Toninho Buda, 19 dezembro 2000
Foi com grande interesse que procurei o site de Caetano
Veloso, quando soube que ele tinha feito uma música
em homenagem ao Raul Seixas. Fiquei horas lendo e relendo
a letra de Rock’n’Raul, prá ver se conseguia
descobrir naquilo o gênio de Caetano. Ali está
dito até que a grande luta de Raul foi exibir uma
enorme vontade de ser americano. Será?... Ora, o
povo nordestino sempre foi tão humilhado e estigmatizado,
que muitas e muitas vezes na vida eu os vi – envergonhados
– responderem que eram “cidadãos do mundo”,
quando alguém lhes perguntava onde é que tinham
nascido. Realmente, pode ser que Raul tivesse uma certa
vergonha de ser brasileiro e nordestino... Mas curiosamente,
em suas entrevistas no site www.caetanoveloso.com.br , Caetano
se exclui do grupo que “queria ser americano”,
e diz que os tropicalistas queriam ser “universais”,
originais e nunca imitar ninguém... não seria
isso também uma nova faceta dos cidadãos do
mundo?!...
A realidade pode ser até mais cruel. Aquela caricatura,
por exemplo, criada por Chico Anísio – Baiano
e os Novos Caetanos – mostrava claramente o quão
bairrista, limitada e até caipira poderia parecer,
aos olhos das outras regiões, a pretensa universalidade
dos tropicalistas. Mas é um fato que – com
sua luta, capacidade de superação e o talento
de seus artistas – os nordestinos conseguiram impor
suas culturas regionais ao resto do país. No entanto,
se a Tropicália tivesse realmente se universalizado,
me parece muito mais provável que ela não
teria globalizado, mas sim bahianizado... o Brasil. E hoje,
até que ponto a dionisíaca bahianização
de nossa cultura é de boa ou má qualidade,
o próprio Caetano discute com eloqüente competência.
E é exatamente por causa de seu talento é
que é de doer que ele - vestindo aquela velha persona
nordestina -, venha posar outra vez de cidadão do
mundo e chamar o conterrâneo Raul Seixas de macaco
dos americanos. Se Raul queria ser americano, mesmo que
fosse apenas pela fartura de maconha e éter, o seria
evidentemente by Timothy Leary/Castañeda and Lennon/Huxley/Crowley.
E há mais o que lamentar, quando sabemos que este
“desafio” entre Caetano e Raul é uma
peleja muito antiga. Pois Raul Seixas fez, pouco antes de
sua morte (em parceria com Marcelo Nova, no disco A Panela
do Diabo, em 1989), uma música-testamento chamada
Rock’n’Roll. Nela, ele começava dizendo
“Há muito tempo atrás, na velha Bahia,
eu imitava Little Richards, e me contorcia. As pessoas se
afastavam, pensando que eu estava tendo um ataque de epilepsia.
E no Teatro Vila Velha, velho conceito de moral, bosta nova
prá universitário, gente fina, intelectual”.
Ora, Caetano Veloso - junto com Gilberto Gil e a Orquestra
de Carlito -, tocavam exatamente naquele teatro. Enquanto
isso, Raulzito e os Panteras tocavam rock, para empregadas
domésticas, no Cinema Roma. Mas isso foi há
quarenta anos! Será que agora, em plena passagem
do milênio seria a hora ideal para uma revanche do
calibre desse duelo Rock’n’Roll x Rock’n’Raul
?!...
Acho que não, meu caro Caetano! Vocês podem
até ensaiar, com o fantasma de Raulzito, este tango
de tapas e beijos, morde e assopra (que já foi chamado
até de “inimizade íntima”). Mas
a grande luta dele foi contra o Sistema, Matrix, Monstro
Sist ou qualquer nome que se lhe dê. Acho também
que ele merece muito toda a reverência tardia que
está recebendo agora. Sempre acreditei que a Jovem
Guarda, a Tropicália e a Sociedade Alternativa tiveram
muito mais semelhanças do que diferenças;
muito mais traços de união do que divisão.
Pois existia um inimigo comum, o Caretão. Hoje, este
inimigo apenas se escondeu nas sombras das coxias. E está
adorando o que você está fazendo neste campo
de cruzes, debaixo dos holofotes. Quando Raul fez bolero,
fez Sessão das Dez; quando fez música caipira,
fez Capim Guiné; quando fez ponto de umbanda, cheio
de axé, fez Mosca na Sopa. Agora você, fazendo
rock... é uma vontade fela-da-puta de voltar no tempo
e ir cantar rock-peleja no cinema Roma. But if it’s
your way, please, let me remember you: the end is near.
the dream is over. See the final curtain !...
