Toninho Buda, 28 abril 2001
Marabá, 26 de abril 2001. Cá estamos no interior
do estado do Pará. O calor é sufocante, apesar
de estarmos no final do que aqui é chamado de inverno,
este período que vai de final de setembro a abril,
quando chove o dia todo e a temperatura, considerada amena,
chega a 35o por volta de meio dia. Aqui existem duas estações:
o inverno, quando chove o dia todo, e o verão, quando
chove todo dia. As noites também são sufocantes.
E um detalhe curioso das construções civis
por aqui, torna o interior das residências bastante
desconfortáveis para quem vem de fora. É o
tamanho das janelas: elas são sempre pequenas, angustiantemente
pequenas! Estou viajando pelo estado do Pará há
três meses e não consegui uma explicação
para isto! No início pensei que pudesse ser por causa
do preço das esquadrias de ferro ou alumínio,
apesar da madeira aqui ser abundante... Mas por causa do
pequeno tamanho das janelas e a impressionante umidade do
ar, o cheiro de mofo impera em qualquer lugar que se queira
dormir. Quem tem problemas de alergia, asma ou fígado,
está perdido para sempre: se ligar o ar condicionado,
a coisa piora. Se deixar a janela aberta, as esquadrilhas
de aedys aegyptys invadem alegremente o ambiente, trazendo
malária, dengue e outras maravilhas tropicais. Quando,
na calada da noite, o mosquito zumbe, ameaçador,
a gente já se imagina numa UTI de hospital, com dengue
hemorrágica, vazando sangue pelos poros e buracos
do corpo!...
Uma solução desesperada é sair à
noite para passear e andar até que o sono vença
qualquer desafio. Mas ficar passeando à noite por
aqui tem dois perigos adicionais: o primeiro são
os garimpeiros, que mudaram o nome da cidade (de Marabá
para Marabala). O segundo são a contraparte afetiva
desses garimpeiros, aquelas garotas alegres que buscam aliviar
o sofrimento desses homens rudes, em troca da ponta de um
palito de fósforo cheia de ouro (os garimpeiros medem
os gramas de ouro com um palito de fósforos. Mergulham
a ponta no pó precioso e aquela é a sua medida,
a sua moeda). E foi nas noites sufocantes do interior do
Pará que eu ouvi as histórias que me contaram
meus amigos Pedro Paulo Ataíde (de Santarém)
e Eliel (de Marabá).
Eliel me falou do brega, este estilo musical característico
do norte e praticamente desconhecido do resto do Brasil.
Sim, praticamente desconhecido, porque o brega daqui é
bastante diferente do brega que conhecemos no sul maravilha.
Está muito longe do brega-corno-raivoso de Waldick
Soriano, mas também do brega romântico de Roberta
Miranda ou Reginaldo Rossi. O brega do norte se assemelha
muito a uma curiosa e agitada mistura de yé-yé-yé
com forró. O brega está tão associado
à cultura do norte, que nenhuma rádio de alcance
nacional (como Transamérica ou Rádio Cidade)
conseguiu se estabelecer e sobreviver na capital, Belém,
simplesmente por que não incluiu o brega em suas
programações locais (normalmente essas grandes
rádios não dão espaço para programações
locais). Se não tocar brega, o nortista simplesmente
não ouve a rádio! Além disso, as letras
do brega correm o risco de serem vistas com preconceito
por outras regiões, pois são quase sempre
alegres, debochadas, de duplo sentido e feitas acima de
tudo para dançar. Aliás, dançar em
todos os sentidos, como veremos ao final desta nossa reportagem...
