CONTRACULTURA

GILBERTO GIL VOLTA PARA A MACROBIÓTICA

Toninho Buda, 2 fevereiro 1999


No início de setembro de 1973, eu entrei pela primeira vez em um restaurante macrobiótico. Ele se chamava “Shatkubay” e funcionava no centro de Juiz de Fora, MG. Hoje posso considerar que este foi o meu “vestibular” no mundo alternativo e no universo da contracultura, pois minha vida se modificou - para muito melhor - daí para a frente. No entanto, o aprendizado alternativo foi longo e somente seis anos mais tarde - em 1979 - é que eu viria a fazer contato direto com uma pessoa que me orientou de uma forma verdadeiramente eficiente: o Professor Tomio Kikuchi, divulgador da macrobiótica. E muitos anos mais tarde - em 1995 -, é que esta forma de alimentação auto-curativa viria a me mostrar mais uma vez a sua grande utilidade, quando minha mãe apareceu com câncer. Ao longo de 45 anos, o Professor Kikuchi vem fazendo um trabalho paciente e constante, que hoje possui núcleos e praticantes espalhados pelo mundo todo. Tendo chegado ao Brasil como imigrante pobre em 1954, sua estrutura de trabalho hoje é composta de uma fábrica de produtos naturais, um instituto de pesquisas, um restaurante no centro de São Paulo e uma comunidade rural em Mairiporã, SP. Os seminários anuais da comunidade reúnem cerca de 400 pessoas, com representantes do mundo todo.


A origem da macrobiótica não se perde na “noite dos tempos”. Ela foi inicialmente sistematizada por um outro japonês chamado Georges Oshawa, fundador do centro “Ignoramus”, em Paris. O que Oshawa pretendia era criar um sistema em que a cultura do Extremo Oriente fosse tornada útil e prática para qualquer pessoa na face do planeta. Isto evidentemente foi resultado também de um interesse muito grande do Ocidente pelas coisas do Oriente (interesse este que historicamente surgiu a partir da segunda metade do século XIX). E esta curiosidade sempre esteve muito presente nos movimentos de Contracultura e das chamadas “sociedades alternativas”. Assim, no Brasil dos anos 70, surgiram muitas comunidades espalhadas por todo o território nacional e muitas delas tinham grande proximidade com os estudos do Instituto Princípio Único, dirigido pelo Professor Tomio Kikuchi. Um grande número de artistas teve oportunidade de se beneficiar desse trabalho, inclusive Gal Costa, Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

E Gilberto Gil integrou-se de tal forma à macrobiótica, que chegou a compor, nos anos 70, músicas relacionadas com as suas experiências no assunto (como “Pílula de Alho” e “Umeboshi”, que é o nome de uma ameixa japonesa salgada, muito utilizada terapeuticamente. As “pílulas de alho”, ainda hoje muito comuns em farmácias homeopáticas, são recomendadas como expectorantes, antibactericidas, antivirais, diuréticas, liporredutoras, controladoras da pressão alta e doenças do aparelho respiratório. Gilberto Gil utilizou-as para controlar uma infecção gengival, e disse ter tido bastante sucesso. Se é que existe isso, pode-se dizer que Gilberto Gil é o criador de algumas “músicas macrobióticas”... ).


Pois bem, no dia 26 de janeiro de 1999, eu vi uma entrevista do Gilberto Gil no programa do Miguel Falabella, na qual ele falava que tinha voltado para a macrobiótica! Eu achei a notícia extremamente interessante e fui procurar saber mais sobre o assunto. Realmente, Gilberto Gil voltara a procurar pelo Professor Tomio Kikuchi no dia 6 de novembro de 1998, incomodado por um tumor (que finalmente se revelou benigno). Mas o mais interessante foram duas declarações de Gil, divulgadas em entrevista à revista Época, de 14 de dezembro de 1998 (quando então ele aguardava o resultado da biópsia):

“A memória de um porto seguro me trouxe de volta à macrobiótica”.
“Se eu tiver câncer, vou viver como se não tivesse. Se não tiver, vou viver como se tivesse”.

O susto o fez preocupar-se novamente com a própria saúde. Mas o conjunto das duas declarações nos mostra o quanto de diferente existe na “medicina alternativa”. Observe-se que, diante de um quadro assustador para qualquer pessoa, Gilberto Gil se comportou de uma forma surpreendente: ao invés de se submeter fanaticamente a todos os procedimentos e “providências” da medicina convencional, ele imediatamente voltou-se para o que considera como sendo um “porto seguro”. Ou seja, ele não precisou ter aquela sensação de total abandono, desespero e desamparo que qualquer pessoa passa a ter, à medida em que sabe que tem uma doença grave e começa a se submeter aos brutais tratamentos com cirurgias, quimioterapias e radioterapias, como aconteceu com o cantor Leandro (que apareceu morto após apenas 40 dias de “tratamento”! Vide nossa matéria “A Morte do Cantor Leandro”, publicada nesta coluna, em julho de 1998).


Mas a segunda declaração de Gilberto Gil mostra muito mais ainda: “Se eu tiver câncer, vou viver como se não tivesse”. Sim, ele sabe que as pessoas que conhecem um pouco mais da fisiologia do organismo humano, têm a certeza de que o câncer - bem como também as outras doenças - são disfunções resultantes de nossos hábitos irresponsáveis. E que basta corrigir estes hábitos para que o organismo volte ao normal. Ele sabe muito bem que se simplesmente fosse fingir que não estava com câncer, a doença acabaria com ele em pouco tempo. É evidente que, com esta frase, ele quis dizer que iria simplesmente corrigir os seus hábitos e esperar para que o organismo se reabilitasse; “vivendo como se a doença não existisse”, ou seja, com a cabeça tranqüila e firme determinação.

E ele conclui: “se eu não estiver com câncer, vou viver com se estivesse”. Brilhante! Ou seja: ele mostra claramente o quanto lhe foi útil o aviso, o alarme, a orientação que o seu organismo lhe deu, mostrando-lhe um tumor como se estivesse dizendo “olha, desse jeito você vai acabar com a gente!”. Muito obrigado, Gilberto Gil! Você me fez também voltar aos “bons velhos tempos”, no final dos anos 70, quando eu tinha um restaurante macrobiótico em Juiz de Fora. Na verdade, já estou tomando pílulas de alho, pois eu também estou com infecções nas gengivas, em consequência de preguiça e relaxamento com meus dentes e minha saúde. Um grande abraço, muita força e boa sorte!!!

 


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