CONTRACULTURA

BURRICE EMOCIONAL - A NOVA ONDA ATINGE A MÚSICA

Toninho Buda, 28 abril 1997



É impressionante a capacidade que tem o sistema de produzir “novidades” para realimentar as opiniões de seu imenso público cativo. Para isso ele emprega psicólogos, padres e professores, que trabalham incansavelmente nas áreas educacional e profissional. Já seus escritores, pensadores, artistas e empresários de toda natureza trabalham na área do lazer e do “crescimento espiritual”. Uma picaretagem sem fim ! Mas que é muito eficiente, pois lida na área da neurofisiologia ( Ou seja, no foco da origem e formação do pensamento e comportamento humanos). Passada a febre da “Qualidade Total”, estamos agora em plena fase da “Inteligência Emocional”. Eu mesmo trabalhei como engenheiro de operações de uma grande empresa por muitos anos. Nós aplicávamos essas técnicas. Assim, posso avaliar que “Inteligência Emocional”, o best-seller do psicólogo americano Daniel Goleman, não tem grandes novidades. Como instrumento de treinamento empresarial, trata-se de uma forma cada vez mais sofisticada de identificar nas empresas as pessoas “emocionalmente descontroladas”. Agora vale mais a capacidade de controle emocional do que a inteligência. Com isso as pessoas mais controladas e com melhor capacidade de relacionamento social são mais bem vindas do que as inteligentes que tenham “dificuldades de adaptação”. Mas o mais interessante é que os “problemas” que essa nova teoria tenta identificar nas pessoas, são exatamente as características naturais daquelas que são mais INDEPENDENTES, REBELDES e IRREVERENTES. Ou seja, os líderes natos.


E este discurso parece conter muito da conhecida “consciência de rebanho”, com seu horror a focos de subversão. Mas Goleman justifica sua caça às bruxas, dizendo que o aumento da população do planeta nos obriga a optarmos por pessoas que tenham melhor capacidade de convivência social. E ele afirma que está cada vez mais rara a possibilidade do sucesso individual. Argumenta ainda que os últimos 25 prêmios Nobel de Física foram atribuídos a líderes de grandes laboratórios e não a indivíduos. O problema é que esse negócio é muito subjetivo e carece de uma metodologia mais criteriosa e espírito científico. Então a coisa está se tornando mais um “vale tudo” empírico para caçar atrevidos. E essa farofada abre espaço para todo tipo de superstição que tem invadido a área do conhecimento e da educação. Os psicólogos usam até exames grafológicos, astrologia e cartomancia. O motivo aparente é a “melhoria das condições sociais”, mas eles são pagos mesmo para outra coisa. O que manda neste esquema é um outro engodo chamado “produtividade” (produção com qualidade). Produtividade é a busca obsessiva do aumento dos lucros das empresas, prefeituras e igrejas, reduzindo ao máximo as peças defeituosas e inconvenientes. Sejam elas peças mecânicas ou seres humanos. É tudo uma questão de mercado, marketing.

O pior é que isso se estende também à música e às artes em geral. A grande mídia continua escolhendo para fazer sucesso não apenas aquilo que vende. Mas principalmente aquilo que vende e é burro. Raramente alguém consegue furar este cerco, como o fizeram os Mamonas Assassinas. Por que será ?... Eu não diria que o Tiririca é burro. Dificilmente alguém faria sucesso sendo burro. Mas tem muita gente fazendo sucesso se fazendo de bobo, vendendo a imagem do babaca inocente, útil e bonzinho. De outra forma, como é que se pode explicar o enorme espaço dado ao Tiririca pela Rede Globo, para que ele divulgue uma música que conta a história de um filhinho rebelde que resolveu se tornar bonzinho quando a mamãe ameaçou lhe dar umas palmadinhas !? E a Regina Casé, grande atriz, reduzida a uma Jerry Lewis tupiniquim, com carinha bobinha de Brasil legalzinho !? E a turma da Casseta e Planeta, com piadas cuja graça reside na irritação que causa nas pessoas, de tão idiotas que são !?


E a axé-pornô-music nordestina ?! Na verdade cabe aqui um parêntese: eu acredito que essas bandas de axé-pornô-music são mais grupos de teatro-e-dança do que grupos musicais. Até a Madonna - tida como cantora de rock - eu enquadraria nessa classificação. Mas é flagrante a diferença de qualidade entre um e outro ! Enquanto o grupo da Madonna é formado de bailarinos profissionais que apresentam sofisticadas coreografias, o axé-pornô coloca na sua linha de frente deliciosas bailarinas tentando criar arrepiantes coreografias copulográficas, com direito a garrafa, banana, microfone e pepino. Será que isso é a “Inteligência Sexual”?...

Eu também acho a Carla Peres uma delícia ! No entanto, fico aborrecido - mas compreensivo - quando ela faz carinha inocente de menininha comportadinha para dedicar seu rebolado “às criancinhas”... Mas o que me irrita mesmo é ver o André Midani voltar dos Estados Unidos semanas atrás e decretar a “Morte do Rock’n’Roll, derrotado pela música dos negões”. Ele diz que no mundo inteiro ninguém aguenta mais a música de 3 acordes com baixo, guitarra e bateria... Ora, ele se esquece de que nunca existiu nenhuma divisão radical entre a música negra e o Rock’n’Roll. Mas o que ele também não percebe é que o que o Rock acrescentou à música negra está sendo perdido agora, nessa degeneração que aí está fazendo o “maior sucesso”. É claro que isso vende, e vende muito. Mas será que vale alguma coisa além do lucro empresarial ?! Será que o Rock’n’Roll pode ser considerado substituído por isso ? Será que Ronaldinho, o maior jogador do mundo atualmente, pode ser considerado maior do que Pelé ? Algum idiota no mundo se precipitaria a falar uma bobagem dessas, mesmo com o Pelé aposentado? Pois é mais ou menos o que o Midani fez, com o rock ainda em campo !...


Não existe nada mais “emocional” do que a música. Não se pode inventar a “Inteligência Emocional” sem criar junto a “Inteligência Musical”. E esta nova onda de burrice geral que paira sobre o planeta, parece querer levar a reboque a inteligência musical que existe em sólidas e eruditas vertentes como o Rock’n’Roll. Os velhos patrulheiros dos bons costumes aí estão, tentando mais uma vez diminuir, neutralizar e destruir a INDEPENDÊNCIA, a REBELDIA e a IRREVERÊNCIA do rock. Mas se eles tivessem um pouquinho mais de “consciência emocional”, talvez pudessem perceber que essas crackoisas que os tornam eufóricos, são apenas flashbacks dos velhos truques apelativos da falta de criatividade e tesão naturais.


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