CONTRACULTURA

CARLA PEREZ É SINERGIA PURA

Toninho Buda, 12 fevereiro 1998


Certa vez, lá pelos idos de 1992, eu estava conversando com o Sr. Martin Claret sobre como fazer livros de uma forma mais fácil. E foi aí que pude ouvir pela primeira vez o conceito de “sinergia”. Ele me disse que - em muitos casos - nós não precisamos criar nada. Basta fazer uma “sinergia” do que já existe publicado por aí. Esta palavra tinha para ele o sentido de “aproveitamento” ou até “reciclagem”. Aí ele citou o exemplo da coleção “Fulano de Tal por Ele Mesmo”, que são livros montados a partir de entrevistas dadas - por exemplo - por Elvis Presley durante toda a sua vida. A técnica consiste em pesquisar, pegar todas as entrevistas que for possível conseguir e montar um livro chamado “Elvis por Ele Mesmo”. Ou seja, ali naquele livro o Elvis está “falando dele mesmo”. Vejam só que idéia! Mas além de serem úteis para pesquisadores, estes livros de baixíssimo custo vendem como pipoca na porta de Fla-Flu.

Aliás, até os músicos atuais estão fazendo essa tipo de “sinergia”, mas de uma forma mais simples ainda: quase todos eles estão relançando seus sucessos com o rótulo de “acústico”. Assim, eles não precisam nem pesquisar, nem nada. É só ir no arquivo, escolher e regravar. E todo mundo re-escuta, maravilhado, como se fosse a primeira vez que está ouvindo aquilo! “Você já ouviu o novo disco do Titãs, o ‘acústico’? Noooossa, é o melhor disco da carreira deles!” Vocês podem não acreditar, mas eu juro que eu ouvi isso outro dia! E dito por um músico!


Mas há alguns dias eu fiquei encucado novamente com esta palavra e fui ver no dicionário o que ela significa. Pois é, “sinergia” não quer dizer bem isso não. Sinergia é uma palavra do vocabulário da medicina e sua definição mais simples é “ação conjunta de vários órgãos ou músculos para realizar uma função”.

Vejam só que coisa interessante: a mastigação, por exemplo, é uma função sinergética. Nela entram em operação simultânea vários músculos da face, os dentes, a língua e as glândulas salivares. Tudo isso trabalha em conjunto para iniciar a digestão dos alimentos que ingerimos. Logo em seguida, a comida vai para o estômago, onde, como diz o Falcão: “em lá chegando, há todo um aparato, pois existe um ácido, produto fino. Que pega tudo e faz uma gosma, sem jeito e sem forma e joga no intestino”. E quando os processos sinergéticos não andam bem, surgem os sintomas, as dores e as doenças.

E já que o pessoal tomou a liberdade de estender o conceito de sinergia para “reciclagem” (onde vários artigos se unem para “realizar” um livro), eu acho que com muito mais legitimidade nós podemos estender este conceito para a saúde global do indivíduo e até para as relações humanas. Uma empresa vai bem quando cada um executa a sua função “sinergéticamente”. Acredito que cada pessoa de uma equipe deva se comportar como o fígado, o estômago, os rins, os pulmões e todos os outros órgãos se comportam no organismo humano. Se o indivíduo raciocinar e buscar se comportar como um “órgão” de seu grupo, as coisas se encadearão de uma forma muito mais “orgânica”, muito mais natural. A maior dificuldade parece ser identificar qual o seu papel correto.


Mas voltemos ao conceito de saúde, para associá-lo aos processos sinergéticos. A produção de energia no nosso organismo parece obedecer a padrões razoavelmente conhecidos. Por exemplo, nós sabemos que 1 grama de gordura libera 9000 calorias (ou 9 Kcal) quando é queimada. Os homens precisam aproximadamente de 2500 Kcal e as mulheres 1800 Kcal para “funcionarem” o dia todo. Nosso organismo não para nunca e precisa estar aquecido e funcionando 24 horas por dia.

Mas existem casos excepcionais, onde não se sabe onde é que a pessoa consegue tanta energia. Um exemplo simples é o carnaval, onde a quantidade de combustível necessário para um indivíduo pular durante 4 dias e quatro noites é muito superior à que ele disporia no seu organismo. De onde vem isso? Como é que pessoas comuns conseguem fazer mais esforço concentrado durante 4 dias do que os maratonistas e atletas muito bem treinados conseguem em corridas de 50 ou 100 Km?

Eu acho que o segredo está na música. A música potencializa de tal forma os processos sinergéticos ligados à produção de energia, que nós somos capazes de produzir movimento de uma forma que normalmente nunca conseguimos. E assim a música produz desintoxicação, relaxamento, alegria e saúde de uma forma muito poderosa. Talvez o sucesso de Carla Perez esteja na mágica energia que ela consegue transmitir quando está dançando. Qualquer pessoa sente que ela não tem nenhum bloqueio, nenhum impedimento, nenhuma preocupação a não ser seguir o balanço do seu próprio coração embalado pelo batuque que vem desde a aurora dos tempos.


O coração começa a bater na quarta semana de vida do feto. E seu ciclo de formação e libertação da mãe se completa quando ele respira pela primeira vez. É de tirar o fôlego! Carla Perez fala ao nosso coração porque ela toda se assemelha a um coração pulsando. Até a sua bunda, quando ela dança, se parece com um enorme coração alegre e destramelado. E o seu sorriso encanta porque nasce de uma alegria que só quer ser alegre e mais nada. A sua espontaneidade não tem mentiras, reciclagens ou espertezas. Ela é aquilo, simplesmente aquilo. Onde quer que esteja, ela simplesmente dança. E encanta. Eu acredito que a nossa tristeza surge quando - de alguma forma - nós mentimos para nós mesmos. Uma imagem vale mais do que mil palavras. Se eu tivesse que conceituar sinergia, mostraria a imagem dela dançando. Carla Perez é sinergia pura.

 


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