CONTRACULTURA

PLANET HEMP NA CADEIA

A Inquisição Mostra as Suas Armas

Toninho Buda, 10 novembro 1997


Quando foi divulgado na sexta feira (7/11/97), que a banda Planet Hemp havia sofrido mais uma intensa perseguição em B.Horizonte, eu já intuí que eles estavam perto de serem presos de forma definitiva e inafiançável, como no domingo o foram em Brasília. Pois Belo Horizonte - apesar de ser hoje uma cidade muito bonita, limpa e progressista -, parece ainda não ter conseguido se livrar do passado conservador, do peso da sua tradicional família mineira e das suas belas mulheres assassinadas de forma cruel e selvagem (por terem assumido publicamente seus casos extra-conjugais). No centro de B.Horizonte existe uma estátua do Tiradentes com uma corda no pescoço. Aquele monumento é um símbolo da busca da liberdade, mas não deixa de ser também um símbolo da perseguição daqueles que se atrevam a ser contra o regime vigente. E a polícia mineira parece manter ainda bastante deste truculento e antigo cuidado com os bons costumes.


O mais curioso é que - no meu entender - o maior problema do Planet Hemp não se prende ao alegado “incentivo ao uso de drogas”. O problema principal do Planet Hemp está na sinceridade e honestidade de seu líder, que fala com a maior tranquilidade coisas como: “da mesma forma como você toma uma cervejinha depois do trabalho, eu fumo maconha. Você gosta de cerveja e outros gostam de cigarro. Mas eu gosto de maconha. Eu fumo maconha”. É simples, mas é inaceitável! Numa sociedade onde a própria Lei é um estímulo à hipocrisia, a única coisa realmente inadmissível é a sinceridade. Você pode ser uma prostituta, um homossexual negro e pobre ou um viciado irrecuperável. Mas fique na sua e triste, de preferência. Não corra nunca o risco de assumir isso publica e “desavergonhadamente”. Senão você pode ir para a forca!

Eu assisti ontem ao filme “As Bruxas de Salem”. O filme serve para ilustrar de forma muito clara isto que estou falando. Nele, o protagonista se vê finalmente diante de um dilema terrível e mortal. Se ele mentir e assinar um documento dizendo que fez pacto com o diabo, ele será “perdoado dos seus pecados” e libertado. Mas se ele disser a verdade e declarar que nunca fez isso e que não acredita na existência do capeta, ele será morto por “estar negando os ensinamentos da Igreja”. Mas todos sabem - inclusive os inquisidores - que ele tem razão. Todos sabem que as historinhas de demônios são conversa prá boi dormir. Depois de um dilema imenso, o protagonista resolve ser fiel à sua dignidade. Então ele não aceita mentir para agradar aos inquisidores e morre na forca. E até a plebe ignara que assistiu à execução, percebeu que aquilo tinha sido mais um crime hediondo da Igreja (o filme é baseado em fatos reais).


Nós podemos estar certos de que o caso do Planet Hemp é parecido! Eles estão fazendo sucesso porque são sinceros. Eles estão apavorando o sistema porque são sinceros. Se eles fizessem cara de arrependimento quando fossem presos, assinassem documentos falsos de retratação e depois passassem a colaborar com as campanhas anti-drogas, talvez até fossem convidados para jantar com o Presidente da República. Mas assim, da forma como estão fazendo, eles estão se transformando num espelho muito difícil de ser encarado pelos inquisidores que - eles sim - deveriam estar lá dentro das jaulas. Pois estes inquisidores transformaram as drogas numa “coisa do demônio” e não podem admitir que ninguém diga que esse “terrível diabo” não tem nada de tão feio assim. Pois eles querem continuar fazendo o papel de exorcistas.

A histérica perseguição e prisão do Planet Hemp pode ser vista como mais um equívoco e até um crime da coligação Igreja-Estado. E o que é pior: os países mais desenvolvidos já estão provando que este tipo de repressão grosseira é ineficiente, equivocada, prejudicial e só faz aumentar as dificuldades para compreensão e real orientação das populações quanto aos possíveis riscos de se lidar com um mercado que movimenta ilegalmente bilhões de dólares. A sociedade precisa urgentemente amadurecer uma orientação inteligente para o caso das drogas.. Tanto a nível educacional, como a nível médico e político.

Os ingleses fizeram pesquisas minuciosas e chegaram há poucas semanas à conclusão de que os usuários de drogas estão muito longe dos estereótipos de pessoas “desajustadas, infelizes e precisando de fuga da realidade”. Existem pessoas “destruídas pelas drogas”, sim. Mas elas são uma minoria. Eles constataram que a grande maioria dos usuários são pessoas normais, comuns, inteligentes, razoavelmente sadias e que usam drogas de forma “recreativa”. É um mercado poderoso, inteligente e que obedece aos mesmos padrões de “busca de prazer e satisfação interior” que norteia toda a nossa propaganda e marketing. E se o Planet Hemp - com aquele jeitão de galera de rap -, faz alguma “apologia” do uso de maconha, nós podemos estar certos de que a esmagadora maioria dos “usuários” não está nem aí para o que eles estão dizendo! E nem os jovens de hoje são tão idiotas de seguirem tudo o que se sugere na mídia em geral...


Então não adianta botar os brucutus na rua, distribuir porrada na molecada e tentar amedrontar quem se aproxima do “perigoso” Planet Hemp. Pois essa educação de palmatória e ajoelhar no milho já foi superada há muito tempo. Aquele horroroso escorpião de rabo de seringa pode não estar conscientizando ninguém, apesar dos altos custos de sua veiculação em horário nobre. A inteligência média dos usuários de drogas está muito acima do QI da polícia, da medicina e dos “educadores” que tentam diminuir os problemas gerados pelo aumento do consumo de drogas.

Vale lembrar ainda que o Marcelo D2 - líder do Planet Hemp -, desmontou com sua sinceridade e honestidade toda a “truculenta” cultura e fluência do Jô Soares, durante a entrevista da semana passada (4/11/97) no programa do gordo. Talvez o fato dele ter conseguido essa proeza tenha assustado ainda mais os conservadores de plantão (pois o próprio Jô “posou” de “defensor dos bons costumes” diante do Planet Hemp). E não há nada que amedronte e assuste mais o conservador do que o irreverente!... De qualquer forma, o caminho não é por aí... Essa violência só vai gerar mais violência. Vamos torcer para que este caso do Planet Hemp sirva pelo menos para nos mostrar o quanto esta hipocrisia generalizada é patética e inútil. E o quanto ela atrasa a tomada de atitudes e providências eficientes para a solução dos nossos problemas sociais. Pois até a Vera Fisher resolveu deixar o fingimento de lado e assumir, no Fantástico de ontem (9/11/97), que é uma dependente química e que está agora realmente tentando entender e administrar isso. Mas que continua bonita, inteligente, jovem e disposta a melhorar sua qualidade de vida. Quem é inteligente e tem um mínimo de responsabilidade, não atribui suas mazelas às artes do capeta. E nem fica vendo o capeta em bandas de rock.

 


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