CONTRACULTURA

O UNIVERSO SEGUNDO LULU SANTOS

Toninho Buda, 11 fevereiro 2001

Fomos ao Rock In Rio III e adoramos. Na verdade, aproveitamos a festa para rodar algumas cenas do filme que eu e o Rogério Orlandi (um cineasta lá de São Paulo) estamos fazendo, chamado A Lenda do Geremário. O enredo deste filme conta a história de um cidadão comum – o tal Geremário, interpretado por este que vos escreve -, desempregado e morando em São Paulo. Este personagem nunca tinha ouvido falar de Nova Era ou qualquer coisa relacionada com o assunto. No entanto, caminhando pela Praça da Sé, ele se depara com um enigmático folheto, entregue a ele por um cantador ambulante. Daí para a frente sua vida irá mudar radicalmente. E mudou tanto que ele foi parar no Rock in Rio, depois de fundir a cuca em São Tomé das Letras (fotos da película podem ser encontradas em www.imagick.org.br, no setor “Novidades Mágickas”). O filme está em fase de edição. Esperávamos concluí-lo ainda em março de 2001, mas minha inesperada mudança para Belém do Pará – trabalhando agora pela Telemar – alterou um pouco estes planos. Mas vamos em frente, porque continuamos naquelas festividades de abertura do Novo Milênio.

E por falar em Novo Milênio, fiquei surpreso com uma entrevista dada no Jô Soares, pelo Lulu Santos. No mesmo programa, foi também entrevistado um jovem astrônomo, que levou um excelente material fotográfico sobre o assunto. E na entrevista com este astrônomo, Lulu Santos participou ativamente, mostrando um sólido conhecimento diletante sobre a constituição do Universo que nos cerca. Isso foi para mim uma excelente notícia, pois eu também sempre gostei de Astronomia e fui membro ativo da Associação Astronômica Galileu Galilei, de Juiz de Fora, nos anos 70 e 80. E hoje fico admirado como a correria da vida vai fazendo com que nós deixemos de lado aquelas coisas que um dia nos foram tão queridas. Ver aquilo tudo rolando no Jô Soares reativou tanto a minha memória emotiva, que eu tirei das estantes os meus velhos alfarrábios de astronomia, para relembrar o nome das constelações e das estrelas e corpos celestes mais importantes, como Aldebaran, Io, Europa, Ganimedes, Acrux, Gacrux, Mintaka, Alnilan, Alnitaka, Andrômeda e Cassiopéia (vejam que nomes lindos!), Sirius, Canopus, Calixto, e assim por diante. Qual é a estrela mais próxima do Sistema Solar? Quem sabe?

A astronomia é um excelente antídoto contra o obscurantismo. Como em toda ciência, também na astronomia qualquer afirmativa categórica não faz o menor sentido, levando-se em conta que tudo – até o próprio Universo – está em constante transformação. E observe-se que tudo aquilo que é rígido e todas as pessoas que têm tendência a ter comportamento muito rigoroso, conservador ou permanente, odeia qualquer ameaça de transformação. Podemos citar um exemplo histórico, só para ilustrar o que estamos dizendo. O grande astrônomo Joahnnes Kepler atrasou em mais de trinta anos a confirmação de suas famosas leis sobre o movimento planetário, por causa de um preconceito religioso. Acontece que, fazendo cálculos sobre a forma da órbita de marte (a partir das tabelas de seu colega Tycho Brahe), ele sempre chegava a uma elipse. Mas os textos religiosos diziam que os planetas descreviam círculos perfeitos, pois eles foram criados por deus e deus – evidentemente – não faria com que os planetas descrevessem órbitas ovais, que parecem ter sido “amassadas” (na concepção dos religiosos, antes de criar as estrelas, é claro que deus já teria criado também o compasso, aquela ferramentinha de riscar bolotas!) Mas Kepler sempre encontrava órbitas ovais para marte. E durante todo esse tempo, ele reviu seus cálculos, procurando por um erro que não existia! Até que um dia, emocionado, ele confirmou definitivamente que os planetas giram em torno do Sol descrevendo elipses, e que o próprio Sol sempre se encontra em um dos focos dessas simpáticas figuras geométricas.

