Toninho Buda, 8 agosto 1997
Um dia meu pai chegou em casa, nos idos de 73. E da porta
ele gritou orgulhoso “agora chegou a nossa vez: a
partir de hoje, eu valho muito mais morto do que vivo!”
Ele não tinha comprado um Simca Chambord, mas tinha
conseguido um emprego de fiscal do INSS. E por precaução,
fez um seguro de vida que nos deixaria com uma boa grana,
caso ele viesse a morrer nas viagens que teria que fazer
dalí por diante. Algumas pessoas realmente são
assim: valem muito mais mortas do que vivas.
E isso aconteceu também com Elvis Presley, a fantástica
personagem que foi o polo de referência de todo o
movimento do Rock’n’Roll. Neste mes de agosto
de 1997 estamos relembrando os 20 anos da morte física
do Rei do Rock’n’Roll, ocorrida em 16 de agosto
de 1977. Mas o mundo do Rock sempre achou mais digno decretar
15 de março de 1958 (19 anos antes), como a data
oficial da morte de Elvis. Pois este foi o dia em que ele
deixou de ser rebelde e entrou para o Exército. Daí
prá frente ele virou um verdadeiro lixo, uma boneca
dengosa fazendo caras e bocas para as câmeras, em
38 filmes e uma infinidade de eventos convenientes para
os cofres do “showbusiness”...
Quem o convenceu a servir ao exército foi seu empresário,
tutor e explorador “Coronel” Tom Parker. Segundo
o raciocínio de Parker (que ficava com até
50% do faturamento do seu pupilo), o “pracinha Elvis”
conquistaria a faixa mais velha e conservadora do público,
com a imagem de “bom moço”, “regenerado”,
“recuperado” e o exemplo do “verdadeiro
americano”. Com isso ficavam para trás as “chocantes”
imagens de liberdade sexual e o deboche do conservadorismo.
Ao sair do exército no dia 5 de março de 1960,
Elvis já tinha sido promovido a Sargento e o “Coronel”
Parker já havia programado um show dele junto com
Frank Sinatra que - junto com John Waine e outros ídolos-,
sempre foi um dos símbolos do “American Way
of Life”.
A hironia mais cruel dessa história é que
Frank Sinatra havia dito anteriormente que o Rock’n’Roll
era “a música marcial de todo delinquente de
costeletas na face da terra, composta quase sempre por cretinos.
A mais brutal, feia e degenerada forma de expressão
que ele já tivera o desprazer de ouvir”. Elvis
- já um “ex-cretino de costeletas”- foi
ao especial para a TV vestido a rigor, sem requebros,“fazendo
as pazes com a América” e, naturalmente, com
Frank Sinatra...
A “domesticação” de Elvis Presley
por Parker foi tão escandalosa que no primeiro encontro
que ele teve com os Beatles (dia 27 de agosto de 1965),
John Lennon lhe perguntou “Elvis, por que você
não volta ao seu estilo antigo?”. Ele então
desconversou, dizendo que ainda pretendia gravar um disco
de rock como nos velhos tempos... Mas não eram apenas
os Beatles que sentiam saudades do “velho” Elvis
Presley. Apesar de nunca ter composto canção
alguma, ele sempre foi venerado por todos os grandes nomes
da música pop mundial. O próprio Lennon foi
o primeiro Beatle a admitir que “sem Elvis não
existiriam os Beatles”. O maior sonho de Bob Dylan
ao lançar seu primeiro disco era “ser maior
do que Elvis Presley”. Robert Plant, do Led Zeppelin,
declarou: “Elvis foi onde tudo começou para
nós”. Buddy Holly também resumiu o pensamento
de sua geração, dizendo “Sem Elvis,
nenhum de nós teria chegado lá...”.
