Toninho Buda, 28 julho 2000
No dia 7 de julho deste ano (2000), dia do Manifesto Nacional
pela Paz, o Presidente Fernando Henrique Cardoso esteve
na Usina Siderúrgica Açominas, para inaugurar
o setor de lingotamento contínuo, desta que é
a quarta maior fabricante de aço do país.
E ele aproveitou para anunciar a liberação
de verbas para a continuidade das obras de mais um setor
desta mesma usina, que daqui a poucos anos passará
a fabricar vigas de aço que poderão ser usadas
na construção civil. Ou seja, o Brasil poderá
passar a construir edifícios substituindo as vigas
de concreto armado por vigas de aço. Foi uma cerimônia
emocionante, da qual eu participei como representante da
minha empresa. A produção da festa foi encomendada
a profissionais do nível dos que produzem os festivais
de rock, com direito a imensas estruturas de alumínio
cobertas de lona (para o caso de chuva), som de altíssima
qualidade, telão com imagens ao vivo de diversos
pontos da usina, do público e dos palcos da imprensa
e das autoridades. Para a presença na festa, foi
recomendado que todos os convidados comparecessem com os
uniformes das respectivas empresas. Não tinha banda
de rock, mas tinha a banda de música da Polícia
Militar, que preparava o ambiente tocando músicas
de Roberto Carlos e as inevitáveis Tico Tico no Fubá
e Aquarela do Brasil. Iniciado o cerimonial, foram convidados
para o palco principal os prefeitos das cidades vizinhas,
o Bispo de Mariana, o Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos
e outras autoridades da região. Então chegou
o super ônibus do Presidente da República e
sua comitiva. Eles haviam descido, poucos momentos antes,
de um helicóptero que pousou com estardalhaço
no centro da usina. O aparato de segurança também
ajudava a mexer com a emoção das pessoas,
pois todos aqueles agentes de terno e outros fardados traziam
a impressão de que algum maluco poderia surgir do
nada e cometer um atentado contra o Chefe da Nação...
Mas em nenhum momento me passou despercebida a semelhança
de tudo aquilo com um show de rock! O mestre de cerimônia
então convidou os membros da comitiva presidencial
para o palco, enquanto a banda militar tocava uma música
de fundo, adequada à ocasião. Finalmente entrou
o Mick Jagger, ou melhor, o Presidente Fernando Henrique
Cardoso (desculpem a confusão, mas realmente havia
muito pouca diferença entre os dois, que por sinal
são feios prá cacete!). Com o atraso proposital
de sempre (que leva as pessoas a darem graças a deus
quando tudo finalmente começa!), ele entrou em grande
estilo: vestido de terno branco pelo dia da paz e abanando
ambas as mãos para a platéia em delírio.
Não foi o primeiro a falar, claro. Mas foi o último,
para encerrar com chave de ouro a solenidade, anunciando
muitos milhões de dólares para novas obras
que gerarão cerca de 2500 empregos em pouco tempo.
O Presidente só derrapou na maionese quando - no
clímax de Satisfaction, ou melhor, do discurso -
disse emocionado e abraçado ao Bispo de Mariana:
“Porque Minas Gerais... Minas Gerais é o coração
do meu Brasil!”. Tecnicamente, a performance não
foi ruim, mas pegou mal! Pegou mal porque todo mundo sabe
aquela musiquinha carioca que diz “cidade maravilhooooosa...
coração do meu Brasil”. O coração
do Brasil é o Riodejaneiroguanabara, e não
Minas Gerais! Mas não tem importância. Afinal,
a festa foi o coroamento de muitos anos de trabalho de milhares
de humildes trabalhadores que fazem esta usina funcionar.
E eles dormiram melhor aquela noite.
A gente sempre dorme melhor depois de uma grande festa.
