Toninho Buda, 23 agosto 1998
Uma surpresa agradável sempre nos torna mais otimistas
com relação à vida. Principalmente
quando esta surpresa vem de pessoas que conseguiram superar
situações gravíssimas, em que tantos
outros tiveram um fim quase sempre trágico. Isto
acaba de acontecer com meu irmão, que sempre foi
ligado à música e passou - há poucos
anos - por uma fase aguda de dependência química
com álcool e drogas. Há poucos dias ele me
convidou para o lançamento de seu CD, em Belo Horizonte.
Eu sabia que ele tinha se recuperado, estava muito bem,
mas não sabia que estava preparando um CD! Assim,
no dia 30 de agosto de 98 eu fui lá para ver o que
estava “se assucedendo”!
A coisa era melhor do que eu poderia esperar. Eu encontrei
em Belo Horizonte uma verdadeira trincheira de resistência
contra esta avassaladora crise econômica que assola
o planeta e principalmente o meio artístico e cultural
- que nunca foi considerado “artigo de primeira necessidade”
- dos países do chamado “terceiro mundo”.
Sabe o que eles fizeram? Montaram há cerca de quatro
anos um tal de MIC (Movimento Inter-Regional de Cultura),
aberto a todos os estilos musicais. Neste espírito
“anarquista” e solidário, reuniram-se
músicos de todos os gêneros, com o espírito
de “ajuda-mútua”. Este “cooperativismo”
- mesmo com todas as dificuldades que nós sabemos
que enfrentam quase a totalidade dos músicos no Brasil
-, permitiu que meu irmão produzisse o seu próprio
CD e muitos outros artistas também estão podendo
fazer o mesmo. Não é uma coisa bonita de se
ver e até de se ouvir falar!? Quem dera este espírito
se alastrasse por este país afora, já que
- além da crise mundial - mesmo os cantores consagrados
estão sendo vítimas da rapina predatória
e selvagem das máfias mundiais de pirataria musical.
Ou seja: além do artista ter seu trabalho desvalorizado,
os poucos que o têm valorizado são descaradamente
lesados sem a menor possibilidade de defesa.
Mas deix’eu falar um pouquinho do trabalho do meu
irmão. Ele se chama Carlos Magno e já teve
sua fase de “punk”, de “roqueiro”
e depois “brega” (aliás, nas horas vagas
ele faz “cover” do Falcão, nas portas
das lojas de roupas do centro comercial de Belo Horizonte.
O Falcão, por sinal, o autorizou a usar sua “marca”
e músicas sem cobrar nada e ainda fez questão
de dizer que “se sente honrado com a homenagem”!
O slogan de propaganda do show garante que ele é
o “Falcão Made in Paraguai”! E a galera
adora!!!). Mas neste CD ele gravou somente músicas
de sua autoria, compostas exatamente na fase “negra”
da dependência química, em que foi várias
vezes internado em centros de tratamento. No entanto, o
tom das músicas não contém nada de
revolta ou ressentimentos. São músicas com
uma predominância de tonalidades românticas
e nostálgicas. Por sinal, muito bonitas! É
perfeitamente possível vislumbrar ali uma fênix
ressurgindo das cinzas.
O CD teve sua gravação concluída em
agosto de 1998, nos Estúdios Teles (do casal Cláudío
Teles e Andréa Braga), em Belo Horizonte, e todos
os instrumentos foram executados pelo próprio Carlos
Magno. A capa do CD é simbolicamente muito interessante:
ele mostra uma vista áerea do aeroporto da Pampulha
e tem o nome de “Vôo Solitário”.
A foto foi feita também pelo próprio Carlos
Magno - que trabalha no Corpo de Bombeiros daquele aeroporto
-, em um vôo de rotina em um helicóptero daquela
guarnição. Os títulos das músicas
denotam claramente este tom romântico e nostálgico:
“Real Delírio”, “Outra Canção
para Você”, “Vale das Flores”, “Natal”,
“Cordas de Eros”, “Fonemas Colhidos ao
Vento”, “Manifesto à Alma”, “Ode
às Borboletas”, “Tua Casa”, “Vôo
Solitário”, “Queimada” e “Daniel
e Janaína”. Quase todas têm melodias
suaves, com exceção de “Daniel e Janaína”,
que é um forró dos brabos. Um barato!
Na Festa de lançamento, no Parque Municipal Guilherme
Laje, em Belo Horizonte, estavam - entre muitas outras pessoas
- o Eros Januzzi (poeta e cantador do Vale do Jequitinhonha),
Efrahim Maia (indicado para o Prêmio Sharp de Música
Regional), Luís Rosa (cantador regional), Gil da
Mata (reggae/pop), as cantoras de MPB Sueli Rodrigues e
Rosana Melo, Maurício Lessa (Bossa Nova), Maurício
Roque (escritor e poeta), Nelson Ribeiro (coordenador do
Movimento Inter-Regional de Cultura), Peter César
(músico regional e locutor da Rádio Santê
FM, de Belo Horizonte), o percussionista Demetrius (que
acompanhou Carlos Magno na sua apresentação),
Dona Terezinha Sena - nossa velha e honrada mãe (que
por sinal é chegada num rock’n’roll)
- e a artista plástica Maria José Milard,
que pintou dois quadros durante a belíssima tarde
de domingo e os sorteou entre os presentes. Melhor não
tinha jeito!
Se alguém quiser entrar em contato com o pessoal
do Movimento Inter-Regional de Cultura ou falar com o Carlos
Magno, é só navegar pela Internet num vôo
solitário pelo e-mail sena@agentel.com.br ou mandar
um recado pelo bip 031 - 292.4066 código 1343. No
mais, desejo a todos uma feliz Primavera, que é época
de fertilidade, reconstrução, criatividade,
juventude e renascimento. E também tempo de esperança
renovada e tempo da Fênix ressurgir das cinzas.