Toninho Buda, 20 abril 1998
Paulo Coelho gosta de dizer que só tem medo de avião
e de falar em público. No resto, ele diz que é
macho paca (apesar de pedir proteção a deus
– rigorosamente – três vezes por dia,
diariamente: ao se levantar, ao meio dia e às seis
da tarde). Mas há algumas semanas aconteceu um fato
em que ele demonstrou que é um ser humano comum,
que tem medo de coisas comuns, como medo do escuro, de brigas
e confusões. Prestem atenção, pois
vou contar uma história de arrepiar os cabelos:
O Mazolla, que já produziu vários discos
do Raul Seixas enquanto ele era vivo, descobriu há
cinco anos atrás, uma fita perdida numa gravadora.
Ao ra a -la no aparelho, ele ouviu maravilhado que a voz
era do mesmo Raul Seixas, morto cerca de cinco anos antes
da descoberta da fita. Mas a fita estava em péssimo
estado e, junto com outras pessoas, ele resolveu ra a ra-la
em laboratórios dos Estados Unidos. E esta fita tinha
uma coisa curiosa: nela o Raul cantava vários de
seus sucessos em inglês. Posteriormente, com a ajuda
do Sylvio Passos e dos músicos que tocaram com Raul
Seixas nos anos 70, toda a história foi recomposta.
A fita foi recuperada, os músicos participaram das
novas gravações “em cima” da que
o Raul havia feito e um “novo” disco de Raul
Seixas surgiu – como que por encanto – das profundezas
do passado. Kika Seixas acrescentou então “Asa
Branca”, de Luiz Gonzaga, que Raul havia gravado,
também em inglês, em 1987 (e que deveria ter
entrado no disco “Uah-bap-luh-Bap-Lah-Bein-Bum”).
Com as informações comparadas, pode-se constatar
que aquelas músicas de 1974 eram do famoso “OPUS
666”, o disco que Raul Seixas pretendia lançar
nos Estados Unidos. Então, este lançamento
– na verdade – era a realização
parcial de um sonho do cantor (sim, “parcial”
porque ele queria lançar nos EUA e não no
Brasil. Mas ra a-lo aqui já estaria sendo um grande
feito). Além do mais, o disco tem músicas
inéditas e completamente desconhecidas, como “Faça,
fuce e force”, além da versão inédita
de “Love is Magick” (com fórmulas numéricas,
baseadas na magia sexual de Aleister Crowley: “divida
o número 9, adicione 4 e multiplique. O Amor é
a resposta. Eu sou Deus espalhando Câncer. Sob Vontade.
Amor é a Lei”)...
No entanto, duas das 15 músicas do trabalho eram
assinadas pela dupla Raul Seixas e Paulo Coelho: “Gita”
e “Medo da Chuva”, ambas com suas respectivas
versões em inglês. Assim sendo, elas necessitavam
da concordância de Paulo Coelho, para que fossem incluídas
na “bolacha” e ele foi contactado para as devidas
negociações. Mas sua resposta foi surpreendente:
Segundo Paulo Coelho, as versões para o inglês
destas músicas teriam sido feitas por Marcelo Ramos
Motta, antigo parceiro deles em 1975 (no disco “Novo
Aeon”, em que ele assina com a dupla músicas
como “A Maçã” e “Tente outra
vez”. Marcelo, que era naquela época o chefe
da misteriosa sociedade secreta a que os dois criadores
da Sociedade Alternativa pertenceram, faleceu em 1987, em
Teresópolis, no Estado do Rio de Janeiro). E que
ele – Paulo Coelho – além de não
querer ter mais nenhum contato com as coisas daquele período
que ele considera “negro” em sua vida, teme
que os “herdeiros” de Marcelo Motta venham “reclamar
seus direitos” pelas versões em inglês
destas músicas. Por isso, ele não concordava
que elas – “Gita” e “Medo da Chuva”
- fossem incluídas e redistribuídas no mercado
brasileiro.
Mas uma importantíssima conclusão que nós
podemos deduzir desta atitude do Paulo Coelho é que
ele – Paulo Coelho – tinha muito pouco importância
nos trabalhos que Raul fazia junto com o instrutor de ambos,
Marcelo Motta. Pois o Paulo só participava em 2 músicas
do “Opus 666”! Raul Seixas – então
– era de fato o verdadeiro líder do movimento
da Sociedade Alternativa! E este talvez seja o mais decisivo
motivo do ciúme que o Paulo até hoje demonstra,
com relação a este trabalho do Raul!
E ra piorar a confusão, alguém levantou a
hipótese de que Marcelo Ramos Motta seria primo do
Ministro Sérgio Motta (falecido em 19 de abril de
1998, dia previsto para o lançamento do CD no mercado
nacional e mesmo dia em que foram feitas as gravações
da matéria do Fantástico, no Rio, para divulgação
do mesmo. Segundo o boato, o nome do ministro seria “Sérgio
Ramos Motta”, o que rapidamente se revelou completamente
falso). Na verdade, fontes limpas nos informaram –
poucos dias antes da redação desta matéria
– que no atestado de óbito de Marcelo Ramos
Motta está escrito que ele “não deixou
herdeiros” (aliás, seu sepultamento ainda é
um mistério total. Ele morava sozinho e foi encontrado
morto por vizinhos. Segundo alguns, ele teria sido sepultado
por uma “mulher que veio dos Estados Unidos”...).
Mas finalmente, depois de um esforço da equipe chefiada
pela Kika Seixas e pelo Mazolla, o CD está na praça.
Ele contém uma importante carga energética
e ideológica da proposta de Raul Seixas com relação
a “Thelema” (“Lei da Vontade”, que
era a base de seu trabalho). Quanto à atitude do
valente Paulo Coelho, que morre de medo dessas coisas “demoníacas”
do Raul Seixas, eu gostaria de dar uma notícia consoladora
para o público brasileiro: as duas músicas
que ele “proibiu” de sair, já estão
no mercado há 10 anos: “Gita” –
em inglês – o próprio Raul Seixas incluiu
no LP “A Pedra do Gênese”, de 1988. E
“Medo da Chuva” em inglês (“Fear
of the Rain”) está no CD do cantor paulista
Tukley, chamado “Raul Seixas in Concert”. Quanto
ao Paulo Coelho, acho que ele deve acrescentar mais uma
importante oração na sua carga diária:
todo dia, à noite, na hora de dormir, pedindo a Deus
que não deixe o Marcelo Motta puxar o seu pé
no escuro.