CONTRACULTURA

MINHA MÃE E ROBERTO CARLOS

Toninho Buda, 3 dezembro 2000
(Esta matéria teve sua publicação vetada no Int.Magazine. Também, com um título desses...)


Roberto Carlos voltou aos palcos e consideramos isso uma boa notícia. Seria difícil imaginar a (verdadeira) passagem do milênio sem ele. No início deste 2001, em que a nossa odisséia parece muito mais revolucionária do que poderíamos jamais imaginar, os artistas continuam tendo um papel muito especial em tudo o que está acontecendo. Para mim, esta passagem está sendo muito intensa, pois acabo de perder o meu emprego como engenheiro. Com isso, eu me lanço em uma nova aventura de procurar por um novo trabalho. Mas, como estas festas de final de ano têm um sabor todo especial, quero aproveitar meu descompromisso com qualquer patrão para fazer uma coisa que nunca fiz na vida: tirar algumas semanas de férias e tentar me livrar de todo esse medo do futuro, que sempre roubou boa parte da alegria que poderia estar em meu peito e fez com que eu trabalhasse feito uma formiga, sem nunca ter curtido meu tempo de cigarra. Quero ver o fim do ano como cigarra. Quero rever meus amigos, meus familiares, reler meus textos mais queridos, voltar ao lugar onde nasci e procurar discos voadores pelos céus de São Tomé.

Mas Roberto Carlos, que sempre foi cigarra, parece estar saindo de um novo e muito doloroso casulo, tecido recentemente nas malhas da morte prematura e sofrida de sua companheira. Eu gostaria de aproveitar este texto final do Segundo Milênio para fazer uma reflexão sobre um assunto que sempre me fascinou: o fanatismo. E gostaria de tomar o caso de Roberto Carlos como exemplo. Minha mãe, que é uma pessoa profundamente religiosa, evidentemente adora o Roberto Carlos e o Padre Marcelo Rossi. Como eu tenho tido oportunidade de visitá-la com mais frequência, ela sempre me conta histórias do seu cotidiano com o grupo de senhoras da Igreja. Outro dia ela me disse que uma delas ficou indignada porque há muito tempo vem fazendo um pedido para Nossa Senhora e até hoje não foi atendida. Ela chegou até a dar um prazo para a Santa; e prometeu que - se continuar na fila -, vai parar de rezar! Minha mãe evidentemente ficou horrorizada! Ora, onde já se viu tratar Nossa Senhora desse jeito!

Quando ela me conta coisas assim, eu escuto e concordo plenamente! E minha mãe fica feliz. Na verdade, mesmo achando toda essa história de santos e anjos uma coisa inútil e até prejudicial, eu tenho me tornado muito mais tolerante. Talvez seja a idade que vem chegando... Ou talvez algumas atitudes mais inteligentes de outras pessoas, tenham me mostrado que administrar conflitos é muito mais nobre do que guerrear. Como dizia William Blake, que reli hoje: “Eia, ó jovens da Nova Era: Oponde-vos aos mercenários ignorantes, pois existem mercenários na Caserna, na Corte e na Universidade, que, pudessem eles, eliminariam a guerra mental e prolongariam a corporal”. Esta é a questão: a guerra mental é uma guerra que está se tornando cada vez mais uma capacidade de administrar pontos de vista diferentes. Nós teremos que nos tornar cada vez mais inteligentes.

Citemos um exemplo concreto: há poucas semanas, eu vi no Jornal Nacional que algumas prefeituras do nordeste estão aproveitando o trabalho voluntário das rezadeiras (que também são parteiras), para ajudá-los na conscientização do uso de soro caseiro e alguns métodos simples e eficientes de higiene e medicina popular, para conter a mortandade infantil nas zonas mais miseráveis. As rezadeiras então – que antigamente só rezavam e as crianças morriam de fome e doenças -, agora rezam e orientam as pessoas. Com isso, as crianças não morrem e melhoram de saúde. Os médicos sabem que o que curou foram os remédios e a educação. As rezadeiras acham que foram as rezas. Mas todo mundo sai lucrando. Talvez um dia, as rezadeiras comecem a desconfiar que – sem os remédios – as rezas perdem 99% de sua eficiência. E talvez fiquem bastante decepcionadas quando algum dia perceberem que, utilizando os remédios e a educação, poderão tranquilamente dispensar as rezas! Mas isso talvez leve alguns milênios... No entanto, conforme estou percebendo, é preciso muita paciência para esperar que todo este processo se desenvolva...

E com Roberto Carlos parece estar acontecendo alguma coisa semelhante. Mesmo entre as lágrimas que ele não para de derramar para Maria Rita, outro dia ele fez uma declaração que é um fio de esperança para todos nós – livres pensadores - que sabemos que da grande influência que ele tem como formador de opinião. O Rei Roberto disse que “descobriu que a fé nem sempre remove montanhas. Às vezes, a gente precisa pensar um pouco e – em vez de tentar remover a montanha – procurar um caminho mais simples, dar a volta pelo lado e resolver o problema da mesma forma”. Mas minha mãe ficou indignada com ele e disse que o Rei está perdendo a fé (talvez por que o sofrimento por perder a esposa esteja sendo muito grande; mas sem esconder uma ponta de censura à “fraqueza” do cantor. Afinal, todo sofrimento é uma prova para a fé e os crentes não devem entregar os pontos assim...). Eu sorrio e falo que concordo com ela. Na verdade, o meu sorriso é de esperança de que o Roberto Carlos continue se livrando do fanatismo e comece a desconfiar também que Maria Rita poderia ter se salvado, se tivesse tido uma assistência médica adequada. Com essa assistência médica adequada, ela não precisaria de tanta reza e sofrimento inúteis. E hoje ele não estaria declarando que o seu maior sonho seria revê-la... Realmente, é um sonho, apenas um sonho, uma lenda pessoal... Mas nós precisamos é de realidade pessoal, não é mesmo? Quanto à minha mãe, mesmo com mais de 70 anos, eu tenho esperança de ela tenha ainda tempo de perceber que as pessoas não precisam de crenças para serem tudo o que são. Na verdade, acredito que sem as crendices, elas poderão ser muito mais ainda. Afinal, estamos às portas do Terceiro Milênio.

 


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