CONTRACULTURA

TROPICÁLIA & CONTRACULTURA

Reflexões Acerca da Revisão da História

Toninho Buda, 29 outubro 1997


Se nós formos levar em conta vários fatos da história da Tropicália e da Contracultura no Brasil, talvez “Tropicália X Contracultura” fosse o título mais apropriado para este texto. Pois esta “rivalidade” entre as duas correntes realmente existiu e parece mostrar seus reflexos até hoje. E isto demonstra tanto a força dos dois movimentos quanto o quanto suas propostas perderam em potência, por não compreenderem que estavam lutando contra os mesmos “inimigos”.

Estamos assistindo ao aparecimento de várias obras fundamentais para que compreendamos o que aconteceu naqueles “anos loucos”. Entre eles há que se destacar o relançamento da biografia “Many Years From Now”, do biógrafo Barry Miles, sobre a vida de Paul McCartney (focalizando principalmente o relacionamento entre Paul McCartney e John Lennon, no período entre 1958 e 1970. Barry Miles já escreveu também as biografias de Bob Dylan, Syd Barret, William Burroughs e Allen Ginsberg. Este livro é de fundamental importância para a compreensão do fenômeno “The Beatles” e da contracultura, que era um movimento a nível mundial. Ele mostra a visão de Paul McCartney, num mundo habituado apenas com os depoimentos de John Lennon).


E há que se destacar também “Verdade Tropical”, de Caetano Veloso (524 páginas, Companhia das Letras). De nível nacional, este livro versa sobre o movimento da Tropicália, liderado pelo autor e Gilberto Gil durante dois anos, a partir de 1967 (curiosamente dentro do período também enfocado por “Many Years From Now” (58/70) e englobando 1968, o ano em que a juventude do mundo todo explodiu como um vulcão. Este é também o ano em que surgiu no Brasil o Ato Institucional Número 5, o torniquete político que esmagou toda a liberdade de expressão, incluindo a Tropicália. Assuntos como “1968”, a “Guerra Civil Espanhola” e o “holocausto dos judeus” são exaustivamente focalizados pela imprensa. Mas nunca é demais “reciclá-los”, devido à importância que eles tiveram para a civilização atual).

Eu ainda não pude ler o livro de Caetano, que nesta data (29/10/97) ainda não chegou às livrarias. Mas tenho acompanhado atentamente o que é publicado a respeito. E do alto dos meus 3/10 de Século contemplando esta história, fico me perguntando por que é que tudo o que é contra o sistema instituído tem que ser “dividido contra si mesmo”. Neste livro, Caetano declara que a Tropicália era um movimento “autônomo”, que permitia que seus artistas se movessem “além da vinculação automática com a esquerda” (Pela própria postura contestatória dentro de uma Ditadura Militar, esta vinculação dos artistas de temperamento “rebelde” à esquerda política, era quase que “obrigatória”. Mas esta vinculação não aconteceu com a “Tropicália”, nem com a “Jovem Guarda” e nem com a “Sociedade Alternativa” de Raul Seixas. Todos eles eram - à sua maneira - contra o sistema e contra a ditadura militar. Mas também se estranhavam entre si, disputavam espaços e falavam mal uns dos outros!).


Hoje os tempos são outros, a “realidade” e o “mundo” são outros. Alguns referenciais importantes daquela época - como o “comunismo” e o “imperialismo americano” - desapareceram. E mudanças dessa ordem podem dificultar em muito a compreensão dos meandros da história. Mas eu fico feliz que - nesta “revisão’ daquele período a que estamos assistindo -, ainda possamos contar com depoimentos como o de Luis Carlos Maciel. Ele é uma pessoa que participou diretamente do Tropicalismo e da contracultura. Morava na Bahia nos anos 60. Vale relembrar que, além de ser o autor do livro “Geração em Transe”, sobre o Tropicalismo, ele tinha uma coluna chamada “Underground” no famoso semanário “Pasquim”. Através daquele jornal - que era um símbolo da resistência da esquerda política convencional-, ele dava notícias do que estava acontecendo na contracultura mundial. A existência deste trabalho dele num jornal de esquerda é mais um sinal da afinidade entre todos aqueles que criticavam e questionavam a ditadura militar.

E é dele - Maciel - esta frase sintética e conciliadora, capaz talvez de enfurecer os adeptos mais fanáticos de uma ou outra das correntes citadas: “o Tropicalismo foi uma espécie de contracultura genuinamente brasileira”. É dele também a frase que diz que “isso foi o que o Tropicalismo fez, acabou com a história de que para ser brasileiro tinha que ter pandeiro, samba e baião”. Ora, o mesmo pode se dizer também da Jovem Guarda e da Sociedade Alternativa. Então - concordando com o Maciel - eu acredito que as semelhanças dentro destes movimentos são muito mais significativas do que as diferenças.


A “Jovem Guarda” de Roberto Carlos era “inimiga” dos “tropicalistas” e da “Bossa Nova”, que por sua vez eram “inimigos” da “Sociedade Alternativa” de Raul Seixas. E pelos motivos mais bobos, como o uso ou não de guitarra elétrica e a simpatia ou não pelo rock “americano”... Ninguém, na época, parece ter percebido que suas lutas tinham um sentido comum, um objetivo e propostas que poderiam ser somados ao invés de divididos! E é pelo menos curioso que agora, 30 anos depois, Caetano perpetue definitivamente sua acidez contra Raul Seixas, ao destilar neste livro este comentário sobre o Maluco Beleza: “em seus discos e em suas apresentações ao vivo, tudo o que não era americano, era baiano”. No entanto, essas rusguinhas não o impediram de gravar músicas do Raul. Bem como não o impedem de manter um profundo relacionamento de amizade e parceria com Roberto Carlos (existe algum artista nacional hoje, que possa ser mais rotulado de “direita” do que o Rei ?). Outros artistas, como a cantora Joyce, também estão lançando suas memórias. Rita Lee faz questão de relembrar “que também estavam naquele barco” e continua fazendo músicas contra o serviço militar. Outros, que decididamente não estavam, hoje estão querendo achar uma brecha para dizer que estavam sim...

E Caetano Veloso - que continuou remando aquela canoa furada contra a maré -, hoje está “montado” num iate onde todos querem passear. E nesta festa toda, é natural que a história seja contada, retocada e readaptada pelos sobreviventes. Tomando alguns cuidados, nós poderemos aprender bastante sobre a maior revolução que a humanidade já conheceu em toda a sua História. Principalmente não esquecendo uma das frases que os hippies utilizaram para proteger o seu trabalho do envelhecimento e dos velhos:
“Não confie em ninguém com mais de 30 anos!”.


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