Toninho Buda, 20 junho 2000
Há algum tempo, meu irmão Magno me mostrou
um programa de computador com o qual é possível
fazer músicas de forma relativamente fácil
e acessível a qualquer pessoa, mesmo que ela não
entenda nada do assunto. O curioso é que isso reforçou
a impressão que eu tinha, sobre alguns estilos musicais,
como a New Age e a tecnomusic. Ou seja, uma coisa quase
que banal e feita para quem está em busca de confeitarias
musicais. Até que ouvi Johann Heyss, um músico
de Niterói que já rodou mundo mostrando seus
sons e seus livros impregnados de magia e elementos de muitas
mitologias e religiões do planeta. No lançamento
do seu primeiro CD, Look Carefully, com show que passou
por Nova Iorque e diversas capitais brasileiras, ele faz
um verdadeiro passeio por grande parte das mais antigas
culturas. Sem som é sempre alucinante (no melhor
sentido, ou seja, cheio de mantrans unindo passado-presente-futuro,
a selva e o espaço). Neste contexto, o suporte tecno
do ritmo assume a mesma condição repetitiva
dos mantrans que conduzem ao êxtase, tanto na Índia
quanto no Egito, na China ou nas tribos da selva amazônica.
Na música de abertura de Look Carefully, Om Venus,
eu não pude deixar de me lembrar de um disco dos
anos 60 de Yma Sumac, com canções dos famosos
Jivaros (os caçadores de cabeça da América
Central, principalmente num ritual chamado de Dança
do Açoite). Tanto lá quanto aqui em Om Venus,
o chicote come solto! Continuando a viagem pelo disco de
prata, em Taj Mahal nós chegamos à Índia,
para logo em seguida ouvirmos pássaros na selva em
Laylah! Em Cromaat podemos nos deparar mais claramente com
esta conexão passado-presente-futuro num mix de beat
eletrônico com sons das tribos do continente africano.
Mas por que África? E que diabos de nomes são
esses: Laylah!, Cromaat, Incubus et Sucubus, Mysterium Conjunctionis?
Para compreender melhor tudo isso, talvez fosse necessário
que o ouvinte conhecesse um pouco mais da obra de um tal
Aleister Crowley, um famoso mago inglês que buscou
no Continente Africano – mais precisamente no Egito
-, os alicerces de uma nova concepção cosmológica
para o alvorecer deste terceiro milênio que está
começando. E Johann Heyss já estudou um bocado
disso tudo... E é ainda mais surpreendente que em
um trabalho tão rico de referências musicais
tão primitivas e tribais, encontremos ainda timbres
de Ópera Lírica, com em Incubus e Sucubus
e Lenda, duas músicas de destaque da viagem.
Mas falemos um pouco dos livros de Johann. Ele já
havia lançado Iniciação à Numerologia,
pelo selo Nova Era da Editora Record (livro que, por sinal,
já está na 5a edição). É
um estudo de uma impressionante clareza, para quem quer
se iniciar no assunto. E agora – em junho de 2000
– está lançando O Tarô de Thoth,
um guia para consultar o oráculo de Aleister Crowley.
A editora deu um tratamento especial a este novo trabalho,
que ficou muito bonito e oferece de brinde o baralho com
78 cartas, que foi idealizado pelo próprio Aleister
Crowley e pintado por Frieda Harris. Além disso,
está em negociações para o lançamento
destes livros em território americano pela Samuel
Weiser, uma das maiores editoras esotéricas do mundo.
Mas Johann tem também outro CD, ainda por ser lançado,
que se chama AL A H A . Nele, a viagem continua. E de trem!
Numa das faixas que mais me agradaram, Mindkiss, ele diz
“transforming the brain, making the road, he is a
velocity train”. Como sempre acontecem livres associações,
nesta eu me lembrei do filme Dreams, de Akira Kurosawa,
onde Martin Scorcese – trabalhando como ator e fazendo
o papel de Van Gogh -, diz a um pintor iniciante que estava
tentando entender o seu trabalho: “eu sou como uma
locomotiva, eu pinto quadros e sigo em frente como uma locomotiva.
É apenas isso...”. E a locomotiva continua
na música seguinte, Ra-Hoor-Khuit rises into the
Sun. E ele consegue também ser dylanianamente romântico
– com todo o cruel sarcasmo de que Bob Dylan é
capaz – em I Remember Patricia (uma garota que aos
14 anos era uma delícia sempre em busca de agasalhar
um robalo e agora se transformou num bucho cheio de marido
e filhos no lar-doce-lar).
Mas é em Chain que o bicho pega mesmo! Não
sei bem o porquê, mas o certo é que a melodia
– com aquele moderno órgão eletrônico
fazendo o flauta de Pan -, me levou diante do altar da carta
15 do Tarô, onde os amantes acorrentados estavam assustados
diante de Baphomet. De repente, o velho bode inclinou os
chifres com aquela tocha no meio e foi dizendo “light
me a cigarrette, boy, I wanna see you smoking like a child,
like a child as you are... I wanna see you sweating, like
a fish, like a fish as you were”... Em I want you
to see, o músico nos convida a olhar para a sombra
que existe dentro dele, mas sem nos esquecermos de que somos
ao mesmo tempo muito diferentes e muito iguais; e que estamos
– todos talvez – em busca de um pouco mais de
Deus, de amor, de um mindkiss, de luz, conhecimentos e coisas
que nunca fizemos, soubemos ou encontramos antes. Parabéns
Johann, Fábio, Rogério, Simone, Sérvio,
Lady Acid, Arquétipo, Bacalhau e todos que estão
tocando nesta Maria Fumaça que, numa velocidade de
trem bala, quer alcançar a velocidade da Luz!