Toninho Buda, 23 abril 1997
Vejam só em que festa de arromba, que outro dia eu
fui parar. Presentes no local o rádio, a televisão,
cinema, mil jornais, muita gente, confusão. Quase
não consigo na entrada chegar, pois a multidão
estava de amargar e eu ainda estava levando quatro garrafas
de uísque para o coquetel da galera. Tudo aconteceu
no Espaço Unibanco de Cinema. Logo que eu cheguei
notei o Petrillo com um copo na mão. Enquanto o Rogério
Sky-Lab fumava no jardim, o Rogério W.S. esbarrava
em mim. Lá fora um corre-corre do brotos do lugar,
era o Zé Ramalho que acabava de chegar. Enquanto
o Marcelo Fróes me falava de músicas psicografadas,
eu dei uma filmada geral e lá estavam o Bruno (do
Biquini Cavadão), o Elias Nogueira, o Gustavo (da
Cor do Som), a Tânia Nézio (Warner Records),
Maria Angélica Seixas (tia do Raul Seixas), o produtor
Nelson Pereira, o João Henrique Brito (da Sigla),
a galera da Cabana Raul Seixas, a Sandra e a Maria Helena
no maior tititi, o Vid e mais uma pá de gente que
tinha vindo ver o vídeo “Raul Seixas também
é Documento”, feito pela Kika Seixas em parceria
com o Paulo Severo (nervosíssimo, aguardando a equipe
do Fantástico!).
Enquanto o Sérgio Péo me falava das suas memórias,
sonhos e reflexões, eu vi a Kika conversando com
o Bruno Wainer (da Lumière) e fui lá abraçá-la.
Ela logo sacou da bolsa um presentinho, dizendo: “Toma,
Tuninho, é todo seu! Pedi ao Vid, da Passion, que
trouxesse da Inglaterra prá você!”. Eu
fiquei chapado, bicho! Era um CD com a cara do Crowley,
dizendo conter a própria voz da Grande Besta, que
morreu em 1947 (O Sylvio Passos já tinha me dado
um toque, mas ali estava a “coisa” na minha
mão). Prá completar, chegou a turma do teatro,
com a Maria Zilda, o Ricardo Petraglia e o Roberto Bontempo,
que começou a falar do seu projeto de um longa metragem
sobre o Raul Seixas. Aí me lembrei do som do meu
carro e pensei em ouvir o CD imediatamente. Enquanto isso,
acabou mais uma das sessões do vídeo documento
em cartaz e eu saí pela porta no meio de uma galera
entusiasmada e morrendo de rir com as coisas do Raulzito.
Rua voluntários da Pátria, Botafogo, Rio,
16 abril 1997. Meia noite... Naquele trecho escuro da rua,
sentei no carro e liguei o som. The great beast speaks!
O CD “Aleister Crowley - The Great Beast Speaks”
é muito mais importante do que se pode imaginar à
primeira vista. Primeiro porque é o único
registro conhecido da voz do famoso mago inglês que
modificou completamente a visão da magia no mundo
moderno. Além disso - como já citamos outras
vezes -, Crowley influenciou profundamente toda a contracultura,
o movimento Beat, a Sociedade Alternativa de Raul Seixas,
os Beatles, Timothy Leary, Ozzy Osbourne e Cia Ltda. Segundo
- aí é que é de arrepiar - alguns dos
rituais recitados e cantados por Crowley neste CD são
na língua enoquiana! E o CD é cor de ouro,
por causa da “Golden Dawn” (“Aurora Dourada”).
Quem me contou os detalhes foi o mago José Roberto
Abraão.
Vocês não podem imaginar qual a origem da
língua enoquiana! Quem a decodificou foi um cientista
nascido em 1527 e morto em 1608, chamado John Dee. Além
de outras coisas, ele foi o geógrafo idealizador
de um meridiano de base para o planeta Terra, chamado até
hoje de “Meridiano de Greenwich”. Tudo indica
também que ele tenha servido de inspiração
para William Shakespeare criar a personagem do “Próspero”
na “Tempestade”. Era também um apaixonado
por magia e feitiçaria, tendo passado uma boa parte
da vida ganhando um dinheirinho fácil como astrólogo.
