Toninho Buda, 18 dezembro 2000
Bem, minha gente, estamos em Janeiro de 2001 e o mundo realmente
não acabou, contrariando as profecias – talvez
mal interpretadas - de Nostradamus. Antes de qualquer outro
comentário, gostaria de fazer alguns esclarecimentos,
principalmente ao pessoal que está no ROCK IN RIO
III. O primeiro deles é que o início do III
Milênio não aconteceu no reveillon passado,
mas acontecerá no próximo dia 21 de março
de 2001, quando esta festa do nosso verão estará
terminando e a primavera no hemisfério norte estará
começando. O início do Ano Novo (que desta
vez é o início de um Novo Século e
um Novo Milênio), sempre foi comemorado pelos místicos
no início da Primavera. E isto é muito claro
e natural, pois o ciclo da natureza é: primavera,
verão, outono e inverno. Não é mesmo?
A História
Falar de místicos e visionários hoje, no
Brasil, é falar de Zé Ramalho! No primeiro
encontro que tivemos há três anos (no dia 3
de novembro de 1997), ele me falou das suas relações
com Raul Seixas e da sua intenção de lançar
um CD com músicas do velho Raul na passagem do milênio.
Para quem não conhece esta história, é
um prazer relembrar o último encontro entre os dois.
Na madrugada do dia 28 de abril de 1984, Zé Ramalho
acordou com o telefone tocando. Era Raul Seixas, perguntando
se poderia ir visitá-lo. Logo depois, Raul apareceu
em sua casa, acompanhado de três prostitutas e um
balde de gelo com uma garrafa de vinho. Quem abriu a porta
foi a esposa de Zé Ramalho, Roberta, que está
com ele até hoje. Logo as prostitutas foram embora
e Raul passou o final de semana em sua casa. Deste histórico
fim de semana, diz o cantor de Avôhai que jamais se
esquecerá da imagem do Maluco Beleza dormindo em
sua cama, abraçado a umas fitas de vídeo de
Elvis Presley, que ele havia lhe mostrado. Esta presença
de Elvis na vida do Raul é realmente impressionante
(e acredito que vá muito além de ser apenas
uma “vontade de ser americano”, pois o Rock’n’Roll
– cujo DNA é todo africano - foi a base da
Jovem Guarda, da Tropicália, da Sociedade Alternativa
e de toda esta revolução que está preparando
o Novo Milênio).
E, na hora de ir embora, Raul vestiu suas roupas e pediu
emprestado seus sapatos, que naturalmente ficaram um pouco
grandes (Raul calçava 37 e Zé Ramalho 41!).
Mas as relações entre os dois vão muito
além disso. É um fato muito significativo,
por exemplo, que, após a morte de Raul Seixas, o
seu público começou a migrar para os shows
de Zé Ramalho. E eu diria até que este é
o fato mais importante para legitimá-lo e confirmá-lo
como o artista brasileiro para representar Raul Seixas na
passagem do Novo Milênio. Pois no comportamento dos
raulseixistas é que está a escolha correta.
E o trabalho de colocar novamente no ar a mais nobre esperança
de raulzito, o cantor de “Admirável Gado Novo”
fará, lançando em março o seu CD “A
Hora do Trem Passar – Zé Ramalho canta Raul
Seixas”, pela BMG Ariola.
Rock In Rio III
Este verão do milênio está arrebentando
com uma grande festa por mês: o Rock In Rio em janeiro,
o Carnaval em fevereiro e o reveillon em março. É
interessante observar o maciço retorno das idéias
da Nova Era, que povoaram os sonhos e as esperanças
da juventude dos anos 60 e 70, em todas as suas infinitas
releituras. E nesta maravilhosa integração,
o povo do samba – que sempre pelejou contra a escravatura
dos negros -, volta a falar do povo do rock – que
sempre pelejou contra a escravatura dos brancos -, na belíssima
homenagem da Grande Rio ao Profeta Gentileza (“Idade
Média nunca mais. Era de Aquário, tempo do
amor, novo milênio, avança o homem para o espaço
sideral”; o mesmo espaço, por sinal, de onde
os antigos indíos que habitavam a região de
São Tomé das Letras diziam ter vindo o escritor
daqueles hieróglifos: Sumé!). Para quem gosta
de numerologia, cromoterapia e ciências afins, o Rock
In Rio III dá margem a outras viagens alucinantes.