No Brasil há que se destacar Raul Seixas (tem hora
que eu penso em parar de citar tanto o Raul, mas não
dá prá ficar calado num momento desses). Raul
imitava Elvis, estreou no FIC de 1972 com uma roupa de couro
copiada do figurino dele e no seu leito de morte foi encontrada
uma foto de Elvis Presley. Eles faleceram de forma semelhante,
Raul no dia 21 (5 dias depois dele, no mesmo mes de agosto)
de 1989 e com idades muito parecidas (Elvis/42 e Raul/44).
Em 1973 a Polyfar Phonogram lançou no Brasil um
disco “comercial” chamado “Os 24 Maiores
Sucessos da Era do Rock”, onde o verdadeiro cantor
era Raul Seixas. Mas seu nome não aparecia na capa!
Algumas músicas (como “Blue Sued Shoes”
e “Tutti Frutti”) tinham sido gravadas também
por Elvis Presley. O disco foi lançado como sendo
de um fictício “grupo americano” chamado
“Rock Generation”. Mais tarde, Raul copiou de
Elvis os arranjos de músicas como “Rock do
Diabo” e “A Verdade sobre a Nostalgia”.
Mas o seu maior sucesso relacionado com o Rei do Rock foi
“Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”,
que tem nome e conteúdo iguais a “I Was Born
About Ten Thousand Years Ago”, que é uma música
do folclore americano interpretada por Elvis Presley no
LP “Elvis Now”.
Mas que coisa triste pode ser a “regeneração”
de uma pessoa! Eu acredito até que a transformação
da “regeneração” em virtude é
também uma doença da nossa cultura. Pois ela
é fruto de uma idéia confusa e equivocada
chamada “Parábola do Filho Pródigo”,
contada por Jesus Cristo (S. Lucas, Cap. 15). Nela, um pai
reparte a sua herança entre os seus dois filhos.
Um deles era sério e babaca e continuou trabalhando
na lavoura. O outro era um pilantra safado e caiu na putaria,
gastou todo o dinheiro da herança e voltou depois
arrependido e pedindo perdão. O velho pai então
fez uma festa enorme para recebê-lo. Aí o babaca
ficou furioso, porque sempre se comportara “direito”
e nunca tinha sido feita nenhuma festa para ele! Então
o velho “Rolando Lero” explicou que ele (o babaca)
já estava “salvo”, mas que seu irmão
tinha “se perdido” e depois “se salvado”.
E que essa “salvação” justificava
toda aquela festança!
Ora, mas que coisa cretina! Só mesmo a educação
religiosa poderia ter a cara de pau de ensinar tamanha ridicularização
da integridade humana! E é por esse “caminho
das pedras” que tantos bandidos têm se transformado
em ricos pastores-empresários das igrejas evangélicas.
É uma solução “fácil”,
que só depende de palavras e nenhum trabalho. Aliás,
a religião é a única empresa cuja matéria
prima é abundante e tem custo zero: a conversa fiada.
Um ex-presidiário dificilmente conseguiria um emprego
convencional. Mas dentro da ética religiosa, um bandido
convertido tem muito mais valor do que um cidadão
honesto! E podemos ter certeza que o valor da sua “religiosidade”
está muito mais na “conversão”
dessa notícia em dinheiro do que na sua conversão
e crescimento espirituais. E foi nessa mesma onda que um
“ex-satanista roqueiro” Paulo Coelho “encontrou
Jesus” e passou a faturar alto vendendo catecismo
rasteiro e grosseiras superstições. Esse mesmo
recurso decadente foi a arma utilizada por Tom Parker para
castrar, domesticar, assassinar artisticamente e depois
explorar os restos de Elvis Presley.
Assim, o fantasma de Elvis e toda essa porcaria religiosa
continuam até hoje valendo muito mais mortos do que
vivos. Elvis saiu do Exército odiando a cor verde-oliva.
Mas jamais reconquistou sua individualidade e morreu vítima
dos “prazeres orais” (doces, drogas e conversa
fiada). Mas quem conhece a sua fase espontânea e juvenil,
sabe o que existe de eterno e brilhantemente libertário
em tudo o que ele foi e continua sendo para o mundo que
o recebeu.