Segundo meu amigo Eliel Assumpção, que nasceu
em Piri-Piri, no interior do Piauí, os bailes bregas
em Marabá acontecem nos clubes Unidade 2, Fogão
Gaúcho e um tal de Pipoca. Nessas panelas de pressão,
normalmente o piso é de chão batido. Com o
alvoroço, a poeira sobe e a cortina de pó
colabora para a esfregação suada que rola
no ambiente. Segundo Eliel, que gosta mais do forró
do que do brega, a sacanagem do brega é muito maior,
porque o jeito de dançar é mais enjambrado,
tipo assim com os cambito maranhado e os líquidos
incandescentes jorrando soltos pelas pernas abaixo, temperados
no pó que a ele retornarás. E Eliel conta
que aprendeu a dançar o brega ao som de Roberto Vilar,
Sílvio Max, Banda Calipso, Beto Barbosa e outros
grandes nomes do estilo, aqui no norte. Segundo ele, perto
do brega, funk r com nada!
Mas a coisa tem seus perigos... um dia, ele foi ao Chico
Melo, que é um clube de coroas chegados num brega,
rata tado por pessoas que dançam com estilo, do alto
dos seus aproximados meio século de experiência
de vida. Lá ele convidou uma coroa para dançar,
sem saber que a respeitosa senhora tinha pobrêma...
e o pobrêma dela era realmente sério! Com a
quentura, o vapor foi subindo do meio das pernas para a
cabeça da vetusta, e, de repente, ela cismou de querer
ser enjambrada ali mesmo, no meio do salão! Quando
ele deu por si, a furiosa já estava de zóio
revirado e a coisa já estava fora de controle! Ele
tentou se desvencilhar e ela o agarrou assim mesmo, tipo
torniquete de novilha. Então só lhe restou
dar-lhe um indelicado safanão e arretar-se pela porta
afora. Mesmo assim, ela saiu correndo atrás dele,
gritando “vem cá, meu ra”! Mas ele foi
mais rápido e se foi, para nunca mais voltar no rala-rala
do Chico Melo! E como Deus é pai e sempre dá
suas compensações, daí a uns tempos
o nosso aventureiro foi visitar seus pais em Piri-Piri.
A fama do brega já tinha chegado por lá, mas
ninguém ainda sabia como dançar aquilo. Aí
ele foi para o melhor clube da cidade e deu uma demonstração,
dançando com uma comportada namorada dos seus tempos
de infância, sem nenhum pobrêma para complicar
sua performance. No dia seguinte, toda a cidade estava comentando:
“hi, vici o Liel? O cabra é bom mesmo, ele
é o Rei do Brega!”. Assim depois do rata em
Marabala, Eliel se tornou o Rei do Brega em Piri-Piri.
Mas as dançarinas de brega das noites quentes da
região do garimpo podem trazer problemas mais sérios.
Essa história é do Pedro Paulo Ataíde:
ele me contou que os garimpeiros, filosoficamente, só
vivem o dia de hoje e não estão nem aí
para o dia de amanhã. Mesmo estando longe do seu
apogeu, os garimpos da região de Marabá, como
Serra Pelada, Cotia e do Cuca ainda alimentam os sonhos
de muita gente. Normalmente, o desejo dessas pessoas se
resume a encontrar um veio de ouro para se tornarem momentaneamente
ricos e gastarem tudo na boêmia, com bebidas e mulheres.
Próximos aos garimpos, existem barcos que são
verdadeiras boates flutuantes. Neles, o garimpeiro chega
com a bolsa cheia de ouro, arma sua rede no convés
e vai se divertir. Mal sabe ele que, com aquela quantidade
de ouro, daria para ele pegar um avião e ir para
o Rio de Janeiro e comer um daqueles aviões que aparecem
na televisão. Mas ele prefere ficar por ali mesmo...
Normalmente as equipes dos barcos são especializadas
em rata -los e rata-los como reis. Ao som do brega, o novo
rico distribui gargalhadas e beijos nas piranhas (do barco),
enquanto se encharca de cachaça. Dentro de poucas
horas, estará perdendo a consciência cada vez
mais e mergulhando num sono profundo, dentro do rio de águas
sujas de lama e de seu próprio sangue. As piranhas
(do rio) farão o resto do trabalho de desaparecer
com qualquer vestígio de sua passagem pelo planeta
terra. Ao amanhecer, balançando sob a brisa morna,
só restará mais uma rede solitária
no convés.