A programação da Tenda por um Mundo Melhor,
nos 7 dias do festival, é um barato à parte.
Nós poderíamos relacioná-la com as
7 cores do espectro solar, da seguinte forma: 1o dia, Fé
e Espiritualidade (lilás, a cor da meditação);
2o dia, Tecnologia e Globalização (azul, a
cor do céu, para onde estamos dirigindo nossos foguetes
em busca de novos mundos); 3o dia, Qualidade de Vida (verde,
que te quero verde); 4o dia, o Jovem e o Futuro (amarelo,
a amizade, a união, a esperança); 5o dia,
Música, Artes e Esportes (alaranjado, a alegria das
atividades que só conduzem à integração
e onde as disputas só servem para fortalecer os irmãos);
6o dia, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
(vermelho, a cor do sangue, pois o primeiro meio ambiente
é o meio ambiente interno, a flora e fauna intestinais;
vermelho é sangue, é o coração
que é centro das emoções, centro de
tudo); 7o dia, Paz (branco, a união de todas as cores,
a verdadeira cor da Luz do Sol. Todos somos filhos do Sol)!
Zé Ramalho e Elba Ramalho se apresentam juntos no
Rock In Rio no sexto dia (dia do coração),
20 de janeiro, e abrem seu show cantando juntos Eu Nasci
Há Dez Mil Anos Atrás, de Raul Seixas. Esta
abertura tem um profundo significado para todas as pessoas
ligadas a tudo que estamos falando aqui. Lembram-se das
fitas de Elvis no encontro de Raul e Zé Ramalho,
em 1984? Pois é: Eu Nasci Há Dez Mil Anos
Atrás é uma música do folclore americano,
que Elvis Presley também cantou e que se chama I
Was Born Abouth Ten Thousand Years Ago (do LP Elvis Now).
Apesar das adaptações e das diferenças
de tom (a de Elvis é uma brincadeira e a que Raul
compôs - junto com Paulo Coelho, naquela época
- é um épico), ambas contam a história
de um viajante no espaço e no tempo, visitando grandes
momentos da história da humanidade. Aliás,
esta mesma idéia os Rolling Stones utilizaram também
em Sympathy for the Devil, que diz em um de seus trechos:
eu estive por aí durante longos e longos anos, roubando
a alma e a fé dos homens. Eu estava por perto quando
Jesus teve o seu momento de dúvida e de dor... E
que Raul repetirá nas vozes de Zé & Elba
Ramalho: eu vi Cristo ser crucificado, o amor nascer e ser
assassinado, eu vi as bruxas pegando fogo, prá pagarem
seus pecados...
Mas Zé Ramalho vai invocar para o palco ainda a
delícia, a irreverência, o talento, a beleza
e a eternidade dos Mutantes, com Ando Meio Desligado. Com
isso ele coloca nesta festa Rita Lee, Arnaldo Batista e
tantos outros que ainda estão por aqui, bem como
outros que já partiram (vale lembrar que Raul, mesmo
vivo, não participou de nenhum Rock in Rio, apesar
das polêmicas geradas na época. Falar nisso,
onde andam Erasmo Carlos, Lobão, Camisinha, Titãs,
Celso Blues aumentaquissaíéroquenrou ???...
Vamos lá, vamo’proveitá, porque desta
vez eu consegui 2 páginas, mas o espaço dos
dinossauros tá diminuindo até nos museus:
vejam que até este jornal já está mais
voltado para novas – e outras - bandas...). E Zé
Ramalho está prometendo muito mais do que isto, no
seu nordeste pop! Para o palco – que felizmente é
o Palco Mundo, senão ia vazar gente e espíritos
pelo ladrão - ele estará levando consigo Ricardo,
Luiz Antônio (teclados), Jacaré (baixo), He-Man
(percussão) e Rick Ferreira (guitarra solo, que,
para quem não sabe, é um dos que viajaram
muito tocando ao lado do Raul). O que vai acontecer daí
para a frente, é surpresa. Afinal de contas, se contarmos
aqui toda a história, ninguém perderá
tempo de ir lá participar dela, não é
mesmo?
