CONTRACULTURA

ASSIM FALAVA IBIAPINA

Toninho Buda, 20 maio 1998


Pois é, eu resolvi fazer um curso de pós-graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho. Tudo começou quando, em novembro de 1997, eu resolvi aplicar os meus conhecimentos científicos e alternativos na área da alimentação natural (e também a experiência de mais de 13 anos de corridas de fundo), num projeto de orientação para a qualidade de vida das pessoas. Algum tempo depois, eu verifiquei que eu poderia fazer isso dentro da minha própria profissão, que é a engenharia. E comecei a fazer o tal curso. Foi lá dentro que conheci o professor Ibiapina, um médico cabra da peste, conterrâneo do Falcão e tão espirituoso, alegre e comunicativo quanto o irreverente autor de “Black People Car”. E conheci também o Ademar, professor de Física, responsável pela cadeira de “Ruídos e Vibrações”. A parte técnica foi apresentada pelo Ademar e a parte médica pelo Ibiapina e outro médico chamado João Maria, que era professor de Ergonomia. Aprendemos coisas muito interessantes, tanto para os trabalhadores de um modo geral, quanto para pessoas que lidam com música. Vou contar algumas para vocês.


O som é um tipo de onda mecânica, que precisa de um meio sólido ou fluído – como os gases e líquidos – para se propagar. O som não se propaga no vácuo. Então, naqueles filmes de guerras nas estrelas, onde as naves espaciais bombardeiam umas às outras e fazem aquele barulhão danado de explosões, é tudo mentira. No vácuo nós não escutamos nada. O nosso ouvido funciona como um capacitor. As células ciliadas (em forma de penugem) são receptores em miniatura e as mais compridas captam os sons mais graves. As células mais curtas captam os sons mais agudos. Quando nós vamos envelhecendo, vamos perdendo a capacidade de ouvir os sons mais agudos. A diferença entre som e ruído é que o som é agradável ao ouvido e o ruído é desagradável. Os ruídos constantes são extremamente prejudiciais às células ciliadas e, com o tempo, podem provocar a surdez. Este tipo de lesão é irreversível, ou seja, não tem cura.

“Timbre” é a qualidade que permite identificar a fonte do ruído. Uma flauta é diferente de um piston e cada pessoa tem um timbre de voz que é como se fosse a sua “impressão digital sonora”, única no mundo. Para que haja “eco”, é necessário que a pessoa esteja a mais de 15 metros de distância da fonte que emite o ruído (ou o som). Isolar ruídos agudos é muito mais fácil do que isolar ruídos graves (ou de baixa eqüela c). Normalmente, para isolar ruídos agudos, basta colocar anteparos absorventes, como as cartelas de ovo que se colocam nas paredes dos estúdios, fones de ouvido, divisórias de compensado, paredes de tijolos furado, mantas de fibra de vidro, isopor, etc. Mas o ruído grave é muito difícil de isolar, pois ele atravessa esses anteparos.


A faixa de freqüências que o ouvido humano pode captar vai de 16 a 20.000 Hertz. No entanto, ele percebe melhor a faixa que vai de 500 a 4.000 Hertz, que é onde se situam a maioria das músicas que estamos acostumados a ouvir. Os ruídos são os maiores causadores do stress nos ambientes de trabalho. O ruído pode provocar, além da surdez, insônia, dor de cabeça, perda de peso, perda de apetite, falta de ar, problemas intestinais, vômitos, urticária, hipertensão, hipocondria, enfarte e até a loucura, levando ao suicídio e à morte! O ruído pode chegar a causar um curto circuito no cérebro. E tem outro aspecto comprovado cientificamente: existem freqüências de ruído que afetam diretamente determinadas partes do corpo, podendo provocar dores e todos os sintomas anteriormente citados. Pois cada parte do corpo tem sua vibração característica. A Cabeça tem freqüências de 20 a 26 Hertz. Olhos: 32 a 78 Hertz. Ombros: 3 a 5 Hertz. Mãos e braços: 20 a 200 Hertz. Pulmões: 5 a 10 Hertz. Tórax: 50 a 60 Hertz. Antebraço: 10 a 30 Hertz. Mão apertada: 50 a 210 Hertz. Pernas: 2 a 20 Hertz. Os trabalhadores que operam aqueles marteletes de cortar asfalto, por exemplo, podem sofrer lesões nos braços, punhos, coluna ou pernas e até mesmo ficarem completamente surdos, se as freqüências emitidas pelo equipamento estiverem dentro das faixas dos correspondentes órgãos citados. Mesmo os músicos que lidam constantemente com rock pauleira podem sofrer sérias conseqüências com o contato constante com vibrações prejudiciais ao organismo.

O nível de som ou ruído é medido em decibéis. A diretoria de qualquer empresa deve passar a se preocupar com o ruído de qualquer dos seus ambientes, quando ele ultrapassar os 85 decibéis. Pela lei, uma pessoa pode trabalhar sob 85 decibéis durante 8 horas. Mas à medida que o ruído vai aumentando, o tempo permitido de trabalho fica cada vez mais reduzido. A 95 decibéis a pessoa só pode trabalhar durante 2 horas e a 110 decibéis o tempo se reduz a 15 minutos! A partir de 110 decibéis, a coisa começa a ficar insuportável. O chamado “limite da dor” está em torno de 120 decibéis. Para que se tenha uma idéia do que é isso, os marteletes de cortar asfalto (as “lambretas de baiano”) atingem um nível de ruído de 105 a 110 decibéis (e o trabalhador, que fica ali quebrando asfalto o dia todo, “por lei” só deveria ficar trabalhando durante 15 minutos!).


Uma pessoa gritando a uma distância de 60 cm da gente, consegue atingir 77 a 80 decibéis. Logo, pela lei, qualquer pessoa teria condições de suportar trabalhar com alguém gritando do lado durante 8 horas! Mas diz o professor Ibiapina que outros fatores, como os psicológicos e sociais, alteram muito isso. Existe muita coisa muito irritante associada ao ruído. Ele explica, por exemplo, que quanto mais pobre a pessoa, mais ela é barulhenta. O pobre gosta de fazer barulho, gosta de andar com rádio de pilha no último volume e colado no ouvido. O filho do pobre também chora muito alto. Principalmente quando entra na pastelaria. Filho de pobre atinge 95 decibéis de berreiro em pastelaria! E sabem por que? Porque quando o filho do pobre vê o pasteleiro de jaleco branco, ele pensa que é o enfermeiro que sempre lhe aplica aquelas dolorosas injeções de benzetacil. Aí, ele entra em pânico, pensa “lá vem benzetacil” e escala o pescoço da mãe, tentando escapar e berrando! É um problema de neurose aguda, que produz como seqüela um alto nível de poluição sonora. Assim falava o Doutor Ibiapina!


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