Toninho Buda, 25 agosto 2000
Demiurgo é o nome dado pelos platônicos ao
deus que teria criado o mundo, mas significa também
operador de milagres. E hoje (25 de agosto de 2000) é
uma data muito oportuna para falarmos deste filme, porque
estamos comemorando no mundo todo o centenário da
morte de Frederico Nietzsche. A influência deste filósofo
é tão vasta, que eu chego a ficar emocionado
quando leio o caderno Idéias, do Jornal do Brasil
desta semana, especial sobre ele. Curiosamente, encontrei
por acaso e reli hoje mesmo as anotações que
fiz há exatos dois anos, em 20 de setembro de 1998,
na casa do Marcos Petrillo, assistindo a um fantástico
filme dos tropicalistas. Naquela noite mágica, o
Marcos - que tem com a Tropicália uma ligação
semelhante à que eu tenho com a Sociedade Alternativa
- me mostrou esta relíquia da Kaos Filmes, que muito
pouca gente conhece. Diga-se de passagem, Kaos sempre foi
o nome da proposta político-filosófica de
Jorge Mautner, que é um outro verdadeiro apaixonado
por Nietzsche. É o próprio Mautner que inicia
o filme, no papel de Satã. Gilberto Gil logo aparece
- fantástico - no papel de Pan e em seguida vem Caetano
Veloso, no papel do Demiurgo. E este demiurgo é um
discípulo de Sócrates... Da trama ainda participam
Jards Macalé e Dedé Veloso, a primeira mulher
de Caetano.
Ora, é importante salientar nesta abertura, a representação
da violência contra a natureza humana que foi causada
pela maniqueísta divisão entre o corpo e a
mente, ou entre physis e logos, desde os tempos dos gregos.
Os gregos são os autores da máxima mens sana
in corpore sano (mente sadia em corpo são), que pressupõe
essa integridade entre corpo e mente. Mas foi exatamente
com um grego - Sócrates - que nós passamos
a assistir à decapitação do ser humano,
num processo em que a cultura socrático-judaico-cristã
veio - durante os séculos posteriores - desprezar
a terra e valorizar somente o céu. Bem como desprezar
o corpo e valorizar somente a alma. E ainda dizer que o
corpo tem parte com o diabo e a alma deve buscar se livrar
dele e buscar a Deus. Assim, o filme O Demiurgo se inicia
com Caetano fazendo o papel de representante de Deus e Mautner
e Gil representando os lados demoníaco e dionisíaco
da natureza: Satã e Pan, Luta & Prazer (aproveito
aqui para relembrar o nome desta fantástica e infelizmente
desaparecida publicação alternativa da contracultura
brasileira: Luta & Prazer).
Satã é o mesmo Satanás, chefe dos
anjos rebeldes contra Deus, segundo a Bíblia. É
ainda o demônio da Ira, do ódio, da guerra,
do repúdio e do revide. Seus colegas são Lúcifer
(Orgulho), Mammon (avareza), Asmodeus (luxúria),
Belzebú (gula), Leviatã (inveja) e Belphegor
(preguiça). Mas voltemos ao filme: os diálogos
são fantásticos e as cenas, cheias de símbolos.
Mautner usa o pentagrama invertido (símbolo do mal)
e o anjo o utiliza na forma positiva. A cena de Gil (Pan)
com as lésbicas é antológica! O demiurgo
dá consultas às mulheres, castiga-as, lê
suas mãos e, de repente, grita “viva a lógica”.
Logo em seguida, Sócrates quer ler suas mãos...
É evidente aqui uma grande gosação
com o logos grego, pois a leitura de mãos não
tem nada a ver com a lógica (que é a parte
da filosofia que estuda as leis do raciocínio). Em
dado momento, sete amazonas matam o demiurgo e bebem o seu
sangue (a amazona parece representar o domínio da
delicada beleza sobre a besta - o cavalo. Ou seja, a besta
selvagem subjugada à vontade da mãe, geradora
da vida). Mas o demiurgo ressuscita e discursa sobre a divina
comédia humana, com saudades da Bahia, Porto Seguro
e do sol dos trópicos (Na Divina Comédia,
Dante colocou no inferno grande parte dos políticos
do seu tempo... O filme, que assistimos em vídeo
mas parece ter sido feito em super/8, parece ter sido rodado
durante o exílio deles na Europa e época da
Ditadura Militar no Brasil. Seria interessante se o Internacional
Magazine buscasse uma entrevista com os tropicalistas, sobre
o assunto)...
A presença de citações de Nietzsche
então se torna muito forte no filme. Na cena do equilibrista,
em que Caetano cita o grande poeta Rimbaud (o primeiro grande
hippie), o filósofo alemão é muito
evidente num texto que é do Zaratustra e diz mais
ou menos o seguinte: “o homem é uma corda esticada
entre o animal e o além do homem; uma corda sobre
o abismo”. Além disso, Caetano faz uma outra
citação do Zaratustra, que o próprio
Mautner sempre usou em seu trabalho: “Aquele que não
trouxer dentro de si o caos, não poderá dar
à luz a grande estrela bailarina” (na verdade,
o texto original está na primeira parte do ítem
V do Zaratustra, e diz: “e Zaratustra falava assim
ao povo: é tempo que o homem cultive o germe da mais
elevada esperança. Eu vo-lo digo: é preciso
ter um caos dentro de si, para dar à luz uma estrela
bailarina. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de
vós outros”). Mas tem outra nota importante
a este respeito: Ordem da Estrela Bailarina era o nome de
uma ordem iniciática criada por Edenilton Lampião
(editor da revista Planeta no início dos anos 80),
onde ele tentava aglutinar o que restava dos movimentos
alternativos no Brasil. Esta ordem era de clara inspiração
nietzschiana e crowleyana... Não é a primeira
vez que falamos das semelhanças entre a Jovem Guarda,
o Tropicalismo e a Sociedade Alternativa... mas voltemos
ao filme.
A cena da lata de Coca-Cola é digna de Salvador
Dali! Quem mais poderia criar uma analogia entre a beleza
externa de uma lata de Coca com Apolo (o deus da beleza
na mitologia grega) e o seu conteúdo com Dioniso
(o deus do vinho entre os gregos ou o mesmo Baco entre os
romanos)? E quem mais poderia ter a genialidade de pintar
um pacto entre o Demiurgo, o diabo e Sócrates, para
daí resultar a morte de Pan, senão os tropicalistas?!
Gilberto Gil interpreta de forma brilhante a morte de Pan.
E não estaria aqui também a morte da nossa
cultura, bem como a morte de Deus, que é uma das
essências da grande obra de Nietzsche? O Grande Deus
Pan morreu... Em resumo: ao tentar separar a cabeça
do próprio corpo, os socrático-judaico-cristãos
se esquecem de que o que alimenta o cérebro é
o sangue, que vem do coração. E que o alimento
do sangue é ingerido pela boca e pelo nariz, que
também estão na cabeça! Ora, ao tentar
separar-se do corpo (physis), a própria cabeça
(logos) morre imediamente de fome! Aí reside a essência
da morte de Deus: a ninguém é possível
ir para o céu assassinando dentro de si o Grande
Deus Pan!