Como dissemos anteriormente, O Rock in Rio III faz parte das festividades de comemoração da abertura do Novo Milênio. E vejam como na própria estrutura do mesmo, a astronomia estava muito presente: a cobertura do setor de ingresso foi construída no formato de um imenso Globo Terrestre. E o palco principal se chamava Palco Mundo, tendo também um formato esférico. Qualquer pessoa que tenha pisado naquele terreiro, sabe o quanto de energia positiva rolou naquele espaço durante os 7 dias do festival. Estes símbolos e signos definem claramente que estamos entrando na Nova Era com uma nova concepção das coisas. O astral do Rock in Rio não foi dominado por cruzes e rezas (apesar dos evangélicos terem feito panfletagem contra o demônio na porta, e já andarem dizendo que o pastor Edir Macedo já alugou – e pretende comprar – toda a estrutura do local, com palco mundo e tudo! Aliás, eu sempre falei que os religiosos fingem detestar o rock’n’roll, mas não perdem nenhuma oportunidade de utilizar seus ritmos, comportamento, instrumentos musicais, roupas, forma de dançar e até os próprios prédios). Isto tudo é bastante ridículo, mas não tem a menor importância. O importante é que eles já não conseguem levar pessoas para a fogueira, como aconteceu com a mãe de Johannes Kepler. Ele desenvolveu todo o seu trabalho como astrônomo, tendo que suportar o desespero de ver sua genitora sendo torturada nas masmorras da inquisição. Hoje nós podemos falar tranqüilamente que a terra se move – LIVRE – em torno do Sol e enfeitar nossas festas com estrelas coloridas, mundos e planetas. Muito obrigado Lulu Santos, por ter me trazido de volta tudo isto. Talvez nós sejamos os últimos românticos. Mas se isto é ridículo, também não tem a menor importância.

O UNIVERSO SEGUNDO LULU SANTOS

Toninho Buda, 11 fevereiro 2001

Fomos ao Rock In Rio III e adoramos. Na verdade, aproveitamos a festa para rodar algumas cenas do filme que eu e o Rogério Orlandi (um cineasta lá de São Paulo) estamos fazendo, chamado A Lenda do Geremário. O enredo deste filme conta a história de um cidadão comum – o tal Geremário, interpretado por este que vos escreve -, desempregado e morando em São Paulo. Este personagem nunca tinha ouvido falar de Nova Era ou qualquer coisa relacionada com o assunto. No entanto, caminhando pela Praça da Sé, ele se depara com um enigmático folheto, entregue a ele por um cantador ambulante. Daí para a frente sua vida irá mudar radicalmente. E mudou tanto que ele foi parar no Rock in Rio, depois de fundir a cuca em São Tomé das Letras (fotos da película podem ser encontradas em www.imagick.org.br, no setor “Novidades Mágickas”). O filme está em fase de edição. Esperávamos concluí-lo ainda em março de 2001, mas minha inesperada mudança para Belém do Pará – trabalhando agora pela Telemar – alterou um pouco estes planos. Mas vamos em frente, porque continuamos naquelas festividades de abertura do Novo Milênio.

E por falar em Novo Milênio, fiquei surpreso com uma entrevista dada no Jô Soares, pelo Lulu Santos. No mesmo programa, foi também entrevistado um jovem astrônomo, que levou um excelente material fotográfico sobre o assunto. E na entrevista com este astrônomo, Lulu Santos participou ativamente, mostrando um sólido conhecimento diletante sobre a constituição do Universo que nos cerca. Isso foi para mim uma excelente notícia, pois eu também sempre gostei de Astronomia e fui membro ativo da Associação Astronômica Galileu Galilei, de Juiz de Fora, nos anos 70 e 80. E hoje fico admirado como a correria da vida vai fazendo com que nós deixemos de lado aquelas coisas que um dia nos foram tão queridas. Ver aquilo tudo rolando no Jô Soares reativou tanto a minha memória emotiva, que eu tirei das estantes os meus velhos alfarrábios de astronomia, para relembrar o nome das constelações e das estrelas e corpos celestes mais importantes, como Aldebaran, Io, Europa, Ganimedes, Acrux, Gacrux, Mintaka, Alnilan, Alnitaka, Andrômeda e Cassiopéia (vejam que nomes lindos!), Sirius, Canopus, Calixto, e assim por diante. Qual é a estrela mais próxima do Sistema Solar? Quem sabe?

