Toninho Buda, 5 novembro 2000
Esta matéria sobre Marilyn Manson forma um bloco
com outras matérias aqui publicadas e representam
a nossa Despedida do Segundo Milênio, bem como a Saudação
ao Terceiro Milênio que está se iniciando agora,
em 2001 (vide então nossos outros títulos:
“A Obra Mágicka de Raul Seixas”, “Primavera
e Rock’n’Roll”, “Eu Ouvi Crowley
Cantando”, “Tropicália & Contracultura”,
as 3 matérias com o título “Jimmy Page
and Aleister Crowley”, “A Importância
dos Festivais de Rock” e “O Demiurgo - Um Filme
dos Tropicalistas”). Tanto Raul quanto Page ou M?Manson
têm obras musicais profundamente influenciadas por
Aleister Crowley. Só que M?Manson foi o que mais
radicalizou sua postura, de cunho claramente anarco-satanista.
Nas entrevistas sobre seu álbum “In the Shadow
of the Valley of Death” - que ele considera o mais
violento e ao mesmo tempo mais belo trabalho que ele jamais
havia feito -, revela que sua inspiração veio
da Alquimia, de seu aprendizado como filiado à O.T.O.
(Ordo Templi Orientis, a mesma ordem iniciática à
qual pertenceu Raul Seixas) e dos ensinamentos da sua própria
Bíblia Sagrada (a Bíblia Satânica).
Brian Warner (ou Marilyn Manson) é, além
disso, Sacerdote da Igreja de Satã (onde foi ordenado
pelo próprio Anton La Vey, alguns anos antes de sua
- dele, La Vey - morte). M?Manson se considera também
a Terceira e Última Besta. Um de seus discos mais
famosos se chama “Antichrist Superstar”, que
é outro trabalho profundamente mergulhado na complicada
e perigosa magia enochiana. Para compor Antichrist, M?M
passou a obedecer uma rígida disciplina, mudou seus
hábitos alimentares e passou a usar drogas específicas,
em rituais onde aplicava estudos de numerologia e Kabbalah.
Certo é que ele declara ter ouvido todas as músicas
do disco durante os transes em que mergulhou. De certa forma,
os escândalos que acompanharam as suas turnês
e o pipocar de horrores na imprensa a seu respeito, ajudaram
a fazer crer que ele realmente transou com o demo para dar
à luz as canções que passaram a embalar
seus orgiásticos shows. E tudo isso ajudou a criar
também a mesma aura tenebrosa que cerca todos aqueles
que batem de frente com o Sistema, principalmente quando
o artista utiliza recursos que visam abalar e demolir as
estruturas do ? Estado-Igreja-Forças de Repressão.
E M?M tem o agravante de ter um público essencialmente
adolescente, o que causa mais horror ainda às famílias
ofendidas e defendidas pelos governantes, pastores, padres
e clérigos em geral. Mas é o próprio
M?M que começa a esclarecer que a mais radical diferença
entre a sua Igreja de Satã e a Igreja de Jesus Cristo
é que na Igreja de Satã cada indivíduo
tem que ser responsável por seus próprios
atos (ao contrário da Igreja de Cristo, onde todos
os atos individuais são governados pela Bíblia
e pelos sacerdotes - normalmente corruptos - que a representam).
Mas a coisa não pára por aí: este
“Satã” de M?M aos poucos vai se revelando
uma personagem com idéias muito interessantes. No
fundo, todo o seu discurso reflete uma profunda decepção
com o cristianismo e - por extensão, na medida em
que todas possuem fundamentos semelhantes - com todas as
grandes religiões da Terra. E o que a Igreja de Satã
propõe a seus filiados é surpreendente: honestidade,
responsabilidade, lealdade, fidelidade, disciplina, amor-próprio,
e consequentemente rejeitar todos os valores que têm
feito da Igreja de Jesus Cristo uma prostituta escrava do
dinheiro e do poder. É o sacerdote Marilyn Manson
que diz: “Você precisa rejeitar a sua cultura,
se você quiser viver a sua própria vida. Você
não precisa se tornar um satanista. Mas você
tem que procurar em outro lugar... você precisa encontrar
a sua vida através de você mesmo. E você
precisa facilitar este encontro: o ato de rejeitar Deus
e Jesus Cristo é muito mais uma grande vitória
pessoal do que um crime contra a humanidade” (Bertrand
Russel, o grande filósofo inglês que escreveu
sobre moral, ética, matemática, política
e religião, tem sobre este assunto o fantástico
livro “Why I am not a Christian”, ou seja, “Por
que não sou Cristão”. Russel ganhou
o Prêmio Nobel de Literatura em 1950, mas foi preso,
tremendamente perseguido e humilhado por causa de suas idéias
demolidoras. Assinou, junto com Albert Einstein em 1955,
um manifesto pedindo a desativação de todas
as armas nucleares. Seus principais livros estão
sendo relançados agora no Brasil; o que é
uma ótima notícia, na medida em que um espertalhão
como Paulo Coelho acaba de lançar mais um livro reforçando
a crença no diabo e nas superstições
cristãs). Para os satanistas, o inferno é
o cristianismo. E não é por acaso que a auto-biografia
do reverendo M?Manson tem o título “Long Hard
Road Out of Hell” (O Longo e Doloroso Caminho de Saída
do Inferno). Apesar dessas “boas referências”,
é claro que ele não é nenhum anjo de
candura, assim como não o são ou foram quase
todos os artistas dessa tribo que alimenta a contracultura
no mundo...
Mesmo assim, quanto mais detalhadamente nós conhecemos
o trabalho do “terrível” Marilyn Manson,
mais passamos a admirá-lo e a rir de todos aqueles
que não compreendem as entrelinhas de todo este teatro
social, onde o controle da opinião pública
é todo baseado em falsos mitos e antigas superstições
religiosas. A performance de M?M, na verdade, não
tem nada de novidade. O fato dele auto-denominar-se “Terceira
Besta do Apocalipse”, ter mil histórias escabrosas
inventadas sobre ele (e ele próprio fazer questão
de colocar mais lenha na fogueira), são técnicas
de publicidade que o próprio Crowley utilizou com
fartura há mais de cem anos! Pois o próprio
Crowley sabia que o escândalo era a forma mais eficiente
de furar o bloqueio do Sistema à divulgação
de idéias que poderiam enfraquecer o próprio
Sistema. É evidente que este Sistema permite que
essas idéias sejam publicadas, desde que sejam interpretadas
como “coisas ruins”, que não devam ser
seguidas, imitadas, estudadas ou discutidas por ninguém.
E a grande maioria das pessoas realmente vê as coisas
como foram treinadas para ver. Só que existe uma
parte delas que sabe questionar, sabe ler nas entrelinhas
e está ansiosa por idéias que as façam
respirar ares mais puros do que os vapores viciados das
multidões que desde a Idade Média se espremem
nas mal ventiladas igrejas e assim facilitam a rápida
disseminação da peste negra, gripe espanhola
e doenças de ratos. Para o Terceiro Milênio
que se inicia, a Igreja de Satã parece ser mais saudável:
fica lá no meio do mato, tem uma rede preguiçosa
prá deitar, a companhia de pardais cantando para
a majestade o Sabiá, num lugar todinho seu, e onde
Oxossi é o Rei.