CONTRACULTURA

ZÉ RAMALHO CANTA RAUL SEIXAS - O Grande Encontro na
CELEBRAÇÃO DO NOVO MILÊNIO

 

A juventude do início dos anos 70 vivia ainda sob a avassaladora influência da contracultura. O Festival de Woodstock, realizado entre 15 e 17 de agosto de 1969, marcara claramente o auge (e o início do declínio) de um movimento que mudou os rumos do mundo. Precisamente no ano de 1974, dois excepcionais cantores brasileiros viviam experiências semelhantes, dentro dos símbolos e signos da geração pós guerra. Raul Seixas, de posse de um terreno para a sua Cidade das Estrelas e no primeiro ano de seu estrondoso sucesso, estava lançando a Sociedade Alternativa. E Zé Ramalho estava compondo o seu primeiro disco, Paebiru, na Vila do Sossego, uma casa de praia na qual ele e seus amigos fiéis procuravam a paz e o amor (foi lá que ele compôs Chão de Giz).

Mas neste mesmo ano de 1974, como “estranhos numa terra estranha” (um clássico da literatura, de Robert Heinleim, que influenciara profundamente toda a Contracultura) Raul Seixas e Zé Ramalho faziam viagens muito semelhantes, mesmo que estivessem em lugares bem diferentes (Rio e João Pessoa). No seu Paebiru (que ele considerava seu primeiro velocino de ouro), Zé Ramalho, em começo de carreira, já invocava, recitando o seu mantra sagrado : Há! deuses astronautas, me ajudem a conseguir o meu velo de mercúrio, o acetato de mercúrio!”. Mais embaixo, perto do Trópico de Capricórnio, no Rio, Raul Seixas berrava: “Oô seu moço, do disco voador, me leve com você, prá onde você for!” (S.O.S.). Esta busca dos irmãos alienígenas marcaria profundamente, tanto a obra quanto a fraternidade entre esses dois malucos que sempre cantaram os Segredos do Universo e das inquietações de todos nós.

Eles se encontraram pessoalmente poucas vezes. Mas uma delas, em 28 de abril de 1984, selaria para sempre a sua amizade e afinidade. Neste dia, Raul apareceu descalço na casa de Zé Ramalho, acompanhado de duas prostitutas. Acabou saindo de lá no dia seguinte, pedindo emprestados os sapatos do amigo (Só que Zé calçava 41 e Raul 37!). E o maluco beleza havia dormido abraçado a algumas fitas de vídeo de Elvis Presley, que Zé Ramalho havia lhe mostrado... Elvis e Beatles sempre foram duas das grandes paixões dos dois. Os Beatles estão presentes neste novo acetato de Zé Ramalho cantando Raul Seixas, em Você ainda Pode Sonhar... Mas eles – e somente eles – falaram de coisas que nenhum outro artista brasileiro tivera coragem e competência para expressar abertamente. As semelhanças entre o que poderíamos chamar de filosofia raulseixista e a filosofia zéramalhista são muito grandes!!! Todos os dois têm obras de uma impressionante riqueza musical, capaz de fundir baião, bolero, repente e rock’n’roll, além de serem dramaticamente marcadas por três aspectos fundamentais:

1. uma COSMOLOGIA, profundamente influenciada pelo cultura oriental, yoga e meditação transcendental, bem como pela magia, sociedades secretas, florestas encantadas, pedras milenares cheias de indecifráveis símbolos e signos significantes tatuados a ferro e fogo na barriga metálica e brilhante de irrequietos discos voadores (como em S.O.S. e Dentadura Postiça, deste CD... mas que Zé Ramalho reforça em sua obra pessoal, com trabalhos como o disco Força Verde, onde diz: “vejo discos de metal pairando sobre as noites do país”... );

2. uma feroz CRÍTICA AO SISTEMA e às suas autoridades mais evidentes, como o Estado, as igrejas e as forças de repressão, bem como ao homem massacrado por este Sistema (vide Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Dentadura Postiça e Planos de Papel, que Zé ratificaria em grandes sucessos como Admirável Gado Novo). Mas ao mesmo tempo, ambos sonharam juntos com uma nova sociedade, mais humana e mais justa, em muitas canções. Raul, que teve um disco inteiro chamado Novo Aeon, aqui está representado no repente As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor, na voz deste paraibano porreta, que já compusera “Do Terceiro Milênio para a Frente!”...

