CONTRACULTURA

TOLERÂNCIA ZERO

Toninho Buda, 16 novembro 1999


O Papa quer rock no jubileu do milênio! Esta notícia me provocou o suficiente para escrever sobre o assunto. Eu havia prometido a mim mesmo que não falaria mais sobre os padres roqueiros e freiras jovem guarda. Mas a esculhambação está demais! Outro dia liguei a televisão e lá estava o padre Marcelo Rossi gritando para a multidão “vamos lá, agora o Yé Yé Yé do Senhor!”. Ora, para um garoto que como eu amava Beatles e Rolling Stones, um negócio desses é uma metralhadora giratória: ra-ta-ta-ta, tá-tá! Mas o Papa, que orienta toda essa onda carismática, já percebeu que a utilização do rock como estimulador da fé das multidões é um santo remédio para a decadência da Igreja. E quer rock na festa de entrada do novo milênio.

Esta é a hora de radicalizar. Se estão achando que que somos idiotas, TOLERÂNCIA ZERO. Pois o rock sempre foi um veneno para as instituições do Sistema (Igreja incluída), pois ele é um emissário da serpente do paraíso. Ou seja, ele inocula no ser humano o veneno da insubordinação, da irreverência e da rebeldia. É evidente que demonstrar isto apra as multidões é um tremendo perigo para a estabilidade do Sistema. E também para a cuca de muitos. Haja vista que a semana passada um rapaz em S. Paulo achou que a melhor forma de dar um recado para a sociedade que ele odeia seria comprar uma metralhadora e atirar na platéia que assistia ao filme Clube da Luta.

Mas apesar dessas atitudes isoladas e voluntárias, o Sistema sabe se defender muito bem. Se a sociedade convencional não tivesse tomado nenhuma providência mais radical, a Contracultura teria tomado o planeta; mas ela – a Sociedade - jogou pesado, baixo e sujo: pegou o veneno da serpente do paraíso, levou para o butantã celeste e o transformou num soro caseiro para embriagar os fiéis e vaciná-los contra a própria Contracultura. Assim, o que era sexo, drogas e rock’n’roll agora virou castidade, pureza e ROCK’N’ROLL!!! Só que isso é um absurdo tão grande, que existem poucas dúvidas de que acabará gerando doenças mentais e emocionais muito piores do que as que já existem no seio desta mesma Sociedade.

Saburquê? Porque o rock é pura excitação, êxtase e tesão. Excitar sexualmente padres e freiras só poderá produzir mais homossexualismo – uma realidade chocante! - nos mosteiros e conventos. Ou então levar ao paroxismo o apetite dos religiosos por bolos, doces e chocolates (cujo prazer oral substitui o sexual), aumentando ainda mais o índice de obesidade, doenças cardio-vasculares e diabetes entre eles (vocês sabiam que a diabetes é chamada de “a doença do convento”? É verdade: o excesso de doces causa diabetes! Chega a ser desumano o que estão fazendo com as religiosas! Além de ser um desrespeito ao rock!).

Vamos falar um pouco mais do filme “Clube da Luta”? Eu o achei muito interessante e com muitos princípios libertários. Estes princípios estão também muito evidentes em outro filme chamado Matrix, mas o Clube da Luta tem uma visão muito menos romântica e heróica dessa realidade. Dentre os muitos detalhes importantes mostrados no enredo da película, fica a evidência de que a consciência sobre a escravidão é pessoal e intransferível. Tanto no filme quanto no movimento beat e no movimento hippie, isto também ficou muito claro. Esta é a grande tragédia da consciência. E também da solidão. Quando a gente percebe alguma coisa, infelizmente a coisa mais difícil que existe é transmití-la para os outros. Principalmente quando se trata de questões relacionadas com a liberdade. Mas o que a gente não pode – e não deve – é desistir. Pois de vez em quando existem alguns lampejos coletivos que dão a sensação de que poderemos ter ainda grandes coisas para celebrar em conjunto.

Purixemplo: um dos contrapontos de resistência com relação a essa onda puritana e casta pode ser a força com que a música baiana está tomando conta da mídia nesta comemoração dos 500 anos do Brasil. Estão repetindo à exaustão que o Brasil nasceu na Bahia. É uma verdade muito relativa, como todas as “verdades” políticas. Mas é interessante observar que os portugueses vieram habitar o Brasil principalmente por causa da liberdade sexual (não é a história oficial, mas é uma história contada à boca pequena e que todos os historiadores de crédito conhecem muito bem). E a pornô-axé-music-baiana que tomou conta da nossa cultura, pode ser um sinal de desespero e uma apelação total na guerra entre o puritanismo e a libertinagem. Esses grupos baianos quase sempre são tão grosseiros e apelativos que parecem dizer: pode falá, pode rir de mim, mas eu gozo da tua cara e você tem que me aturar! Afinal, foram séculos de escravidão para chegar ao ponto de poderem falar isso na TV, com records de Ibope e vendagens.

Apesar da baixaria, eu vejo nisso tudo sinais de esperança de – pelo menos – rir um bocado. Pois de um lado ribombam os tambores da putaria axé; e do outro repicam as guitarras e as baterias do rock evangélico do Yé Yé Yé dos beatles do Senhor!!! Será quem é que vai fazer mais barulho na passagem do Milênio? Esta batucada toda está criando o clima ideal para a quantidade de bandidos, assassinos e traficantes que – por algum motivo torpe – as CPI’s estão descobrindo no respeitável Congresso Nacional, bem como nas Prefeituras e Palácios do Governo de todas as principais cidades e Estados brasileiros. Uma maravilha este Jubileu do Milênio!

Uai! Mas está todo mundo se esquecendo de que o ano 2000 é o último ano do Século XX, e não o início do Século XXI!!! Então essa charopada de passagem do milênio só poderia acontecer no reveillon do ano 2000 para o 2001, não é mesmo?! Será que estão achando que todo mundo é idiota? Por isto tudo é que eu conclamo a todos que têm um mínimo de consciência nesta Zorra Total: se estão achando que todos somos idiotas, TOLERÂNCIA ZERO!

 


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