Toninho Buda, 4 maio 1999
(Esta matéria teve sua publicação vetada
no Internacional Magazine)
Antes de mais nada, é preciso esclarecer que veado
é o quadrúpede peludo, enquanto que viado
é o bípede emplumado. Mas o jornal O Estado
de Minas publicou hoje (4/5/99) uma matéria de Daniela
Mata Machado, intitulada Abaixa que Isso Aí é
Rock’n’Roll. Ela diz que a geração
que hoje está por volta dos 50 anos pode estar ficando
surda devido ao som estridente dos anos 50, ou seja, dos
garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones. Falta
de assunto é um caso sério: a gente fica tendo
que açoitar a criatividade para encher páginas
e páginas (gostaram do “açoitar”?
Já é prá entrar no clima...). Mas vamos
lá, no vácuo – no bom sentido, claro
– da Daniela. Como me considero uma seqüela da
contracultura, fico um pouco triste com esses insultos às
nossas veneráveis cãs (para quem não
sabe, cãs são cabelos brancos, e não
sinônimo de cadela. Este é um termo dos anos
30 ou 40, sei lá. Eu não me lembro...). Mas,
se alguém quer falar mal da geração
dos anos 60, existem assuntos muito mais interessantes e
pitorescos – ou pintorescos. Houve uma época,
por exemplo, em que se viam muitos homens assumindo seu
lado feminino (principalmente influenciados por aqueles
que tinham voltado de um longo exílio na Europa...).
E eles faziam assim, tinham aquela audácia, aquele
orgulho – assim, sabe? - de libertar-se das amarras
sociais, aquele quê de desprezo pelos vis mortais
e também aquele ar alegre e solene de quem voa, de
quem se desprende pelos ares como um passarinho feliz, despreocupado
e realizado.
Mas – por incrível que pareça –
existiam também aqueles que, mesmo sem grande pendor
para a coisa, davam uma de viado por conveniência.
Um caso que considero bastante ilustrativo foi o do nosso
deputado Fernando Gabeira. Ora, é sabido que quando
o ex-guerrilheiro Gabeira voltou do exílio, a esquerda
brasileira esperava que ele desembarcasse no aeroporto mostrando
as cicatrizes das balas e as marcas das torturas que ele
sofrera nos porões da ditadura militar. Além
do mais, ele era o Paulo Coelho da época e escrevera
um best-seller chamado “O que é isso, companheiro?”,
que resumia todo o espírito e a história da
luta armada no Brasil. Mas aí ele desceu no aeroporto
embalando um ursinho de pelúcia cor de rosa nos braços
e espalhando plumas e paetês! Foi um escândalo!
Decepção total dos antigos colegas! Apareceram
até psicólogos (como sempre) para explicar
o que tinha acontecido na sua psiquê, por causa dos
traumas e das agruras, tanto da luta armada quanto do exílio.
Daí a pouco, para confirmar as teses dos especialistas,
ele apareceu na praia com uma tanga de crochê e foi
outro escândalo! Ele estava mostrando que descobriu
na Europa as mesmas delícias que as garotas da luta
desarmada no Brasil já haviam descoberto. No entanto,
quando alguém tentava descobrir quais eram os seus
“casos”, ele aproveitava para dizer coisas não
menos escandalosas, como “não existe nenhum
homem brasileiro que me atraia”... No entanto, declarações
posteriores do hoje ilustre deputado, mostraram que ele
fez isso simplesmente por um acurado instinto de sobrevivência,
pois sabia que a coisa que mais poderia queimar um ilustre
cidadão nos anos da abertura já não
era o rótulo de comunista, mas sim o de viado. Assim,
assumindo uma postura declaradamente gay, ele destruía
a imagem de guerrilheiro e se tornava um vexame para a imagem
da luta armada no Brasil. E isto era ótimo para os
defensores do antigo regime militar! Ele mesmo contou que
por várias vezes os antigos torturadores passavam
por ele nas ruas do Rio, insultando-o e chamando-o de bicha,
putinha safada e outros adjetivos semelhantes. Para eles,
era importante que ele permanecesse vivo. E a presença
dos canas era sempre um sinal claro de que o Estado ainda
o vigiava de perto. Assim, ele escapou da morte e –
ironia do destino – acabou indo trabalhar no Palácio
do Planalto, em Brasília.
