Toninho Buda, 7 julho 1999
Foi consultando o site da Rita Lee na Internet que eu observei
uma coisa que nunca tinha percebido antes: a tortura dos
animais que se esconde por trás do estilo country
brasileiro, com seus rodeios, vaquejadas e touradas. Rita
Lee publicou na Internet o seu Manifesto de Defesa dos Direitos
dos Animais, onde convoca todos os interessados para uma
campanha nacional de conscientização sobre
a tortura diária a que são submetidos milhões
de animais pelo Brasil afora. Ela focaliza mais a tortura
propriamente dita, como a Farra do Boi, que continua acontecendo
em Santa Catarina, brigas de galos e cachorros, utilização
indiscriminada de animais em laboratório, espancamento
de animais de carga, comércio e matança de
animais selvagens, utilização de pombos para
exercícios de tiro ao alvo e assim por diante.
Rita Lee falou também do que os organizadores dos
rodeios fazem com os animais, para que eles saiam pulando
daquele jeito, com os valentes peões em cima: existe
farta documentação em vídeo, fotos
e laudos veterinários, comprovando que esses camaradas
introduzem cacos de vidro, cigarros acesos e pedaços
de pau no ânus dos animais. E depois da festa, os
animais são mortos de forma bárbara, com os
tais peões cortando pedaços dos seus corpos
ainda vivos! É realmente uma coisa terrível.
Principalmente se nós fizermos uma breve análise
cultural dessas atividades.
Quando estive na Espanha, eu fui com um camarada que adorava
touradas. Com isso, acabei assistindo a vários espetáculos
daqueles. E são muito curiosos os paralelos que podemos
traçar entre aquela tourada e a tourada brasileira.
Na Espanha também está em destaque a valentia
dos toureiros. Quando o animal é abatido, uma das
coisas mais charmosas que o matador pode fazer é
cortar um pedaço da orelha ou do rabo do animal e
oferecê-lo para sua amada, que normalmente fica no
camarote de honra. Mas antes do bicho ser morte, nós
assistimos a um verdadeiro banho de sangue, em que o animal
é espetado e cortado de várias maneiras. No
entanto, na Espanha, o espetáculo da tourada tem
uma aura quase religiosa. Eu até escrevi um texto
na época, chamado “Taurus - o Deus Crucificado”,
em que faço um paralelo entre a morte do touro e
a morte de alguns mitos do cristianismo, como Jesus Cristo
e aquele santo cheio de flechadas. Eu acredito que em toda
essa simbologia, existe o mesmo ranço de desprezo
religioso pela nossa parte “animal” e pela “carne”.
O negócio todo parece ser uma tentativa de “matar
o animal” no homem, para que ele possa se aproximar
de deus. Mas a forma como eles tentam fazer isso, me parece
que os aproxima muito mais das bestas do que de qualquer
tipo de deus.
Aqui no Brasil, evidentemente, não tem nada dessa
filosofia toda. Mas tanto aqui quanto na Espanha existe
todo um estilo a ser seguido pelas pessoas que frequentam
e alimentam esses espetáculos. Na Espanha o papo
é mais sério e a cultura das touradas é
uma parte da cultura mais antiga do próprio país.
Apesar da pressão dos organismos internacionais de
proteção aos animais, ninguém consegue
eliminar o orgulho que os espanhóis têm dos
seus matadores. Lá, quando as pessoas vão
para as touradas, elas se vestem como se fossem para um
baile de gala, com as roupas mais caras e mais tradicionais.
Existe toda uma ritualística e um vocabulário
próprios das pessoas que frequentam as Corridas de
Toros (que é a forma como eles chamam as touradas).
E tem também a música, claro. Existe sempre
uma banda em todo espetáculo, tocando músicas
típicas.
No nosso país existiam antigamente apenas os gaúchos
dos pampas, as vaquejadas do nordeste, a farra do boi em
Santa Catarina e pequenos circos de touradas que vagabundeavam
pelo país afora, apresentando sempre espetáculos
pobres e medíocres. Com o tempo, a coisa toda se
sofisticou e se tornou um negócio que movimenta milhões
de dólares, principalmente na indústria fonográfica.
Assim, nós temos hoje o estilo country brasileiro,
com suas roupas típicas, seu vocabulário próprio
e suas mulheres de vozes grossas e roucas, que parecem imitar
o mugido dos próprios touros. Temos também
os cantores-heróis dessas multidões, normalmente
chamados de “Amigos”, que alegram as festas
de rodeios. A música deixou de ser caipira, desbancou
o rock e se promoveu a sertaneja. Mas no centro de tudo,
como bem ressaltou Rita Lee, está a cruel tortura
de animais, que são sacrificados da forma mais cruel
e sanguinária que se pode imaginar. E para aquele
público que entoa as músicas ingênuas
das duplas sertanejas, aqueles “macacos de cowboys”
- como bem chamou Rita Lee - são verdadeiros heróis.
O mais interessante é que eu não sabia das
sacanagens que eles fazem com os bichos, antes de consultar
o site da Rita Lee. E concordo plenamente com ela: nós
devemos divulgar essas notícias, nós devemos
lutar para que as pessoas saibam da forma como os animais
são utilizados nesses espetáculos bárbaros,
atrasados e copiados das culturas mais grosseiras da terra.
Existe por detrás disso tudo um manto de ignorância,
de brutalidade e das mais grosseiras superstições
que estão na base da nossa cultura, formando o que
a própria Rita Lee chama de “lixo cultural”.
A Rita nào disse isso, mas eu acho que nós
devemos também responsabilizar os cantores sertanejos
que utilizam esses espetáculos para divulgar o seu
trabalho. Nós devemos mostrar que esses “amigos”,
que são os donos dessas festas, são mesmo
é amigos da onça. Ou melhor, nem isso eles
são, pois as onças estão quase extintas
nas terras dos sertanejos brasileiros. O certo é
que, enquanto eles cantam músicas românticas
nos palcos, nos currais que ficam embaixo dos próprios
palcos os peões estão enfiando cacos de vidro
e cigarros acesos no traseiro dos animais. É o que
se pode chamar de a frente e o verso da mesma moeda, a parte
aparente e a parte oculta de um jogo sujo, desumano e desonesto.
Quem quiser saber mais sobre o assunto, pode consultar na
Internet, por exemplo, a AILA - Aliança Internacional
do Animal, e.mail aila@uol.com.br; ou o Clube das Pulgas,
clubepulgas@sti.com.br; ou ainda a WSPA - World Society
for the Protection of Animals, wspa@wspausa.com . Se você
concorda com a defesa dos animais, leia e divulgue essas
idéias.