Toninho Buda, 2 setembro 1997
Quando eu era criança bem pequena lá em Três
Corações, eu evitava olhar para aquelas montanhas
onde ficava São Tomé das Letras. Pois todo
mundo falava que lá tinham acontecido coisas terríveis,
como a história do “7 Orelhas” (um homem
que, para vingar o irmão que havia sido esfolado
vivo, perseguiu durante muitos anos os 7 assassinos e os
matou, um a um. E a cada morte, ele ia acrescentando uma
orelha do defunto no macabro colar que resolveu fabricar
e ir carregando ao redor do próprio pescoço...
).
Com o passar dos anos, eu fui tomando conhecimento de que
São Tomé tinha também histórias
ligadas ao movimento da Inconfidência Mineira e lendas
que produziram e continuam produzindo esperanças
de ligações com civilizações
extraterrestres. No final da década de 50, quando
eu tinha então meus 10 anos de idade, São
Tomé ainda era quase que completamente isolada e
esquecida da “civilização”. Só
se conseguia chegar até lá a pé, a
cavalo ou de “jeep”. E foi de “jeep”
que eu subi para lá pela primeira vez, por volta
de 1965. E me deparei com um verdadeiro “sítio
arqueológico”, um “jurassic parc”
intacto desde os tempos da escravidão e da Inconfidência
Mineira... Desde então, o interesse por aquelas montanhas
tem atraído para lá todo tipo de pessoa. Inclusive
Zé Ramalho, que lá esteve pela primeira vez
no início da década de 70 e nunca mais deixou
de frequentar e fazer shows naquele lugar.
O curioso é que eu sempre acompanhei as notícias
da presença de Zé Ramalho em São Tomé
das Letras, mas pouco sabia dos motivos dessa ligação.
E somente agora, com o lançamento do livro de minha
amiga Luciane Alves “Zé Ramalho - Um Visionário
no Século XX” é que eu fiquei sabendo
maiores detalhes dessa história (a Luciane é
Bacharel em História pela PUC/SP e uma dedicada pesquisadora,
com vários trabalhos já publicados. Entre
eles os livros “O Trem das Sete” e “Raul
Seixas e o Sonho da Sociedade Alternativa”). E eu
pude constatar também a importância de que
existam documentos escritos que possam permitir o estudo
e o conhecimento das ligações entre o trabalho
musical de um artista e a cultura dentro da qual ele desenvolve
ou desenvolveu este trabalho. Principalmente quando uma
cultura rica como a nossa é interpretada por um talento
inimitável (mas talvez pouco compreendido), como
o de Zé Ramalho.
Pois vejam só: no início da década
de 70, Zé Ramalho e seu parceiro Lula Côrtes
estavam tentando desvendar os “segredos de Sumé”.
Dentro desta busca, eles fizeram uma viagem para Ingá
do Bacamarte, na Paraíba, em busca de “sinais”
da passagem do lendário Sumé pelo planeta
Terra. Segundo a lenda, o grande feiticeiro de cabelos e
barba vermelhos, fugindo dos índios canibais Cariris,
passou pelo Ingá e por todo o sertão até
Machu Pichu. Ele teria passado também pelo México,
onde ficou conhecido como Quetzalcoalt. No Peru, foi chamado
de Viracocha, líder dos construtores de Machu Pichu.
Para os índios Tupis, do Maranhão, ele era
o Mairatá. Para os Caiapós do Alto Xingu,
no Pará, ele era o Bep-Kororoti, o “carregador
da borduna trovejante”. Sua caminhada ficou conhecida
como “Paebiru - O Caminho da Montanha do Sol”.
Nesta viagem à Paraíba, Zé Ramalho
e Lula Côrtes chegaram à conclusão de
que as inscrições da “pedra do lagarto”
eram anteriores aos cariris e à passagem de Sumé
por nossas terras (Como no “mito da caverna”,
quem foi em busca de uma luzinha que aparecia na escuridão,
se deparou com um Sol ofuscante, que torna tudo muito mais
escuro ainda)...
E foi nesta onda que Zé Ramalho e Lula Côrtes
produziram em 1974 o disco “Paebiru”, que começa
com a música “Os Segredos de Sumé”.
Ele é dividido em quatro partes, relacionadas com
os quatro “elementos” (Fogo, Terra, Água
e Ar). Mas o mais arrepiante é que existem também
vestígios de que Sumé teria passado pela região
onde hoje é São Tomé das Letras! Uma
das histórias mais curiosas da região diz
que, há muito tempo atrás, o desbravador Lourenço
Taques expulsou os índios Cataguases da região
onde fica hoje a cidade de Caxambu, no Sul de Minas. Os
índios então recuaram para a serra onde fica
hoje a cidade de São Tomé das Letras. Continuando
a perseguição, Lourenço Taques conseguiu
encurralá-los e os índios depuseram as armas
num local onde existia uma gruta cheia de inscrições
indecifráveis. Depois de dominá-los, Lourenço
lhes perguntou quem havia feito aquelas inscrições.
E eles responderam: “Foi Sumé”. Quando
ele lhes perguntou de onde teria vindo esse tal Sumé,
eles disseram: “das estrelas”...
A tal gruta hoje está no centro da cidade de S. Tomé
e as inscrições podem ser vistas por qualquer
visitante. Muito tempo depois do desbravador Lourenço
Taques, os Jesuítas que chegaram àquela região
espertamente aproveitaram a semelhança dos dois nomes
e conseguiram fazer crer que “Sumé” era
“São Tomé” (apesar da absoluta
impossibilidade do apóstolo Tomé ter passeado
pela América do Sul nos tempos de Cristo). “São
Tomé das Letras” é o nome que evidentemente
faz a ligação de S.Tomé com as “letras”,
ou seja, os hieróglifos que até hoje intrigam
os pesquisadores do mundo todo. E para coroar todos esses
mistérios, a imagem de São Tomé, que
estava no altar da igreja daquela cidade desde 1785, desapareceu
na madrugada de 29 para 30 de março de 1991, Sexta
Feira da Paixão, para nunca mais ser encontrada...
Bem, gente, outras histórias a gente pode encontrar
no livro da Luciane. Segundo ela, Zé Ramalho é
“um mestre que veio nos apontar o caminho da consciência.
Um caminho onde devemos colocar primeiro a gratidão
e a humildade, pois estes são os principais itens
para construirmos um mundo sem fronteiras. O mundo do qual
nosso poeta/visionário nos diz que vai existir do
Terceiro Milênio para frente”. O livro está
programado para ser lançado pelo selo Nova Era, da
Editora Record, no dia 3 de novembro de 1997, na Livraria
Argumento, Leblon, Rio (Eu estou escrevendo este artigo
com 40 dias de antecedência e espero que tudo ocorra
conforme o planejado). O lançamento é também
uma homenagem ao aniversário do cantor (49 anos completados
dia 3 de outubro) e aos 12 discos de sua brilhante carreira.
Zé Ramalho e a Luciane estarão presentes.
Nós também. E até alguns visitantes
da Constelação de Orion prometeram prestigiar
o evento... Vamos lá ?!...