No dia 16 de março de 1999, a Folha de São
Paulo publicou uma reportagem falando sobre o mais novo
livro do outro escritor brasileiro de grande sucesso, Paulo
Coelho: as Confissões do Peregrino. Este livro surgiu
do material de uma entrevista do escritor ao jornalista
espanhol Juan Arias, correspondente do jornal El Pais, no
Rio. Da mesma forma que o escritor Fernando Gabeira, Paulo
Coelho também utilizou uma corajosa sinceridade –
bem mais contida que o Gaba, é verdade – para
falar de suas experiências homossexuais. Ora, Paulo
Coelho é também uma seqüela da contracultura
e nós podemos perceber isso em todos os seus movimentos.
Ele sempre foi um dos grandes especialistas em utilizar
todos os truques daquela época. E um dos que ele
mais utiliza é a “sinceridade”. Seus
depoimentos são eivados de sinceridade. Hoje, depois
dos desvarios da adolescência, numa linha calcada
no arrependimento, no exame de consciência, no encontro
de Jesus e na vontade de querer ajudar ao próximo,
ele se torna cada vez mais sincero, aberto, com o coração
em chagas, exposto em praça pública, com os
olhos cheios de lágrimas voltados para os céus
que o redimem e repetindo umas das frases do Salvador: a
verdade nos liberta!
Liberta e enriquece. Na verdade, a verdade pode ser um
grande negócio. A honestidade também pode
ser um grande negócio. Que o digam todos os negociadores
de honestidade, verdade e sinceridade. Até a própria
viadagem é um grande negócio. Tudo depende
da ocasião e das flutuações do mercado!
Juntando sinceridade, honestidade, seriedade e algumas pitadas
de viadagem, você pode desdizer tudo aquilo que nos
disse antes, pode trair seus amigos, jogar merda no ventilador,
conquistar grande projeção e poderes político,
religioso e policial. Diz o Bezerra da Silva em um de seus
pagodes: “hoje ele pede seu voto e amanhã manda
a polícia lhe bater!”. Falta-nos ainda um grande
estudo realmente sério sobre a intimidade entre fanatismo,
cristianismo e homossexualismo. Jesus era contra o casamento
e não é à toa que os padres formam
Clubes do Bolinha. Mas deixemos a seriedade de lado, entremos
no clima, sejamos mais alegres, como ditam alguns desses
famosos escritores de sucesso. Vamos também baixar
o nível! Isso desopila o fígado e nos torna
mais alegres e despreocupados! Vamos entrar no clima dessa
putaria toda:
Paulo Coelho declarou que cedeu à tentação
de duas experiências homossexuais e ainda ficou sem
saber se gostava ou não da coisa. Então –
corajosamente – ele foi lá experimentar pela
terceira vez! Mas mantém silêncio acerca do
resultado dessa terceira experiência, gente!!! Como
este pudor, com esta demonstração do mais
sincero recato, o que será que ela quer dizer???
Bem, já que ela não disse, a gente fica totalmente
liberto para devaneios, não é verdade? Será
que agora, finalmente, a gente já pode entender o
que é o “bom combate”, aquele combate
assim de macho-chô, de homem para homem? Será
que finalmente a gente pode despir o véu do santuário
e sacar o mistério contido no seu best-seller “Na
Beira do Rio Piedra, eu Sentei e Chorei”??? Mas –
continuando os devaneios – o Antônio Carlos,
aquela nossa amiga lá de Niterói, diz que
a coisa deve ser muito boa, porque ela não conhece
ninguém que tenha ido lá para a outra margem
e tenha voltado! Há...Mares nunca dantes navegados!
Mas a Paula voltou, gente! O que será que ela quer
com mais este mistério?! Será que ela quer
nos intrigar, futucar, aguçar a nossa curiosidade?
Ou será que ela quer atrair finalmente alguém
que a console, que a faça feliz? Será que
não seria o caso de atendermos ao apelo do mais íntimo
do seu ser e convocarmos a galera, para gritarmos em uníssono
e batendo palminhas ao lado dela, sentada na beira do rio
Piedra: “Porque chorou...chorou porque ... porque
chorou ... Chorou porque ?!?!...”.