CONTRACULTURA

A MÚSICA DE FALAR COM DEUS

Toninho Buda, 22 maio 1997

Quando meu rosto surgiu na tela, a platéia explodiu numa sonora gargalhada. Aquilo me irritou profundamente. Ora, ninguém gosta de fazer papel de palhaço. Ainda mais naquele vídeo, onde eu procurei parecer o mais diabólico possível ! Mas cá prá nós, o que me irritou mais foi o fato de eu não saber o significado daquela legenda em destaque na parte de baixo da tela: “Toninho Buda - the outsider”.


O vídeo se chamava “Dínamo” e tinha sido produzido em 1992 por uma equipe de estudantes de comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (Valéria Borges, Sandro e Ana Delmonte), sob a orientação da Cristina Musse, da Rede Globo. O trabalho buscava mostrar em 27 minutos, assuntos curiosos relacionados com o corpo, a mente e o espírito. Nesta ordem. Assim, para o primeiro bloco foram entrevistados cirurgiões plásticos e membros do grupo de Rap “MR-8”. Na parte da “mente”, eles colheram o depoimento do desenhista Mozart Couto. E na parte final, do “espírito”, eles fizeram uma interessante contraposição entre a música de falar com deus e a música de falar com o diabo. Para “música de falar com deus”, escolheram o Canto Gregoriano. A “música de falar com o diabo” só podia ser o Rock, representado pelo “outsider” sub-produto ridículo aqui. Até o momento de assistir à projeção, eu desconhecia o que eles iriam fazer com a entrevista que eu havia dado. Mas devo admitir que o trabalho ficou excelente.

Antes de mim, a entrevistada foi a irmã Sílvia, do coral do mosteiro das monjas beneditinas de Juiz de Fora. Historicamente, foi o Papa Gregório que reservou aos beneditinos o trabalho de preservar o Canto Gregoriano. Como ele é baseado somente no Livro dos Salmos e não admite interferências profanas, os cristãos consideram o Canto Gregoriano como que sacralizado pela palavra de deus. É a música de falar com deus. Diga-se de passagem, a irmã Sílvia também não sabia do destino que seria dado à sua entrevista. Só que - diferente de mim e para sua sorte - ela nunca soube e nunca saberá !

Anos depois, o Mário Margutti me contou que foi lançado no outono de 1993, na Espanha, um álbum musical duplo com cantos gregorianos gravados pelos monges beneditinos do Convento de São Domingos de Silos. Posteriormente lançado no resto da Europa e nos EUA, ele hoje pode ser encontrado em 42 países, tendo ultrapassado a marca das 4 milhões de cópias vendidas. No Brasil ele foi lançado pela Editora Agir no final de 1995 e vem acompanhado de um pequeno livro de Katharine Le Mée que fala, entre outras coisas, do poder curativo do canto gregoriano. Na página 42 ela discorre sobre “A Oitava e a Tradição Esotérica”, mostrando a íntima relação entre a música e o Universo (7 notas musicais, 7 cores do arco-íris, etc).


Mas ela mostra também as relações entre a música e a teoria do conhecimento, demonstrando que a “Lei das Oitavas” já fazia parte dos ensinamentos esotéricos dos gregos e egípcios. Mesmo no Sec. XV, nós encontramos esses ensinamentos sendo ministrados na academia florentina de Marsilio Ficino e Lorenzo de Medici. O próprio ofício da Missa, do ano 1000 ao ano 1900, foi estruturado com base na Lei das Oitavas. O curioso é que nos pontos críticos da escala, marcados pelos intervalos Mi-Fá e Si-Dó, a missa (correspondente) exigia uma participação mais efetiva dos próprios fíéis. O “Credo” ocorria entre o Mi e o Fá e o ritual da Comunhão, justamente no intervalo Si-Dó (no Credo o crente reafirma sua crença. Na Comunhão ele a concretiza, arrematando inclusive com o “Pater Noster” que, conforme reza a tradição, foi ensinado por Jesus a seus discípulos). Já o Rock reza também, mas numa cartilha um pouco diferente.


O show de rock é um ritual pagão, profano, orgiástico e “litúrgico” a seu modo. Nós já falamos detalhadamente sobre isso em outras ocasiões. Mas para relembrar apenas dois exemplos, eu citaria o encerramento do show dos Rolling Stones do Hyde Park de Londres, no sábado, 5 de julho de 1969. Eles cantaram “Sympathy for the Devil”, acompanhados de um grupo de música negra tocando um ritmo que Jagger chamou de “samba”. Não era samba, mas sim um batuque muito próximo da umbanda ou talvez quimbanda (magia negra). E há poucos dias eu revi o video do Iron Maiden, “The First Ten Years - 1980/1990” (BMG Ariola Music Video), onde eles cantam “Stranger in a Strange Land” e “The Number of the Beast”. A linguagem do Iron Maiden é profundamente marcada pela iconografia egípcia como recurso interpretativo de uma cultura que ainda lambe as próprias feridas provocadas pelas guerras, pelo nazismo, intolerância racial, inquisições religiosas, etc. “Stranger in a Strange Land” é uma música homônima de um livro de Robert Heinlein que influenciou toda a contracultura.

Como o Iron Maiden, todos nós nos sentimos como “outsiders”, “estranhos numa terra estranha”. O Rock trouxe o grito de guerra contra a guerra. Esta guerra estúpida, suicida, grosseira, imbecil. O próprio Lennon disse um dia: “fico orgulhoso de ser o palhaço do ano neste mundo em que as pessoas ditas sérias estão matando e destruindo, em guerras como a do Vietnã”. Para aqueles que têm sangue nas veias e ainda estão vivos, não dá prá ficar pacificamente tentando conversar com um deus ausente e sonhando com um reino pacífico imaginário. E para cúmulo do absurdo, o deus das pessoas religiosas é um deus muito mais intolerante, vingativo e feroz do que o próprio demônio que ele mesmo criou e tenta sempre destruir. “Menino, não faz isso que deus castiga”. Este deus vingativo é o maior responsável pela simpatia das multidões pelo pobre diabo. Assim, enquanto eu falava essas coisas naquele vídeo chamado Dínamo, a platéia foi se calando gradativamente. E quando apareceu o “The End”, ninguém estava rindo mais...



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