Toninho Buda, 26 outubro 1999
A cada dia que passa, mais eu me convenço de que
a nossa maior esperança está muito mais na
arte do que na ciência, na política ou na religião.
Dentro do espírito de natal (que foi ontem, 25/12/1999),
acabo de ver o filme Stigmata. Não sei bem porquê,
mas acho que quem fez o filme deve ser chegado na (antiga)
esquerda política latino-americana. Quando a sessão
começou, fiquei esperando aparecer o Guevara gritando
“Hay que enburrecer-se...”! O filme –
produzido em Hollywood - se inicia na fronteira do Brasil
com um desses nossos vizinhos que nem me lembro o nome.
Só dá gente feia e pobre (como adora o Caco
Antibes) fazendo procissões e esperando que alguém
lhes dê um prato de bóia fria (ha! Falar nisso,
o presidente Figueiredo – que iniciou a Abertura no
Brasil - morreu ontem, no dia do Natal! Ele odiava cheiro
de povo!).
Bem, com o desenrolar de la película meravigliossa,
a gente vai descobrindo que é ali – naquele
lugarzin sem vergonha – é que está sendo
descoberta a “nova” (mais uma!) mensagem de
Jesus Cristo. Claro: tinha que ser num dos lugares que o
resto do mundo considera dos mais miseráveis do planeta;
e que REALMENTE permanece no mesmo grau de atraso, superstição
e crendice dos tempos de Cristo! As cenas que retratam essa
miséria e superstição são uma
obra prima do diretor Rupert Wainwright; mas podem ser vistas
– ao vivo e a cores - em qualquer lugar do Brasil
na Semana Santa. La película reforça as crenças
do cristianismo e os chamados milagres que acontecem desde
os tempos de Tibério César. Mas, como obra
de arte, o filme faz alguns progressos: deixa muito claros
a contradição, a vergonha e os perigos que
sempre representaram as falanges da Igreja Católica.
No filme, mais uma vez, as ordens iniciáticas da
Igreja (através de Jonathan Pryce) tentam assassinar
a garota (lindíssima, Patrícia Arquette),
que no enredo pode ser vista como a reencarnação
da nova mensagem de Jesus Cristo. Mas também pudera:
no filme, Jesus se faz mulher através dela e fica
louco(a) para dar para o padre encarregado de investigá-la!
Mas isto é só para preparar a cuca do povão,
pois vem muito mais por aí! E com gente do rock’n’roll
no meio! Deverá chegar no Brasil por volta de julho
do ano 2000 o filme DOGMA, com a cantora Alanis Morissette
no papel de DEUS. O filme é dirigido pelo ator e
roteirista Kevin Smith e será distribuído
pela Lion’s Gate nos EUA e pela Lumière no
Brasil. Kevin Smith diz que quis apenas fazer o público
rir. Mas está fazendo raiva em muita gente, na mesma
trilha de Je Vous Salue Marie, A Última Tentação
de Cristo e O Padre. No entanto, relembrando a essência
do excelente filme O Nome da Rosa, a coisa que a Igreja
menos tolera é o riso, pois o riso faz com que as
pessoas percam o medo. E quem perde o medo perde a reverência,
o respeito e a fé!
Dogma já está causando uma confusão
danada no planeta inteiro. Inclusive no Brasil, onde a TFP
montou uma campanha chamada “Vinde Nossa Senhora de
Fátima, Não Tardeis”. Eles pretendem
angariar mais de um milhão de assinaturas para impedir
a sua exibição no Brasil. Diz o coordenador
da campanha brasileira, Marcos Luís Garcia, que o
filme foi “criado por uma mente doentia e é
um atentado contra as famílias do país de
maior população católica do mundo.
Esse filme desrespeita a fé da maioria do povo brasileiro,
a religião católica, a única verdadeira”.
Ele pede também contribuições, que
vão de R$ 20 a R$ 50 (mas na Internet já existem
petições que vão a R$ 100 ou mais!).
Mas voltemos ao filme: para começar, é uma
comédia. Ou seja, dificilmente reforçará
a crença de ninguém (vide O Nome da Rosa citado).
Em segundo lugar, parece que a galera pesou a mão
de vez! Além de Deus ser uma mulher, a Virgem Maria
não é virgem coisa nenhuma, tem um monte de
filhos e um dos seus descendentes trabalha numa clínica
de abortos! Tem também um anjo que trabalha fazendo
strip-tease e Moisés adora um gole e vive prá
lá de zzuzzubem... Tem também um 13o apóstolo
que é negro e foi banido dos evangelhos. Mas um de
seus aspectos mais interessantes parece ser a comparação
da Santa Missa com o ato sexual.
No entanto, se nós formos ouvir um pouco os estudantes
de esoterismo, ou mesmo fazer um estudo comparado das religiões
numa universidade séria qualquer, poderemos ficar
espantados ao saber que a origem da do ritual da Santa Missa
foi montado a partir de tradições de povos
muitos anteriores aos povos cristãos (e portanto
pagãos!), que consideravam realmente o sexo como
algo sagrado. E que a introdução da hóstia
no cálice é uma representação
alegórica da introdução do órgão
sexual masculino no órgão sexual feminino
(a hóstia realmente representa o corpo de Cristo
e a taça cheia de sangue representa a vagina, receptora.
Outro indício interessante é que a hóstia
é branca como o sêmen, e assim por diante).
O filme, apesar de ser comédia, está correto.
E fica aqui mais uma observação: se os dogmas
devem ser aceitos sem questionamento, como é que
a TFP pode estar questionando um filme chamado exatamente
Dogma???
E assim, nesta babel de informações dentro
da qual nossos cérebros e nossas crenças e
convicções estão sendo constantemente
bombardeados, eu percebo que alguma coisa vai evoluindo
gradativamente e nada do que era considerado estável
e imutável conseguirá resistir por muito tempo.
Se isto é bom ou ruim, o tempo dirá. No entanto,
parece claro que nós precisamos realmente de uma
nova forma de ver o mundo. Observem que os artistas do planeta
inteiro – com poucas exceções - estão
dando recados nesta direção! E que esta nova
forma de ver as coisas parece ser – acima de tudo
e mais uma vez – alegre e libertária. Vamos
então torcer para que aquela antiga profecia de Nostradamus
se confirme apenas para acabar de vez com o véu de
tristeza que as religiões conseguiram jogar sobre
os séculos anteriores: DE 2000 NÃO PASSARÁ!
Feliz Ano Novo!!!