A PELEJA ENTRE CAETANO E RAUL SEIXAS
Toninho Buda, 19 dezembro 2000
Foi com grande interesse que procurei o site de Caetano
Veloso, quando soube que ele tinha feito uma música
em homenagem ao Raul Seixas. Fiquei horas lendo e relendo
a letra de Rock’n’Raul, prá ver se conseguia
descobrir naquilo o gênio de Caetano. Ali está
dito até que a grande luta de Raul foi exibir uma
enorme vontade de ser americano. Será?... Ora, o
povo nordestino sempre foi tão humilhado e estigmatizado,
que muitas e muitas vezes na vida eu os vi – envergonhados
– responderem que eram “cidadãos do mundo”,
quando alguém lhes perguntava onde é que tinham
nascido. Realmente, pode ser que Raul tivesse uma certa
vergonha de ser brasileiro e nordestino... Mas curiosamente,
em suas entrevistas no site www.caetanoveloso.com.br , Caetano
se exclui do grupo que “queria ser americano”,
e diz que os tropicalistas queriam ser “universais”,
originais e nunca imitar ninguém... não seria
isso também uma nova faceta dos cidadãos do
mundo?!...
A realidade pode ser até mais cruel. Aquela caricatura,
por exemplo, criada por Chico Anísio – Baiano
e os Novos Caetanos – mostrava claramente o quão
bairrista, limitada e até caipira poderia parecer,
aos olhos das outras regiões, a pretensa universalidade
dos tropicalistas. Mas é um fato que – com
sua luta, capacidade de superação e o talento
de seus artistas – os nordestinos conseguiram impor
suas culturas regionais ao resto do país. No entanto,
se a Tropicália tivesse realmente se universalizado,
me parece muito mais provável que ela não
teria globalizado, mas sim bahianizado... o Brasil. E hoje,
até que ponto a dionisíaca bahianização
de nossa cultura é de boa ou má qualidade,
o próprio Caetano discute com eloqüente competência.
E é exatamente por causa de seu talento é
que é de doer que ele - vestindo aquela velha persona
nordestina -, venha posar outra vez de cidadão do
mundo e chamar o conterrâneo Raul Seixas de macaco
dos americanos. Se Raul queria ser americano, mesmo que
fosse apenas pela fartura de maconha e éter, o seria
evidentemente by Timothy Leary/Castañeda and Lennon/Huxley/Crowley.
E há mais o que lamentar, quando sabemos que este
“desafio” entre Caetano e Raul é uma
peleja muito antiga. Pois Raul Seixas fez, pouco antes de
sua morte (em parceria com Marcelo Nova, no disco A Panela
do Diabo, em 1989), uma música-testamento chamada
Rock’n’Roll. Nela, ele começava dizendo
“Há muito tempo atrás, na velha Bahia,
eu imitava Little Richards, e me contorcia. As pessoas se
afastavam, pensando que eu estava tendo um ataque de epilepsia.
E no Teatro Vila Velha, velho conceito de moral, bosta nova
prá universitário, gente fina, intelectual”.
Ora, Caetano Veloso - junto com Gilberto Gil e a Orquestra
de Carlito -, tocavam exatamente naquele teatro. Enquanto
isso, Raulzito e os Panteras tocavam rock, para empregadas
domésticas, no Cinema Roma. Mas isso foi há
quarenta anos! Será que agora, em plena passagem
do milênio seria a hora ideal para uma revanche do
calibre desse duelo Rock’n’Roll x Rock’n’Raul
?!...
Acho que não, meu caro Caetano! Vocês podem
até ensaiar, com o fantasma de Raulzito, este tango
de tapas e beijos, morde e assopra (que já foi chamado
até de “inimizade íntima”). Mas
a grande luta dele foi contra o Sistema, Matrix, Monstro
Sist ou qualquer nome que se lhe dê. Acho também
que ele merece muito toda a reverência tardia que
está recebendo agora. Sempre acreditei que a Jovem
Guarda, a Tropicália e a Sociedade Alternativa tiveram
muito mais semelhanças do que diferenças;
muito mais traços de união do que divisão.
Pois existia um inimigo comum, o Caretão. Hoje, este
inimigo apenas se escondeu nas sombras das coxias. E está
adorando o que você está fazendo neste campo
de cruzes, debaixo dos holofotes. Quando Raul fez bolero,
fez Sessão das Dez; quando fez música caipira,
fez Capim Guiné; quando fez ponto de umbanda, cheio
de axé, fez Mosca na Sopa. Agora você, fazendo
rock... é uma vontade fela-da-puta de voltar no tempo
e ir cantar rock-peleja no cinema Roma. But if it’s
your way, please, let me remember you: the end is near.
the dream is over. See the final curtain !...