ELIEL, O REI DO BREGA
Toninho Buda, 28 abril 2001
Marabá, 26 de abril 2001. Cá estamos no interior
do estado do Pará. O calor é sufocante, apesar
de estarmos no final do que aqui é chamado de inverno,
este período que vai de final de setembro a abril,
quando chove o dia todo e a temperatura, considerada amena,
chega a 35o por volta de meio dia. Aqui existem duas estações:
o inverno, quando chove o dia todo, e o verão, quando
chove todo dia. As noites também são sufocantes.
E um detalhe curioso das construções civis
por aqui, torna o interior das residências bastante
desconfortáveis para quem vem de fora. É o
tamanho das janelas: elas são sempre pequenas, angustiantemente
pequenas! Estou viajando pelo estado do Pará há
três meses e não consegui uma explicação
para isto! No início pensei que pudesse ser por causa
do preço das esquadrias de ferro ou alumínio,
apesar da madeira aqui ser abundante... Mas por causa do
pequeno tamanho das janelas e a impressionante umidade do
ar, o cheiro de mofo impera em qualquer lugar que se queira
dormir. Quem tem problemas de alergia, asma ou fígado,
está perdido para sempre: se ligar o ar condicionado,
a coisa piora. Se deixar a janela aberta, as esquadrilhas
de aedys aegyptys invadem alegremente o ambiente, trazendo
malária, dengue e outras maravilhas tropicais. Quando,
na calada da noite, o mosquito zumbe, ameaçador,
a gente já se imagina numa UTI de hospital, com dengue
hemorrágica, vazando sangue pelos poros e buracos
do corpo!...
Uma solução desesperada é sair à
noite para passear e andar até que o sono vença
qualquer desafio. Mas ficar passeando à noite por
aqui tem dois perigos adicionais: o primeiro são
os garimpeiros, que mudaram o nome da cidade (de Marabá
para Marabala). O segundo são a contraparte afetiva
desses garimpeiros, aquelas garotas alegres que buscam aliviar
o sofrimento desses homens rudes, em troca da ponta de um
palito de fósforo cheia de ouro (os garimpeiros medem
os gramas de ouro com um palito de fósforos. Mergulham
a ponta no pó precioso e aquela é a sua medida,
a sua moeda). E foi nas noites sufocantes do interior do
Pará que eu ouvi as histórias que me contaram
meus amigos Pedro Paulo Ataíde (de Santarém)
e Eliel (de Marabá).
Eliel me falou do brega, este estilo musical característico
do norte e praticamente desconhecido do resto do Brasil.
Sim, praticamente desconhecido, porque o brega daqui é
bastante diferente do brega que conhecemos no sul maravilha.
Está muito longe do brega-corno-raivoso de Waldick
Soriano, mas também do brega romântico de Roberta
Miranda ou Reginaldo Rossi. O brega do norte se assemelha
muito a uma curiosa e agitada mistura de yé-yé-yé
com forró. O brega está tão associado
à cultura do norte, que nenhuma rádio de alcance
nacional (como Transamérica ou Rádio Cidade)
conseguiu se estabelecer e sobreviver na capital, Belém,
simplesmente por que não incluiu o brega em suas
programações locais (normalmente essas grandes
rádios não dão espaço para programações
locais). Se não tocar brega, o nortista simplesmente
não ouve a rádio! Além disso, as letras
do brega correm o risco de serem vistas com preconceito
por outras regiões, pois são quase sempre
alegres, debochadas, de duplo sentido e feitas acima de
tudo para dançar. Aliás, dançar em
todos os sentidos, como veremos ao final desta nossa reportagem...