3. Finalmente a Filosofia da Coragem Existencial que caracteriza a inigualável obra dos dois, prima por uma devoção radical ao ROMANTISMO na sua evolução mais madura, chamada de Lei de Télema (“Amor é a Lei, Amor sob Vontade”), como em O Trem das Sete, How Coud I Know e Prelúdio, que poderemos ouvir aqui na voz cavernosa do autor de Garoto de Aluguel. A presença do direito ao delírio, aqui, está velado em Você ainda pode Sonhar (nesta versão de Raulzito, para Lucy in the Sky with Diamonds - LSD). Mas que Zé Ramalho também já ratificara – surpreendentemente – em Avôhai, música que foi composta por ele sob a influência de um cogumelo alucinógeno chamado manita (a famosa manita matutina, que transparente cortina ao meu redor...). E somente eles dois falaram também aberta e claramente de suas simpatias, pendengas e trambiques com o demônio!...

Tudo isto não só legitima, mas faz de Zé Ramalho o fiel depositário da chave que Raul Seixas deixou para que os filhos de Ícaro abrissem as portas da Era de Aquário. Este é um momento histórico, pois aqui se realiza o sonho de muitos que já se foram. É o dia da saudade! Quem vai chorar, quem vai sorrir, quem vai ficar, quem vai partir?!... O trem está chegando!... Depois das alegrias e sofrimentos desses anos todos, voltemos à Vila do Sossego para ouvir Zé Ramalho cantando Raul Seixas.
SOBRE AS 11 MÚSICAS

Zé Ramalho escolheu as 10 músicas de Raul Seixas que compõem este trabalho, principalmente de dois discos: Krig-Há, Bandolo! (de 1973) e Gita (de 1974). Somente as músicas Você Ainda Pode Sonhar (do primeiro LP de Raul Seixas, Raulzito e os Panteras, de 1968) e Planos de Papel (do LP da novela O Rebu, de 1974), não são dos dois LPs. A que finaliza o CD, Para Raul, é uma homenagem do próprio Zé Ramalho a seu amigo Raul Seixas.

1. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor – R.S. 1973

Zé Ramalho, com muita propriedade, colocou no início desta música os ruídos do caos urbano. Pois as aventuras de Raulzito realmente são vividas no formigueiro infernal das grande cidades. Apesar de serem músicas completamente diferentes, existe grande semelhança de tema com Admirável Gado Novo, de 1979, que Zé Ramalho lançou no LP A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (isto aconteceu 6 anos depois de Raul lançar As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor, Ouro de Tolo e outras músicas do mesmo tema. Todas elas falam do ser humano esmagado pelo Sistema). Nesta interpretação, Zé Ramalho manteve o tom dos cantadores nordestinos. Os solos de viola, mais elaborados, deram à música essa cantoria dolorida dos aboios que ecoam nos sertões... Mas é nos sertões também que ecoam histórias e lendas. A música termina dizendo que “para aprender o jogo dos ratos, transou com deus e com o lobisomem”. Quem termina a música é um cão que late... Ou seria O cão ???...

2. Metamorfose Ambulante – R. S. 1973

Raul Seixas conta que rascunhou a letra de Metamorfose Ambulante na parede de seu quarto, quando era adolescente. Isto é uma informação muito importante, pois esta música tem um apelo tão forte, que outras pessoas – inclusive parceiros de Raul em outras músicas - já se sentiram tentadas a dizer que foram elas as autoras da mesma... Ela também reflete uma crítica contundente ao cidadão comum. E ficou excelente na voz de Zé Ramalho. Algum tempo depois da morte de Raul Seixas, alguns jornalistas aventaram a hipótese dele ser o “sucessor de Raul Seixas”. Ele inteligentemente descartou a hipótese, mas afirmou que somente ele e Raul Seixas falaram tão clara e insistentemente de idéias de liberdade, coragem individual e espírito de independência, como espelhado em Metamorfose Ambulante.