A astronomia é um excelente antídoto contra o obscurantismo. Como em toda ciência, também na astronomia qualquer afirmativa categórica não faz o menor sentido, levando-se em conta que tudo – até o próprio Universo – está em constante transformação. E observe-se que tudo aquilo que é rígido e todas as pessoas que têm tendência a ter comportamento muito rigoroso, conservador ou permanente, odeia qualquer ameaça de transformação. Podemos citar um exemplo histórico, só para ilustrar o que estamos dizendo. O grande astrônomo Joahnnes Kepler atrasou em mais de trinta anos a confirmação de suas famosas leis sobre o movimento planetário, por causa de um preconceito religioso. Acontece que, fazendo cálculos sobre a forma da órbita de marte (a partir das tabelas de seu colega Tycho Brahe), ele sempre chegava a uma elipse. Mas os textos religiosos diziam que os planetas descreviam círculos perfeitos, pois eles foram criados por deus e deus – evidentemente – não faria com que os planetas descrevessem órbitas ovais, que parecem ter sido “amassadas” (na concepção dos religiosos, antes de criar as estrelas, é claro que deus já teria criado também o compasso, aquela ferramentinha de riscar bolotas!) Mas Kepler sempre encontrava órbitas ovais para marte. E durante todo esse tempo, ele reviu seus cálculos, procurando por um erro que não existia! Até que um dia, emocionado, ele confirmou definitivamente que os planetas giram em torno do Sol descrevendo elipses, e que o próprio Sol sempre se encontra em um dos focos dessas simpáticas figuras geométricas.

Como dissemos anteriormente, O Rock in Rio III faz parte das festividades de comemoração da abertura do Novo Milênio. E vejam como na própria estrutura do mesmo, a astronomia estava muito presente: a cobertura do setor de ingresso foi construída no formato de um imenso Globo Terrestre. E o palco principal se chamava Palco Mundo, tendo também um formato esférico. Qualquer pessoa que tenha pisado naquele terreiro, sabe o quanto de energia positiva rolou naquele espaço durante os 7 dias do festival. Estes símbolos e signos definem claramente que estamos entrando na Nova Era com uma nova concepção das coisas. O astral do Rock in Rio não foi dominado por cruzes e rezas (apesar dos evangélicos terem feito panfletagem contra o demônio na porta, e já andarem dizendo que o pastor Edir Macedo já alugou – e pretende comprar – toda a estrutura do local, com palco mundo e tudo! Aliás, eu sempre falei que os religiosos fingem detestar o rock’n’roll, mas não perdem nenhuma oportunidade de utilizar seus ritmos, comportamento, instrumentos musicais, roupas, forma de dançar e até os próprios prédios). Isto tudo é bastante ridículo, mas não tem a menor importância. O importante é que eles já não conseguem levar pessoas para a fogueira, como aconteceu com a mãe de Johannes Kepler. Ele desenvolveu todo o seu trabalho como astrônomo, tendo que suportar o desespero de ver sua genitora sendo torturada nas masmorras da inquisição. Hoje nós podemos falar tranqüilamente que a terra se move – LIVRE – em torno do Sol e enfeitar nossas festas com estrelas coloridas, mundos e planetas. Muito obrigado Lulu Santos, por ter me trazido de volta tudo isto. Talvez nós sejamos os últimos românticos. Mas se isto é ridículo, também não tem a menor importância.


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