Nós temos festinhas como o descanso diário,
o semanal e as férias anuais. Mas periodicamente
precisamos de festas maiores, como o carnaval, o natal,
a semana santa e tantos outras datas. Tem também
aquelas especiais, que só existem uma vez na vida,
como o nascimento, o batismo, o casamento (pelo menos a
Igreja quereria que fosse um só...) e a morte. Dentro
dos calendários anuais, temos as corridas de Fórmula
1 e os Campeonatos de Futebol e outros esportes populares.
E em todas estas festas, existe intrinsecamente a certeza
de que é preciso celebrar, é preciso comemorar
enquanto a doença e a morte não nos ceifem
a possibilidade de rir e brincar. Mas tudo isso, de uma
certa forma, cheira a ansiedade e obrigação.
Nós torcemos pelo Rubens Barrichello, pelo Flamengo
e pela Mangueira. No entanto, a festa das festas, onde nós
não precisamos nos preocupar com nenhum adversário,
nenhum político safado e corrupto, nenhuma disputa
religiosa, nenhum medo do carro quebrar, nenhum receio dos
castigos divinos e nenhum medo do que possam pensar os colegas
de trabalho e e os vizinhos, são os festivais de
música. Principalmente os festivais de rock. Os festivais
de rock sempre fizeram história e escola. Nesta escola
se inspiraram até as igrejas e os partidos políticos.
A utilização da estrutura dos festivais de
rock para a realização de cultos evangélicos
e missas dominicais mudou a face das religiões neste
final de século XX. E até a postura dos políticos,
como vimos no início desta divagação.
Mas são cópias cambetas, pois um festival
de música que se preze não tem ideologias
políticas ou religiosas. Estive lendo esta semana
a revista Veja, que tem como matéria de capa “Maconha
quase liberada”. É uma matéria muito
interessante, que mostra que a tolerância dos policiais
com relação a esta droga, está intimamente
relacionada com a tolerância da própria sociedade
com relação a ela e aos jovens (que por sinal
já não são expulsos de muitas escolas
tradicionalistas, quando se declaram usuários de
maconha). Os policiais fazem o que a sociedade quer que
eles façam, ou seja, eles simplesmente refletem os
desejos sociais! O curioso é que os festivais de
rock e os mitos e ritos dos anos 60 estão voltando
à tona. O próprio deputado Fernando Gabeira
(que em 1992 sofreu muito com uma brincadeira que dizia
“quem fuma e cheira, vote no Gabeira”) estará
lançando em breve um livro sobre a maconha. E o Rock
In Rio está de volta! Parece que as pessoas estão
sentindo uma necessidade cada vez maior de duas palavrinhas
que os jovens repetiam à exaustão nos anos
60: Paz e Amor. É muito interessante isso: dentro
do lamaçal fedendo a esgoto e a petróleo em
que se transformaram a política, a insegurança
social, as mentiras das igrejas, a corrupção
dos sistemas de saúde e a criminosa exploração
da ingenuidade das pessoas através de campanhas de
doação de órgãos, sangue e dinheiro
(para as criancinhas carentes...), as próprias pessoas
- quem diria - vão se tornando mais tolerantes com
coisas como a maconha, que foi transformada em “coisa
do demônio” no passado, tanto pelo Estado quanto
por espertalhões como Paulo Coelho (um dos ex usuários
de drogas que encontrou Jesus e se arrependeu de ter sido
a louca que foi no passado...). Começa-se a desconfiar
que o demo está em outro lugar... Agora, a geração
que era adolescente e fumou maconha ouvindo rock nos anos
60, está sendo muito mais tolerante com as aventuras
dos seus filhos e mudando o comportamento social. Só
agora a sociedade está colhendo frutos mais maduros
dos movimentos contra a violência e as guerras, feitos
por aqueles jovens de antigamente. E assim, estes mesmos
revolucionários veteranos estão voltando aos
antigos festivais conduzindo os seus filhos rebeldes nesta
aventura muito mais segura, posto que a conhecem muito bem...
Esta tolerância é uma prova inequívoca
da grande e perene importância dos festivais de rock.