(Esta matéria teve sua publicação
vetada pelo Internacional Magazine)
Toninho Buda, 28 agosto 1997
Hoje nós também vamos discutir aqui o importante
assunto da maconha. Para tornar o debate mais enriquecedor,
eu convidei uma gringa sem-terra (e sem vergonha) amiga
minha, que veio lá de New York somente para isso.
Ela tem experiência internacional neste tema e até
já entrevistou pessoalmente Peter Gorman, editor
da revista High Times (a bíblia dos maconheiros americanos).
Mas apesar de ser uma desinibida correspondente musical
de uma importante emissora de TV, ela é também
de uma família de cantores de gospel. Por isso nós
preservaremos aqui a sua identidade, sob o pseudônimo
de Jackeline Ó! (este “o” não
é de “Onassis”). Ela nunca foi tão
aberta como nesta matéria de hoje!
Vejamos primeiro alguns aspectos políticos. O Deputado
Gabeira tem toda razão quando disse na entrevista
deste nosso Magazine de agosto/97 que toda a discussão
sobre a maconha no Brasil tem muito pouca possibilidade
de chegar a resultados úteis, na medida em que depende
da opinião da polícia, da igreja e da família
(cujo representante é sempre o pai de um ex-drogado...).
Ou seja, é impossível dialogar com as vítimas
de um conservadorismo fanático.
Além do mais, a maconha e os semelhantes “estados
alterados de consciência” realmente “desanimam”
qualquer cidadão de lutar para ser o “operário
padrão” de uma firma qualquer, acreditar nas
mentiras religiosas ou ser um pai de família exemplar
que pague em dia o colégio, a farmácia e o
catecismo dos seus filhos. A sociedade convencional sabe
que o usuário de maconha é um desobediente
civil em potencial. E ela vai lutar até o último
cartucho contra esta liberdade individual, com suas armas
tradicionais, baseadas em superstição e preconceitos.
Haja visto as perseguições que tem sofrido
a banda Planet Hemp.
Mesmo nos Estados Unidos, que é um lugar onde teoricamente
existe uma maior maturidade política e social, ninguém
se entende quando o assunto é maconha! Para a política
de Bill Clinton a marijuana é um “passaporte
para drogas pesadas”, enquanto 34 estados americanos
votaram leis que permitem o seu uso “medicinal”.
Até aqui no Brasil ela está sendo discretamente
ministrada para as terríveis ânsias de vômito
que acompanham os pacientes portadores de câncer e
que são submetidos a tratamentos quimioterápicos.
No entanto, isso me parece antes de tudo uma cadeia de loucura,
incompetência e burrice.
Pois a própria quimioterapia é um procedimento
mortal e dificilmente deveria ser ministrada da maneira
irresponsável como vai sendo feita. Neste caso, a
Cannabis sativa entra apenas como um alívio privisório
para que os pacientes permaneçam mais tempo vivos.
Assim, suportando um maior número de sessões
de tortura, eles darão um maior lucro para a indústria
da medicina. Enquanto isso, vão sendo pouco a pouco
assassinados “legalmente”. Lutar pela liberação
da “maconha medicinal” não deixa de ser
uma forma de colaborar com isso. Pois ela amplia ainda mais
o poder desses médicos-traficantes, quando é
usada para dopar essas vítimas indefesas.
Eu gostaria de falar também da minha experiência
pessoal. Tanto a minha pequena experiência quanto
a de vários amigos meus que são usuários
há muitos anos, conduzem a uma importante conclusão
comum: a de que os pontos de vista são acima de tudo
relativos e pessoais. Portanto, a existência de absolutismos
como a “proibição” ou “liberação
geral” refletem maniqueísmos que estão
muito longe do padrão de inteligência que nós
já deveríamos ter.
Pois vejamos o que acontece comigo: como a maconha atua
como um relaxante e vaso-dilatador, ela produz uma verdadeira
“descompressão” nas nossas “tubulações”.
É bem verdade que pode advir daí uma sensação
de bem estar, principalmente em pessoas irritadiças
como eu costumo ser. Mas o problema é que eu sou
também corredor de fundo e costumo correr uma média
de 300 a 400 Km por mes. E a “erva mardita”
é capaz de me tirar completamente o pique: já
levei 10 dias para recuperar completamente a minha performance,
depois de apenas algumas tragadas. É bem verdade
que eu tenho uma saúde frágil e a muito custo
mantenho o meu lugar no ranking dos corredores.
No entanto, isso pode variar muito de pessoa para pessoa.
Um indivíduo mais forte, naturalmente poderia suportar
melhor uma queda da sua energia geral. Meus amigos que gostam
de escrever ou de compor músicas dizem que se sentem
muito mais aptos a trabalhar depois de um baseado. No entanto,
eles realmente se ressentem de uma maior disposição
para trabalhos físicos e até para simples
caminhadas e passeios ao ar livre. Sintetizando, eu estou
certo de que a maconha não combina de jeito nenhum
com quem quer ser corredor de fundo, necessite trabalhar
duro ou tenha, por exemplo, uma parceira sexual muito exigente...
Pois a maconha se tornou conhecida como a planta da política
da paz e do amor. Assim, ela pode tornar a pessoa calma,
tranquila, devagar, quase parando, podendo chegar até
a Dorival Caymi...
Então o segredo parece ser a opção
individual inteligente, associada à escolha da dose
certa. Pois a Bahia nos deu, além de Dorival Caymi,
régua, compasso e a axé-music, que é
puro agito! Para finalizar, eu gostaria de apresentar agora
a profunda opinião da Jackeline Ó! Ela esteve
também em Salvador, é culta, bonita, gostosa,
bem informada, politizada, inteligente, gosta de maconha
e sabe como aproveitar os seus benefícios medicinais
e terapêuticos! Ouçamos as suas sábias
palavras, ditas com delicioso sotaque yankee:
“a maconha me faz bem. Eu posso dividir a minha vida
em before and after the hemp. I like aerobics, axé
music e posso garantir que fico much more relax depois que
fumo unzinho. The hemp, com suas propriedades relaxantes,
libera o tcham! A maconha facilitou a minha vida! Depois
dela eu até esqueci do meu gel K-Y da Johnson &
Johnson, que é ótimo, made in U.S.A., but
isn’t natural! Do you remember that music que falava
das ‘praias do Brasil ensolaradas’ e que foi
transformada nos anos 70 em ‘maconha no Brasil foi
liberada, até o presidente já fumou’?...
Pois é: eu consultei um documento da CIA que associa
this historic prevision ao fato do Presidente Collor - que
era amigo do Paulo Coelho - gostar de fumar um baseado para
depois sentar num supositório de cocaína...
It is a magical energy that comes from the vegetal, dá
até prá dirigir um país! Cultura é
isso! Filosofar tem que ser em alemão, mas a pátria
da sacanagem é o Brazziil! We need show it to the
world! A maconha também me deixa sem vergonha! E
eu adoro! Come on, magical child, vamos para a prática!
I’m hot, wet and wild !”.
Jackie, eu te amo! Você é demaaaaaaaaaiisssss
!!!...