CONTRACULTURA

A BOLSA ESCROTAL DE NOVA IORQUE

Toninho Buda, 28 setembro 1998


Pode parecer que este assunto não tenha nada a ver com a Contracultura, mas eu acho que tem. E muito! Nós estamos passando por uma “crise” na economia mundial, que me lembra muito aquela outra crise do petróleo, há muitos anos atrás. Naquela época, os especialistas diziam que o petróleo iria acabar e que aquela confusão se devia a mil fatores muito complicados. Agora está acontecendo a mesma coisa: se dá um tremelique na bolsa do Japão, o xilique atinge até a dona de casa lá de Barbacena.

Uma das melhores definições de crise que eu já ouvi, é a que diz que “crise é o conflito entre o novo que quer entrar e o velho que não quer sair”. Pois é! E outro dia eu ouvi uma outra coisa, que me chamou a atenção para um detalhe curioso dessa história toda: o fato de que é a extrema direita americana que quer derrubar Bill Clinton, a partir do escândalo sexual envolvendo o Presidente e algumas mulheres que frequentavam a Casa Branca. Ora, a extrema direita americana representa o velho e hipócrita conservadorismo religioso. E Bill Clinton tem um passado bastante inconveniente para os conservadores: na juventude ele participou do movimento hippie e - já como Presidente - declarou ter fumado maconha naquela época. Ora, declarar isto num país conservador como os EUA e continuar no cargo, já é uma coisa surpreendente. Pois bem, agora nós estamos assistindo a algo mais surpreendente ainda: ele abriu o jogo com relação às suas “aventuras extra-conjugais” e permanece no cargo de Presidente dos EUA (pelo menos até hoje, 28/9/98, data em que escrevo estas linhas). Com isso, ele está futucando - explicitamente - no alicerce mais sagrado do povo americano: a “Família”.

Agora, focalizemos nossa atenção no comportamento da esposa do presidente: ela permanece impassível, como se nada estivesse acontecendo. Procurando pelos motivos dessa atitude, nós podemos imaginar muitas coisas. Mas vejamos pelo menos três hipóteses: 1. Ela sabe que - se criar caso - o prejuízo será enorme para milhões de pessoas. 2. Ela é uma mulher submissa, que se sujeita a tudo que o maridão faz. 3. Ela não está nem aí, porque - apesar do conservadorismo americano - aprendeu que a preocupação sexual é exagerada e deve ser adequadamente administrada.

Eu particularmente acredito mais na terceira hipótese. E acho que - dadas as circunstâncias - ela tem uma grande influência da Contracultura. A liberdade sexual foi uma das principais bandeiras do movimento underground e a utilização política do sexo sempre foi um dos focos desta guerra social (os hippies lutando pela liberdade de expressão sexual e os conservadores acusando-os de todos os “crimes” relacionados com isso). Mas esta briga está longe de terminar e não há como negar que o comportamento sexual pode determinar o destino de pessoas, famílias e nações.

Então - por mais que a idéia ofenda as pessoas mais sensíveis - o sexo também é uma arma! E uma arma das mais poderosas! No nível dos relaciomentos conjugais, nós podemos observar o quanto as pessoas normalmente utilizam o sexo para dominar, ferir, incomodar, intranquilizar e torturar os seus parceiros. Mas a questão sexual da Casa Branca veio mostrar que isso se estende a nível mundial e de uma forma que chega até a ser hilária! Eu não posso acreditar no que eu tenho visto diariamente nos noticiários!


Todas as bolsas de valores do mundo inteiro ficam de olhos arregalados e fixos no inquérito que investiga todos os detalhes das relações sexuais do Presidente Bill Clinton com a estagiária Mônica Lewinski! E elas sofrem variações inversamente proporcionais às variações da bolsa escrotal do Presidente: se a bolsa presidencial se aquece, as bolsas de valores despencam! E dão lucros ou prejuízos enormes no mundo inteiro! A coisa é mais ou menos assim:

“Atenção: a Mônica mostrou o vestido manchado de líquido seminal presidencial e explicou que não tinha lenço no momento do ato” As bolsas caem 3%.
“Atenção: o Presidente falou que não deu tempo de tirar o lenço do bolso, pois ele estava segurando a cabeça da garota com as duas mãos” As bolsas sobem 4%.
“Atenção: a Mônica mamava no órgão reprodutor presidencial, enquanto o Presidente tomava decisões governamentais ao telefone!” As bolsas caem 12%!
“Atenção: mas o Clinton sempre estava de camisinha. O preservativo diminui a excitação e não atrapalha a concentração nos negócios do Estado!” Sobe a bolsa 5%!
“Atenção: o Clinton enfiou um xarutonaxota da Mônica!” As bolsas caem 8%!
“Atenção: a Mônica falou que o charuto não era cubano!”As bolsas sobem 9%!


Gente! Pode um negócio desse?! E o mais terrível de tudo é constatar que uma situação absurda e ridícula dessas esteja afetando realmente a vida de bilhões de pessoas no planeta inteiro! As bolsas de valores estão medindo com precisão todos os nossos preconceitos sexuais mais conservadores: se fica comprovado que o Presidente teve um “prazer ilegal”, as bolsas caem. Se fica comprovado que ele “não teve lá muito prazer”, as bolsas sobem! E esta luta brutal por milímetros mostra o quanto nós teremos que lutar para modificar um pouquinho todo o nosso atraso social! Eu não sou “a favor” de Bill Clinton, pois eu o vejo como o maior dos totalitários do planeta. Mas eu tenho muito mais medo daqueles que querem derrubá-lo, baseados em preconceitos sexuais.

No entanto, eu quero ser otimista: um dia nós ainda vamos rir deste atraso todo! E eu fico feliz de constatar que neste teatro do absurdo a que estamos assistindo, estejam expostas mais uma vez todas as loucuras do conservadorismo social. E que venha a crise! Pois apesar de tudo, eu acho que nós estamos progredindo! Nós - a Contracultura, o Rock’n’Roll, a revolução emocional do novo que quer entrar - contra o Estado totalitário, a brutalidade policial e o atraso religioso que não querem sair.


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® Todos os direitos estão resevados para Antônio Walter Sena Júnior