Toninho Buda, 11 agosto 1999
Qualquer pessoa poderia se sentir tentada a começar
um artigo com este título utilizando a Balada de
um Louco, do grande Arnaldo Batista, do Mutantes. Numa de
suas internações, ele fugiu pela janela do
hospital sem saber que estava no oitavo andar. Mas está
vivo e ativo (quem quiser encontrá-lo pessoalmente
ou adquirir um de seus quadros, é só ir no
restaurante natural Vida e Saúde, que fica no Parque
Halfeld, no centro da cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais.
Ele sempre almoça por lá e certa vez eu e
o Aurélio Marco Péres fomos à casa
dele, para entrevistá-lo. Não deu muito certo,
mas nós ficamos alguns minutos ouvindo-o tocar piano
brilhante e furiosamente).
Cantar a loucura é como cantar o amor: infinitas
e infinitas variações sobre o mesmo dilema
fisiológico (fisiológico sim, pois se um é
cardiológico e movido a testosterona, o outro também
é fisioquímico e fruto de uma brutal intoxicação
mental). Além do mais, qualquer um dos dois - sob
certos aspectos - é muito confortável. Qualquer
um deles nos livra imediatamente do cotidiano. Qualquer
um dos dois pode nos dar - gratuitamente - uma tremenda
e imediata sensação de aventura, liberdade
e confiança próprias. A loucura é uma
porta segura e o amor é uma deliciosa e normalmente
passageira loucura. Quantas e quantas milhões de
pessoas não dariam alguns anos de suas vidas para
poderem ter o privilégio de se apaixonarem; e quantas
não pagariam uma boa fortuna para terem a coragem
de fazer uma loucura, principalmente se fosse por amor.
Hoje - dia 11 de agosto de 1999, o dia fatídico em
que todos esperavam o fim do mundo predito pelas Profecias
de Nostradamus - nós tivemos a oportunidade de ver
pela televisão quanta loucura foi feita pela mundo
em nome do armagedom, do apocalipse e do fim dos tempos.
Mas vimos também a cara de tacho dos doidaços
que queriam ver o circo pegar fogo para que eles pudessem
levantar os braços para o céu e abraçar
os relâmpagos de peito aberto, pedindo a glória
do senhor! O mundo não acabou e eles ficaram lá,
fantasiados e olhando incrédulos para as formigas
que continuaram roendo suas folhinhas. Não existe
pior decepção do que ir de garfo para banquete
de sopa.
Mas ontem, véspera do fim do mundo, eu estava assistindo
TV à noite e vi uma matéria com o Paulo Ricardo,
do RPM. Era um daqueles programas em que o artista fica
passeando, cortando cabelo e fazendo as coisas do dia a
dia, com a câmera indiscreta acompanhando-o por todo
lado. Em um dos blocos, eles estavam dentro de uma banca
de jornais do Leblon, no Rio, e o Paulo Ricardo começou
a contar coisas dos seus tempos de crítico musical.
De repente ele sacou da prateleira um exemplar do Internacional
Magazine e disse “este aqui é do meu amigo
Marcelo Fróes”. Aí eu acordei (pois
já estava quase dormindo) e pensei “Ha, eu
também escrevo nesse aí! Pena que esse rotação
por minuto não vai falar de mim”. É
engraçado como essas coisas motivam a gente.
Mas ao mesmo tempo eu percebi que o Paulo Ricardo - que
já teve uma banda que fez um verdadeiro furor neste
Brasil - está tentando reencontrar o seu lugar. Atualmente,
ele canta músicas da Jovem Guarda, cujos ex-integrantes
já são da Velha Guarda e estão cheios
de netos. “Não há dinheiro no mundo
que me pague a saudade que senti” (como eu não
ouvi ninguém falar do nome de Roberto Carlos, deve
ter muito adolescente pensando que esta música é
a mais nova canção do Paulo Ricardo). Mas
percebe-se claramente que por detrás daquele bom
moço sorridente e cortês, está um incendiário
- no bom sentido, claro - a fim de reencontrar o seu monte
de palha.
Pois incendiar e enlouquecer os outros - e principalmente
multidões - é infinitamente mais prazeroso
do que incendiar-se. Não existe nada mais excitante
do que sussurrar, esfregar, cutucar, massagear, estimular,
bombear e depois ficar assistindo o orgasmo e a loucura
da parceira ou da galera. Para isto é que servem
os rituais e as celebrações. Acredito que
nós nascemos para cumprirmos o nosso destino de estrelas
brilhantes, mesmo que muitas vezes só nos seja permitido
uma breve existência fulgurante de estrelas cadentes.
Falei bonito. Até televisão eu estou vendo,
mas pijama eu ainda não tive coragem de vestir.
Acho que fiz uma tremenda colcha de retalhos neste artigo...
Mas hoje tou tipo aposentado. Quero mais é falar
bobagem. Vou lá na fila do Bradesco pegar a mixaria
e ainda reclamo do tratamento da categoria: nós ajudamos
a construir este país e ainda somos insultados feito
cães maltrapilhos, essa vacina prá gripe aí
foi feita prá matar os velhos, pode passar na frente
minha senhora, o formulário fica ali naquele balcãozinho
sem vergonha, com todo o respeito, isto é inadmissível,
não existem mais boas maneiras, olha o jeito que
fala comigo, vamos fazer um abaixo assinado!
Diz o ditado que todo jornalista e crítico musical
(imagine colaborador de jornal de rock!) é um escritor
frustrado. Acho isto cruel, desumano e injusto com a categoria.
Isto é papo de escritor, mas todo mundo sabe que
escritor que não seja evangélico, não
consegue sobreviver escrevendo livros. Todos nós
- da categoria da bic nervosa - somos equilibristas do efêmero;
não pertencemos ao mundo concreto. Talvez seja por
isso que ninguém tá lá ligando muito
pro’qu’eu falo. Fazem três anos que eu
escrevo nesta coluna, tentando fazer coisas úteis,
sérias, sábias e coerentes com a linha editorial.
Isto, associado com o meu trabalho de engenheiro que come
de bandejão numa usina siderúrgica, dá
stress, pressão alta, carência afetiva, fissura
de elogios e cartinhas simpáticas dos leitores. A
gente tá sempre assim, mindingando elogios, carinho
e reconhecimentos.
Mas hoje não tô prá isso, não!
Hoje não estou prá vestir carapuça
de ditado nenhum. Tou tipo loucura pouca é bobagem.
Tenho certeza de que vai ter gente pensando que estou imitando
o Luis Antônio Melo, mas pocosimimporta. Sou iniciante
na arte da irresponsa, mas como bom macaco velho, se eu
for pular janela, ainda dou antes uma conferida na altura
da coluna d’água. É por isso que toda
vez que passo diante de cemitério, penso “calma,
esperem aí: ainda não chegou minha vez”.
E já que o mundo não acabou mesmo, o que vem
por aí é lucro. Mas hoje é meu dia
de carnaval.