CONTRACULTURA

ROBERT MIRABAL - Rock’n’Roll & Música Indígena

Toninho Buda, 5 novembro 1997


No sábado, 25 de outubro de 1997, a TV Bandeirantes exibiu o especial “Supla de Nova Iorque” daquele dia, sobre o índio Mirabal. O clip durou apenas os 5 minutos disponíveis, mas o assunto me pareceu muito interessante. Alguns dias depois eu recebi da produtora do Supla (Mônica Dusi Rocha) um material a respeito e achei muito importante falar aqui sobre isso. Principalmente devido ao respeito com que os nativos são tratados em toda a cultura “civilizada” norte americana. Pois isto não se verifica no Brasil (o cinema americano, por exemplo, sempre apresenta os Comanches, Navajos, Cherokees e pés-pretos como valentes, heróicos e adversários ferozes. Até hoje me lembro de um filme que eu assisti quando adolescente e cujo slogan era “Comanche: a nação que matou mais homens do que qualquer outra tribo indígena”). Mesmo na América Central, nós encontramos Yma Sumac cantando as músicas dos caçadores de cabeça (uma coisa de arrepiar...).

Mas isso não acontece entre nós. Afora poucos personagens históricos existentes em obras como “Iracema”, nós não temos índios brasileiros que tenham conseguido uma expressão artística nacional. Alguns grupos de rock como os Titãs – talvez até por falta de assunto – chegaram a fazer experiências como a do mendigo do blesquibão e o Lobão gosta de misturar escola de samba com rock (os negros conseguem sempre um espaço enorme na nossa música). Mas e os nossos índios? Os poucos que ainda restam perambulando por aí, costumam ser espancados e até incendiados como diversão...


O índio Mirabal nasceu numa comunidade indígena com um conglomerado de 22 tribos chamado Taos Pueblo, em Santa Fé, no norte do Novo México. Mesmo tendo nascido entre os índios, ele cresceu com o rock & roll. No início de sua carreira musical, ele tocava apenas a flauta tradicional indígena. Com o crescimento da popularidade da música New Age, ele foi gradativamente sendo reconhecido como um grande flautista. Mas por outro lado, ele também aprendia a cultura pop com artistas tão variados como B.B. King, Bob Dylan, grupos de gaita de foles da Escócia e de dança flamenga da Espanha. Mirabal chegou a assistir vários shows desses artistas em Taos Pueblo. Mais tarde, ele viajou pela Rússia, Haiti, Escócia, Inglaterra e todos aqueles lugares que – como ele mesmo diz – “só conhecia através da National Geographic”.

Em 1990 apareceu sua primeira grande oportunidade, quando conheceu os dançarinos japoneses Eiko e Koma, que o convidaram para escrever o roteiro de uma peça que acabou se chamando “Land”. Nela, ele combinou o instrumental da música nativa americana com os vocais de influência euro-americana. Foi muito aplaudido pela crítica dos EUA, Europa e Japão. Isso foi muito importante para que, no ano seguinte, ele fosse contratado pela Warner. Seu primeiro grande trabalho musical chama-se “Hope” (“Esperança”), composto a quatro mãos com Mark Andes (que também tocou guitarra, baixo, percussão e vocais). “Hope” é “uma fascinante viagem através de vales, montanhas e vários planos de emoção e indagações espirituais em músicas como ‘Medicine Man’, ‘Little Indians’, ‘The Dream’ e ‘Witch Hunt’ (‘caça às bruxas’...)”.


O show de Mirabal é um autêntico show de rock tradicional, mas sua performance no palco incorpora a magia das danças tribais indígenas, com movimentos que às vezes são muito semelhantes ao jogo de capoeira brasileiro (será que existiria uma ligação antediluviana entre a origem da dança africana e da dança dos índios norte-americanos?...). É interessante observar que essa agilidade comum aos negros e índios americanos é bastante diferente da rigidez corporal com que dançam os índios brasileiros (será que poderiam haver ligações entre essa rigidez física e rigidez mental, capacidade criativa e capacidade de adaptação? São só perguntas e nenhum preconceito, por favor!).

Mas Mirabal tem também um discurso que fala sempre de esperança, crítica social e contracultura (de uma forma por sinal muito rica). Sentado na grama do Central Park em Nova Iorque, ele falou à equipe do Supla: “eu busco luz, eu busco um melhor lugar para viver. Eu busco a esperança que existe dentro de todas as pessoas. Eu busco a esperança que existe dentro de você”. E ainda: “eu faço um trabalho de ironia contra a era dos computadores. Eu debocho dos rackers. As pessoas estão ficando obcecadas com a tecnologia e um dia isso vai se voltar contra elas”.

Observando então a riqueza de um trabalho como o de Robert Mirabal, eu fico pensando na tristeza que é contemplar o que restou dos nossos Caiapós, Tupis, Xavantes, Guaranis, Cataguases... E numa análise responsável do atual quadro em que eles se encontram, nós não podemos deixar de admitir que a responsabilidade do seu desaparecimento é nossa. Nós – historicamente – os desrespeitamos, exploramos, aniquilamos e estruímos. Neste aspecto, a grande diferença entre a nossa cultura e a dos norte americanos é que lá, assistir a um show dos nativos não é considerado nenhum “programa de índio”.

 


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