinhas e os velhinhos não abriram mais o bico,
enquanto não saíram do campo santo! Enquanto
isso, o palhaço aqui ainda ficou fazendo perguntas
e atraindo a foiçuda nervosa! Realmente, parece que
eu corri – ou será que ESTOU CORRENDO? –
um grande risco ! Esta é exatamente a pergunta que
eu estou tentando responder: como eu fui o único
idiota a ficar falando depois do canto daquela desgraçada,
POR QUANTO TEMPO A MAGRELA VAI ME PROCURAR ?!?! Se alguém
souber a resposta, pelo amor de Deus me responda, porque
eu não estou nem dormindo direito! E tem mais: estou
tomando o maior cuidado em atravessar a rua, não
tomo nem golpe de ar e evito ao máximo pensar em
mulher depois das refeições! Quem canta, seus
males espanta. Desde que não ouça o canto
do rasga-mortalha...