CONTRACULTURA

ANA CAROLINA CHEGOU LÁ ! ! !

Toninho Buda, 27 fevereiro 2000


Há dez anos, em 1991, nós tínhamos uma banda de rock em Juiz de Fora e fazíamos um relativo sucesso nas redondezas. Nesta época, o rock ainda ocupava o lugar de maior destaque no cenário da música nacional. Somente em Juiz de Fora, nós conseguimos listar em certa ocasião, mais de cinquenta bandas de rock’n’roll. E todas buscavam evidentemente o sucesso. Algumas – como a Patrulha 66 e Beatles Forever (ambas existentes até hoje) - tinham conexões no Rio e em São Paulo e chegavam a aparecer esporadicamente em programas nacionais de televisão. A Patrulha chegou a colocar o pé no sucesso, quando gravou “Pense em Mim” em ritmo punk. Os caça talentos da rede Globo e outros canais sempre nos davam oportunidades (eu mesmo gravei um clipe nos estúdios da Globo, com o Conjunto Realce. Este clipe foi mandado para a central da Globo no Rio, mas não deu nenhum resultado).

Bem, nesta ocasião uma amiga me pediu para bater um papo e “dar uma força” para uma garota que tinha algumas músicas próprias, mas nunca tinha se apresentado em público; ela estava tentando saber o que as pessoas do meio musical – como eu - poderiam achar do trabalho dela. Então, numa bela noite de verão, eu escalei a parte alta da rua Halfeld e fui conhecer a tal garota. Diga-se de passagem, eu estava numa posição bastante incômoda, pois nunca me considei um expert em música, principalmente a ponto de julgar o trabalho de alguém. Mas ali estávamos nós. A garota se apresentou meio tímida, mas pegou o violão com desenvoltura e disse alguma coisa como “olha, vou começar te mostrando esta aqui, prá ver o que você acha”. E começou a tocar.

O engraçado é que eu fiquei mais impressionado com a seriedade daquela menina, do que com qualquer outra coisa. Mas gostei também da segurança que ela tinha ao tocar e principalmente daquela voz rouca e – acima de tudo - decidida. Quando terminou a primeira canção, ela logo começou a segunda e em seguida a terceira (parecia que estava com medo de parar para ouvir o que eu tinha a dizer...). No entanto, devo confessar que o seu estilo de música estava muito longe do meu querido rock’n’roll. Ela me lembrava muito Maria Betânia, Gal Costa e essas grandes rainhas da fossa e da dor de cotovelo, que eu sempre admirei, mas de quem nunca comprei um disco. Quando ela estava terminando a terceira música, eu é que comecei a ficar preocupado com o que iria dizer. Pois não queria mentir, nem decepcioná-la e muito menos magoá-la. Resolvi apelar para a delicada sinceridade e comecei falando das minhas limitações no campo musical. Em pouco tempo conversávamos animadamente.

Diga-se de passagem, ela meteu o pau em boa parte das bandas mais destacadas de nossa querida Juiz de Fora; mas com uma noção que me pareceu bastante precisa, do que poderia ou não poderia fazer sucesso. Como ela ainda não tinha se apresentado em público, eu disse que ela não precisava se preocupar tanto com a reação da platéia, mas sim se concentrar em fazer as coisas com o coração. Ela disse que já tinha sido convidada para tocar em alguns barzinhos e eu achei excelente que ela já tivesse essas oportunidades. Desejei-lhe muito sorte e força para continuar, já que ela parecia realmente decidida a buscar o seu caminho, como tantas outras cantoras de Juiz de Fora.

Passados alguns anos, em 1995, eu já estava morando provisoriamente em Ouro Branco e trabalhando na Açominas (por sinal, exatamente onde estou morando provisoriamente hoje também e trabalhando novamente na Açominas). Nesta época eu já estava me envolvendo cada vez menos com shows e teatro. Mas o circo sempre foi para mim uma atração irresistível. Numa noite de domingo, vi uma algazarra no pátio de uma Igreja e fui lá para conferir o que estava acontecendo. De longe eu já escutava uma voz rouca de mulher, que me parecia familiar. Debaixo de uma lona enorme e alaranjada, um público entusiasmado aplaudia uma cantora de Juiz de Fora, que se apresentava somente com seu violão. Era Ana Carolina.

Passados mais alguns anos, no fatídico dezembro de 1999 (quando muita gente estava esperando o fim do mundo), eu estava assistindo na Globo à apresentação das “Trinta Melhores Músicas do Século XX”, quando apareceu a Ana Carolina cantando ao lado de Chico Buarque de Hollanda, Agnaldo Rayol, Maria Betânia, Agnaldo Timóteo, Gabriel o Pensador e outras das maiores estrelas da nossa música. Logo em seguida, eu a vi fechando a novela das sete da Rede Globo e a tenho visto em quase todos os programas de televisão. Que coisa: aquela menina, Ana Carolina, chegou lá!

Estão criando a lenda de que ela só tem 3 anos de carreira. Como estamos vendo aqui, isto não é verdade. Ninguém acontece num tempo tão curto, a não ser em raríssimas excessões. Mas quando eu a vejo na telinha, sinto uma curiosa mistura de emoções. Às vezes eu volto no tempo e reconstruo de diversas formas aquele nosso encontro de há dez anos. Em algumas versões eu me torno mais atencioso com ela, pois sei que ela será famosa um dia; em outras, eu lhe roubo o beijo que me passou pela cabeça naquela ocasião; em outras, eu lhe digo coisas das quais ela me será eternamente grata (e me citará quando for famosa); em outras, eu lhe digo que algum dia eu é que irei lhe pedir para me “dar uma força”. Estes devaneios ajudam a gente a suportar o cotidiano; mas dizem que são também estes sonhos, sustentados por anos a fio, que acabam se transformando em realidade. Quando o cansaço chega, eu desligo a TV e vou dormir. Agora, vou desligar a telinha deste microcom pluft...


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