Segundo meu amigo Eliel Assumpção, que nasceu
em Piri-Piri, no interior do Piauí, os bailes bregas
em Marabá acontecem nos clubes Unidade 2, Fogão
Gaúcho e um tal de Pipoca. Nessas panelas de pressão,
normalmente o piso é de chão batido. Com o
alvoroço, a poeira sobe e a cortina de pó
colabora para a esfregação suada que rola
no ambiente. Segundo Eliel, que gosta mais do forró
do que do brega, a sacanagem do brega é muito maior,
porque o jeito de dançar é mais enjambrado,
tipo assim com os cambito maranhado e os líquidos
incandescentes jorrando soltos pelas pernas abaixo, temperados
no pó que a ele retornarás. E Eliel conta
que aprendeu a dançar o brega ao som de Roberto Vilar,
Sílvio Max, Banda Calipso, Beto Barbosa e outros
grandes nomes do estilo, aqui no norte. Segundo ele, perto
do brega, funk r com nada!
Mas a coisa tem seus perigos... um dia, ele foi ao Chico
Melo, que é um clube de coroas chegados num brega,
rata tado por pessoas que dançam com estilo, do alto
dos seus aproximados meio século de experiência
de vida. Lá ele convidou uma coroa para dançar,
sem saber que a respeitosa senhora tinha pobrêma...
e o pobrêma dela era realmente sério! Com a
quentura, o vapor foi subindo do meio das pernas para a
cabeça da vetusta, e, de repente, ela cismou de querer
ser enjambrada ali mesmo, no meio do salão! Quando
ele deu por si, a furiosa já estava de zóio
revirado e a coisa já estava fora de controle! Ele
tentou se desvencilhar e ela o agarrou assim mesmo, tipo
torniquete de novilha. Então só lhe restou
dar-lhe um indelicado safanão e arretar-se pela porta
afora. Mesmo assim, ela saiu correndo atrás dele,
gritando “vem cá, meu ra”! Mas ele foi
mais rápido e se foi, para nunca mais voltar no rala-rala
do Chico Melo! E como Deus é pai e sempre dá
suas compensações, daí a uns tempos
o nosso aventureiro foi visitar seus pais em Piri-Piri.
A fama do brega já tinha chegado por lá, mas
ninguém ainda sabia como dançar aquilo. Aí
ele foi para o melhor clube da cidade e deu uma demonstração,
dançando com uma comportada namorada dos seus tempos
de infância, sem nenhum pobrêma para complicar
sua performance. No dia seguinte, toda a cidade estava comentando:
“hi, vici o Liel? O cabra é bom mesmo, ele
é o Rei do Brega!”. Assim depois do rata em
Marabala, Eliel se tornou o Rei do Brega em Piri-Piri.
Mas as dançarinas de brega das noites quentes da
região do garimpo podem trazer problemas mais sérios.
Essa história é do Pedro Paulo Ataíde:
ele me contou que os garimpeiros, filosoficamente, só
vivem o dia de hoje e não estão nem aí
para o dia de amanhã. Mesmo estando longe do seu
apogeu, os garimpos da região de Marabá, como
Serra Pelada, Cotia e do Cuca ainda alimentam os sonhos
de muita gente. Normalmente, o desejo dessas pessoas se
resume a encontrar um veio de ouro para se tornarem momentaneamente
ricos e gastarem tudo na boêmia, com bebidas e mulheres.
Próximos aos garimpos, existem barcos que são
verdadeiras boates flutuantes. Neles, o garimpeiro chega
com a bolsa cheia de ouro, arma sua rede no convés
e vai se divertir. Mal sabe ele que, com aquela quantidade
de ouro, daria para ele pegar um avião e ir para
o Rio de Janeiro e comer um daqueles aviões que aparecem
na televisão. Mas ele prefere ficar por ali mesmo...
Normalmente as equipes dos barcos são especializadas
em rata -los e rata-los como reis. Ao som do brega, o novo
rico distribui gargalhadas e beijos nas piranhas (do barco),
enquanto se encharca de cachaça. Dentro de poucas
horas, estará perdendo a consciência cada vez
mais e mergulhando num sono profundo, dentro do rio de águas
sujas de lama e de seu próprio sangue. As piranhas
(do rio) farão o resto do trabalho de desaparecer
com qualquer vestígio de sua passagem pelo planeta
terra. Ao amanhecer, balançando sob a brisa morna,
só restará mais uma rede solitária
no convés.