A Hora do Trem Passar
Bem, minha gente, com relação ao CD do Zé
Ramalho, acontece alguma coisa semelhante. Por enquanto
não falaremos tuuuudo, senão tiraremos a surpresa
da sobremesa desta grande festa do verão de 2001,
esta verdadeira odisséia no espaço (mental
digital sideral) que estamos vivendo. Mas podemos adiantar
bastante coisa, a começar do título, A Hora
do Trem Passar. Creio que a grande maioria das pessoas ligadas
a Raul Seixas sabe que este é o título também
de uma música do velho (não confundir com
O Trem das Sete, muito mais conhecida e que foi gravada
até por duplas sertanejas). A Hora do Trem Passar
é uma música lírica, que junto com
Cantiga de Ninar, forma a dupla principal de músicas
preferidas do grande maestro Miguel Cidras, entre as 160
músicas que Raul compôs e cantou (ele fez muito
mais do que isso, mas para outros cantores).
A escolha de Zé Ramalho não poderia Ter sido
mais feliz: creio que nesta música Raul (aqui também
em parceria com Paulo Coelho, no LP de estréia da
dupla, Krigh-há-Bandolo!, 1973) tenha dado a imagem
mais romântica e profunda do impulso que leva todo
homem a sair em busca de seu sonho, deixando para trás
o conforto e a segurança das coisas conhecidas. Isto
acontece quando ele precisa se decidir a levantar do colo
da amada, no calor do leito, e partir em busca do verdadeiro
conhecimento. “Diga, meu amor, pois eu preciso escolher:
apagar as luzes, ficar perto de você. Ou aproveitar
a solidão do amanhecer, prá ver tudo aquilo
que eu tenho que saber”. E não é exatamente
este o cerne de toda a questão que hoje nos envolve?!...
Raul já tinha sido mais sarcástico (na correnteza
de Bob Dylan, com Ouro de Tolo), idealístico (em
Metamorfose Ambulante, cuja letra já tinha sido rascunhada
em sua infância) ou louco (em Maluco Beleza, quatro
anos depois, com Cláudio Roberto, em 1977) ao expressar
esta mesma idéia de inconformismo e sede de saber,
mas nunca tão romântico, como em A Hora do
Trem Passar. Parabéns, portanto, Zé Ramalho.
Mas o disco abre com As Profecias, do disco Mata Virgem,
de 1978. Este foi o último trabalho – e esta
uma das últimas músicas - que Raul Seixas
fez em parceria com Paulo Coelho. Como abertura do CD, também
é uma escolha perfeita, pois o clima de abertura
da letra é parecido – mas com destaque para
o tédio - com o clima de A Hora do Trem Passar. O
sujeito está dentro de casa, de saco cheio, vejam
só: “tem dias que a gente se sente, um pouco
talvez menos gente. Um dia daqueles sem graça, de
chuva cair na vidraça”. Mas daí prá
frente, o circo pega fogo! E sem dúvida alguma, vai
pegar também em todo este trabalho de Zé Ramalho.
Zé diz também que, por respeito, não
incluiria Gita no repertório (ele acha que só
o Raul deve cantá-la). Mas a Rede Globo vai lançar
uma novela chamada “Um Anjo Caiu do Céu”,
onde o tema do anjo é exatamente Gita, na voz de
Zé Ramalho!... Assim, ele acabou incluindo o texto
sagrado do Bhagavad-Gita, do Mahabarata, ditado pelo Senhor
Krishna ao Deus Sol, há algumas centenas de milhões
de anos, e depois ao Guerreiro Arjuna, no campo de batalha
de Kuruksetra... Mas, como vinha dizendo, não posso
adiantar mais do que isto: são 10 músicas
de Raul e mais duas; uma inédita, chamada Equilíbrio
e – fechando o trabalho – uma outra chamada
Para Raul...
E foi assim que eu ouvi todas essas histórias daquela
voz cavernosa, que, na sua solidão, tem mania de
ficar escrevendo lendas num chão de giz. De vez em
quando, ele pega seu cajado e sua lâmpada e sai por
aí, relendo os textos da parede da pedra encantada
e procurando sinais nas noites de céu claro. E é
por lá que ele se reencontra com Raul Seixas. Mas
qualquer pessoa pode ir prá lá também.
É só subir a serra. Lá você vai
ouvir histórias, muitas histórias. Tem a Vila
do Sossego, a Cidade das Estrelas, os portais para o Reino
de Agartha e muitos lugares muito bonitos. Lá você
poderá também conversar com deuses, heróis,
antepassados, comprar colares e contas, prever o futuro
e talvez – quem sabe – entender um pouco mais
da tua própria história.