3. Trem das sete – R.S. 1974

É um fato curioso a penetração desta música em todas as faixas de público. A grande maioria das pessoas a quem se pergunta qual a música de Raul Seixas que mais ela gosta, o nome que vem é quase sempre Trem das Sete. Zé Ramalho a colocou no repertório por ser uma das dujas que ele também mais gosta (ao lado de Medo da Chuva). O que mais impressiona Zé Ramalho nesta pérola de Raul Seixas é a imagem final, que diz: “lá vem o Mal, de braços e abraços com o Bem num romance astral”. Pois esta idéia revolucionária reflete a união dos opostos, que é a essência do Cosmo na cosmologia do Extremo Oriente (que influenciou profundamente tanto Zé Ramalho quanto Raul Seixas, nos tempos da Sociedade Alternativa e Vila do Sossego, que eram as respectivas versões dos dois para uma nova sociedade, com mais paz e amor. O Trem das Sete, que vem trazendo as cinzas do velho aeon (ou da velha era), está convidando para o novo aeon, ou Era de Aquário.

4. Ouro de Tolo – R.S. 1973

A explosão do compacto com Ouro de Tolo, em 1973, é que fez a consagração de Raul Seixas e abriu as portas para seu primeiro LP de sucesso, Krig-Há, Bandolo! (o grito do Tarzan). Ele dizia que a maior satisfação de sua vida era ver os operários da construção civil cantando Ouro de Tolo e criando novas versões adaptadas ao seu cotidiano. Dentro dessa tradição, eu acredito que afora Zé Ramalho, sómente Zé Geraldo estaria realmente “qualificado” para cantar Ouro de Tolo, pois ambos interpretaram de forma brilhante um grande sucesso nacional, de tema semelhante a Ouro de Tolo, que é Construção. Quando se pergunta a Zé Ramalho de qual das duas músicas ele gosta mais (Ouro de Tolo ou Construção), ele responde com segurança: “Ouro de Tolo, claro. Pois em Ouro de Tolo a pessoa venceu na vida como todo cidadão sonha, mas quer ainda MUITO MAIS do que apenas isto. Enquanto em Construção o pobre operário que viu sua filha ser recusada na escola por estar sem sapatos, está amargurado, destruído e só encontra refúgio na Igreja”.

5. S.O.S. – R.S. 1974

A letra desta música é um apelo aos discos voadores, muito comuns, tanto na obra de Raul Seixas quanto na obra do cantador Zé Ramalho. Falando de suas experiências pessoais, Zé Ramalho conta que já fez contato com um disco voador durante uma experiência de ampliação das janelas da consciência, sob o efeito de um princípio ativo chamado amanita. Qualquer pessoa poderia se sentir tentada a chamar essa experiência de alucinação. Mas Carl Gustav Jung, no seu ensaio “Um Mito Moderno – Os Discos Voadores”, deixou muito claro que as “projeções psíquicas” (termo cunhado por ele próprio) nos casos de experiência com OVNIS, são novas formas de realidade, que o senso comum não é capaz de entender...

6. Dentadura Postiça – R.S. 1973

É fascinante o que Zé Ramalho fez com esta música! A versão original do Raul é um gospel, extremamente alegre e agitada, do tipo daquelas músicas que os negros americanos cantam nas igrejas evangélicas. Mas ele a transformou num belíssimo blues, que também é um ritmo dos negros americanos, mas totalmente o oposto! Pois o blues é a tristeza e a nostalgia por excelência. Raul só tinha feito um blues (Canceriano Sem Lar - Clínica Tobias Blues, do LP Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!, de 1987, 2 anos antes de morrer). Como o Blues também está na matriz do Rock’n’Roll, tenho certeza de que Raul Seixas adoraria estar ouvindo esta versão de Zé Ramalho (se já não estiver cantarolando-a onde estiver... ).

7. How Could I Know – R.S. 1973

O texto desta música é extremamente denso e representa uma obra prima da visão que Raul Seixas tinha do mundo. Raul pretendia lançá-la no mercado americano, dentro do LP “Opus 666”, que seria a essência de sua obra. Sua preocupação com o seu público brasileiro, no entanto, foi tanta, que ele preparou também uma versão em português, depois de ter feito a original em inglês! Mesmo assim, esta música tem duas versões em inglês. A primeira, que é mais romântica e tem o sub-título “Love was to go”, Raul a fez em 1970, com a intenção de mandá-la para Elvis Presley (o que acabou não ocorrendo. Ela acabou sendo lançada em 1992, no álbum Baú do Raul). A segunda versão – que Zé Ramalho está cantando neste CD – foi lançada no primeiro álbum de sucesso de Raul, Krig-Há Bandolo!, e tem uma letra muito mais amarga e política. Mas também é muito linda!

