CONTRACULTURA

O VAMPIRO DOIDÃO

Toninho Buda, 16 março 1998


Na sexta feira 13 de março de 1998, eu recebi uma ligação do nosso grande produtor Pena Schmidt. E como sempre acontece nessas ocasiões, o papo rendeu viagens que eu quero dividir com os nossos amigos leitores. Vejam que coisa: O Pena me contou que está produzindo o CD de uma banda chamada “Comunidade Ninjitsu” e que eles colocaram neste CD o trecho de uma música cujo autor era para eles até então desconhecido (ele até recitou um dos refrões mais populares da letra dessa música, que diz “Maconha no almoço, maconha no jantar, maconha está virando produto alimentar”). Por questões éticas e até de direitos autorais, eles fizeram uma pesquisa e acabaram descobrindo que a música era “minha”. Ela se chama “Vampiro Doidão”.

Antes de continuar, eu gostaria de dizer - para quem não sabe - quem é o Pena Schmidt. Uma parte considerável da história da música popular brasileira passou por suas mãos. Ele já lançou e produziu vários grupos do porte dos Titãs e sempre esteve colado com figuras como o nosso querido Raul Seixas. Do Raul ele produziu o último disco, “Panela do Diabo” e o Sylvio Passos - Presidente do Raul Rock Club de São Paulo - tem nos seus arquivos 4 horas de gravações de uma entrevista que o Pena fez com Raul Seixas em 1976, para a revista Música (na ocasião, o Maluco Beleza estava lançando “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”). Mas voltemos ao assunto do vampiro.


Eu expliquei ao pena que era uma pena, mas a versão que eles gravaram não é minha. Na verdade, existem diversas versões para a história desse vampiro super legal. E a minha não tem o tom alegre e brincalhão das outras letras. O “meu” vampiro não se dá bem no meio dos outros vampiros (ele detesta sangue fresco) e nem entre os seres vivos. E sofre terrivelmente com suas contradições existencialistas: vai à missa, reza e se esforça, tentando se “reintegrar” à sociedade dos seres normais. Ele diz, por exemplo: “detesto sangue fresco, saúde e malhação. Prá dar uma mamada eu prefiro menstruação”; “vi Jesus desmunhecando na crucificação. Aquele sangue no pezinho me deu o maior tesão!”; ou ainda “Domingo eu fui à missa, rezar com o sacristão. Depois fumo lá prá casa fumá dentro do caixão. Eu sou o Vampiro Doidão! Eu sou o Vampiro Doidão”.

A “letra” que os Ninjitsus gravaram realmente pertence ao folclore da cidade de São Tomé das Letras e - até onde eu saiba - tem autor desconhecido. Como o assunto da música é a maconha, pode parecer curioso que o Planet Hemp, Gabriel o Pensador ou o Barão Vermelho nunca tenham se interessado em gravá-la antes do Comunidade Ninjitsu. Mas uma pesquisa mais cuidadosa irá mostrar também que várias letras foram colocadas nesta mesma música, que é um dos padrões básicos dos rocks pré históricos, aquele rockão primitivo que “bateu”, deu certo e incendiou a juventude para o movimento beat, o movimento hippie e a contracultura (esta questão dos “padrões básicos do comportamento ligado à música e à poesia” é uma questão filológica importantíssima, que tem dado abertura a avançadas pesquisas no campo da “Meme”... falaremos disso daqui a pouco).


Mas uma chave importante para descobrir de onde vem toda a história desta música está no disco dos mutantes “Mutantes e seus Cometas no País do Baurets” (baurets: “baseado”, naqueles tempos) com a música “Posso Perder Minha Mulher e minha Mãe, desde que eu Tenha o Rock’n’Roll”. Quem observar com cuidado o nome da música, vai logo identificar que ela tem a mesma idéia de um clássico do rock que diz “você pode botar fogo na minha casa, roubar o meu carro e acabar comigo, mas não pise no meu sapato azul de camurça”.

Isso mesmo: tanto o título quanto o ritmo da música dos mutantes e todas essas versões do vampiro doidão de que falamos até aqui são calcadas em cima de “Blue Sued Shoes”, de Carl Perkins (imortalizada na voz de Elvis Presley). A versão dos Mutantes diz: “domingo de manhã saí prá caçar rã, no meio do caminho encontrei a sua irmã... que sarro!” (Por sinal, os Mutantes são destaque da edição de fevereiro de 1998 da revista musical norte-americana "Spin", em reportagem de meia página escrita por Richard Geher, que a define como "a primeira banda de rock'n'roll do Terceiro Mundo"). Nos anos 70, uma outra leitura de “Blue Sued Shoes” apareceu entre os surfistas dourados, adicionando adrenalina na panela dos vampiros: “no cabelo parafina, no bolso cocaína”...

Mas falemos da “meme”: a meme é resultado de um novo tipo de pesquisa nas profundezas do cérebro humano. Os cientistas descobriram que - assim como existe um código genético (chamado DNA) para os organismos vivos -, existe também um código “genético” para a alma e a cultura. E na conversa que eu tive com o Pena Schmidt, nós começamos a desconfiar que esse vampiro doidão que vagueia por entre as fogueiras dos hippies em São Tomé das Letras, pode ter milhares e milhares de anos. E ele pode ter vindo vagando ao longo dos séculos, batucando e cantarolando desde o início da formação da consciência nos primatas, no fundo escuro das cavernas pré-históricas! E ele continua sua peregrinação, nunca se importando que se arranque dele tudo o que se puder tomar. Mas desde que o deixem com o seu baseado - para o reconhecimento de novos mundos -, seu surrado sapato de peregrino e seu bom e velho Rock’n’Roll!...


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