Foi preso por conspiração contra a rainha
Mary Tudor, mas libertado mais tarde pela rainha Elizabeth,
da Inglaterra.
Em 1563, numa livraria de Anvers, John Dee encontrou um
manuscrito da Steganographie, do abade Trithème.
A Steganographie tratava também de rituais de magia
e invocações de inteligências superiores.
Pesquisando arduamente sobre o assunto, em 25 de maio de
1581, durante um ritual, apareceu-lhe um ser sobre-humano
que ele chamou de “anjo”. Esse anjo entregou-lhe
um espelho negro (que existe até hoje no museu britânico)
e ensinou-o a utilizá-lo para fazer contatos com
inteligências extraterrestres! John Dee começou
então a comunicar-se com esses seres. E a partir
dessas “conversas”, ele conseguiu organizar
a primeira língua não humana que se tem conhecimento.
Uma língua sintética, com um alfabeto e uma
gramática próprias. No entanto, a maior parte
do que ele anotou e os livros que preparou foram destruídos
nas perseguições que sofreu. Principalmente
quando sua casa foi incendiada por seus inimigos. Acusado
de necromacia e outros “crimes” a partir de
1587, durante onze anos Dee foi perseguido cruelmente até
morrer em 1608, completamente desacreditado e na miséria.
Dos poucos textos que restam, alguns são tratados
de uma matemática muito superior à que era
conhecida no seu tempo. Alguns outros textos inéditos
ainda se encontram no museu britânico.
John Dee chamou a essa língua de enoquiana em homenagem
ao profeta bíblico Enoch (mas é importante
que se saiba que não existe nenhum “livro de
Enoch” escrito nos tempos em que o profeta viveu na
face do planeta. Os diversos “Livros de Enoch”
são muito “recentes”, com edições
que datam de 1883 e 1896). A escolha do nome “linguagem
enoquiana” por John Dee, se deve ao fato de que a
tradição fala das viagens miraculosas do profeta
Enoch a “outros planetas e outros universos”.
E de certa forma ele estava repetindo essas viagens. E queria
que qualquer pessoa pudesse realizá-las (o que seria
o fim de muito fanatismo que existe por aí...).
No final do Século XIX, essa língua viria
a ser recuperada por McGregor Mathers e se tornou a base
da doutrina secreta da “Golden Dawn”. Nos rituais
desta ordem existem os mantrans de acesso às trinta
esferas do Universo. E neste CD Crowley - que foi admitido
na Golden Dawn em 16 de janeiro de 1900 -, apresenta somente
os mantrans de acesso à primeira e segunda esferas
(“The Call of the First Aethyr” e “The
Call of the Second Aethyr”. “Aethyr” significa
“esfera”). A partir da Golden Dawn, Crowley
fundaria a A.A. (“Argenteum Astrum” ou “Estrela
de Prata”, ordem esotérica à qual viria
a pertencer Raul Seixas, nos anos 70). E agora, nesta noite
em homenagem a Raul Seixas e às vésperas do
Século XXI, eu recebo em minhas mãos a voz
de Crowley cantando mantrans na língua enoquiana
de John Dee! Emocionado, eu cheguei a pensar “que
pena que o Raul não tenha ouvido isso...”.
Mas será que Raul Seixas - que conversava com os
discos voadores - realmente não sabia de nada disso
? Por que será que Raul morreu tão sozinho
?!... Um arrepio me percorreu a espinha. O Rio é
muito perigoso e estava ficando tudo muito escuro na Voluntários...Resolvi
voltar prá festa, que continuava rolando no Espaço
Unibanco...
De madrugada, quando eu já ia embora, ainda estava
chegando gente: a Juçá, o Leonardo Rivera,
a artista plástica Selma Sena, o Artur Xexéo,
aquele advogado que é do grupo da Safira Estrela,
o Luiz Nogueira (L.N. Comunicações), o Sylvio
Passos (chegando de São Paulo), a antropóloga
Mônica Buarque, o Johann com a turma da Sociedade
Novo Aeon e o meu amigo João Paranaguá, que
tinha ido dar uma repousadinha... Que onda... Que festa
de arromba!...