Toninho Buda, 20 agosto 1997
Quando eu era criança pequena lá em Três
Corações (quase perto de Barbacena), existia
uma música caipira que eu adorava e que começava
assim “eu fui convidado prá ir lá no
céu, cantar numa festa em louvor de São Miguel.
Quem me contratou foi São Manoel, eu fui por dez
contos, viagem de hotel. Cheguei lá no céu,
achei engraçado, táva todo santo num fogo
danado! São Pedro dormindo na porta sentado e São
Juda queria matá São Gerardo, pur causo d’um
litro de pinga que tinha quebrado. Um dizia que o outro
que era o curpado!”.
Olha, gente, eu realmente não sei o que acontece
lá no céu. Mas as notícias que nós
podemos ouvir por aí nos dão razões
para crer que “lá” tudo é possível.
Vejam só: mes passado o Marcelo Fróes me emprestou
um livro chamado “Paz, Afinal” (Ed. Vértice,
1991. Copyright Jason Leen 1982), que nos dá uma
idéia do quanto esse céu pode estimular as
mais variadas realidades, para-realidades, delírios
e fantasias. Na página 104 desta obra, nós
podemos encontrar uma citação de Lewis Carroll,
que dizia que “às vezes chegava a acreditar
em 6 coisas impossíveis antes do café da manhã”.
Parece não haver dúvidas de que a utopia faz
bem à saúde mental. Mas um pouquin de bom
senso também não faz mal a ninguém...
O livro pretende ser um “depoimento psicografado”
por Jason Leen, diretamente de John Lennon, pouco tempo
depois da morte do beatle (Lennon foi assassinado dia 8
de dezembro de 1980, em New York. O livro viria a ser publicado
2 anos depois). A primeira coisa a se notar é a extraordinária
semelhança entre os nomes da “entidade desencarnada”
e seu “cavalo”: Jason Leen é quase um
anagrama de John Lennon.
De resto, o livro me pareceu ser uma livre interpretação
espírita da postura “Give Peace a Chance”
de Lennon. Os espíritas gostam muito de pregar a
“Paz” e o evangelho. E fica claro que o autor
via Lennon como “O Apóstolo da Paz” na
Terra. E - segundo o seu depoimento - Lennon teria teria
realizado após a morte, uma viagem imensa ao encontro
de seu ideal de “paz universal”(são 150
páginas intermináveis de luzes multicoloridas,
miríades de estrêlas, pureza angelical, alegria
infinita, caridade universal e banhos intermináveis
nas cascatas do “amor curativo” de deus). Evidentemente,
no início desta “viagem” ele encontrou
sua mãe, que foi sua amorosa cicerone durante o reconhecimento
do mundo celestial. Por sinal, este mundo celestial é
uma cópia do mundo terrestre, mas todo em pedras
preciosas: as árvores são de cristal, os frutos
são de diamantes e todos os desejos de qualquer um
se realizam imediatamente!
A minha opinião pessoal é a de que qualquer
pessoa tem que ter o direito e a liberdade de acreditar
no que quiser. No entanto, fazer um livro como esse rapaz
fez esbarra numa agressão ao bom senso. Primeiro
porque o livro não permite nenhuma comprovação
de que possa realmente ser uma “manifestação”
de Lennon. As únicas pessoas citadas por “ele”
são a mãe, Yoko e os filhos. Mesmo assim,
sem nenhum detalhe íntimo que fosse desconhecido
do público e pudesse ser confirmado por alguma dessas
pessoas. Mantendo este estilo camaleônico, a “entrevista”
a partir da página 133 é absolutamente genérica,
cheia de “boas intenções” e num
estilo que poderia ser de autoria de qualquer pessoa. Aliás,
duvido que Lennon pudesse ser tão ingênuo e
pueril como ali é retratado (A não ser que
seja verdadeira a declaração do artista plástico
Roberto Vieira, hoje residente em Ouro Preto. Certa vez
o Roberto me disse que visitou uma exposição
de pinturas mediúnicas “recebidas” de
grandes mestres como Van Gogh, Rembrandt e outros. Ele saiu
de lá muito deprimido, porque é um pintor
esforçado e chegou à conclusão de que
depois da morte a gente desaprende tudo que aprendeu enquanto
estava vivo!)
Mas existem também textos mediúnicos de espíritos
brasileiros. O campeão da psicografia nacional é
Raul Seixas (aqui citado novamente, desculpem!). De uma
grande quantidade de “mensagens mediúnicas”
de sua coleção particular, Kika Seixas reconhece
que apenas uma tem a prosa característica do Maluco
Beleza (e mesmo assim são apenas algumas frases vagas).
Paulo Coelho chegou a declarar que “Raul está
muito bem” e Sylvio Passos recebeu uma mensagem suspeitíssima,
sugerindo que ele “se desfizesse de todo o material
que Raul lhe deu”(e o primeiro interessado era o próprio
médium...). Uma certa professora de segundo grau
em Lorena (SP) declarou em sala de aula que “Raul
Seixas está hoje muito arrependido de tudo o que
fez e ‘mandou dizer’ para as crianças
se afastarem de sua obra...”. Como se pode ver, os
romanos tinham razão, quando, naqueles tempo antigos,
já diziam “in vino veritas” (“no
vinho, a verdade”, ou seja, quem tá bêbado
consegue transformar qualquer besteira em verdade absoluta).
Sabem de uma coisa? Eu cheguei à conclusão
de que - para efeito de um melhor bem estar individual e
uma melhor tranquilidade social, nós devemos deixar
os mortos “em paz”. A nossa luta pela sobrevivência
deve se concentrar - para efeitos práticos - ao período
limitado entre o nascimento e a morte. Como se fosse um
jogo: só vale o que nós vivemos aqui e agora,
nesta nossa vida. Sem nos importarmos se já existiram
outras ou se ainda virão futuras encarnações.
Não é preciso “negar” essas coisas,
mas simplesmente deixá-las um pouco de lado, para
resolvermos coisas mais importantes e imediatas. Isto porque
já é muito difícil lidar somente com
o cotidiano.
Pois quando se fala de religião, almas do outro mundo
e reencarnações, nós nos deparamos
constantemente com delírios como este absurdo que
coroa o livro de Jason Leen: o clímax do “depoimento”
de Lennon é o seu ENCONTRO COM JESUS CRISTO NO CÉU!
Assim ele mata o véio! Eu não posso aceitar
que se coloque em uma pessoa libertária como John
Lennon o cabresto do cristianismo! Pois ele nunca se declarou
cristão em vida. Pelo contrário, ele debochou
das religiões em várias ocasiões e
ainda declarou ser “mais famoso que Jesus Cristo”!
Forçar a barra dessa forma, tentando “regenerar
um rebelde” é tentar emporcalhar um trabalho
poderoso e “incômodo” como o de John Lennon.
Aliás, esta é uma técnica inquisitorial
nojenta e manjada... Mas vamos acordar desse papo-pesadelo,
porque eu já não aguento mais !
Ha! Sim! Aquela música lá da minha infância
(quase perto de Barbacena) que contava a história
dos santos bêbados na festa no céu, terminava
assim: “quando eu quis vic’imbora, a porta eu
abri. Quando eu olhei prá baixo, sentí do
que eu vi! Então eu pedi prá arguém
me acudir. Ninguém me acudiu, direto eu desci. Ninguém
num carcula o quanto que eu sofri: isso foi só um
sonho, da cama eu caí!”. Felizmente, não
é mesmo?!...