Toninho Buda, 10 outubro 1999
Há algum tempo, o Boca do Inferno deste hebdomanário
- o chamado Luis Antônio Melo – comentou que
eu deveria escrever sobre um guitarrista chamado Michael
Hedges, pois este músico sensacional – que
ele adora! - havia morrido sem que a imprensa do cone sul
das Américas tivesse feito qualquer menção
à sua construtiva vida, paixão e morte, na
face desta esfera azul que insistimos em depredar. Então
eu fui escrafunchar a vida do tal Michael e realmente fiquei
impressionado com a biografia do rapaz! Vou contar um pouco
das histórias que andei ouvindo nos sussuros do vento...
Certa vez, em 1993, Michael Hedges – então
já um músico totalmente consagrado - estava
fazendo um concerto, quando num intervalo entre duas músicas,
alguém da platéia gritou, pedindo que ele
improvisasse um pouco. Ele parou por alguns momentos, pensativo,
e depois respondeu: “Mas eu tenho tentado fazer exatamente
isto por toda a minha vida!”. A platéia explodiu
em aplausos, pois ele era indubitavelmente um dos mais inovadores
– e “improvisadores” – guitarristas
do mundo! No entanto, ele próprio se considerava
– acima de tudo – um compositor que tocava guitarra
e não um guitarrista que compunha canções.
Ao longo dos anos, ele brincou de procurar definições
para o seu trabalho. Em uma dessas brincadeiras, ele o chamou
de “heavy mental”, num sutil escracho com a
turma do heavy metal...
Pois ele vinha de uma escola sofisticada, graduou-se no
Peabody Conservatory, em Baltimore, onde se interessou também
por música eletrônica. Seu mentor foi E.J.
Ulrich. Conforme suas próprias palavras, ele ouvia
Leo Kottke, Martin Carthy e John Marty; mas sua cabeça
estava mais voltada para Stravinsky, Varese, Webern e um
monte de outros compositores experimentais, como Morton
Feldman. Posteriormente, ele veio a se aperfeiçoar
mais em música eletrônica na Universidade de
Stanford. O guitarrista Will Ackerman declarou - algum tempo
depois de tê-lo ouvido em Palo Alto – que Michael
havia virado a sua cabeça, pois a sensação
que ele tinha era a de estar vendo a guitarra ser novamente
reinventada.
Depois de seu primeiro album em 1981 – Breakfast
in the Field -, suas composições e performances
explodiram em sofisticação. Inicialmente classificado
como um músico New Age, em pouco tempo seu ecletismo
já não cabia em nenhuma classificação.
Principalmente a partir do seu folclórico trabalho
chamado Watching My Life Go By. Para tentar definir a profundidade
de sua obra, o próprio Michael disse certa vez: “a
música é alguma coisa como a comunicação
entre as almas humanas. Tocar é mais do que uma experiência
sensual; e é mais também do que uma experiência
espiritual. A música vem da alma e vai para a alma.
Minhas ligações com a vida e com a música
são exatamente a mesma coisa. Quando estou tocando,
eu estou falando de minha vida. Esta é a minha finalidade
como músico”. Eleito pelas principais revistas
do planeta como um dos 25 maiores guitarristas do mundo,
seu album de 1994 – The Road to Return (O Caminho
de Volta) – foi considerado como uma viagem interior
e uma visão além da alma.
Ele trabalhou também com quase todos os grandes
nomes do Rock’n’Roll de seu tempo. Compôs,
por exemplo, os arranjos de Tomorrow Never Knows dos Beatles
e Sofa #1 de Frank Zappa. Assim como os Beatles tiveram
a sua fase de influências do Extremo Oriente, ele
também – com sua insaciável curiosidade
sobre o Universo – tirava inspiração
de tudo. Desde a Teoria dos Cinco Elementos chineses até
a Segunda Lei da Termodinâmica. Estudando com o mestre
Paulie Zink, ele explorou a profundidade da cultura oriental,
mergulhando no Livro Tibetano dos Mortos; e foi profundamente
influenciado por este trabalho. Numa entrevista da época,
declarou: “estou me tornando mais reflexivo e pensando
mais sobre a morte e o renascimento. Talvez seja por eu
estar chegando na casa dos quarenta anos, que é uma
época em que você começa a perceber
que já está na metade da vida. Então
eu encontrei o Livro Tibetano dos Mortos. Isto está
sendo uma experiência muito positiva para mim e eu
preciso dividi-la com as outras pessoas”.
O nosso espaço aqui é muito pequeno para
falar o mínimo de Michael Hedges. Mas para que se
tenha uma idéia dos mundos interiores pelos quais
ele viajava, nós podemos pescar alguns indícios
nos títulos e nas letras de suas músicas.
Observem: Face Yourself (encare você mesmo), Guardian’s
Trust (Sentinelas de Confiança), Holiday, I Want
You, I’m Coming Home (Tou Indo Prá Casa), India,
Ready or Not (Pronto ou Não), Road to Return (O Caminho
de Volta), Sister Soul, Watching My Life Go By (Assistindo
Minha Vida Passar), Woman of the World (Mulher do Mundo),
You Can Have Anything You Want (Você pode ter tudo
aquilo que você quiser!). Em Face Yourself, ele diz:
“face yourself, now or never, face yourself, no one
else will do, face your weakness, face your pest, let your
scars show through, it’s now or never, don’t
look back, just say you’re gone, gone away, drawn
away...” (“Encare você mesmo, agora ou
nunca, encare você mesmo, ninguém mais pode
fazer isso por você, encare tua fraqueza, encare tua
doença, deixe que tuas mazelas passem, é agora
ou nunca, não olhe para trás, diga apenas
que você está indo, vá, deixe tua vida
fluir...”.
Não é bonito isso?! Mas a vida de Michael
Hedges foi fluindo até que – no auge de sua
carreira, no topo de sua criatividade e num dia de dezembro
de 1977, época em que estava muito otimista com relação
à sua vida pessoal -, ele sofreu um acidente de carro
numa estrada da Califórnia e sua voz se calou para
sempre. Sua morte chocou o mundo! Pete Townshend disse sobre
ele: “Eu o considerava um gênio e quando ele
morreu eu perdi um grande amigo. O universo musical se tornou
muito melhor depois de sua passagem por aqui”. David
Crosby: “Eu sinto saudades dele todos os dias”.
E Steve Vai: “Eu levei uma porrada quando o ouvi pela
primeira vez. Jamais esquecerei muitos dos momentos de nossa
convivência. Se o que dizem sobre reencarnação
é verdade, na próxima eu quero estar numa
banda junto com ele!”. Espero que vocês tenham
gostado, pois eu gostei muito de saber sobre a sua vida.
E espero também que daqui para a frente o Boca do
Inferno pare de reclamar que ninguém aqui falou de
Michael Hedges!