(Esta matéria teve sua publicação
vetada pelo jornal Internacional Magazine)
Toninho Buda, 30 agosto 1997
Existia antigamente um rádio “Semp” que
hoje é peça obrigatória em cenários
de peças de teatro que se ambientam nos anos 50.
Ele é arredondado, de madeira envernizada e com o
mostrador feito de fitas de plástico transparente.
Era num rádio daqueles que eu ouvia aquela música
que dizia “mamãe, mamãe, mamãe,
eu te lembro chinelo na mão. O avental todo sujo
de ovo. Se eu pudesse eu queria outra vez mamãe,
começar tudo tudo de novo”. A música
é um marco dos tempos daquele rádio importado
da terra de Jack Querouac, o poeta da beat generation que
disse que “só as mães são felizes...”.
Num país teoricamente mais ingênuo como o
nosso, aquela música reforçava o estereótipo
do “amor de mãe”, um símbolo carregado
de amor, sacrifício, proteção e santidade.
No entanto, todos nós sabemos que as mães
estão cada vez menos dispostas a desempenhar este
papel que a estrutura social - historicamente criada e administrada
por homens -, espera que elas cumpram. Elas estão
cada vez menos dispostas a se sujeitarem à “escravidão”
doméstica.
Um dia, num momento de confidências mútuas,
eu contei para minha mãe que eu estava sofrendo bastante,
num romance cheio de conflitos. E fiquei muito surpreso
quando ouvi ela dizer que eu estava sofrendo porque - assim
como meu pai - estava pagando pelos meus pecados. Ela via
o meu “castigo” com satisfação,
pois - pelo que eu pude deduzir -, segundo o seu julgamento
eu era do grupo dos homens que a haviam prendido numa gaiola
e passado a cobrar dela uma responsabilidade imensa e um
comportamento exemplar, enquanto nos comportávamos
“libertinamente”. A minha dor era para ela uma
prova de que a justiça divina tarda, mas não
falha. E isso deveria servir de exemplo para outras pessoas.
A Dona Lucinha Araujo, mãe do Cazuza, parece ter
compreendido as coisas de forma semelhante. Não foi
preciso nenhum “paparazzi” ir lá bisbilhotar
a vida íntima do seu exagerado filho. Ela mesma botou
a boca no trombone e está hoje no primeiro lugar
da lista dos mais vendidos, com o livro “Cazuza -
Só as Mães são Felizes”, lançado
recentemente pela Editora Globo. A estrutura do trabalho
feito por ela em parceria com a jornalista Regina Echeverria
é impecável, quando visto como aplicação
de uma tecnologia de marketing. Além do excelente
trabalho gráfico e o poder das organizações
Globo para divulgação, são acrescentados
muitos depoimentos de artistas como Caetano Veloso, Roberto
Frejat, Ney Matogrosso, etc. Mas o lastro maior está
ancorado na vida doméstica de Cazuza.
Para justificar o livro, Dona Lucinha diz: “decidi
que minha relação com ele merecia ser passada
a limpo”. E este “passar a limpo” vem
acondicionado numa embalagem de sinceridade, honestidade,
transparência e boas intenções. Segundo
o que foi divulgado, os direitos autorais serão revertidos
para a Sociedade Viva Cazuza, entidade de apoio a crianças
aidéticas (dirigida pela própria Dona Lucinha.
Por sinal, esta entidade foi escolhida para ser visitada
pelo Papa, na sua vinda ao Brasil neste outubro/97). Tudo
parece perfeito e coerente demais, mas ainda não
me convenceu totalmente. Existe um mal estar nesta história,
que eu não consigo esquecer.
Este mal estar aconteceu comigo naquele domingo, dia 13
de julho de 1997, quando eu olhei para a capa da revista
ISTOÉ, numa banca de jornais. Ela trazia uma foto
de Cazuza e as manchetes: “Exclusivo - o livro revelador
e emocionante de Lucinha Araujo sobre a vida do filho famoso”.
E as citações da mãe, retiradas do
livro pela revista, diziam: “Abri, cheirei e não
tive dúvidas: era maconha!”. “Quando
li a carta amorosa de meu filho para um homem, não
me contive. Enfrentei-o com a pergunta curta e grossa: você
é homossexual?”. Além disso, a capa
escandalosa trazia uma declaração de amor
de Ney Matogrosso, recordando seu romance homossexual com
Cazuza “Ele era encantador. Eu fiquei apaixonado de
perder a direção”.
Como pessoa ligada ao mundo do rock, eu pensei cá
comigo “Que coisa mais esquisita!”. Sim, esquisita
porque a mesma Dona Lucinha havia protestado violentamente
contra a imprensa, alguns anos atrás, quando foi
publicada uma matéria que dizia que Cazuza “agonizava
em praça pública” (Ela considerou a
matéria “ofensiva”, por vários
motivos). E agora ela mesma fornecia material suficiente
para causar um escândalo muito, mas muuuuito maior!
Eu acredito que a divulgação deste livro -
apelando para o escândalo - não poderia ter
sido feita de forma mais inadequada e - sob certo ponto
de vista - também “ofensiva” à
memória de Cazuza!
Pois o fato dele ter tido relacionamentos homossexuais
e ter tomado drogas não me parece a coisa mais importante
que um livro sobre sua vida deveria destacar. Fazer isso
na capa de um dos mais importantes meios de comunicação
de massa do país, nos faz pensar mais uma vez no
papel da imprensa e nas distorções que ela
provoca para aumentar suas vendagens. E é uma curiosa
coincidência que isso venha a ocorrer apenas duas
semanas antes do desastre que vitimou a Princesa Diana,
transformada na “mártir” dessa mesma
imprensa sensacionalista...
E o fato disso ter sido feito com a conivência da
própria mãe é um fato que nos remete
às contradições e traumatismos dos
relacionamentos familiares e nos mostra que uma mãe
é capaz de muito mais coisas do que supõe
a nossa vã filosofia de amor, carinho, dedicação
e santidade. Utilizar a sexualidade comercialmente tem um
nome. E a declaração de amor de Ney Matogrosso
assim colocada, facilmente se transforma em pornografia.
Por isso, apesar de ter sido feito para “servir à
causa da Sociedade Viva Cazuza”, este livro tem para
mim uma aura de injustificada “mea culpa”, um
“arrependimento” que o exagerado - debochado
como era -, nunca aprovaria. Pois o que ele fazia, estava
feito e pronto!
No entanto, nem tudo está perdido. Pois como pode
ser confirmado neste mesmo livro da Dona Lucinha, Cazuza
cuspiu na burguesia (que - segundo ele - fede!), cuspiu
na família, cuspiu nas religiões e cuspiu
até na medicina que tentou salvá-lo com todos
os seus pobres recursos. Cazuza não morreu de AIDS.
Cazuza suicidou-se de AIDS, tomando AZT misturado com vinho
e deliciando-se com todos os prazeres proibidos até
à morte. Ele cumpriu à risca o ritual dos
poetas românticos, vomitando sangue e agonizando sim,
em praça pública. Isso fazia parte do seu
show! Com ele, não adianta nem visita do Papa! Por
mais que a família burguesa católica queira
perfumar o seu legado, aquelas páginas continuarão
rescendendo ao enxofre que ele sopra, entre gargalhadas,
lá das profundas do inferno. Cazuza teve um amor
de mãe. Porisso queria comê-la. Deus nos livre
e guarde dessa gente honesta, boa e comedida! Ha! Por favor,
desliguem aquele rádio, porque eu também quero
dormir em paz!