CONTRACULTURA

MÚSICA RITUALÍSTICA

Toninho Buda, 16 janeiro 1999


Easy Rider. Chovia sem parar, ao amanhecer do dia primeiro de janeiro de 1999. Eu acordei dentro do meu carro, parado embaixo de algumas árvores do estacionamento de um restaurante chamado “Taberna Feita Com Amor”, à margem da rodovia que liga Juiz de Fora a Caxambu, no Sul de Minas. A verdade é que eu estava sozinho e não tinha para onde ir. Passara o Reveillon ali, dormindo na beira da estrada. Na verdade, foi ótimo, pois eu estava fugindo de gritarias histéricas, abraços afetados de estranhos e foguetórios. E havia conseguido escapar são e salvo! Sem destino, eu tinha algumas moedas no bolso, mas resolvi evitar o tradicional “cara ou coroa”; saí do carro, caminhei até a beira da estrada e fiquei esperando para ver para que lado iria o primeiro veículo que aparecesse. Depois de alguns minutos, um opala velho apareceu na curva à direita, e seguiu balançando a lataria esfarrapada em direção a Caxambu. “Taí, é prá lá que eu vou também”, pensei. E parti em direção a São Tomé das Letras, que fica naquela direção.


Parei por volta de meio-dia, para tomar um café num posto de gasolina perto de Caxambu. Numa pleistocênica televisão “preto e branco”, a TV Globo estava mostrando um “folião” deitado nas areias de Copacabana, dormindo debaixo do sol escaldante. Do meu lado, um bebum, com o seu copo matinal de “soro caseiro”, tentava fazer cara de que estava “entendendo tudo”. A repórter falava alguma coisa sobre a “ressaca” e a “queda na real” depois da “beleza” da queima de fogos da noite anterior. Para evitar o “contágio”, eu saí comendo o pão com manteiga porta-afora e peguei os 42 Km de estrada de chão até São Tomé. Lá no alto daquela pedreira histórica, encontrei uma velha turma de amigos, na “Cidade das Estrelas”. Eles estavam ali realizando os rituais de ano novo, mas de uma forma bastante diferente da convencional. E havia um fato novo: entre eles haviam dois percussionistas - os arquitetos André Nucci e Rodrigo Velasco - especializados em música ritualística. Independente de todas as coisas fantásticas que eu tive oportunidade de vivenciar no breve convívio de dois dias ao lado daquela turma, acho interessante destacar aqui nesta nossa coluna, a questão da música ritualística.

Numa das salas do Instituto Imagick, o Arsênio e a Zelinda me explicaram que a função da música em um ritual de magia, é despertar o lado emocional mais profundo das pessoas (na verdade, as velas, os símbolos, as roupas e as palavras utilizadas também têm esta função). Eles têm feito experiências muito interessantes neste sentido e o seu Instituto conta agora com equipamentos e computadores para gravação e produção de CD’s relacionados com o seu trabalho. E é aí que são importantes os seus alunos que têm o “dom” para a música ritualística. André Nucci, por exemplo, faz parte de três bandas em São Paulo (“Tá Tudo Aki”, de rock tribal; “Grupo Percussão Zawli”, de rituais africanos, e o grupo de percussão do SESC-Anchieta) e ainda faz pesquisas ritualísticas com bailarinas em Campinas. Ele começou o seu aprendizado estudando a batida dos pele-vermelhas e mais tarde passou a estudar com Fernando Ferrer (mestre de percussão), com quem fez experiências utilizando sete “djembês” (que estão entre os mais primitivos tambores do mundo).


Eles me explicaram também que a batida dos xamãs, por exemplo, chega a criar estados alterados de consciência, semelhantes aos conseguidos com drogas alucinógenas. Nos rituais desta passagem do ano, em São Tomé das Letras, eles utilizaram miniaturas dos tambores “djembê”, que têm um som semelhante ao “derbá” (o “derbá” é de origem árabe e tem um som mais adequado para rituais “sufis”, com sonoridade mais coerente com a energia que se desenvolve nos rituais do Imagick). Mas eles utilizaram também um pequeno tambor de couro de cobra - semelhante ao “tambor de creola”, do Maranhão -, feito provavelmente por um xamã de Peruíbe, uma região antigamente habitada pelos índios Guaranis, no Sul de São Paulo.

Paralelamente aos rituais de Ano Novo, o nosso amigo Lauro Escobosa - um espanhol de nascimento e membro do Imagick -, aproveitou a ocasião para consagrar a sua belíssima espada (que ele havia trazido de Toledo, na Espanha). Foi muito emocionante participar dos quatro Rituais de Consagração (o da Terra, com sal; o do Fogo, numa fogueira; o da água, numa cachoeira da Cidade das Estrelas; e o do ar, ocasião em que este elemento fez questão de mostrar sua presença inesquecível... Ave, Silfos!).


A região onde fica instalada a “Cidade das Estrelas” é tradicionalmente reconhecida como local de aparição de discos voadores e seres alienígenas (algumas filmagens famosas de “Objetos Voadores não Identificados”, recentemente mostradas nas redes de televisão, foram feitas naquele local). Se os E.T.s estavam presentes durante tudo o que aconteceu naqueles dias, por enquanto fica apenas no campo do provável. No entanto, a convivência dos membros do Imagick é tão alegre e descontraída, o seu aprendizado de Magia e das Leis do Universo é tão leve e prazeiroso, que qualquer pessoa se sente bem junto com eles. Sejam eles xamãs, seres alienígenas, gnomos, índios guaranis, devotos sufis ou arquitetos, comerciantes e estudantes de qualquer parte do planeta. Enquanto os tambores soavam nos rituais, tinha-se a nítida impressão de que “outras pessoas” dançavam e brincavam entre a folhagem lavada pela chuva e entre as ondas que se formavam no poço embaixo da cachoeira.

O mais importante é que - ao voltar para casa dois dias depois - eu estava completamente diferente, com a “alma lavada” e com uma alegre tranquilidade para me preparar para minha formatura em Engenharia de Segurança do Trabalho (dali a doze dias) e enfrentar um ano novo com uma perspectiva muito mais sólida e positiva do que a que poderia me oferecer uma companhia qualquer, no meio de um foguetório histérico e efêmero de Reveillon. Pois essas gritarias normalmente só servem para tentar disfarçar a insegurança, a angústia e a fragilidade com que temos conseguido temer o futuro. Eu tive sorte: estava de pé, descansado e confiante. E não com a boca cheia de formigas, roncando estatelado sob o sol escaldante das areias cruéis de Copacabana.


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