8. Prelúdio – R.S. 1974

A maravilhosa essência desta música, que tem uma letra tão curta, resume todo o espírito da Contracultura: Sonho que se sonha junto é realidade! A juventude que viveu os Anos Dourados chegou a levar um susto, quando John Lennon declarou “O sonho acabou”. No entanto, quando nós perguntamos a Zé Ramalho se a Vila do Sossego continua apenas nos seus sonhos ou dentro do seu próprio lar, ele responde que seus sonhos mais queridos continuam mais vivos do que nunca! E acredito que este próprio trabalho é a prova mais cabal do que ele está dizendo!

9. Você Ainda Pode Sonhar – R.S. 1968

Observe-se que aqui Zé Ramalho confirma novamente a busca da realização dos seus sonhos. Esta versão de Raul Seixas para Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles, é do seu primeiro LP, Raulzito e os Panteras, de 1968. Ela tem um andamento que lembra as bandas de rock de fundo de garagem dos anos 60. A presença dos Beatles no trabalho de Zé Ramalho é tão forte que ele clonou a capa do Sgt. Peppers para a capa do seu recente CD Nação Nordestina. “Você ainda pode sonhar” é do principal disco dos Beatles (Sgt. Peppers), que criou um verdadeiro divisor de águas na música mundial. Este disco é tão simbólico, que tem na capa até o famigerado Aleister Crowley, que influenciou profundamente Raul Seixas na elaboração da Sociedade Alternativa (Raul o cita na letra da própria música Sociedade Alternativa). Tudo isto reflete esta intensa ligação ideológica entre Zé Ramalho e Raul Seixas, que viveram juntos o sonho de mudar o mundo.

10. Planos de Papel – R.S. 1974

Esta música tem uma história interessante, pois foi composta inicialmente em 1974, para a trilha sonora da novela “O Rebu”, da Rede Globo. Na época, foi interpretada por Alcione. E foi relançada em 1978, no LP Mata Virgem, cantada pelo próprio Raul Seixas. É inegável que ela ficou excelente – e tão linda quanto na voz de Raul Seixas - na interpretação de Zé Ramalho, pois o texto é amargo demais para um quase adolescente como o Raul era na época. Este resgate foi fantástico e mostra este lado pouco conhecido de Raul Seixas, que era capaz de compor obras primas no estilo bolerão, com uma impressionante riqueza de imagens caleidoscópicas. Zé Ramalho a escolheu para o repertório porque se identifica muito com ela, que lhe lembra os tempos de grandes dificuldades no Rio de Janeiro...

11. Para Raul – Z.R. 2001

O que mais emociona nesta música que encerra este trabalho é o fato dela ser a declaração emocionada de um fã. E realmente Zé Ramalho, além de grande amigo e admirador, era um fã incondicional de Raul Seixas. Esta homenagem está tão relacionada com a história dos dois, que Zé Ramalho a compôs instintivamente em cima de uma melodia que lembra muito outra música de Raul Seixas chamada “Medo da Chuva” (que é a música de Raul Seixas que Zé Ramalho mais gosta). É fato conhecido que Zé Ramalho, no início de sua carreira, imitava Raul Seixas. Depois que o Maluco Beleza morreu, os chamados “raulseixistas”, que constituem uma imensa multidão anônima - e atenta aos sinais da presença da Sagrada Chama da Maluquez - começou a migrar para os shows de Zé Ramalho. Aqui e agora, Zé Ramalho faz a homenagem que os admiradores de Raul Seixas estavam querendo e esperando. Uma homenagem sincera e emocionada, que ao mesmo tempo celebra o grande sonho de Raul Seixas, que era ver a aurora da Era de Aquário cantando a esperança de um novo tempo. Muito Obrigado, Zé Ramalho! E que o Padre Cícero mantenha teu corpo fechado, protegido e forte para continuar esta tua brilhante caminhada!



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