Toninho Buda, 23 julho 1998
Esse negócio de futebol é muito interessante.
No dia em que o Brasil jogou a final da Copa do Mundo com
a França, eu estava na casa de um amigo meu. Ele
tem uma televisão daquelas grandonas, com uma excelente
imagem de satélite. A euforia era geral e nós
já nos víamos tomando champagne no caneco
do penta! Tudo era uma festa e os franceses - que deveriam
ficar felizes com o segundo lugar - eram nossos irmãozinhos.
Mas um pequeno detalhe me deu um grande mal-estar: a letra
do hino da França, que - traduzida em português
- ia aparecendo no vídeo e dizia baixarias do tipo
“o solo de nossa pátria será regado
com o sangue dos nossos inimigos”! Aquilo era um mau
presságio (na verdade, grande parte dos hinos desses
países por aí se esmeram em falar de vinganças,
estupros, chacinas e mortandade generalizada. O nosso é
até bem discreto e diz apenas “verás
que um filho teu não foge à luta, nem teme
quem te adora a própria morte”). Certo é
que, no momento crítico, mais uma vez os nossos problemas
de saúde pública levaram a nossa arte para
o túmulo: uma convulsão de Ronaldinho desorientou
completamente a equipe e os franceses regaram o gramado
com o sangue de nossos atletas, ganhando de 3x0, numa derrota
histórica da seleção tetracampeã
do mundo.
Mas dizem que a derrota é uma mestra muito mais poderosa
do que a vitória. Talvez nós sejamos os últimos
cavaleiros românticos, num mundo que caminha para
a total automação e cibernetização.
A nossa equipe - e todos nós somos também
bastante assim - caminhou até a final da Copa com
uma grande dose de improvisação, com uma grande
dose de “jeitinho de última hora” e pitadas
de “patriotismo”. Nós somos assim, românticos.
Nós vamos empurrando e muitas vezes dá certo,
pois colocamos o coração naquilo que fazemos.
Mas talvez este tipo de comportamento esteja com os dias
contados. Hoje o amor precisa ser submetido à organização
e à métodologia científica. Nós
temos amor de mais e metodologia de menos. No entanto, tem
ganho espaço aqueles que têm metodologia de
mais e amor de menos. Até a música está
cada vez mais “tecno”.
Mas eu ainda prefiro ouvir os meus antigos discos de vinil.
E mesmo que continue aprendendo a pilotar os equipamentos
de última geração e desfrutando de
toda a tecnologia que o avanço da ciência nos
tem proporcionado, eu quero continuar mantendo algumas coisas
à moda antiga. Pois, pelo que eu tenho visto, só
nos resta uma saída neste jogo de vida ou morte entre
o amor e a tecnologia: nós temos que ter uma grande
dose dos dois, para que possamos vencer em todas as frentes.
E o nosso “amor” tem que ser mais amplo do que
a forma como o temos concebido: ele tem que ser apaixonado
pelo que existe de mais primitivo em cada um de nós.
Um amor selvagem e capaz de fazer frente a tudo que quer
derramar do nosso sangue para regar terras estranhas.
Por outro lado, se os aspectos possivelmente positivos desta
tal globalização prevêm que o mundo
todo venha a se transformar numa “unidade”,
parece legítimo esperar que estas cantilenas de ódio
que os países gostam de entoar para empurrar seus
cidadãos para a guerra, devam ir perdendo gradativamente
o sentido. Mas outras cantilenas raivosas também
deverão desaparecer na poeira da história.
Como por exemplo a tradição romântica
da relação regada a dor de corno, amargura
e ressentimentos, nas relações “amorosas”entre
o homem e a mulher. Nós precisamos esclarecer epistemologicamente,
filogeneticamente, toda a loucura que ainda resta a ser
decodificada nesta escatologia. E para nos ajudar nesta
tarefa de assepsia emocional, nada melhor do que o espetáculo
teleológico de Rogério Skilab (caro leitor,
não se assuste com a fortuita erudição
deste parágrafo: consulte o glossário dos
termos aqui utilizados, no final deste artigo).
Escatológico é o trabalho de Rogério
Skylab. No entanto, ele foi a melhor coisa que eu encontrei,
para espelhar todo o rebuscado ódio das relações
cansadas, obrigatórias, stressantes, desgastantes
e sórdidas, entre as pessoas que vivem mergulhadas
em estados mórbidos de dependência fisio-parasitológica,
retratados em músicas como “Tortura”
e “Motosserra”. Mas Skylab expõe também
cruamente a degenerescência implacável da decadência
e decrepitude humanas. Sua música “Derrame”
é uma dissecação ontológica
do desespero dos humanóides, nos seus inúteis
esforços por parecerem melhores do que são.
Ele por vezes lembra Fernando Pessoa e seu “Poema
em Linha Reta”: “Eu, que tantas vezes tenho
sido ridículo, absurdo, que tenho enrolado publicamente
os pés nos tapetes das etiquetas, que tenho sido
grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, que tenho sofrido
enxovalhos, que tenho sido cômico às criadas
de hotel... eu verifico que não tenho par nisto tudo
neste mundo. Toda a gente que conheço e que fala
comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes
- na vida”. Pessoa declama, Rogério canta,
ambos uivavam na solidão.
Mas a hora do Rogério chegou. Nesta era de insegurança
e incertezas, até as empresas tradicionais estão
buscando ouvir os artistas, para aprender com eles técnicas
motivacionais - pomposamente chamadas de “desenvolvimento
da inteligência emocional” - para induzirem
os seus funcionários a “gostarem mais”
de suas empresas e até da própria vida que
levam! O mundo se deu conta de que agora, mais do que nunca,
precisa ouvir os loucos e os absurdos, aqueles que por todo
o sempre carregaram dentro de si a sagrada chama da loucura.
Mas talvez Rogério Skylab não seja lá
muito apropriado para os débeis e sensíveis:
pois no seu ato de ser espelho, ele é um excelente
bálsamo para a alma dos sinceros, mas um doloroso
veneno para os eternos hipócritas.
GLOSSÁRIO
Epistemologia - estudo da teoria da ciência, para
determinar seus fundamentos lógicos.
Escatologia - literatura acerca das coisas sórdidas
ou obscenas. Estudo das fezes.
Filologia - estudo da nossa língua, em toda a sua
amplitude (e não apenas etimologicamente).
Filogênese - história evoluc. das espécies,
evolução das unid. taxionômicas. Oposto
de ontologia.
Ontologia - parte da filosofia que trata do ser enquanto
ser. O oposto de “filogênese”.
Teleologia - estudo dos fins, das intenções
e do destino humanos.